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Guilherme de Melo

 

Guilherme José de Melo, nasceu a 20 de Janeiro de 1931 em Lourenço Marques.


Em 1952 ingressou no jornal 'Notícias' (sediado em Lourenço Marques), ali iniciando a sua carreira de jornalista.


Em Outubro de 1974, em consequência do 'Acordo de Lusaca' e dos graves tumultos ocorridos na capital da Província Ultramarina Portuguesa de Moçambique, exilou-se em Lisboa e passou a colaborar no 'Diário de Notícias'.


Em 1985 publicou "Moçambique Dez Anos Depois: Reportagem".
 

Faleceu em Lisboa no dia 29 de Junho de 2013.

 

O livro:

"Moçambique, Norte - Guerra e Paz"

 

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título: "Moçambique, Norte - Guerra e Paz (Reportagem)"
autor: Guilherme de Melo

editor: Minerva Central
1ªed. Lourenço Marques, Jan1969
272 págs (ilustrado)
22x16 cm

Neste livro, o autor dedicou um capítulo aos feitos heróicos do Comandante Francisco Daniel Roxo e suas Milícias de Vila Cabral.

Excerto:

 

28. O TERROR DOS TURRAS (páginas 185 a 195)

 

Há em todas as guerras, em todas as lutas e campanhas, daquelas figuras que, irrompendo da vulgaridade, de repente se agigantam e transformam naquele misto de realidade e fantasia com que depois se haverão de perpetuar, de geração em geração, entre as páginas da História e as brumas da Lenda.

 

Francisco Roxo é um desses homens, uma dessas figuras que, sem sombra de dúvida, ficará para os vindouros nesta nossa terra, dentro da linha que dos grandes capitães de outrora se continuou até Mouzinho, se alongou a Neutel, herói da Macuana, e neste mesmo momento se está prolongando aqui, em pleno Niassa, na figura estranha e na saga espantosa deste dez-reis de gente que me olha de profundos olhos de um azul metálico, de pupilas apertadas como duas cabeças de alfinete.

 

A fama dos seus feitos acompanhava-me já desde que lá, em Lourenço Marques, entrara para o avião que me traria ao Norte. «Ai você vai lá acima escrever umas coisas sobre o terrorismo? Então não deixe de ouvir o Roxo...» Dele me continuaram falando, por onde passei. Autoridades, civis, agentes. «O Roxo fez... O Roxo disse...» E de repente, o Roxo aqui está, na minha frente — um homem magro e seco, todo nervo, todo vigor, mais baixo que alto, o rosto de faces cavadas, pómulos salientes pela magreza, a fronte larga e riscada por dois ou três sulcos fundos, o cabelo alourado cortado rente, uma pêra mais ou menos aparada encobrindo-lhe o queixo, os lábios finos revelando-me um estranho poder de determinação. Tudo nele é sóbrio, quase austero, sem um gesto a mais, uma fanfarronice idiota, uma palavra deslocada. Há mesmo no seu todo uma estranha timidez, uma quase preocupação de se apagar. E quem na verdade cruzar casualmente com ele na rua, num passeio de cidade, não verá mais que um fulano qualquer, anónimo e banal. E, todavia, está ali o homem que simboliza, em todo este Niassa imenso, o terror dos terroristas.

 

Francisco Daniel Roxo tem 35 anos e é natural de Mogadouro, distrito de Bragança. É o tipo perfeito do transmontano rijo e enxuto, curtido pelos ventos ásperos, os frios agrestes que África substituiria por sois inclementes. Porque aquele homem que veio, aqui para o Niassa, em 1955, fez-se caçador profissional e, com meia dúzia de negros, seus ajudantes, aprendeu a conhecer toda esta imensidão palmo a palmo, a falar as línguas destas gentes, a desvendar, com eles, o segredo de uma pegada, o sussurro de cada folha, o odor de qualquer erva.

 

Foi caçador profissional até 1962. Vinham já então, tocados de longe, os primeiros murmúrios do vendaval que se alevantava. E o Governo da Província, que acabara de criar os Serviços de Acção Psico-Social, ao estendê-los até este Distrito, logo pensou no nome do Roxo para seu colaborador, dado que ninguém melhor do que ele conhecia estas terras e estas gentes. E o Roxo, sempre pronto a servir a sua Pátria e o seu Governo, fez-se elemento da Psico-Social.

 

Em princípios de 1964 as coisas começaram a agravar-se, a Frelimo apresentava-se pronta a passar das palavras aos actos, espantavam-se as Psicos, com todo o seu custoso e espampanante arsenal atirado para a sucata por absolutamente inútil e ineficaz, e Francisco Daniel Roxo passava, por interesse das autoridades, para os Serviços de Centralização e Coordenação de Informações, criado para fazer face à infiltração subversiva, e metia-se de novo pelo mato tão seu conhecido, não já na pista dos elefantes mas na dos agentes de subversão. E, então, os primeiros ataques eclodiram: o Niassa, imenso e praticamente desguarnecido, era campo aberto aos bandos de terroristas.

 

— Preciso que me forneçam uns tantos homens, para formar o meu grupo de contra-guerrilhas! — disse apenas aquele homem.

 

Deram-lhe a verba necessária — milagre dos milagres! — e o Roxo recrutou-os à sua inteira vontade: antigos caçadores e pisteiros que com ele haviam lidado outrora, alguns soldados nativos passados à reserva e com prática de manejo de armas... Dezassete, ao todo, que para mais não chegou o dinheiro. Assim nasceu o primeiro grupo de intervenção armada do Niassa que se lançou ao encontro do perigo, atacando aqui, organizando emboscadas acolá, detectando acam­pamentos mais além, raptando informadores adiante, causando, de pronto, as primeiras grandes perturbações em todo o plano admi­ravelmente urdido e posto em prática.

 

Quatro anos volvidos sobre a eclosão aberta do terrorismo em Moçambique, o grupo do Roxo totaliza trinta homens e constitui como que o «grupo de comandos autónomos», dentro de todo o quadro de milícias já organizado.

 

Com esses trinta homens — que nunca foram feridos, sequer — Francisco Daniel Roxo tem percorrido todo o Niassa de lés-a-lés, do Lago ao Catur, do extremo Norte aos limites opostos. Conhece, como nenhum outro, as suas serras, os seus vales, as suas matas e os seus rios. Nenhuma pista constitui segredo para ele, nenhuma gruta ou caverna refúgio ignorado. Como uma sombra, surge com os seus homens em pleno acampamento de terroristas, em ataques de surpresa que os desbaratam em fuga desordenada. E como um avejão sinistro, despenha-se do alto das árvores, em emboscadas que os lançam por terra, em pura estupefacção. Em operações relâmpago, tem apreendido montes de armamento, de munições, de explosivos. E não há mina, por mais disfarçada que esteja, que o seu olho de lince não assinale ou os seus dedos não tateiem a tempo.

 

E é levando-o, a ele e aos seus homens em si enquadrados, que muitas das grandes operações militares desenroladas pelo Niassa em fora se têm efectuado com absoluto êxito, e é em coordenação com os seus movimentos em terra que grandes raides da aviação se têm verificado, na destruição de acampamentos e concentrações inimigas. E é ainda sob o simples terror da sua presença, que populações inteiras, de apoio aos terroristas, os têm denunciado em seus abrigos, seguindo-o depois, em massa, pelos caminhos do mato, a entregarem-se às autoridades para constituírem novos aldeamentos controlados pelo governo.

 

Num pasmo, num espanto, num assombro que se repercute de povoação em povoação, a legenda da sua invencibilidade varre de lés-a-lés as terras do planalto, faz com que avisos surjam nas curvas de qualquer trilho, postos pelos terroristas aos próprios companheiros de armas: «Cuidado. É preciso fugirem depressa que vem aí o Roxo».

 

Leio cartas que me mostram, depositadas em pleno mato, e que lhe são endereçadas. Umas insultando-o, chamando-o de «diabo branco», pedindo para ele a maldição dos deuses, ameaçando-o de que, se não se afastar do Massa, morrerá porque já foram feitos todos os feitiços conhecidos contra ele; outras de gente raptada pelos terroristas, mantida sob coacção em acampamentos para execução de serviços de apoio, arranjo da machamba, das palhotas, de tudo, em suma, sobre que tem de assentar a sobrevivência do guerrilheiro, e a pedirem-lhe que os vá libertar, fornecendo-lhe indicações sobre a localização do acampamento, numa prova espantosa da confiança ilimitada que têm na sua intervenção. E é assim que centenas e centenas de homens e, sobretudo, de mulheres e crianças, têm sido libertos, recuperados e conduzidos aos aldeamentos protegidos pelas milícias.

 

Há três anos e meio que esta saga assombrosa de um homem com um punhado de auxiliares está sendo vivida pelas florestas e ravinas do Niassa, palmo a palmo, infatigavelmente. 

 

— Ando sempre a pé com os meus rapazes — explica-me, com o mesmo ar natural e simples como que me comunicaria que bebe sempre cerveja em vez de uísque, porque gosta mais de cerveja que de uísque — Sou contra as deslocações em viaturas: perde-se muito tempo, sabe?

 

Quando em campanha, enverga a sua farda camuflada. Os seus rapazes — como os trata — vestem uns macacões de ganga. E só de serem avistados à distância, ele à frente, os trinta homens de «Mauser» em punho, é o «salve-se quem puder». 

 

Há ordens taxativas da Frelimo para o apanharem vivo. Foi o próprio Mondlane quem o determinou. Sabem-no chefes, sabem-no informadores e guerrilheiros, sabem-no populações. «Que mo tragam vivo!»— foi a sua ordem. Mas quem, com a coragem necessária para lhe tocar com um só dedo sequer?! 

 

Na tarde em que o conheço e com ele ando, uma tarde de domingo, chuvoso e cor de cinza, de Março de 1967, o Roxo está em descanso em Vila Cabral, com os seus homens. Haviam chegado, ainda na véspera, de uma operação de uns poucos de dias para os lados da Serra Mecula. Daí a dois ou três dias partirá para outro lado. «Tenho sempre encomendas à espera, logo que chego aqui!»— comenta.

 

Fuma pouco e quase não bebe. Nem álcool nem sequer café. «É preciso ter-se um perfeito domínio de nervos, nesta vida em que ando, não é?» — diz-me, como quem me pede desculpa.

 

Olho-o. E de repente penso que, ao fim e ao cabo, é um modesto funcionário dos Serviços de Centralização e Coordenação de Informações, como me explicou. Igual a tantos outros que pacatamente estarão, naquele mesmo momento, matraqueando as suas queridíssimas máquinas-de-partir-ofícios, sem nunca terem visto um «turra», sem jamais terem pegado numa arma, sem...

 

— Ó   Roxo,   afinal   quanto   ganha   você? — pergunto de chofre.

 

Olha-me com aqueles olhos de um azul cinzento, metálicos, quietos. E a sua voz é a mesma voz com que me esteve falando do mato, dos acampamentos, das tropelias do Mandevo, o grande chefe terrorista que ele fez desaparecer do palco da guerra.

 

— Três contos e duzentos...

 

Mas será realmente que haverá preço capaz de pagar tudo isto que este homem espantoso está fazendo pelos seus compatriotas, pela sua Pátria?

 

— Você já alguma vez foi louvado desde que anda nesta luta aberta?... condecorado?

 

Olha-me como se eu estivesse mangando com ele:

 

— Eu...?! — e, pela primeira vez, oiço-o rir.

 

Estamos dentro do seu carro, à saída de Vila Cabral, à entrada da encruzilhada donde irrompem as estradas em direcção ao interior do distrito. À nossa frente, os planaltos alongam-se, num suceder de mesas que se perdem na distância, e que a vegetação cerrada quase enegrece, de tão densa. Nuvens escuras, carregadas de água, avançam lentamente em direcção à cidade, e já relâmpagos riscam a lonjura do horizonte, o ribombo do trovão a perder-se, em ecos cavos e soturnos, de ravina em ravina.

De repente, o Roxo liga o motor e fita-me, absolutamente calmo e natural: 

 

— Enquanto andei lá por fora, os tipos vieram até estes lados e houve um ataque a uma cantina perto de um dos nossos aldeamentos. Ainda lá não fui desde que cheguei. Você importa-se?

 

Troco um brevíssimo, quase imperceptível olhar com o meu colega de jornada, agarrado à máquina fotográfica no banco detrás. Que seja o que Deus quiser, pronto!

 

Vamos. A cidade, defendida, e patrulhada, desaparece já na distância, e a estrada por onde avançamos, cada vez mais para o interior, é um chavascal de lama onde o carro se atasca a todo o momento, derrapa e rabeja.

 

— Ninguém passa por aqui, da cidade ou para a cidade, sem ser em coluna — esclarece-nos o Roxo — Mas hoje é domingo e a esta hora eles devem estar a descansar...

 

Olho o relógio, instintivamente: um quarto para as quatro — uma hora em que me parece já muito pouco provável que alguém que se preze esteja ainda a dormir a sesta.

 

Do relógio, os olhos passeiam-me  subrepticiamente  pelo carro:

 

— Você traz alguma arma? — pergunto, com o ar mais displicente deste mundo.

 

— Oh! Para quê? — e encolhe os ombros — Nem estou em serviço, bem vê...

 

Bom: lá ver, vejo; e «eles» também estarão a ver? — é o que de mim para mim penso. E sinto, nas minhas costas, as fungadelas frenéticas do Carlos Alberto, tão minhas conhecidas de quinze anos de convívio diário e características de quando atinge o auge do nervosismo.

 

Avançamos por uns bem puxados três quartos de hora em que perco à vontade três quartos da minha vida. Nós; um carro ziguezagueando sobre pastas de lama; um céu prestes a desfazer-se em água; desolação e silêncio até onde os olhos e os ouvidos nos chegam e, para lá do capinzal e dos emaranhados de árvores e bananeiras que bordejam a picada, terroristas perto ou longe, tal como Deus Nosso Senhor o entenda. E três homens de mãos nuas — as de um segurando um volante ; as de outro uma máquina fotográfica, e as do terceiro um bloco de apontamentos. — Enquanto andei lá por fora, os tipos vieram até estes lados e houve um ataque a uma cantina perto de um dos nossos aldeamentos. Ainda lá não fui desde que cheguei. Você importa-se?

Troco um brevíssimo, quase imperceptível olhar com o meu co­lega de jornada, agarrado à máquina fotográfica no banco detrás. Que seja o que Deus quiser, pronto!

 

Vamos. A cidade, defendida, e patrulhada, desaparece já na dis­tância, e a estrada por onde avançamos, cada vez mais para o inte­rior, é um chavascal de lama onde o carro se atasca a todo o momento, derrapa e rabeja.

 

— Ninguém passa por aqui, da cidade ou para a cidade, sem ser em coluna — esclarece-nos o Roxo — Mas hoje é domingo e a esta hora eles devem estar a descansar...

 

Chegamos enfim. O aldeamento — mais de duas centenas de palhotas, um largo trato de terreno plantado de milho e mandioca —  estende-se junto à picada, à nossa esquerda; à direita fica a cantina atacada há uma semana apenas. Olhamos, na porta, os furos deixados pelas rajadas de metralhadora. Mas as paredes estão já reparadas com um reboco apressado, caiadas todas de novo. A cobertura de zinco foi substituída, em parte — mas as chapas que resistiram e ainda lá estão, mostram-nos o dorso negro, do lume da bazucada que, sobre o teto, de longe os terroristas lançaram. Foi de noite e o casal dormia: ele morreu logo, sob os escombros da parte do telhado que ruiu; ela, atingida por alguns dos tiros disparados de fora, através da porta, está no hospital de Vila Cabral, entre a vida e a morte.  

 

O aldeamento tem agora um grupo de milícias a guardá-lo. Dez rapazes, nativos, sob o comando de um guarda da Polícia de Segurança Pública, instalado na cantina que reparou como pôde. 

 

Chegou há apenas quatro dias, vindo de Olivença, lá mais para cima. Ali está, com os dez homens das milícias, montando guarda.

 

— Da aldeia vieram-nos dizer ontem que eles tinham mandado recado para que esta gente toda se fosse embora porque iam atacar outra vez e com muitos homens, para matarem os da milícia e darem cabo de mim... — conta-nos — A noite passada não dormi, a montar guarda sempre com um dos rapazes comigo...

 

Vejo-lhe a metralhadora sobre a cama, bem ao alcance da mão. E sobre o telhado da casa, ergueu uma espécie de torre de vigia, para onde se sobe por uma escada feita de troncos toscos.

 

Ficamos ali um bocado conversando com ele, Francisco Roxo dando-lhe uma série de conselhos, assentando em determinada tática defensiva. O guarda é um moço alto e simpático, um bigode ligeiro no rosto moreno. E noto-lhe, no anelar esquerdo, uma aliança de ouro.

 

— Bem,   vamo-nos   chegando...—decide  Francisco   Roxo.

 

Despedimo-nos daquele rapaz perdido ali com dez homens, na imensidão do mato, protegendo aquelas duzentas e tantas pessoas reunidas no aldeamento — e uma vontade doida de o estreitar de encontro ao meu peito, de lhe gritar aquilo tudo que me turbilhona na alma, no coração, me rasga de repente por dentro. Mas aperto-lhe unicamente a mão. Serenamente, com a naturalidade com que aí, em Lourenço Marques, me despeço de alguém que sei que vou ver  já no dia seguinte. E um palavrão que não chego a soltar sobe-me aos lábios como uma golfada de fel.

 

— Como é que você se chama? — pergunto-lhe.

 

— Adriano. Adriano Gonçalves Fino...

 

— Quer alguma coisa para Lourenço Marques? Tem lá família?

 

— Tenho: o meu tio. Chama-se António Simões e é guarda da Polícia do porto. Diga-lhe... diga-lhe que eu estou bem e lhe mando um abraço!

 

E sorri-me, de olhos estranhamente brilhantes.

 

— Sim, digo, esteja descansado!

 

— Obrigado, sim?

 

Faço meia volta, entro no carro, aceno-lhe ainda, num adeus sem palavras — e o Roxo arranca. 

 

É este o meu primeiro contacto com esse homem extraordinário que se chama Francisco Daniel Roxo e que um ano mais tarde, quando da minha segunda jornada pela frente de combate voltaria a encontrar para que, a partir de então, uma sólida e estreita amizade entre nós se gerasse.

 

Entretanto, e quando as cerimónias do 10 de Junho de 1968 se aproximavam, Lourenço Marques era agitada pela notícia de que o famoso comandante das milícias do Niassa ia ser condecorado e, porque teria, evidentemente, de deslocar-se à capital — que não visitava há perto de quinze anos — a curiosidade popular da gente lourençomarquina iria ser enfim satisfeita. Mas, tão célere quanto a primeira, logo depois outra circulava: já não viria, pois encontrava-se hospitalizado em Vila Cabral, ferido numa perna. 

 

E, ao mesmo tempo que, aí por Lourenço Marques, a coisa era conhecida e falada, em Dar-es-Salaam a notícia era transformada em estandarte de festa, com ela especulando os dirigentes da Frelimo  para, como aliás em tudo é seu hábito, à sua volta tecerem prontamente uma espantosa teia de mentiras. E, maior que todas, naturalmente, a de transformarem um naturalíssimo ferimento próprio de quem anda em campanha numa morte.

 

«O Roxo morreu»— anunciava a sede do partido que se propôs «libertar» Moçambique, em Dar-es-Salaam. — «Ferido pelos valorosos militares da Frelimo numa operação, os verdadeiros responsáveis pela morte do Roxo foram os colonialistas de Moçambique que nem souberam salvá-lo pois, pedido auxílio à tropa portuguesa, esse auxílio não foi prestado, acabando o Roxo por morrer à falta de socorros, abandonado à sua sorte».

 

Estes os termos em que a notícia foi dada, transmitida em todas as emissoras clandestinas e não clandestinas — o Roxo odiado e temido transformado habilmente em mártir aos olhos dos que ele próprio combatia, numa insidiosa campanha que outro objectivo não tinha senão o de dar a entender que não havia coesão na defesa portuguesa, que tropa e milícias se não entendiam e que se aquilo acontecia a um homem como o Roxo, o que não seria com qualquer anónimo milícia ferido ou soldado atingido...

 

Entretanto Francisco Daniel Roxo era transportado pelos seus homens para a povoação mais próxima, pedia-se a sua evacuação pela tropa, eram-lhe prestados os necessários socorros, conduzido para Vila Cabral, hospitalizado, tratado — e, rijo como um pêro, risonho e sempre activo, aqui o venho encontrar com o seu fiel Estêvão mais os seus homens, batendo como sempre os caminhos do mato que conhece como a palma da sua mão desde os velhos tempos de caçador profissional, detectando acampamentos, atacando outros, capturando armas e colaborando com o Exército sempre que nisso se reconhece vantagem, como ainda ultimamente, aquando do famoso ataque à base de Mepoche que redundaria na maior captura de material bélico até hoje verificada ao longo da luta que há quatro anos se trava no Norte.

 

Encontro-me com ele quando nos dirigimos à Cantina Dias, na região do Unango. Vamos em coluna militar, por terra, e o Roxo, acompanhado pelos seus homens, adere à escolta que nos acompanha. 

 

Cantina Dias colhe o nome incrível e curiosíssimo, creio que único em todo o Moçambique, de um bom velhote, hoje vivendo calmamente na sua terra, na Metrópole, e que há longos anos se fixou a umas dezenas de quilómetros para o interior de Vila Cabral. Era o Dias e a sua cantina o único marco vivo na área. E o local passou a designar-se por isso mesmo: a Cantina Dias.

 

Os anos rolaram, o Dias da cantina envelheceu, encheu-se de achaques, com o dinheiro ganho no negócio fez um bom prédio de rendimento no coração de Vila Cabral e hoje vive na Metrópole, com o prédio na capital do distrito alugado, no rés-do-chão funcionando o maior café da cidade, o famoso «Planalto», ponto de reunião de todos os tropas a partir do anoitecer até ao encerrar das suas portas.

 

Hoje, Cantina Dias é, pela sua posição admirável, um dos aldeamentos novos de maior interesse e projecção de todo o distrito do Niassa. Montes à volta, um vale amplo e ubérrimo onde tudo se dá e multiplica, ali se têm concentrado centenas e centenas de nativos que o terrorismo levara para longe, afugentara para o mato, empurrara para além fronteira, existindo hoje já no aldeamento para cima de sete mil almas e estando previsto o seu desdobramento em mais outros dois aldeamentos relativamente próximos.

 

Junto fica a Missão de Santo António do Unango, que, fundada em 1931, tem levado a efeito ao longo dos anos uma notável obra de evangelização e educação dos nativos, obra que, não obstante os tempos difíceis que se atravessam, tem sabido manter inalterável.

 

Porque a terra é fértil e servida por uma série de montes que por si sós constituem apetecíveis redutos defensivos e de refúgio, desde a eclosão do terrorismo no Niassa que toda aquela zona da Cantina Dias e Unango tem sido das mais procuradas pêlos bandos que se infiltraram aquém-fronteira.

 

Percorro o enorme aldeamento, visito a Missão, demoro-me depois pelo aquartelamento militar ali fixado e troco impressões com o Comandante da Companhia e outros oficiais precisamente na pequena construção restaurada e aproveitada pela tropa e que um dia foi a autêntica cantina do velho Dias.

 

Almoço no posto administrativo, junto ao aldeamento nativo que de longe, do cimo dos cabeços que barram o horizonte, os últimos  turras por lá refugiados vigiam dia e noite, numa cobiça impotente, olhos postos na vida tranquila que pelo vale se processa, as «machambas» reverdescendo, o gado pastando, as crianças passando para a escola, os homens cuidando dos seus afazeres, as mulheres pilando o milho e, quando a noite desce, escutando o sons dos seus batuques alegres e que assim sobem, do vale, num espiralar de tentação, para as al­turas onde vivem acossados.

 

É aí, na Cantina Dias, que o Roxo me conta do seu ferimento, numa operação na Jeci, quando procurava atacar a base terrorista do Cassero. Foi numa coxa e, não fora a perda de sangue e o natural receio de ter sido atingida a femural, e não teria consentido que os seus homens o evacuassem.

 

E comenta, rindo, o frenesim de Dar-es-Salaam, o estendal de mentiras logo habilmente engendradas e postas a circular, a sensação curiosa que sentiu quando ele próprio, já absolutamente refeito da perda de sangue, ainda que com a perna naturalmente imobilizada, escutou pela rádio, transmitida de Dar-es-Salaam, a notícia da sua morte devido «ao desleixo da tropa e à indiferença dos colonialistas portugueses que não estiveram para lhe prestar os socorros pedidos».

 

 

Índice
- 24 de Agosto de 1964
- A verdade sobre 'um movimento' e o seu 'líder'
- O vento não tem fronteiras
- A contra-ofensiva zambeziana
- Os embaixadores da traição
- Quando o racismo se divide em sub-racismos
- Muabanama, a aldeia padrão
- Os Bravos da Zambézia
- A religião e o respeito ancestral, as grandes armas com que se jogou em Cabo Delgado
- Eu estive dentro da Fortaleza do Ibo
- A jura sinistra
- Entrega-se às autoridades o secretário provincial do efectivo militar da Frelimo
- Em pleno mato a dramática entrega de oito terroristas
- O baluarte de Messalo
- No coração do Planalto Maconde
- Os espantosos dançarinos do Quissengue
- A noite à beira do Rovuma
- A ocupação da terra em Balama pelo colono-soldado
- O espectacular falhanço da infiltração inimiga em Montepuez
- As primeiras infiltrações em Tete
- Junto à fronteira da Zâmbia
- A grande luta dos partidos
- A capital do Planalto
- Teve a colaboração do chefe distrital da Frelimo, a maior operação de captura de material bélico efectuada no Niassa
- A deserção em massa do estado maior do Unango
- Sob a lona de uma tenda à luz do 'petromax'
- Quarenta anos de trabalho florescem no meio do mato
- O terror dos 'turras': Francisco Daniel Roxo
- Uma mentira a papel químico
- Os Comandos atacam ao amanhecer (4ª Companhia 'Os Gatos')
- É em Olivença que os heróis se forjam
- Na grande zona de intervenção do Lugenda
- A base à beira do Lago
- Dois dias no mato com os Fuzileiros Especiais
- O inferno de Chala
- Na fase final a linha férrea para Vila Cabral
- "Irmão: até carne de corvo já comi..."
- Destroços à deriva
- O Norte fica em frente
- Por quem as cruzes alvejam...
 

 

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