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Trabalhos, textos sobre a Guerra do Ultramar ou livros

Com a colaboração do veterano Abreu dos Santos

 

Vida Ardua de Soldado autor3495 Distintivo
Luís Guimarães

Furriel Mil.º Atirador

 

Luís Alberto Gonçalves Guimarães, nasceu no dia 13 de Dezembro de 1950, em Chaves;

 

Prestou serviço militar em Moçambique (Mar72-Jun74), como furriel miliciano atirador integrado na Companhia de Caçadores 3495 do Batalhão de Caçadores 3874.

 

 

Texto:

 

 

"Omar, onde a saudade castiga mais..."

 

Era mais uma jornada para cortar no calendário, era o centésimo dia que passava em cenário de guerra, num aquartelamento perto do Rio Rovuma, era, por mera coincidência, o dia de São João do ano da graça de 1972. Efetivamente, acordei cedo e com a sensação que o dia não me ia correr bem. A lembrança saudosa da noite anterior era latente, em circunstâncias normais encontrar-me-ia a deitar e não a levantar, pois tinha sido a noitada de véspera de São João, em Braga. Com efeito, na minha cidade, esta noite é muito especial, goza-se a festa, integrado em grupos ou rusgas, até ao raiar do dia, efetuando o percurso entre a Avenida Central e o Largo de São João da Ponte. Algumas vezes realizavam-se breves paragens no Terreiro da Capela, para reabastecer em termos alimentares, para isso procurávamos as famílias do nosso bairro que ali estendiam as mantas para, calmamente, saborearem o cabrito assado e o vinho verde carrascão. Aliás comemora-se e venera-se o Santo que batizou Jesus, ininterruptamente desde a Idade Média, por isso, o seu dia, é Feriado Municipal. Os alhos-porros, as ervas de cheiro - alecrim e alfádega – bem como a nova praga dos martelinhos de plástico, enchem a atmosfera da urbe de sons e odores inabituais. Todavia, infelizmente, a realidade desse ano para mim era outra, estava na guerra, concretamente em Omar, Cabo Delgado, Moçambique. Nesse dia, o meu grupo de combate encontrava-se de serviço à recolha e distribuição de água, seriam cerca de 4,30 horas, o sol já se vislumbrava para além da escarpa do planalto maconde. As berliets, três, carregadas com bidões de 200 litros, sendo certo que cada uma levava um atrelado com um depósito de cerca de 600 litros de capacidade, já se encontravam alinhadas junto ao portão sul, com o motor a trabalhar. Após a verificação das armas, do morteiro e do pessoal, ainda questionei o João Gonçalves, no sentido de verificar que bala é que tinha introduzido na camara da G3, dado que ele levava cinco dilagramas na missão e um deles já se encontrava na ponta do cano da arma, todas as interrogações foram respondidas de forma cabal. Nesta conformidade, foi dada ordem para avançar. Entre o aquartelamento e o ribeiro onde se recolhia a água não distavam mais de 2 Km, não se picava para detetar qualquer explosivo, eventualmente ali colocado perlo IN, contudo, na frente da primeira viatura iam, apeados, dois elementos em cada rodado e respetiva segurança, a fim de averiguar se as marcas dos pneus moldadas no solo na viagem anterior ainda estavam visíveis, caso existisse alguma dúvida logicamente que se verificaria se algo de anormal se passava, picava-se e se, necessário fosse, também se passava o detetor de metais. Porém, nesse dia estava tudo normal, consequentemente, ao cabo de quinze minutos estávamos à entrada do largo da água, interrompemos a marcha por momentos, o Abrunhosa que era o apontador de morteiro, ainda me perguntou:

 

- Meu Furriel, bato a zona.

 

Bater a zona consistia em mandar duas ou três granadas de Morteiro 60 mm e umas rajadas de G3, para os locais mais altos e cerrados da mata circundante. Isto vem a propósito, porque aquele local era de perigo eminente, pois ficava num pequeno vale e, portanto, susceptível de ali ser armada uma emboscada pelo IN. Aliás, a Companhia que rendemos (CCaç 3310) sofreu naquele local, uma surtida da Frelimo que lhe provocou baixas. Mas aquele dia era São João e apenas por intuição e porque o Santo Padroeiro da minha cidade não me deixaria ficar mal, respondi:

 

-Hoje, vamos proceder à operação em silêncio.

 

Por conseguinte, as viaturas retomaram o andamento e a chegada ocorreu sem problemas. O Grupo de Combate dividia-se em dois, um procedia à segurança, colocando-se, metodicamente, na orla da mata, já o outro dedicava-se à operação substantiva de enchimento dos depósitos. No entanto, quando este segundo grupo preparava o motor de tirar água, constatou que, face à estação do ano em que estávamos – Seca - o caudal do ribeiro tinha mirrado, realmente era um pequeno fio do precioso líquido. Mais chatices e trabalho extra, na realidade lá se sacaram as pequenas enxadas e as pás existentes nas viaturas e começou a escavar-se o leito, com o intuito de criar uma poça capaz de proporcionar um depósito onde o tubo de sucção do motor fosse eficaz. A meio da operação, foi com espanto que um dos cavadores me informou:

 

- Meu Furriel está aqui um peixe.

 

A princípio supus que fosse brincadeira, pois nunca ali tinha sido avistado qualquer espécie piscícola, mesmo quando o ribeiro parecia um rio, mas nesta altura, como já referi, tempo das secas, com o leito muito ressequido parecia um paradoxo. Entretanto, fui-me aproximando e, na verdade, nas mãos do Silva rabiava um peixe, feio como tudo. Tinha uma grande cabeça e uns grandes bigodes. Consequentemente, apelidei o bicho de peixe-gato, ofereceu-me o animal para a refeição, mas recusei e disse-lhe que os tesouros pertencem ao achador. Logo, o peixe era seu e que fizesse dele o que bem lhe apetecesse. Não obstante o caricato este episódio pitoresco o raio da nostalgia continuava a formigar na minha cabeça. A operação de encher todos os depósitos que, normalmente demorava trinta minutos naquele dia demorou cerca de duas horas, até ao ponto de ter sido contactado, via rádio, pelo aquartelamento questionando-me os motivos da demora em regressar ao quartel. Felizmente, nesse dia a operação, embora muito morosa e mais trabalhosa que o costume, terminou sem qualquer tipo de perigo. Cerca das 7,00 horas estávamos no aquartelamento.


Apesar disso, continuava com aquela sensação que as coisas não iam correr bem, era uma premonição danada. Tomei o pequeno-almoço e peguei num livro, comecei a ler a obra “ Cento e um tiros de canhão”, de Henry Troya, um romance que se passava na revolução bolchevique. A meio da manhã o macaco Zeca, pertencente ao meu camarada Fausto, do Pelotão de Sapadores, soltou-se da sua corda que o privava da liberdade e começou a deambular livremente por todo o quartel, fazendo mil e uma traquinices, pelo que a minha leitura foi interrompida. A “fera” era perseguida pelo seu dono, ajudado por mais dois ou três camaradas, o bicho acossado mais intimidado ficava, a determinada altura refugiou-se na Secretaria e aí deu-se o auge da performance do símio, começou a espalhar a papelada quase originando um enfarte ao 1º Sargento Figueiredo, parecia que o fazia de propósito. A muito custo, o dono lá conseguiu apanhar o seu animal de estimação. Estranhamente o outro macaco da Companhia, o King, embora preso, parecia feliz com a atuação do seu comparsa, soltava guinchos estridentes e fazia gestos eufóricos, produzindo a sensação que ambos se encontravam de conluio. Aliás, esta atitude provocatória dos macacos não era nova. Certo dia, quando andávamos em missão de patrulhamento, perto do Lago Lidede, numa altura em que estacionamos para almoçar, começamos a ouvir um forte restolho nas copas das árvores, era um grupo de macacos que por ali vagueava. Quiçá defendendo o seu território, quando nos avistaram começaram a agredir-nos com frutos que recolhiam dessas mesmas árvores. Apesar de burlesco e cómico, nem o incidente do Zeca me animava, a melancolia persistia.


Veio o almoço, veio a futebolada da tarde, veio o jantar, na “hora maconde” veio a ida para as valas em prevenção a um eventual ataque à morteirada, mas, felizmente nada de anormal aconteceu, a Frelimo não quis comemorar o São João! … Ainda assim a melancolia e a nostalgia não me largavam. À noite quando já deitado, cheguei à conclusão que a causa do mal-estar era, simplesmente, a saudade ou “home sick” como, dizem os ingleses. Saudade da casa, da família, dos amigos, da minha terra e do São João Batista, ou melhor da sua noite, a custo lá consegui adormecer. Amanhã vai ser outro dia e, felizmente, foi …

 

 

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