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Trabalhos, textos sobre a Guerra do Ultramar ou livros

Com a colaboração do veterano Abreu dos Santos

 

Vida Ardua de Soldado autor3495 Distintivo
Luís Guimarães

Furriel Mil.º Atirador

 

Luís Alberto Gonçalves Guimarães, nasceu no dia 13 de Dezembro de 1950, em Chaves;

 

Prestou serviço militar em Moçambique (Mar72-Jun74), como furriel miliciano atirador integrado na Companhia de Caçadores 3495 do Batalhão de Caçadores 3874.

 

 

Texto:

 

 

"Ao Coronel Raul Folques ..."

 

Ao Coronel Raúl Folques

No meu percurso militar que ocorreu entre 12 de Janeiro de 1971, até 15 de Agosto de 1974,Torre e Espada1
cruzei-me com várias personalidades. É realmente certo que algumas, face à sua postura, impecável, tanto no aspeto humano e militar, merecem ser relevadas.

 

Um desses casos é o Coronel Raúl Folques.

 

Na verdade, o seu passado militar fala por si, já dono de algumas condecorações, foi hoje condecorado com a distinção mais alta concedida a um militar que muito mereceu. A partir de agora o Coronel Raúl Folque é Oficial da Ordem Militar da Torre Espada com Palma.

 

151009 PR 0401Quando entrei na tropa, as suas façanhas eram sobejamente conhecidas, sobretudo as duras pelejas passadas em Angola. Só por isso já era digno da minha admiração. Todavia, foi uma simples atitude do então Capitão Raúl Folques, que fez elevar mais a minha consideração e apreço por este digno militar.


Era eu um simples soldado instruendo do CSM que, entre Abril e Junho de 1971, com muitos outros camaradas, se encontrava no CISMI, em Tavira, na fase de especialização. O Capitão Raúl Folques era o Comandante de Companhia da Formação (CCS), acho que exercia, também, as funções interinas de 2º Comandante do CISMI. Certo dia e já fartos das refeições com pouca qualidade que nos eram fornecidas, de uma forma que não foi combinada, as Companhias de Instrução decidiram mesmo depois de cumpridas todas as praxes, não avançar para o almoço, não obedecendo por isso à ordem do Oficial de Dia, que lhe foi transmitida pelo clarim do soldado corneteiro. O Oficial de Dia era o Capitão Raúl Folques. Este estranhou o facto de os soldados em parada se encontrarem imóveis. Nestes termos assomou à janela do gabinete do oficial em serviço. Imediatamente um dos camaradas que se encontrava na frente pediu permissão para falar. Autorização concedida, pelo que, este camarada alude ao Capitão Folques as razões da atitude inesperada e estranha de desobediência. Realmente tratava-se de um protesto sobre a alimentação, foi adiantado que já nos haviam servido peixe podre e nesse dia ia ser assim. Os carapaus já fediam antes de irem para o tacho. Ouviu calmamente a queixa e determinou que a formação se mantivesse, após dirigiu-se ao refeitório para confirmar ou não, as suspeitas apresentadas. Foram minutos de suspense, a disciplina militar havia sido posta em causa, não obedecer imediatamente a uma ordem vinda de um militar com um passado notável, aliás com uma aura brilhante. A nossa atitude podia ser punida fortemente. Realmente, pouco tempo depois, o Capitão Folques, regressou do refeitório, mandou destroçar a formação, avisando que voltaria a formar daí a uma hora. Não nos deu qualquer satisfação.


Soubemos após que mandou toda a refeição para o lixo e determinou ao vagomestre que preparasse outra, os carapaus fedorentos foram substituídos por ovos e salsichas. Esta atitude, na época, não era tomada por qualquer um. O Capitão Folques, não obstante ser um militar de elite era também um humanista, sabia conjugar perfeitamente essa duas virtudes sublimes que o caracterizam, esta atitude é sinónimo do que afirmo.

 

Bem haja Coronel Raúl Folques.

 

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