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Carlos Gueifão

 

José Carlos da Silva Gueifão: nasceu em 01Fev1937, na freguesia-sede concelhia de Mação; mãe doméstica, pai alfaiate.


Estuda no colégio maçaense Dom Pedro V até ao 2º ciclo liceal e depois em Lisboa no Liceu Camões, onde conclui o 7º ano (alínea f).


- em 15Out1956 ingressa na Escola do Exército (cadete 63/210), mas apenas frequenta o 1º ano do Curso Geral Preparatório;


- em 25Ago1961 alferes miliciano de infantaria, transferido do RI2-Abrantes para o BII18-Ponta Delgada;


- em 01Dez1961 promovido a tenente;


- em 15Mai1962 regressa ao RI2;


- em 03Out1962 transferido para o RI7-Leiria;


- em 05-17Dez1966 frequenta no CIOE-Lamego, o estágio de contra-insurreição para subalternos do QC convocados a E/CPC2;


- em 15Abr1967 promovido a capitão miliciano, embarca no 'Vera Cruz' como comandante da CCac1677/BCac1909-RI2, para reforço da guarnição normal da RMA;


- em 21Jun1969 regressa de Angola à Metrópole.

 

O livro:

 

«Mata-Couros ou as 'Guerras' do Capitão Agostinho»

 

2.ª edição:

 

 

 

título (2ªed): "As 'Guerras' do Capitão Agostinho"
autor: Carlos Gueifão
 

contacto do autor:
- mailbox <redaccao@vozdaminhaterra.pt>


editor: Âncora
2ªed. Lisboa, Dez2015
176 págs
23x16 cm
pvp: 13 €
ISBN: 972-780-530-3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1.ª edição:

 

título (1ªed): "Mata-Couros, ou As 'Guerras' do Capitão Agostinho"
autor: Carlos Gueifão

editor: Universitária
1ªed. Lisboa, 1998
177 págs
dep.leg: PT-120103/98
ISBN: 972-700-115-7

 

Excerto:
– «Janelas -
Estirou-se preguiçosamente na cadeira, olhou longamente a Praça do Município, através da janela, e entrou decisivamente na sua pausa de reflexão.
Ninguém pode trabalhar ou viver sem janelas, pensou, e logo a palavra janelas se assumiu como tema, e a reflexão, que pretendia livre, ficou condicionada.
Pois é... as janelas são muito, muito importantes. Janelas para a vida, janelas para o passado, janelas para o futuro, janelas para a beleza...
O astronauta em órbita tem as suas janelas – tempo e espaço – de reentrada. Toda e qualquer oportunidade tem as suas janelas próprias. Ignorá-lo é bater na parede. Conhecimentos específicos abrem janelas específicas. Os olhos... as janelas da alma... janelas de Lisboa... um craveiro na janela... Maluda...
Mirando serenamente o pelourinho, lembrou-se do seu velho professor de filosofia: a nossa razão é uma casa sem janelas, e constatou de imediato uma hipotética contradição:
- "Se o Homem não pode viver sem janelas, e se a nossa razão é uma casa sem janelas, como viver? Um casulo, dentro de um casulo?"
Resolveu o problema, creio que bem: temos as janelas da imaginação, da fantasia, do sentir. A razão não é a vida. Ajuda. É imprescindível na função e no papel de cada qual... mas a vida está lá fora.
Estava na sua pausa de reflexão... livre. Melhor: estava na sua pausa de fantasia. Logo, tudo lhe era possível e permitido, até a mais chocante irreflexão ou devaneio. Estava francamente "numa boa". Bebia, bebia literalmente o azul do céu. Um azul muito puro, que se vislumbrava através da prosaica janela para o Município. Adivinhava o Tejo, que se escondia para lá do Arsenal da Marinha, gozava a luz que lhe inundava o gabinete.
Em torno do pelourinho os pombos arrulhavam, namoravam, esvoaçavam, pousavam em velhas senhoras atirando milho.
As gaivotas, que em dia de temporal invadiam a praça e que, qual exército de uniforme branco, se alinhavam no telhado do Arsenal, brilhavam pela ausência. Foram todas para o alto mar.
Alguns dos muitos e desvairados turistas que nos visitam tiravam as inevitáveis fotografias.
Fluía o tempo. Melhor: fluíamos nós... e fluindo, fluindo, os turistas abandonaram a praça.
Uma última e velha senhora continuava lançando milho. Repentinamente, olhou nervosa e vivamente toda a praça e, com agilidade incrível, agarrou um pombo, o qual, num ápice, desapareceu na alcofa.
Era a sua janela para uma saborosa canjinha.
Um frémito de asas gelou a praça, fechou-lhe a janela da fantasia.
- "São horas da janta" – pensou. Vestiu o casaco e saiu.»

Recensão:
– «Um poeta passou pela guerra sem perder a inocência e conseguiu reter as imagens belas da camaradagem e do amor pelo ser humano, ainda que lutasse do outro lado da barricada.
Disfarçado soba penumbra do tempo, vestindo a capa dum imaginário sui generis, traz nos o testemunho duma época que marcou profundamente a maioria dos nossos contemporâneos.
Tempo de guerra mas também de aventura, bem ao jeito da idade que tínhamos na altura dos acontecimentos relatados, conseguiu isolar, com um talento muito peculiar, momentos de evasão característicos dum ambiente que a amizade sempre foi pródiga em criar, principalmente por entre os demónios da batalha.
Ao abrir as janelas do passado, Carlos Gueifão dá nos uma saborosa lição de futuro. A jovialidade dos cinquenta mantém se bem fiel à juventude dos vinte.
Tanto na preparação da partida como nos acontecimentos vividos lá fora, quer ainda no regresso pleno de recordações e da satisfação do dever cumprido – em toda a sequência emerge um espírito de missão hoje tão esquecido por gregos e troianos – o Autor conseguiu, de forma coloquial e simples, contar-nos pequenas histórias agregadas pelo cimento dum período em que a melhor parte de todos nós foi enfrentar riscos ignorados e desvendar caminhos por entre os capinzais da surpresa ou do sobressalto.
Trinta anos volvidos, vem a dar-se o afloramento dum síndroma que, por esperado, não deixa de ser preocupante. É a "Perturbação pós-Stress Traumático", mais conhecida por "Stress de Guerra", que afecta, no dizer de alguns especialistas, um número significativo dos então jovens combatentes que labutaram por terras de África.
Para esses, bom seria que estas histórias breves e simbólicas constituíssem um saudável lenitivo.
Enquanto outros se divertiram, ou consagraram, na descrição apocalíptica da destruição do templo, Carlos Gueifão, humilde e simples, oferece-nos um rosário de impressões sobre um período recheado de horrores, seleccionando os momentos bons vividos por entre a amálgama duma situação global que nada tinha de aprazível.
Bem patente é a sua capacidade de interpelar sem ofender, de criticar sem agredir, de agredir sem magoar, de criar humor num estilo irónico e romântico que até poderá ter o condão de desafiar, quem sabe, algumas vocações adormecidas em vias de despertar para oferecerem o seu contributo ao nosso panorama literário.
Grande é a alma do narrador, colocado em situações quase nunca fáceis, que teve de dirimir. E fê- lo com dignidade, elegância e cavalheirismo.
Burilados pela sua prosa poética, estes textos conseguem mesmo suscitar saudades de tempos e episódios que, filtrados pelo humanismo do Autor, até chegam a parecer felizes embora, de vez em quando, a terra explodisse em rajadas de metralha e os corações se partissem em explosões de amargura.
Conta nos uma história coerente – é fácil encontrar os hífenes da coerência entre os contos diversos com que nos brinda.
Os enigmas ficam nas entrelinhas.
As alcunhas nascem e brotam como flores naturais, rebaptizadas por uma criatividade bem portuguesa, o epíteto imprescindível é bem escolhido, quase sempre o mais adequado para caricaturar ou resumir os factos narrados.
O ineditismo do seu testemunho merece justo reconhecimento, pois, ao elidir quase tudo quanto dividiu as pessoas, lado a lado ou frente a frente, se coloca na posição de encontro, diálogo e solidariedade que hoje enquadra as relações entre os que, tendo combatido entre si, foram capazes de encontrar um património comum e insubstituível que se chama Liberdade.
Estamos perante um exercício de escrita original e puro.
E se fôssemos lê- lo?
"Tá a andar!"»
(Joaquim Evónio de Vasconcelos; Maxiais, 03Set1997)

 

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