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José Inácio Madaleno

 

José Inácio Madaleno, Furriel Milº Comando.

 

Serviu Portugal na Província Ultramarina de Angola como 2.º comandante do 5.º Grupo de Combate da 14.ª Companhia de Comandos, no período de 11 de Dezembro de 1967 a 3 de Abril de 1970.

 

 

"O Camacovo - Angola 1968"

 

 

Dedico esta obra a todas as vítimas 

militares e civis da guerra e descolonização de Angola.

A todos os «Comandos» dos três teatros de guerra.

À minha família.

Aos meus amigos.

 

Introdução


Trata-se de um romance de ficção – baseado em extractos de vivência do autor, enquanto Furriel Miliciano na 14 ª Companhia de “COMANDOS” – nos anos de 1967 a 1970, no decorrer da guerra colonial em Angola. Embora ficcionado, o romance retracta alguns factos desse período: (“Tirem-me daqui!...”), era frequente ouvir-se em desespero de causa. Da dificuldade de compreensão por parte dos que foram obrigados a pegar em armas, por razões duvidosas, contra organizações suspeitas. No terreno, em contacto com a realidade, só encontrávamos ostracismo e miséria a que as populações tinham sido votadas.  Este desprezo e este abandono já eram nossos conhecidos da metrópole, muitas vezes abordados por nós – militares de vinte, vinte e um anos – evangelizados até à medula e intencionalmente despolitizados. A luta pela liberdade contra a tirania é ancestral na história da humanidade. De um lado as minorias, detendo os privilégios e o poder; do outro as maiorias, constituídas pelos pobres, pelos os humildes, sustentáculos dos todo-poderosos e das suas hipocrisias.


Era estranho que, naquela guerra, só houvesse meninos - Zés-ninguém – como eu. Independentemente dos postos que ocupavam: Soldados; Cabos; Furriéis; Sargentos; Alferes; Capitães – todos milicianos – fossem filhos das classes mais pobres, dos que não tinham podido comprar a sua liberdade e a fuga à guerra. Os filhos dos ricos e dos poderosos – salvo raras excepções – não foram tão patriotas. Escolheram fugir para o estrangeiro, ou continuarem os seus eternos cursos superiores. Muitos angolanos ricos ou privilegiados também não fizeram a guerra, nem a oposição – antes pelo contrário. Alguns estavam na metrópole, à sombra da bandeira nacional, onde a tropa era apenas de alguns meses. Mais tarde chegaria à conclusão que isso lhes havia sido duplamente vantajoso: porque não fizeram parte do milhão de militares envolvidos na guerra do ultramar; nem na lista dos cerca de onze mil mortos que a mesma originou – pela parte portuguesa; nem dos milhares de civis angolanos e portugueses vítimas no início e durante as hostilidades. Curiosamente, hoje, são os heróis: porque não lutaram a favor dos colonialistas nem dos terroristas. Acabaram os seus cursos superiores e através dos partidos políticos são actualmente: os dignos representantes dos cobardes que fizeram a guerra – contra os seus irmãos de além-mar. Representam o povo no parlamento, com as mesmas convicções dos anteriores ditadores: como deputados; membros de vários governos; à frente das principais instituições... Auferem chorudos ordenados e reformas vitalícias com meia dúzia de meses de “mandatos.”


Os cobardes que fizeram a guerra contra os seus irmãos de além-mar (que eles nos perdoem…) transtornados com doenças de todo o género provocadas por essa mesma guerra, transportam consigo os estigmas do matar para não ser morto; do não matarás porque: se a arma que mata for para defender a paz (“os Anjos choram mas não condenam”) Esses, não têm direitos... Ontem, tal como hoje, não mandamos na nossa terra. A justiça, a saúde, o ensino e a liberdade de pensamento são só para alguns. Os hipócritas, que abandonaram o barco quando o país os chamou, esses, têm direitos.  


Não é lícito que, só ao bom povo – tanto de Angola como de Portugal – seja assacado a responsabilidades da exploração da Santa Pátria Angolana; das suas riquezas, das suas gentes. Onde entra a responsabilidade da “Hierarquia da Igreja” (da Religião Católica Apostólica Romana) no meio de tudo isto? Quando os seus mais altos dignitários, antes dos embarques, nos liam excertos como este: (“ Quando a arma que mata serve para defender a paz, os anjos choram mas não condenam...”)


É lícito, justíssimo prestar homenagem póstuma a todas as vítimas negras e brancas de Angola e Portugal. A todos os mutilados, aos que sofreram os horrores da guerra. Muito honestamente sempre pensei, pela degradação a que as coisas haviam chegado que pudesse haver uma revolução em Portugal. Nunca pensei que ela surgisse dos militares, mas antes, dos ex-militares.  Com uma experiência acumulada de treze longos anos de guerra jamais consentiriam - quando regressassem às suas terras de origem - que as arbitrariedades continuassem. Mas não, a revolução surgiu – justamente – de um dos sectores mais conservadores da nossa sociedade. Surgiu de uma classe “os militares” por se sentirem injustiçados reivindicava na altura aumentos de ordenados e outras regalias que uns tinham e outros não. Não deixa de ser curioso não obstante ter servido, para que a Pátria enterrasse alguns fantasmas do passado, mas não todos. Sinto-me traído, usado, pelo estadismo de ontem e o liberalismo triunfalista de hoje. Ambos têm em comum o abandono das populações. O povo português, enquanto sujeito da história, nunca mereceu qualquer respeito por parte dos seus governantes. Nos momentos difíceis eu e os meus colegas interrogávamo-nos: (“Onde estão os filhos dos ricos e dos poderosos; porque compraram eles a liberdade e nós não; porque permitia o sistema tal procedimento tal arbitrariedade?”) Hoje, somos nós os criminosos porque não tivemos dinheiro ou condição social para comprar a liberdade e fuga à guerra. Para nos cobrirmos com a desculpa de sermos estudantes ou – hipocritamente - nos misturarmos com os funcionários das empresas de retaguarda onde os filhos dos ricos - a troco de muito dinheiro - se escudaram; como no caso das (OGMA) – Oficinas Gerais de Material Aeronáutico – em Alverca. Este complexo militar, da Força Aérea, chegou a ter – à sombra da bandeira nacional – efectivos de seis mil funcionários durante o tempo de guerra. Consta, que alguns iam de «Porsches» para o “trabalho”. A exaltação à Pátria a qualquer preço; os chorudos proventos tirados do esventrar da terra - da mão-de-obra escrava - até ao seu aniquilamento enquanto fonte de riqueza; ou, até, à revolta desesperada dos seus naturais. As consequências destes actos nunca foram contestadas, ou contabilizadas: nem com a Pátria; nem com os povos negros e brancos de Angola e de Portugal; nem com os novos Países de expressão portuguesa (ex-colónias portuguesas) povos nossos irmãos por força das contingências histórias.


Este livro não é, de forma alguma, uma demonstração de antipatriotismo do autor. É antes uma tentativa de alerta contra todas as formas discricionárias e hipócritas dos todo-poderosos que, a pretexto de determinados valores, se perfilam sempre atrás: de símbolos; de organizações marginais; do poder económico, político e religioso. O autor dedica esta obra a todos que se identificam com ela através do reconhecimento pelos cheiros, pelas sensações, pela pureza e simplicidade das gentes. Beija a Santa Terra de Angola - a grande metrópole - a mãe de todas as Pátrias. A grande casa da língua portuguesa ajoelha perante ti – Angola – e pede-te perdão: pelos eventuais excessos cometidos por mim, pela minha gente e pela minha Pátria!


 (…) Angola foi o grande amor da minha vida, Luanda a minha eterna namorada…

 

Blogue: http://jimad.blogspot.com/

 

 

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