|

TRABALHOS, TEXTOS
SOBRE OPERAÇÕES MILITARES ou LIVROS
Informação e imagens
enviadas por
LC123278
Carlos Gueifão
José
Carlos da Silva Gueifão: nasceu em 01Fev37 na
freguesia-sede concelhia de Mação; mãe doméstica, pai
alfaiate; estudou no colégio maçaense Dom Pedro V até ao
2º ciclo liceal e no Liceu Camões (Lisboa) concluiu o
curso complementar (7º ano, alínea f).
Em 15Out56 ingressou
na Escola do Exército (cadete 63/210), mas apenas
frequentou o 1º ano do Curso Geral Preparatório (CGP).
Em 1960 começou a
trabalhar no Banco Borges & Irmão.
«Tal como muitos
oficiais milicianos dessa época, teve várias chamadas
extraordinárias às fileiras do Exército. Vê-se, assim,
alferes, tenente e, finalmente, capitão miliciano. Em
Abril de 1967, comandando uma Companhia de Caçadores,
embarca para Angola, regressando em Julho de 1969,
depois de uma dura comissão extraordinária de serviço,
em zona operacional (ZIN). Foi louvado pelo Comando de
Batalhão.
«Vários anos como
gerente no BBI (Abrantes, Cascais, Palmela, Almada),
depois subdirector e director adjunto, desempenhando
funções comerciais como Director Regional, responsável
por numerosas agências (Ilhas, Algarve, Alentejo,
Distrito de Setúbal, Ribatejo e Beira Baixa).
Habilitações
académicas: Licenciado em Sociologia (Seminário final,
5.º ano, em Sociologia do Trabalho - ISCTE 1976-80).»
Desde Dez97
jornalista e cronista no mensário maçaense "Voz da Minha
Terra", desde Dez98 reformado bancário e desde Nov99
director-adjunto do citado mensário VMT. Sócio da
Sociedade Portuguesa de Autores. É viúvo, tem dois
filhos e dois netos.
"Mata-Couros
ou as 'Guerras' do Capitão Agostinho"
"Mata-Couros,
ou As 'Guerras' do Capitão Agostinho"
autor: Carlos Gueifão
*
editor: Universitária
Editora, Lda
1ªed. Lisboa, 1998
177 págs
dep.legal:
PT-120103/98
ISBN: 972-700-115-7
Recensão:
– «Um poeta passou
pela guerra sem perder a inocência e conseguiu reter as
imagens belas da camaradagem e do amor pelo ser humano,
ainda que lutasse do outro lado da barricada.
Disfarçado soba
penumbra do tempo, vestindo a capa dum imaginário sui
generis, traz nos o testemunho duma época que marcou
profundamente a maioria dos nossos contemporâneos.
Tempo de guerra mas
também de aventura, bem ao jeito da idade que tínhamos
na altura dos acontecimentos relatados, conseguiu
isolar, com um talento muito peculiar, momentos de
evasão característicos dum ambiente que a amizade sempre
foi pródiga em criar, principalmente por entre os
demónios da batalha.
Ao abrir as janelas
do passado, Carlos Gueifão dá nos uma saborosa lição de
futuro. A jovialidade dos cinquenta mantém se bem fiel à
juventude dos vinte.
Tanto na preparação
da partida como nos acontecimentos vividos lá fora, quer
ainda no regresso pleno de recordações e da satisfação
do dever cumprido – em toda a sequência emerge um
espírito de missão hoje tão esquecido por gregos e
troianos – o Autor conseguiu, de forma coloquial e
simples, contar-nos pequenas histórias agregadas pelo
cimento dum período em que a melhor parte de todos nós
foi enfrentar riscos ignorados e desvendar caminhos por
entre os capinzais da surpresa ou do sobressalto.
Trinta anos volvidos,
vem a dar-se o afloramento dum síndroma que, por
esperado, não deixa de ser preocupante. É a Perturbação
pós-Stress Traumático, mais conhecida por Stress de
Guerra, que afecta, no dizer de alguns especialistas, um
número significativo dos então jovens combatentes que
labutaram por terras de África.
Para esses, bom seria
que estas histórias breves e simbólicas constituíssem um
saudável lenitivo.
Enquanto outros se
divertiram, ou consagraram, na descrição apocalíptica da
destruição do templo, Carlos Gueifão, humilde e simples,
oferece-nos um rosário de impressões sobre um período
recheado de horrores, seleccionando os momentos bons
vividos por entre a amálgama duma situação global que
nada tinha de aprazível.
Bem patente é a sua
capacidade de interpelar sem ofender, de criticar sem
agredir, de agredir sem magoar, de criar humor num
estilo irónico e romântico que até poderá ter o condão
de desafiar, quem sabe, algumas vocações adormecidas em
vias de despertar para oferecerem o seu contributo ao
nosso panorama literário.
Grande é a alma do
narrador, colocado em situações quase nunca fáceis, que
teve de dirimir. E fê- lo com dignidade, elegância e
cavalheirismo.
Burilados pela sua
prosa poética, estes textos conseguem mesmo suscitar
saudades de tempos e episódios que, filtrados pelo
humanismo do Autor, até chegam a parecer felizes embora,
de vez em quando, a terra explodisse em rajadas de
metralha e os corações se partissem em explosões de
amargura.
Conta nos uma
história coerente - é fácil encontrar os hífenes da
coerência entre os contos diversos com que nos brinda.
Os enigmas ficam nas
entrelinhas.
As alcunhas nascem e
brotam como flores naturais, rebaptizadas por uma
criatividade bem portuguesa, o epíteto imprescindível é
bem escolhido, quase sempre o mais adequado para
caricaturar ou resumir os factos narrados.
O ineditismo do seu
testemunho merece justo reconhecimento, pois, ao elidir
quase tudo quanto dividiu as pessoas, lado a lado ou
frente a frente, se coloca na posição de encontro,
diálogo e solidariedade que hoje enquadra as relações
entre os que, tendo combatido entre si, foram capazes de
encontrar um património comum e insubstituível que se
chama Liberdade.
Estamos perante um
exercício de escrita original e puro.
E se fôssemos lê- lo?
"Tá a andar!"»
(o prefaciador,
Joaquim Evónio de Vasconcelos, colega de início do curso
na EE - Maxiais, 3 de Setembro de 1997)
Excerto:
– «JANELAS
Estirou-se
preguiçosamente na cadeira, olhou longamente a Praça do
Município, através da janela, e entrou decisivamente na
sua pausa de reflexão.
Ninguém pode
trabalhar ou viver sem janelas, pensou, e logo a palavra
janelas se assumiu como tema, e a reflexão, que
pretendia livre, ficou condicionada.
Pois é... as janelas
são muito, muito importantes. Janelas para a vida,
janelas para o passado, janelas para o futuro, janelas
para a beleza...
O astronauta em
órbita tem as suas janelas - tempo e espaço - de
reentrada. Toda e qualquer oportunidade tem as suas
janelas próprias. Ignorá-lo é bater na parede.
Conhecimentos específicos abrem janelas específicas. Os
olhos... as janelas da alma... janelas de Lisboa... um
craveiro na janela... Maluda...
Mirando serenamente o
pelourinho, lembrou-se do seu velho professor de
filosofia: a nossa razão é uma casa sem janelas, e
constatou de imediato uma hipotética contradição:
- Se o Homem não pode
viver sem janelas, e se a nossa razão é uma casa sem
janelas, como viver? Um casulo, dentro de um casulo?
Resolveu o problema,
creio que bem: temos as janelas da imaginação, da
fantasia, do sentir. A razão não é a vida. Ajuda. É
imprescindível na função e no papel de cada qual... mas
a vida está lá fora.
Estava na sua pausa
de reflexão... livre. Melhor: estava na sua pausa de
fantasia. Logo, tudo lhe era possível e permitido, até a
mais chocante irreflexão ou devaneio. Estava francamente
numa boa (1). Bebia, bebia literalmente o azul do céu,.
Um azul muito puro, que se vislumbrava através da
prosaica janela para o Município. Adivinhava o Tejo, que
se escondia para lá do Arsenal da Marinha, gozava a luz
que lhe inundava o gabinete.
Em torno do
pelourinho os pombos arrulhavam, namoravam, esvoaçavam,
pousavam em velhas senhoras atirando milho
As gaivotas, que em
dia de temporal invadiam a praça e que, qual exército de
uniforme branco, se alinhavam no telhado do Arsenal,
brilhavam pela ausência. Foram todas para o alto mar.
Alguns dos muitos e
desvairados turistas que nos visitam tiravam as
inevitáveis fotografias.
Fluía o tempo.
Melhor: fluíamos nós... e fluindo, fluindo, os turistas
abandonaram a praça.
Uma última e velha
senhora continuava lançando milho. Repentinamente, olhou
nervosa e vivamente toda a praça e, com agilidade
incrível, agarrou um pombo, o qual, num ápice,
desapareceu na alcofa.
Era a sua janela para
uma saborosa canjinha.
Um frémito de asas
gelou a praça, fechou-lhe a janela da fantasia.
- São horas da janta
– pensou. Vestiu o casaco e saiu.
(1) Feliz. (Brasileirismo. Português com açúcar).»
|