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Rocha de Sousa

 

Nasceu em 1938.


Em 28 de Junho de 1961, tendo sido mobilizado pelo Regimento de Infantaria 3 (RI3 - Beja) para servir Portugal na Província Ultramarina de Angola, embarcou em Lisboa no NTT 'Vera Cruz' rumo ao porto de Luanda, integrado na Companhia de Caçadores 166 do Batalhão de Caçadores 158 «UNIDOS VENCEREMOS».


Em 26 de Outubro de 1963 concluída a sua missão, iniciou a torna-viagem.

 

O livro:

 

"Crónica de Guerra - Angola 61"

 

 

título: "Crónica de Guerra - Angola 61"
autor: Rocha de Sousa

editor: Círculo de Leitores
1ªed. Lisboa, 1999
360 págs
24,5x15,5 cm
dep.leg: PT-139182/99
ISBN: 972-42-2034-6

 

Excertos:

 

- «Quando cumpria o serviço militar; em 1961, fui subitamente mobilizado para Angola e integrado nos primeiros batalhões. [...] Senti a realidade desse salto no abismo, entre 1961 e 1963, e trouxe de Angola exaustivos apontamentos sobre acções concretas de toda a comissão. São infernais e fascinantes deslocamentos, a precaridade inicial de tudo. São retratos vivos e notícia dos mortos, a lassidão e o medo, o afundamento numa espécie de lucidez revelada, perguntas entretanto envolvidas por diversas concordâncias, o sentido dos factos esclarecendo-se a todo o comprimento de noites regadas a café, iluminadas de insónia.
[...]
Uma das nossas patrulhas, [em 07Out1962] constituída, segundo a escala, pelo pelotão do alferes [miliciano Mário Alfredo Ferreira] Pêgo, da 166, [...] ficou "encravada" já perto de Nambuangongo, no regresso da sua missão, batida à frente e atrás por fogo de armas automáticas, com os flancos igualmente bloqueados por tiros longitudinais, de marcação. Entre lombas, num escasso troço recto da estrada, sem dispôr de relevos aproveitáveis [...], o pelotão do alferes Pêgo limitava-se a poupar munições, colado à terra, esperando qualquer aberta providencial e procurando, em conjunto, a força de sobrevivência capaz de abortar o mínimo indício de pânico. Mas era difícil sair daquela situação, gerindo apenas as munições e o tempo. Quarenta e cinco minutos bastaram para que começassem os lamentos dos mais temerosos, e para que outros, porventura igualmente temerosos, colocassem as armas acima das cabeças, disparando rajadas de descompressão e nenhuma eficácia. Logo aos primeiros devaneios deste tipo, uma das nossas armas foi batida por tiros rasantes, soltando-se em cambalhotas, enquanto o soldado que a erguera desatava aos berros, a chamar pela mãe e a clamar "ai que me mataram". O furriel João [Rosa Coelho] David, tomando à letra os acontecimentos, [...] vendo os seus companheiros a fazer fogo ao acaso, sobretudo para o ar, pensou que os guerrilheiros ensaiavam um ataque final, entrou em pânico, agarrou duas armas, saltou bruscamente para diante, de pé, disparando à sua volta com as espingardas automáticas à ilharga. Ao surpreender o inimigo com a deslocação da geometria de tiro, obrigando-o a recolher-se diante da anárquica mas perigosa flagelação a que era submetido, João David abriu espaço aos seus companheiros para sair da zona de morte, na raiva de uma fuzilaria maciça [...] dirigida aos pontos vitais da emboscada. A coberto dos trilhos, bem escondidos pela anatomia do terreno, os guerrilheiros iniciaram depressa a retirada [...]. O alferes Pêgo, laboriosamente, conseguiu que os seus homens suspendessem por completo o fogo. [...] Quando o pelotão chegou a Nambuangongo, as atenções concentraram-se no "hospital". O ferido, o soldado Ermidas, tinha o pulso direito perfurado de um lado ao outro [...]. Sentado na cama ao lado, [...] para meu espanto, sorria o furriel João David, sempre com o seu bom humor sonolento e fanhoso. Tinha as mãos entrapadas. Contou-me como perdera a cabeça e como arrebatara as duas armas, disparando-as em rajadas quase contínuas. "Já sei que o Pêgo vai louvar a minha loucura" - disse ele -, "mas eu quase não me lembro do que fiz, acagacei-me e se calhar ainda me espetam com uma daquelas cruzes de herói". Riu-se. Depois fingiu chorar, erguendo as mãos enluvadas de gaze, e lamentou: "As armas saltavam muito, estavam em brasa, e cheguei a agarrá-las pelo cano. Nem senti as queimaduras no momento".»

 

 

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