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Albano Sousa

 

Albano Francisco de Sousa, nasceu a 13Nov1950 na Maia.


Em 05Out71, após haver sido seleccionado para servir nas tropas 'comando', apresentou-se no CIOE-Lamego.


Em 28Out71 seguiu com outros militares, em Boeing-707 dos TAM, do AB1-Figo Maduro para a BA9-Luanda.


Em 16Nov71 iniciou no CIC/RMA o 23º Curso de Comandos, concluído em 07Mar72 com aproveitamento.


Classificado entre os cinco melhores furriéis milicianos de infantaria 'comando' daquele curso, foi escolhido para integrar o corpo de instrutores do curso seguinte, iniciado em Mai72. No entanto, decorridos cerca de dois meses, a seu pedido veio a ser transferido para a ZML e integrado no 4º Grupo de Combate da 37ªCCmds, participando em operações 'comando' até Dez73, momento em que regressou ao CIC-Luanda e onde se manteve até regressar à Metrópole em 30Mar74.

 

O livro:
 

"Chão de Sangue - Contributos para a História da 37ª Companhia de Comandos"

 

título: "Chão de Sangue - Contributos para a História da 37ª Companhia de Comandos"
autor: Albano Sousa


editor: (o Autor)
1ªed. Maia, 02Fev2016
256 págs
23x16 cm
dep.leg: PT-404784/16
pvp: 15 € (inclui portes)

* aquisição (contactos do autor):
– mailbox <albanosousa1@gmail.com>
– tlm 966 356 974

 

– Excerto:
- «Prova de fogo.


Uma bela manhã aconteceu ter chegado a hora de nova prestação para provar as nossas capacidades. Tratava-se da realização da prova-rainha, a tão temida prova de fogo. O ar tornara-se irrespirável (o calor era abrasador), pois portava no seu seio uma adrenalina desconhecida que a todos inquietava. Logo de manhãzinha, foram-nos distribuídos três modelos com as indicações que, abaixo, relato com total fidelidade:


"Irão ser sujeitos a tiro real…


O perigo de acidente é grande na medida em que o vosso comportamento se afasta das normas que deve orientar o combatente numa situação real…


Se fizer fogo sobre um obstáculo a velocidade da sua transposição é que fornecerá a segurança necessária…" (Mod.7042/AP)


De seguida, foi-nos distribuído o seguinte modelo:


"A progressão para o objectivo deve ser rápida, atenta e de acordo com as instruções que vos foram dadas. Alguns locais, sabe-se, estão armadilhados…


Qualquer desvio do percurso pode ter consequências imprevisíveis…" (Mod.7043/AP)


E por fim, ainda outro documento, onde se lia:


"Em caso de acidente, o primeiro instruendo, que passar pelo local do sinistro, deverá continuar o percurso progredindo até ao último controle o mais rapidamente, a fim de prevenir a organização para recolha e assistência necessária, no fim do que continuará a prova. Em caso algum deverão abandonar a prova, ou o itinerário marcado, pois isso representa em alguns locais um perigo ainda maior." (Mod.7044/AP).


Tanta informação distribuída era, muito provavelmente, o prenúncio de uma boa salgalhada (à moda dos comandos, em que a imprevisibilidade e o desconcertante eram marca registada da casa... ). Por certo, a máxima dos comandos – "sangue, suor e lágrimas", iria ter aplicação prática no corpo e na mente de todos nós.


Iria começar uma das etapas mais duras da minha vida. Teria de ser capaz de levar a cruz ao calvário.


Tinha confiança que o faria, pois o sorriso, o agora meu sorriso, sereno e confiante, estava ali comigo, dando-me força para vencer tudo e todos, e ser comando.


E parti. Rápido, concentrado e alerta, já que o perigo espreitava por todo o lado, e não podia facilitar e cometer erros de observação e de atuação. A prova era terrível, era difícil, e composta por variados e exigentes obstáculos a vencer. Começava com uma subida à corda, que nos elevava do solo. Lá no alto, teríamos prolongado rapel para vencer, começando as balas a silvarem à minha volta, e granadas a rebentarem no chão. De seguida, tínhamos de vencer o percurso de uma clareira, onde éramos brindados com rajadas de metralhadora e de armas automáticas G3, que feriam a terra à nossa frente, de lado e por trás. Para complicar mais as coisas, viam-se e ouviam-se granadas a rebentarem, por todo o lado. Era um inferno que tinha descido à terra da valentia. Nós íamos sempre em corrida constante, pois não poderíamos parar, para não sermos feridos. Alguns instruendos foram-no por não cumprirem as regras ensinadas até à exaustão. Eu, assustado mas determinado, corria, corria e gritava de encontro ao inimigo (que não se via, pois estava disfarçado na vegetação e nos abrigos, propositadamente elaborados para o efeito…) em ritmo inalterável e sem parar. Aquela clareira parecia do tamanho da volta à terra, pois nunca mais acabava… Depois, na saída de uma curva, apareceu um grupo de comandos tentando tirar-me a arma e agredindo-me a soco e a pontapé. Fugi dali como pude, distribuindo coronhadas por todo o lado. Durante o percurso, vi companheiros desorientados, que choravam copiosamente, ou feridos que não se podiam mexer. Foi horrível de ser vivida aquela prova de fogo. Mas não tinha terminado, o pior momento ainda estava para se deparar à minha frente; depois de ter atirado para diferentes alvos (fixos e móveis), em diferentes posições (de pé, deitado, tiro apoiado e tiro instintivo), o pior estava para vir, e veio lesto e impiedoso, já que, ao sair em rápida corrida, duma curva, surge ali a maldita da vala, o pesadelo jamais pensado, tal era a dificuldade de se fazer a sua transição. Era, até então, o obstáculo mais difícil de ultrapassar, dado que elementos do corpo de instrução nos obrigavam a rastejar de costas, com arame farpado por cima de nós, que nos rasgava o camuflado e a carne, pois estava armado perto da superfície daquela mistura horrível e malcheirosa. Conforme íamos progredindo, rastejando de costas, perguntavam-nos: queres ser comando? Eu, prontamente, dizia que sim – quero ser comando! Perante uma resposta, positiva, ou negativa, éramos contemplados com uma pazada de lodo (uma mistura de água, gasóleo, terra, carne putrefacta e ossos variados – suponho que humanos…), que nos entrava pela boca e nos impedia de respirar (e pensei que morreria, ali, asfixiado, tal era a asfixia, por não conseguir respirar); para complicar ainda mais, tínhamos os olhos a arder terrivelmente, devido ao gasóleo que haviam misturado naquela mistela, e que não nos permitia ver absolutamente nada! Mas acabou, aquele martírio, como tudo tem de acabar, no fim. Estava vivo e inteiro, embora tivesse partes do corpo rasgadas pelo arame farpado. E continuava aquela prova imaginada para super-homens! Muitos, os mais frágeis, ou lesionados, choravam, errando por ali perdidos de si, por terem perdido a batalha contra aquela desumana dureza, que não puderam, ou não souberam, vencer. Tentando limpar os olhos com as mangas do casaco camuflado, pois não via nada e tinha novo obstáculo para vencer, fui correndo, sem saber para onde devia ir, apenas as vozes dos instrutores, que me insultavam, me forneciam pistas para onde devia encaminhar-me; pouco depois, deram-me um cantil com água para esfregar os olhos, o que me aliviou as dores e me possibilitou um pouco de visibilidade do percurso que faltava percorrer.


Foi, seguramente, para todos os instruendos, o obstáculo mais difícil de transpor. Foi terrível. Então, pensei que morreria… Mas tudo corria muito rápido, o tempo para pensar parou, e fora de mim, corria e gritava – quero ser comando! Não era eu que ali estava, era um gigante que se avolumava para poder, de novo, mirar, com orgulho, o novo olhar que, lá longe, me sorria e dava força para correr. E como corria, veloz, eu! Seguia as instruções que eram dadas pelos instrutores, e corria, corria sem parar, pois queria sair dali rapidamente. E fui voando, ultrapassando companheiros que tinham partido antes de mim. Decerto, estava tomado de uma força imensa (que sabia possuir…), que me tornava imparável. Nada sabia, nem sequer o meu nome, apenas gritava que queria ser comando. Agora sei que todas as minhas reações eram puramente instintivas e de sobrevivência… Mas não estava completa, ainda, a prestação das minhas capacidades físicas e mentais, porque teria de atravessar, ainda, uma vala cuja passagem era feita em cima de um toro ensebado, e que fora untado, para criar maiores dificuldades ao instruendo. Era escorregadia aquela improvisada ponte de madeira, e muitos escorregaram, e tinham de recomeçar a sua passagem. Aqui deve ser lembrado que o nosso equilíbrio não era o normal, devido ao cansaço, físico e mental, de que estávamos tomados.


Mas ainda havia mais. Após ter passado o endiabrado e ensebado toro de madeira, sempre em passo de corrida, logo surgia novo obstáculo, nova dificuldade. À nossa espera, um toro, com um peso aproximado de 20 quilos, que teríamos que transportar, ao ombro, num percurso de um quilómetro. Lembro-me ainda como abanei (as pernas não aguentavam mais, estavam esgotadas e mortas), por todo o lado para carregar aquele tronco que, parecia-me, pesava mais de uma tonelada. Mas lá fui carregando e cambaleando, caindo e levantando-me de imediato; não podia mais, estava no meu limite físico! Mas, como não há dor que sempre dure, chegou, finalmente, o fim!


Atingido o final, fui (fomos todos nós) sujeito aos maiores impropérios (aqui indescritíveis…) por parte de um Capitão que me chamou todos os nomes feios, que conhecia (e eram muitos, acreditem…); eu apenas respondia – quero ser comando! Então, sim, a batalha fora ganha, e nada me demoveu do propósito de ser um futuro comando. A vitória na guerra final estava lá longe, esperando por mim. Eu começava a ficar pronto para assumir a coroa da glória, e, ufano, passeá-la pela baixa da cidade.


Entregaram-me dez litros de água, para tomar banho, mas esta apenas deu para retirar parte da lama, e sangue, agarrada ao camuflado, e beber, beber, até cair para o lado – fiquei ali, não sei por quanto tempo, deitado no capim, esgotado, mas feliz… Depois, já não me lembro como foi, acordei na enfermaria do acampamento, limpo e tratado das feridas que tinha sofrido durante a prova; uma delas, na coxa direita, teve de ser suturada. O pior tinha passado, estávamos no final das duas semanas, que, ali, tínhamos permanecido.


Por ser a mais dura prova, a nível físico e psicológico a que fora submetido, feita através de um percurso com cerca de cinco quilómetros, onde todos os instruendos tiveram de ultrapassar os mais diversos obstáculos, aplicando toda a sua força física e mental, mas, acima de tudo, nunca esquecendo todas as diferentes técnicas que até aquela data lhes haviam sido ministradas. Todos foram submetidos a um vasto rol de diferentes situações, em que tinham de correr, saltar, rastejar (de costas e de ventre), de progredir em técnica de aproximação ao inimigo, correndo em ziguezague, não esquecendo as cambalhotas e a transposição dos obstáculos com as técnicas mais apropriadas que lhes ensinaram.


Enquanto faziam o percurso, eram surpreendidos com disparos vários, assim como explosão de granadas, não sabendo nunca quando e de onde os mesmos eram efetuados, obrigando-os a reagir sempre da forma mais adequada, visto o corpo de instrução estar no local para o observar e avaliar todas as suas aptidões, e formas de reação. O seu futuro dependeria, no imediato, da avaliação que lhe era feita.


Ali fui gigante. Quando as situações me pareciam insuperáveis, logo o olhar em que nadava me sorria em amizade; dele brotava uma imensa e desconhecida força que me agigantava e me levava a ultrapassar todos os obstáculos que me apareciam pela frente. Não estava só ali, tinha comigo a crença de ser comando, para que a bonita rapariga se orgulhasse de mim. Eu tinha uma razão acrescida para lutar. E lutei como um leão. O facto de ser descomandado e irreverente, por isso muito conhecido, levava os instrutores a serem mais duros comigo. Fizeram-me a vida negra, durante aqueles cinco quilómetros de morte, de medos e de superações. Mas venci todas as dores, todos os cansaços, todas as armadilhas espalhadas ao longo do percurso. Em suma, venci e cheguei vivo ao final. Eu sabia que não podia esperar que um qualquer Cireneu me ajudasse a levar a minha cruz ao calvário da chegada. Estava ali sozinho e teria que valer por dois, e vali!


Era perigosa esta prova, pois foram muitos os feridos (com maior ou menor gravidade). Houve tiros nas pernas, dilacerações variadas, fraturas, deslocamento de membros, ossos partidos, tudo isso aconteceu no seu percurso de morte. Trazidos pela memória viva do soldado comando Paulo Ferreira, descreverei o nome de dois instruendos (que eram seus amigos e muito próximos) que, no salto em profundidade (feito de altura considerável), partiram as pernas. Um chamava-se o Gaito, o outro era o instruendo Runa. Morrera ali o sonho daqueles valorosos rapazes de serem comandos. E haviam lutado tanto para o serem! Partiram para longe, foram fazer outro caminho – o seu! Foi pena, mas aconteceu assim!


Frágil olhar, morto voar…

A insónia acordada não deixa
A noite ser perfeita.
É frágil o meu olhar acordado
Na escuridão.
Invento-te no meu desassossego,
Por fora da viagem que não faço.
Estou aqui deitado e não sonho!
O corpo triste e calejado pelos
Nãos da tua mão mantém intacto
O fogo que se ateia no escuro.
Vou partir…
Caminharei longe de mim,
Ferido pelos fragmentos dos vidros
Da noite clara, que me dilaceram a
Alma em desalinho.
E eu aqui tão só – tão ferido!
Ao longe escuto os pássaros que não
Chilreiam…
Choram silenciosos trinados
Trazidos pela partida do sol – está
Cindido o seu sentir, com a alma
Abraçada pelo frio do silêncio.
– Fenecem lentamente, pois não mais voam.
Caem na terra apagada,
Que os cobre de vergonha e cala.
Não mais farão a viagem,
Jamais baterão as asas
Agora desnudadas cujas penas
Se partiram levadas pela fúria do vento
Calado aqui.
Ferido, não te leio na noite,
O dia, esse, não acorda – tem vergonha!
Eu durmo acordado pelo sonho da manhã!


Regressámos ao CIC (o nosso poiso diário). Aí chegados, aconteceu mais uma vez o cerimonial temido por todos nós: vários instruendos (cerca de 20%) foram eliminados do curso de comandos. Através de um ritual que a todos horrorizava, pois o instruendo eliminado ouvia a frase "não és digno de ser comando…", as mais temidas das palavras, que não queríamos ouvir, eram aquelas. E lá partiram para longe de nós, para sempre destruído o sonho de serem comandos. Foi assim que aconteceu, a sorte, certamente por se ter distraído, não protegeu todos aqueles rapazes audazes.»
 

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