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José Augusto Barrigas Queiroga

 

Nasceu a 15Abr43 em Chaves, em cujo Liceu Nacional concluiu os estudos liceais.


Em 1962 ingressou na Academia Militar, onde se licenciou em Ciências Militares e Aeronáuticas.


Em Mar67 concluiu na BA1-Sintra, o tirocínio de pilotagem em Cessna-T37.


Em Out67 concluiu na BA3-Tancos o curso complementar de pilotagem em helicópteros.


Em Nov67 promovido a alferes piloto-aviador, colocado em Angola na Esq94/BA9-Luanda.


Em 1970, promovido a tenente, louvado pelo secretário de Estado da Aeronáutica e agraciado com uma Medalha de Prata de Serviços Distintos com palma.


Em Dez70 regressou à Metrópole e no mês seguinte foi colocado na BA3-Tancos como piloto-instrutor de helicópteros.


Em Jul73 colocado no AM51-Mueda (nordeste de Moçambique), como oficial de operações da Esq503 "Índios".


Em Fev74, capitão, passou a comandar aquela esquadra de AL-III, até regressar à Metrópole em Mai75.

 

 

O livro:

 

"Estórias Vividas - Relatos de Guerra de um Piloto de Helicópteros em África"

 

 

título: "Estórias Vividas - Relatos de Guerra de um Piloto de Helicópteros em África"
autor: José Augusto Barrigas Queiroga

editor: Fronteira do Caos
1ªed. Porto, Jun2014
177 págs (ilustrado)
23x15cm
preço: 16,50€
ISBN: 989-8647-29-0

 

Depoimento:


- «Um dos episódios de guerra que mais me marcou passei-o na segunda comissão, em Moçambique, por finais de 1973.


Em Mueda, no coração do Planalto dos Macondes, distrito de Cabo Delgado, onde as nossas tropas tinham um importante dispositivo. Esta região do extremo Norte de Moçambique, separada da vizinha Tanzânia pelo Rio Rovuma, era um santuário da guerrilha. O Rovuma dividia os territórios, mas não separava o povo Maconde. O trânsito dos guerrilheiros vindos da segurança da Tanzânia era relativamente fácil. Essa facilidade e o temperamento guerreiro dos macondes fizeram com que a guerrilha nos tivesse provocado, ao longo dos anos, fortes dores de cabeça.


O aeródromo de Mueda, que servia o destacamento de helicópteros, era frequentemente flagelado pela artilharia da Frelimo – quase sempre ao entardecer. Um dia, lembro-me que imediatamente a seguir ao almoço, dirigia-me para a sala de operações quando um 'jeep' pára perto de mim com os pneus a chiarem no asfalto. Salta um jovem alferes do Batalhão de Mueda. Vi logo, pela pressa, que tinha acontecido alguma desgraça. A maior parte das operações que os helicópteros faziam eram evacuações – de mortos ou feridos –, ou de transporte de material de apoio a colunas em dificuldades.


– "Meu capitão, dá licença?" –, diz-me o alferes.


E, sem me dar tempo para responder, acrescentou:


– "A coluna de Mocímboa do Rovuma foi atingida por uma mina. Uma viatura pesada ficou inoperacional, mas é recuperável. Precisamos de fazer chegar lá o material o mais rapidamente possível."


Compreendi a pressa do alferes. Não podíamos abandonar uma viatura recuperável no terreno – e obrigar a coluna a passar uma noite naquele local à espera do material significava expor os soldados a ataques dos guerrilheiros com consequências imprevisíveis. Era a zona onde actuava o Destacamento 25 da Frelimo.


Eu era o comandante do destacamento de helicópteros de Mueda. Tinha seis pilotos em permanência. Éramos seis pilotos em permanência.


Perante um pedido de apoio aéreo deste tipo, aparentemente sem grande dificuldade, normalmente teria chamado um dos pilotos mais jovens. Mas, considerada a urgência da missão e porque já estava na pista, decidi que eu fazia a missão. Não precisava de chamar mais ninguém, a não ser o mecânico de voo, e avisar o comandante do aeródromo, major Vaz Afonso.


A missão não duraria mais do que 45 minutos. Mas ia ser executada numa área onde os aviadores não gostavam de voar. A nudez da mata expunha o helicóptero a atiradores no solo. O voo a baixa altitude minimizava este inconveniente. Mas nesta zona o voo envolvia outro perigo. Voar a baixa altitude sobre árvores totalmente despidas de folhagem fazia-nos perder a noção da altitude e da distância aos ramos. Um voo nestas condições podia provocar facilmente a colisão com um tronco de árvore. A velocidade era da ordem dos 180 quilómetros por hora.


Decidi voar ao lado da picada – ora de um lado ora do outro, serpenteando-a, sem nunca perdê-la de vista. Com estas mudanças de posição evitava estar demasiado tempo em exposição no mesmo rumo. As manobras repentinas no ar dificultavam a missão de atiradores da guerrilha, que muito naturalmente esperavam pela passagem de um helicóptero em socorro da coluna. Não iria fazer o mesmo trajecto na volta de regresso.


Passados alguns minutos, já estava em contacto pelo rádio com a escolta da coluna. Atingi o objectivo sem incidentes. A coluna estava parada numa zona larga e desmatada do planalto, relativamente perto da base dos guerrilheiros do Destacamento 25.


Quando fiquei à vertical da coluna, um militar em cima da viatura avariada indicava-me um local ao lado para eu deixar a peça. Mas a sugestão não me agradou, uma vez que não conseguia manter, com toda a segurança, as pás do helicóptero afastadas das árvores. A peça que transportava era pesada. Decidi largá-la uns metros ao lado da picada, perto da viatura acidentada, mas sem obstáculos à volta e a razoável distância das bermas da mata. Aterrei envolto por uma nuvem de poeira. O mecânico fê-la deslizar rapidamente para o solo:


– "Pronto, já está!" –, diz o mecânico.


Não demorou sequer um minuto entre a largada da peça e o início do regresso ao aeródromo.


Perguntei se precisavam de mais alguma coisa. Disseram-me que não. Despedi-me:


– "Boa sorte e até breve em Mike Delta" –, disse-lhes pelo rádio.


O indicativo do rádio-farol de Mueda era MD, pelo que usávamos o alfabeto fonético (Mike Delta) para designar a base.


Como já tinha decidido utilizar uma rota diferente no regresso, inflecti para Sul de modo a apanhar o rebordo do planalto e, ao longo dele, rumar a Mueda. Tinha acabado de deixar para trás as primeiras viaturas da coluna, em direcção a Mueda, quando ouvi no rádio o indicativo genérico que o Exército usava para chamar os helicópteros:


– "Mosca, mosca, aqui terra!"


Sabia que não havia mais helicópteros na zona. A chamada só podia ser para mim:


– "Transmita."


Respondi, à espera de ouvir alguma coisa que não me tinha sido dita momentos antes. Mas não. O que ouvi deixou-me transtornado:


– "Mosca, mosca, aqui terra. Temos um ferido grave."


Nem queria acreditar que era a coluna que acabara de deixar. Pedi confirmação:


– "Terra, aqui mosca. Confirma que é no local onde deixei a peça?"


– "Correcto e afirmativo. Foi outra mina. É um ferido grave."


Inverti o rumo, em direcção ao local. Ainda pairava sobre a coluna uma nuvem de fumo esbranquiçado. Lá estava, na picada, entre duas viaturas, a enorme cratera do rebentamento. Uns tantos militares ainda estavam deitados, aparentemente aturdidos com a violência da explosão ou com ferimentos ligeiros. Feridos graves não havia. A vítima estava feita em pedaços. Os restos carbonizados do corpo foram recolhidos em panos de tenda e embarcados no helicóptero.


Senti-me culpado daquela morte. Acabei por colocar a peça num local perigoso. Obriguei um homem a deslocar-se num terreno suspeito. Este soldado acabou por accionar uma mina anti-pessoal que, por simpatia, fez explodir uma outra, de fósforo, anticarro.


Um soldado que estava entre duas viaturas, ficou feito em pedaços. Os seus restos mortais estavam agora no meu helicóptero, rumo a Mueda.»


(MGen José Queiroga,

in "Senti-me culpado pela morte de um soldado"; CM-Domingo 23Mar2008)
 

Breve apresentação:


- «Piloto de Alouette-III em Angola, na Esq94 da BA9, depois nos "Índios" em Moçambique, estes relatos na 1ª pessoa oferecem-nos uma visão dos acontecimentos, das operações e das emoções de um piloto de helicópteros.»

(Jaime Regalado, 30Jun2014)
 

Recensão:


- «Estamos perante um pequeno grande livro, sobre a temática da última guerra que as Forças Armadas Portuguesas travaram no antigo Ultramar. A natureza das situações vividas e o modo claríssimo e franco como são descritas, tornam esta obra uma das mais tocantes que já lemos sobre este conflito.


O modelo escolhido, várias situações descritas com princípio, meio e fim, com uma dimensão que não sendo pequena – dá perfeitamente para descrever o que se passou nos seus mais diversos ângulos –, também não se torna maçadora, funciona na perfeição e consegue, apoiando-se em notas esclarecedoras ou pequenas explicações técnicas no texto, transmitir ao leitor, mesmo o que de helicópteros nada perceba, uma imagem muito clara do que foi a guerra para estes militares, sobretudo os pilotos e mecânicos dos Alouette III.


Mas não só para estas tripulações, muito também ficamos a saber sobre a actuação de outros meios da Força Aérea. Sobre as "forças de superfície", a opinião, baseada em factos relatados não é muito abonatória, reconhecendo no entanto o profissionalismo de comandos e pára-quedistas.


De assinalar que esta obra, escrita na primeira pessoa, consegue de modo que direi exemplar, fugir ao auto-elogio, infelizmente uma prática (irritante) em muitos livros de memórias. Aliás talvez até penda para o seu contrário em várias situações. A espaços parece haver quase que um pedido de desculpas pela conduta que na altura o piloto tomou e que anos depois ainda duvida se foi ou não a correcta.


Aborda sem complexos, aspectos como a participação da DGS no conflito ou os seus próprios erros e medos, mas também nos transmite acções de combate e evacuações médicas, nos limites e para além do que seria seguro, que colocam o leitor perante homens, geralmente jovens, com uma extraordinária noção do dever, uma capacidade de ajudar os outros – desconhecidos, apenas soldados como eles, ou mesmo civis –, porque essa era a sua missão. Ponto.


O autor, José Augusto Barrigas Queiroga, major-general piloto aviador na situação de reforma, cumpriu duas comissões de serviço pilotando Alouette III, em Angola e Moçambique, e seleccionou da sua memória 16 estórias que muito nos dizem, sobre a História do que foi a participação das tripulações destes meios aéreos na guerra naquelas antigas Províncias Ultramarinas, nos anos em causa (1967-70 e 1973-75).


As selecção das estórias, dá ao leitor um enorme volume de informação sobre o modo como a guerra foi vivida pelos pilotos e mecânicos de Al III, mas também sobre muitos outros aspectos deste conflito, havendo partes do livro que nos fazem rir, outras em que a tensão vivida a bordo do Al III parece que também nos ataca, e ainda outras em que nos sentimos verdadeiramente emocionados. Como é costume dizer-se entre nós, "nos EUA isto dava um excelente filme!"


Tem todos os ingredientes e mais um: aconteceu. Em boa hora o major-general José Queiroga decidiu contar-nos.


Não sendo muito rico em iconografia, não deixa de ter algumas fotografias dos AL III em operação – curiosamente, parte delas do nosso colaborador Alfredo Serrano Rosa –, e mapas para melhor apresentar algumas das situações "voadas". Mesmo que mais imagens, fotos e mapas, tornassem a obra visualmente mais atraente, também é verdade que este livro é para ser lido e durante este processo, a clareza e simplicidade da escrita, muitas vezes vivendo de diálogos entre os intervenientes, transmitem uma vivacidade que dispensa as imagens.


Prefácio de Manuela Castelo, viúva de um piloto de helicóptero, facto que julgamos inédito e é de profundo significado, como se percebe no livro.»

 

(Miguel Machado, 08Nov2014)

 

 

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