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Trabalhos, textos sobre a Guerra do Ultramar ou livros

Com a colaboração do veterano Abreu dos Santos

 

Vida Ardua de Soldado autor3495 Distintivo
Luís Guimarães

Furriel Mil.º Atirador

 

Luís Alberto Gonçalves Guimarães, nasceu no dia 13 de Dezembro de 1950, em Chaves;

 

Prestou serviço militar em Moçambique (Mar72-Jun74), como furriel miliciano atirador integrado na Companhia de Caçadores 3495 do Batalhão de Caçadores 3874.

 

 

Texto:

 

 

"Parece que é bruxo! …"

 

 

Mesmo quem nunca foi à tropa sabe que existem vocábulos e calão que apenas se usam durante o tempo passado nas fileiras. Na guerra das colónias e concretamente em Moçambique, havia uma série de termos que ouvidos fora do contexto podiam provocar alguma confusão. Este texto não pretende ser um dicionário. Todavia vamos citar alguns termos que por serem susceptíveis a criar algum embaraço, são dignos de referência. O primeiro que se ouvia logo na chegada à Província, era o “checa”, significava elemento das forças armadas recém-chegado à província de Moçambique, podia significar novato, sem experiência militar, ingénuo e era usado depreciadamente. Ao contrário, existia “Velhinho”, elemento experiente e com mais de 50% da Comissão cumprida. Nesta área existia ainda o “VCC” (Velhinho comó caralho), elemento que já excedia, no tempo, os 24 meses de Comissão. Este tempo extra também era conhecido por “mata-bicho”. Retirado de um dialeto indígena, havia ainda o vocábulo “Cocuana” que a par de significar velho e antigo, também queria dizer manhoso.


Na linguagem oral existiam também algumas frases feitas, como por exemplo: “Parece que és bruxo!”. Utilizava-se quando alguém fazia uma afirmação que correspondia totalmente à verdade e não era necessário efetuar nenhuma infirmação ou correção à mesma. Quando, em Fevereiro de 72, cheguei à Beira encontrei dois amigos da minha cidade que, obviamente me perguntaram qual era o meu destino. Disse-lhes: Omar. Responderam: -Estás “fodido”. Retorqui: -Porquê? Aquilo é mau. Resposta final: -Parece que és bruxo!


Existia também o superlativo relativo “é mato”, significava muito, excesso, quantidade. Em virtude do uso deste termo fora da situação de comunicação, podia gerar confusões. Adianto como exemplo o que se passou com um soldado do meu Pelotão, o Monteiro. Era natural de uma aldeia situada em Trás-os-Montes profundo. Era conhecido pelo “Terrinas”. Na correspondência que mantinha com os seus pais, em determinada altura o progenitor, baseado nas fotografias que lhe eram remetidas pelo filho, achou-o mais magro e disso lhe deu conhecimento. O “Terrinas” respondeu-lhe que não era verdade, até estava mais gordo, a alimentação, na tropa, embora não possuísse muita variedade e qualidade, “era mato” e ele como tinha “boa boca” não tinha problemas, comia, em quantidade, o que lhe apetecesse, fazia-o sempre até ficar saciado. Logicamente que o “velhote” ficou preocupado e na missiva seguinte lá introduziu dentro do envelope uma nota de Quinhentos Escudos, dizendo para comprar alguma coisinha na cantina, pois o mato apenas o come os animais.


Havia ainda aquele verbo que ninguém desejava que lhe fosse aplicado, nem tão pouco ajustado a qualquer camarada. Porém, se fosse destinada a algum elemento do IN, embora possa parecer mórbido ou sádico, em certas circunstâncias até se comemorava. Era o “lerpar”. Realmente “lerpar” queria dizer morrer. Este termo, no jogo de cartas de sorte e azar da “Lerpa”, significava perder. Na gíria da tropa, foi transposto do jogo de cartas para o jogo da vida.


Outro termo dizia-se quando alguém tinha alguma coceira. Como é lógico, com as unhas arranhava-se, às vezes, desesperadamente, com o fim de acabar com o prurido. Nestes casos o comentário que normalmente se ouvia era: -Parece que apanhaste feijão macaco.


O feijão-da-flórida (Mucuna pruriens) é uma planta anual que chega a medir até 20 metros, da família das leguminosas, subfamília Faboideae. Tal espécie é tropical, nativa da África, Índia e Caribe, possui flores roxas ou purpúreas e vagens oblongas. Também é conhecida pelos nomes de feijão-cabeludo-da-índia, feijão-de-gado, feijão-mucuna, FEIJÃO-MACACO, feijão-maluco, feijão-veludo e mucuna-vilosa.


A vagem era coberta por pequenas partículas, parecia veludo, que em contacto com a pele, causava uma comichão danada. Realmente, quanto mais se coçava mais a coceira aumentava. Era, efetivamente, um suplício, quiçá superior à tortura de Tântalo. Em determinada altura, no norte de Moçambique, na região de Omar, durante uma evacuação, o helicóptero tanto na descida como na subida, fê-lo num local recheado deste temível vegetal, a agitação do ar produzida pela hélice provocou a largada na atmosfera das tais partículas do feijão-macaco em abundância, cerca de 90% do pessoal foi atingido. Na verdade, foi o desespero total, se a Frelimo estivesse por perto, não sei como seria, na medida em que a nossa ação e atenção se encontrava virada para acabar com a ação do produto pruriente, libertado pelo raio da vagem do feijão. Na realidade o alerta para com o inimigo, inconscientemente, deixou de existir.


Noutra ocasião, na cidade de Vila Pery, dois elementos da minha Companhia, porque numa ocasião anterior não tinham sido bem recebidos na sala de cinema daquela cidade. Em jeito de retaliação, numa segunda visita resolveram levar para o interior da mesma, um envelope com quatro vagens de feijão-macaco. Não havia ar condicionado na tal sala de espetáculos. Contudo existiam, pelo menos, duas grandes ventoinhas que ao girar velozmente, produziam a movimentação do ar, tornando-o mais fresco. Depois de apagadas as luzes para início da sessão, cada um deles colocou debaixo dessas ventoinhas, duas dessas vagens. Daí a pouco, foi um vê se te avias, parecia que havia um incêndio na sala, toda a assistência a fugir apressadamente coçando-se como e onde podiam. Realmente gerou-se uma enorme confusão e algum pânico.


Havia ainda o “apanhado pelo clima”, desses estava a ala Psiquiátrica do Hospital Militar de Nampula cheia. Até me recordo de ter lá visto um Tenente-Coronel. Era o pessoal que não aguentava a pressão e entrava em depressão nervosa ou outro tipo de doença mental, eram aqueles que em termos psíquicos não aguentavam. Mas, por vezes, este cliché também era usado informalmente. Na verdade quando alguém proferia algum disparate, era recorrente dizer-lhe: Não sabes o que dizes, estás “apanhado pelo clima”. Neste caso significava estás maluco, és inimputável.


Quando se recorria ao sexo, comprado ou não, sobretudo com mulheres africanas, com certeza que era imprescindível saber o que queria dizer “fazer máquina”, em termos de não ferir suscetibilidades, o sinónimo é praticar cópula carnal.


Os elementos da Frelimo, de uma forma geral eram denominados por “turras”, mas havia termos que os destrinçavam analisando a sua capacidade para a guerra. Existiam os “guerrilheiros”, de facto, tinham preparação militar, normalmente era-lhes administrada nos Países de Leste ou na China, andavam bem armados. Por outro lado existiam os “machambeiros”, a experiência militar que possuíam era fornecida pelos guerrilheiros e também a ganhavam com a experiência no terreno. Executavam tarefas menores como carregadores, eram eles que carregavam as minas, que eram colocadas na picada, bem como os morteiros 82 mm, o conjunto tubo mais prato e respectivas granadas. Utilizados nos ataques a colunas e a aquartelamentos. Andavam armados, normalmente, com armas de repetição ou artesanais, tipo canhangulo.


Embora possa parecer paradoxal, o termo “machambeiro” também era utilizado para identificar os Oficiais Superiores do nosso Exército. “ Os corações do soldado pisam-no os “machambeiros…”, parte da letra de uma ária do Cancioneiro do Niassa. Já o termo “Chico” era aplicado a todos os elementos profissionais das forças armadas, fossem eles Oficiais, Sargentos ou Praças. Meter o “chico” queria dizer: -Meter o requerimento para ingressar, em termos profissionais, nas Forças Armadas.


No calão militar considerava-se “Coca-Cola”, todo o mancebo, branco, recrutado na província ultramarina. Com efeito, não importava ser natural ou migrante, desde que fosse incorporado localmente era mesmo “Coca-Cola”. Estou em crer que este termo derivou do facto dos habitantes de Lourenço Marques, serem também conhecidos daquela forma.


Havia, ainda, “Maningue” significa muito, muitos, é uma espécie de estrangeirismo, advém do vocábulo língua inglesa many (muitos e muitas), falado nos países vizinhos, África do Sul e Rodésia. Portanto “maningue” de coisas havia para dizer, mas hoje, ficamos por aqui.

 

 

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