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Catarina Gomes

Jornalista do PÚBLICO há 14 anos, onde começou por acompanhar a área da Justiça.

 

Em 2002, resolveu ver Portugal ao longe e pensar nas lides do jornalismo à distância. Rumou a Londres, onde tirou o Master of Sciences in Media and Communication na London School of Economics.

 

Hoje acompanha sobretudo assuntos da Saúde, área onde foi finalista do 1º Prémio Europeu de Jornalismo da Saúde da Comissão Europeia, com o artigo "Estimada senhora, Venha fazer um papanicolau"; e recebeu o Prémio de Jornalismo na área da oncologia da Liga Portuguesa Contra o Cancro (2005), com a reportagem "Herança dos Mal Nascidos".

 

O que mais gosta de escrever são reportagens e histórias de vida.

 

Recentemente aventurou-se como argumentista, com o documentário "Natália, a Diva Tragicómica", produzido pela RTP2 e pela Real Ficção.

 

Lançamento do livro «Pai, tiveste medo?": Convite

 

Quinta-feira, dia 27 de Março de 2014, pelas 18H30, na FNAC Chiado

 

 

O livro:

«Pai, tiveste medo?»

 

Titulo: "Pai, tiveste medo?"
autor: Catarina Gomes


editor: Matéria Prima
1ªed. Lisboa, 06Mar2014
248 págs

sinopse:


- «Quarenta anos depois do fim da guerra colonial, a memória do conflito continua viva em muitos portugueses. Não só pelas marcas deixadas nos militares que combateram, mas pela forma como ela se estendeu às suas famílias, nomeadamente aos filhos. Para os que tiveram um pai a combater em África, a guerra também foi deles.


Essa memória partilhada foi sendo construída pelos filhos ao sabor das emoções que iam experimentando: uns sentiram-se fascinados pelas aventuras heróicas de um pai em guerra; outros sofreram na pele o pesadelo interminável do qual o pai nunca se libertou; e outros ainda deixaram perguntas por fazer com medo das verdadeiras respostas.


Este livro é feito de 12 histórias.¹ São experiências de guerra vividas por filhos de combatentes que, de forma muito pessoal e única, aprenderam a juntar os pedaços de uma memória que não é a sua. Entre álbuns de fotografias, cartas de antigas de madrinhas-de-guerra, malas empoeiradas, cabeças e peles de animais e relatos distantes, cada uma destas pessoas herdou uma história; algumas foram atrás do passado para perceber um pouco melhor o pai que regressou ou que nunca chegaram a conhecer.


Em "Pai, tiveste medo?", descubra uma nova perspectiva sobre um conflito que marcou Portugal. Um livro sobre a memória e a inquebrável ligação entre pais e filhos.»

 

¹ (das 12 histórias, 6 são de filhos de veteranos da Guiné)

testemunho da autora:


- «Eu também cresci a ouvir fragmentos de histórias do tempo da guerra em Angola. Só com este trabalho percebi que a minha está entre os milhares de casas portuguesas onde havia álbuns de guerra e uma parafernália de objectos que sempre me foram familiares, de estatuetas de negros a peles de palanca semidesfeitas pelas traças, uma girafa de madeira que se aguentava de pé com uma perna colada - coisas que foram desaparecendo de vista, como na casa dos pais do Paulo Peixoto.


Nas minhas histórias da guerra em Angola havia sempre o nome de um lugar quase de feitiçaria, Cangamba, onde o meu pai tinha sido colocado. Não faço ideia onde fica nem se mudou de nome.


Dei por mim a chorar quando ouvi a Alexandra Penteado falar do pai que acordava com gritos lancinantes a meio da noite. Ela perguntou-me se eu me identificava. Disse-lhe que não. A minha experiência foi a das historinhas positivas. Coisas caricatas, como o meu pai fazer parte de umas campanhas de "acção psicológica" que consistiam em espalhar pelos céus de Angola panfletos a apelar à rendição de soldados angolanos, com fotografias de rostos como os deles, de ar feliz e bem nutrido, porque se tinham entregado aos portugueses.


As fotos do álbum que andou lá por casa também pareciam ser, tal como para o Paulo Peixoto, uma selecção de bons momentos, quase postais pitorescos, com casotas de colmo, meninos de barriga arredondada, o meu pai a tocar guitarra, a fazer teatro num palco improvisado com lençóis brancos. Dão-me a mesma sensação que teve a Susana Gaspar, de parecerem fotos de férias. Como ela, desconfio que não tenha sido bem assim.


E para mim também houve um episódio que o confirmou e que, não por acaso, era sempre contado pela minha mãe, que acompanhou o meu pai na guerra. A 28 de Abril de 1974 o meu pai foi chamado a identificar corpos de colegas. Só há dias, quando perguntei à minha mãe, soube que o meu pai dormiu mal nessa noite, vinha-lhe à memória a imagem de um soldado que morreu com a mão esquerda paralisada para cima, como quem mostra a aliança, como dizendo "não me mate que sou casado". Foi pelo menos assim que o meu pai, recém-casado, o interpretou.


É em alturas especiais que se sentem mais as ausências. O meu pai morreu quando eu estava a aprender a fazer perguntas de adultos. Lembro-me de lhe ter feito uma quando ainda era adolescente, quase como quem pergunta por uma aventura. Mataste alguém? Ele respondeu que não sabia, que em princípio não, mas que na guerrilha não se via o inimigo. Ao fazer este trabalho dei por mim a querer fazer-lhe mais perguntas de adultos: Sabias por que é que ias? Sentiste medo? Pensaste que ias morrer? Em que é que isso te mudou?


À medida que foram desaparecendo de casa os objectos trazidos da guerra foram rareando pretextos para voltar a estas memórias. Os meus pais trouxeram de Angola para mim um banquinho de madeira feito da pele seca e esticada de um animal que não conheço. Lembro-me de me sentar nele quando era pequenina, agora vai ser do meu filho. Vou-lhe contar os fragmentos do que sei, as minhas memórias de guerra.»


(Catarina Gomes, 21Mar2011, in "Público" online)
http://www.publico.pt/temas/jornal/tiveste-medotestemunho-de-catarina-gomes-21605226

 

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Obra 'Filha da guerra' colonial escreve livro sobre a herança de quem lutou

 

Catarina Gomes esperou pelos 40 anos, de vida e de Abril, para convidar os filhos de quem lutou na guerra colonial a falarem sobre este conflito e a fazerem perguntas como a que dá nome ao seu livro "Pai, tiveste medo?".

 

09:00 - 22 de Março de 2014 | Por Lusa

 

"Passaram 40 anos, já somos todos grandes, trintões e quarentões, gostava que este livro fosse um pretexto de conversa dentro e fora da família", disse à agência Lusa a autora.

 

Ao longo de quase 250 páginas, Catarina partilha no livro "Pai, tiveste medo?", editado pela Matéria-Prima, 12 histórias de vida, "relatos de quem descobriu a guerra através da memória dos pais".

 

Ao seu pai, Catarina fez apenas uma pergunta, "a clássica: Mataste alguém?", mas ao escrever este livro deu por si a querer fazer-lhe mais: "Sabias porque ias? O que esperavas encontrar? Tiveste medo? De morrer? De matar? Como é que a guerra te mudou?".

 

"Estas são perguntas que muitos filhos não fizeram, uns por falta de curiosidade, outros com medo de melindrar, por sentirem mesmo que não era assunto de que os pais quisessem falar, além das histórias mais pitorescas que foram sendo passadas", adiantou.

 

Como se pode ler na obra, "a porta de entrada nesse passado foram muitas vezes os álbuns de fotografias da guerra que andam por várias casas portuguesas e que, na sua maioria, são já em si mesmo uma seleção de bons momentos; parecem postais pitorescos, com casotas de colmo, meninos de barriga arredondada, mulheres negras de peitos à mostra, quase parecem fotos de férias, Em muitos casos, não terá sido bem assim".

 

Catarina volta no seu livro a uma aventura que começou com uma investigação inédita sobre o tema da guerra colonial, feita pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, coordenada pela professora Margarida Calafate Ribeiro.

 

"Escrevi um artigo para o Público sobre a investigação -- Os filhos dos militares também têm memórias de guerra" - e senti a necessidade de, pela primeira vez, fazer acompanhar a reportagem com um testemunho na primeira pessoa, por sentir que não estava de fora e que eu era não apenas uma jornalista a escrever sobre o tema mas também «uma filha da guerra», que tinha uma relação especial com o tema e que eu também tinha algumas dessas «memórias em segunda mão» de que falava a investigação".

 

"Somos filhos de pais que foram jovens durante um tempo muito particular da história de Portugal que os arrastou para um contexto extremo, numa passagem à vida adulta muito particular, muito diferente da minha geração, mesmo que muitos não tenham pegado em armas".

 

O livro de Catarina Gomes sai no ano em que Abril comemora 40 anos e a autora acredita que "ainda há tanta coisa por contar".

 

"Faz-me confusão, por exemplo, que a guerra surja muitas vezes balizada entre 1961 e 1974, como se milagrosamente tivesse acabado com o 25 de Abril. Morreram centenas de homens depois dessa data e durante todo o ano de 1975", alertou.

 

Questionada sobre o medo da guerra, Catarina Gomes não tem dúvidas: "Claro que todos tiveram medo, a questão é se o verbalizaram em família, aos filhos, às mulheres, porque esta é ainda uma geração de homens muito moldada por uma cultura tradicional em que o homem não chora, se tem medo não o demonstra, esconde-o, sobretudo aos filhos".

 

Fonte: http://www.noticiasaominuto.com/pais/192354/filha-da-guerra-colonial-escreve-livro-sobre-a-heranca-de-quem-lutou

 

 

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