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Manuel Zé

 

Pseudónimo de Ludgero de Jesus Garcia, natural da freguesia de Tramagal, concelho de Abrantes, onde nasceu no dia 6 de Abril de 1946.

 

Iniciou o Serviço Militar Obrigatório em 15 de Janeiro de 1968.

 

Embarcou no NTT «Niassa» para Moçambique, integrado na Companhia de Caçadores 2469 do Batalhão de Caçadores 2862, «NOBREZA NO DEVER», como Alferes Mil.º de Operações Especiais, no dia 4 de Janeiro de 1969.

 

Esteve colocado em Ilha de Metarica desde do dia 3 de Fevereiro de 1969 até ao dia 6 de Junho de 1970, onde exerceu por diversas vezes, o comando interino da Companhia.

 

Participou em várias operações, algumas delas como comandante da força actuante.

 

Regressou à Metrópole no dia 19 de Abril de 1971.

 

Passou à disponibilidade no dia 20 de Abril de 1971 com o posto de Tenente Mil.º

 

O livro:

 

«Memórias para Esquecer»

(Volume I)

 

 

título: «Memórias para Esquecer» - Volume I

autor: Manuel Zé

 

edição: Editorial Minerva

 

capa: concepção do Autor

 

fotocomposição e impressão: Minigráfica - Cooperativa de Artes Gráficas, CRL

 

grafismo: José Manuel Moreira

 

data: Dezembro de 1995

 

ISBN: 972-591-289-5

 

depósito legal n.º 93756/95

 

Dedicatória:

 

Dedico este livro em especial aos militares que serviram na CCac2469 e em geral, a todos os que lutaram numa Guerra que durante mais de 13 anos restringiu a vida de muita gente.

 

À memória do soldado "Rosas", do 1.º Cabo "Ramos" e dos furriéis milicianos "Ribeiro" de "Correia", da CCac2469, do meu conterrâneo e amigo João Lourenço Nunes, desaparecido na Guiné, em Fevereiro de 1968 e à de todos os que sacrificaram a sua vida.

 

Por...

Um país prenhe de Sol brilhante, liberal,

num céu azul, luminoso e puro,

fértil de piedoso amor ao próximo

e de parca e selectiva justiça social

Berço de privilégios e oportunidades,

democraticamente para todos desiguais.

 

Foi...

Pelo meu País, a minha Pátria, Portugal

que hostis territórios eles franquearam,

com denodo pelejaram e suas vidas imolaram.

 

Agradecimento

 

À minha família e aos meus amigos pelo apoio, colaboração e confiança com que me animaram a concluir este projecto.

O autor

 

Excerto (páginas 39 a 46)

 

O VIGIA LEOPOLDO


Os três Grupos de Combate progrediam lentamente rompendo capim, em direcção ao objectivo a base IN "Intéria", também chamada base "Geral de Gaza', referenciada junto ao rio Naissanga numa região onde já fora desmantelada quatro vezes.


Das quatro vezes foi reconstruída perto do local anterior, dentro do denso e quase impenetrável emaranhado da vegetação que ladeava o rio.


Haviam saído do quartel na madrugada daquele dia e nos cinco que ia durar aquela Operação, esperavam poder cumprir a missão que haviam recebido.


Planeavam chegar â região da base IN em dia e meio de marcha e os responsáveis pela coordenação do "Golpe de Mão", a realizar ao alvorecer do terceiro dia, fariam o reconhecimento do alvo ao crepúsculo do segundo.


Naquele momento o comandante soltou um curto assobio e todo o pessoal que seguia em bicha de pirilau (coluna por um) parou e instalou-se no lugar onde estava ao soar o sinal.


Os dois primeiros ficaram voltados para a frente o terceiro para a esquerda, o quarto para a direita, o quinto para a esquerda e assim sucessivamente para um lado e para o outro, até aos dois últimos soldados da coluna que ficaram vigiando a retaguarda.


Era o momento do repouso, durante o qual se deviam manter atentos a qualquer ruído ou movimento estranhos.


Em condições normais, em cada hora caminhavam cinquenta minutos e descansavam dez.


Quando em marcha a distância entre um soldado e o seguinte variava com as características do terreno.


Devia ser suficientemente grande para que o eventual accionamento duma mina, ou o rebentamento duma granada provocassem o menor número de baixas possível e ao mesmo tempo tão pequena que permitisse a ligação à vista e à voz.


Nas zonas de vegetação cerrada e capim alto, a um metro de distância muitas vezes, já não se via o camarada da frente.

 


 


Em terreno aberto conservava-se entre dois elementos consecutivos dum GComb em Operações, uma distância que variava entre três e cinco metros.


A velocidade de progressão variava também com as condições do terreno entre dois e quatro quilómetros por hora, reduzindo-se muito quando se previa algum encontro com o inimigo.


Leopoldo olhou para o relógio de ponteiros luminosos e viu que ainda faltavam quinze minutos para a hora a que seria rendido.


Era noite escura. Os primeiros alvores da madrugada só se começariam a notar perto das cinco horas da manhã.


Apertou a barriga outra vez e pensou:


— Estou à rasca. Não me vou aguentar até ao fim do meu turno!...


Olhou para trás e já habituado à escuridão, conseguiu distinguir os vultos sombrios das tendas mais próximas.


Ouvia perfeitamente o ressonar dos seus camaradas. Um deles roncava de tal forma que se devia ouvir a muitos metros de distância. Já por três vezes, fora junto dele e fizera-o voltar-se com a ponta do pé. Os roncos haviam parado por momentos para recomeçarem novamente, pouco tempo depois.


Estavam ali à sua guarda e à de mais cinco sentinelas colocadas estrategicamente em volta do acampamento, cerca de sessenta homens a dormir vestidos e calçados, com as cartucheiras cheias de balas a servir de almofada e a espingarda deitada a seu lado como se fosse uma namorada.


Tinham acampado naquele lugar, duas dezenas de metros à esquerda do trilho que vinham seguindo, na véspera por volta das dezoito horas, quando já caía a noite do primeiro dia de marcha.


O "Bivaque' tinha a forma dum círculo com cerca de vinte tendas triangulares na sua periferia, em cada uma das quais dormiam três militares. Cada um destes grupos de três soldados formava uma unidade que podia sobreviver e ser operacionalmente eficiente sozinha. Desde a formação da Companhia que eram treinados para isso e estavam habituados a actuar juntos.

 
Numa segunda linha, logo atrás da secção que comandavam ficavam os furriéis. Cada secção era constituída por três unidades de três praças.


No centro do círculo ficava a tenda do comandante da Operação que era o alferes do 1.º GComb, e dos seus adjuntos os do 2.º e do 4.º.


Naquela época, o capitão, comandante da Companhia continuava com baixa por doença e no Quartel ficara apenas o 3.º Pelotão, cujo comandante, o alferes Gonçalves se encontrava no hospital com baixa devido ao rebentamento duma mina. O 1.º Sargento era o militar mais graduado presente no quartel e por isso assumiu o Comando.


O vigia viu que já eram quatro horas da madrugada, acordou o soldado que o ia render e quando este chegou junto dele disse:


- Eu vou volto já.


Afastando-se um pouco para fora do círculo formado pelo acampamento, encostou a arma a uma árvore e atrás duma moita, baixou as calças e aliviou-se.


Na tenda do meio os três oficiais conversavam em voz baixa quando se ouviu uma rajada e alguém gritou:


- Aí estão os gajos!...


Cada um correu para o seu posto e tomou posição de combate.


Um deles, durante a corrida tropeçou, caiu sobre um joelho, e o cano da sua espingarda enterrou-se no chão húmido. Apressadamente desenroscou-lhe o tapa chamas cheio de terra, meteu-o na algibeira, bateu com o cano da arma no tronco de uma árvore, para o sacudir e experimentou-a com os cuidados necessários pois podia explodir. Funcionou bem.


Entretanto o tiroteio generalizava-se distinguindo-se perfeitamente o matraquear claro e seco das kalashnikov do som rouco e profundo das G3.


Primeiro dispararam os guerrilheiros, momentos depois localizada a origem do fogo, responderam as armas dos militares, abafando o som das primeiras que pouco depois se calaram. As da tropa calaram-se também. Depois de um período de espera, recomeçaram os disparos pela mesma ordem e com o mesmo final.


Este ciclo repetiu-se muitas vezes durante um período que serviu para os contendores se estudarem mutuamente.


— Baixa os c___,: pál... Deixa-te estar quieto... Olha que tos furam!... — Gritava o Jaime.


E olhando de relance para o furriel que nesse momento chegava junto dele disse, interrompendo o tiro:


- É o Leopoldo, ... está deitado ali à frente... Estava a c.... quando a festa começou... Ainda nem sequer limpou o cu.! — Gaguejou excitado tentando chalacear e ensaiando um esgar que pretendia ser um sorriso.


— Está aonde?... Ah, já estou a vê-lo... Oh diabo!... Mau sitio para estar agora!... Toma conta dele... — Recomendou... - Eu vou avisar os outros... Para não o alvejarem... — E, levantando a voz, gritou:


— Leopoldo!... Aguenta aí... Não faças nada... Isto passa já!...


— Pois sim... Estou mas é lixado... — Murmurou o soldado colando-se ao chão, para se proteger o melhor possível pois para azar seu, o terreno era quase nivelado. Apenas um pequeno rebaixo do solo e a vegetação o escondiam da vista do Inimigo.


Estava mesmo na linha de fogo dos dois contendores e enquanto ouvia o silvar das balas sobre a sua cabeça e via algumas lascas serem arrancadas às árvores próximas, olhou cobiçoso para a sua arma, encostada ao tronco de uma delas a menos de dois melros da sua mão estendida.

 


 


As suas calças estavam enroladas ao fundo das pernas e naquela posição, já o tentara mas não conseguira vesti-Ias.


Restava-lhe esperar e rezar para que nenhuma das balas que passavam tão perto lhe acertasse. No entanto, embora fosse profundamente religioso como todos os nativos da sua transmontana região natal, não era capaz de alinhavar nenhuma oração.


Ouvia o Jaime vociferando impropérios e mimoseando os adversários e os seus ascendentes com injúrias que fariam corar qualquer pessoa. Isso inspirava-lhe alguma confiança... mas ao mesmo tempo, lembrava-lhe que estava entre dois fogos.


Sentia-se mal, tinha medo... raiva e... uma vontade súbita de chorar!... Encolheu-se mais na pequena cova em que se aninhava... Agoniado o estômago dava-lhe voltas, cheio de gases e a água crescia-lhe na boca... Engoliu em seco. Os gases subiram-lhe à garganta, arrotou e a saliva escorria-lhe pelos cantos da boca...


Fechou os olhos e procurou abstrair-se da situação...


Entretanto o comandante fez sinal ao oficial do segundo GComb para contornar o inimigo pela direita e aproximar-se dele pelo seu flanco esquerdo.


O 4.º GComb respondia ao fogo do IN mantendo-o ocupado e o 1.º assegurava a protecção dos flancos e da retaguarda.


O estalido produzido pela chicotada das balas que passavam sobre a cabeça de Leopoldo, colocou-o progressivamente sob uma tensão emocional incontrolável.


Atordoado levantou-se subitamente e num salto brusco agarrou a sua arma, voltou-se para o inimigo de pé a peito descoberto, com as calças em baixo e o rabo ao léu, despejou o carregador...


Quando o 2.° GComb completou o envolvimento e chegou às posições adversárias, avançando em linha com a arma aperrada à altura da cintura, disparando rajadas curtas e rápidas o IN fugiu em debandada, levando com ele apenas a arma que tinham na mão. No chão ao longo do trilho, deixaram todo o material que transportavam. Era uma boa quantidade que devia estar a ser transportada à cabeça por carregadores. Era constituída por:


— Uma mina A/C (anti-carro) MK V.


— Duas minas A/C com caixa de madeira.


— Seis petardos de TNT com 1,250 kg cada.


— Quatro minas A/P (anti-pessoal).


— Um cunhete com 1200 munições de 9 mm e uma catana espetada na terra, ao lado do trilho. Ainda vibrava quando a descobriram.


Olhando para todo aquele material um soldado comentou:


— Com estas minas em nosso poder, são menos três Berliets que vão para o maneta!...


— E menos alguns manetas que vão para o c_______... -
Acrescentou outro.


Entretanto Leopoldo alheio a tudo, de pé no mesmo lugar onde apanhara o maior susto da sua vida, cujas emoções naquele momento contidas, o iriam acompanhar o resto dos seus anos, segurava as calças com as mãos junto à cintura, sem se decidir a abotoá-las.


Uma voz amiga observou com simpatia:


- Ó nosso!... Os gajos quando viram o teu pistolão apontado para eles, borraram-se todos e deram logo o 'cavanço". É uma arma muito eficaz....


Fim do 3.º Episódio

 

 

Índice:

 

1 - Náufragos em águas de crocodilo ...................................................  7

 

2 - Os sapatos do Senhor Comandante ............................................... 21

 

3 - O vigia Leopoldo .................................................................................. 37

 

4 - O monte de voluntários ..................................................................... 49

 

5 - Esquecido na Selva ............................................................................ 59

 

6 - O dia da Raça ....................................................................................... 69

 

7 - Dois pesos e duas medidas ............................................................. 79

 

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Bimensário Regionalista «Gazeta do Tejo», edição n.º 45, de 14 de Novembro de 1965

 

 

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Bimensário Regionalista «Gazeta do Tejo», edição n.º 47, de 13 de Dezembro de 1965

 

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