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Elementos cedidos por um Veterano

 

Rodrigues Soares

 

Veterano da guerra do Ultramar.

 

Serviu na Região Militar de Moçambique integrado na Companhia de Comando e Serviços (CCS) do Batalhão de Artilharia 2901, no período de 17 de Fevereiro de 1970 a 8 de Março de 1972

 

 

O livro:

 

«A guerra na picada»

 

 

Título: "A guerra na picada"
Autor: Rodrigues Soares

 

Colecção: Viagens na Ficção

Páginas: 496

Data de publicação: Junho de 2014

Género: Narrativa

Preço: 17,00 €

ISBN: 978-989-51-1343-9


Excerto:
- «Junto do ferido, com intenção de animá-lo, fui incapaz de lhe dizer o que quer que fosse. Fiquei prostrado diante dele, trocando olhares, linguagem de dor e de sofrimento, com as lágrimas a correrem-nos pela face. Um tremendo nó apertava-me a garganta. Não devia chorar e, no entanto, era só isso que podia fazer.»

Fonte: "Chiado Editora"

 

Introdução:

 

Passadas quatro décadas, por que razão só agora vem à tona esta narrativa? — Poder-se-á perguntar.

 

Tal como todos nós, também a escrita precisa de um tempo para amadurecer, tempo desmesurado que, para quem, como eu, não nasceu talhado para a lide, parece ainda mais longo.

 

Numa pequena agenda, comecei por registar os acontecimentos mais importantes desde que entrei para o serviço militar, em janeiro de 1969.

 

Em 1977, o Diário de Notícias desafiou os leitores a escreverem sobre o tema: "Aconteceu na minha vida". O mote ressuscitou-me a ideia de escrever sobre a guerra. Nas semanas seguintes deitei mãos à obra, reproduzindo as imagens que me trespassavam a mente com uma precisão impressionante. Por fim, lá enviei as 50 páginas datilografadas a dois espaços, o máximo que era permitido apresentar a concurso. E aguardei pelo resultado, sem grande expectativa, diga-se em abono da verdade.

 

Depois de enviar o texto para o jornal, dei-me ao trabalho de o reler várias vezes. No final de cada leitura resultava a mesma conclusão: a limitação das 50 páginas obrigou-me a resumir situações, a deixar pormenores importantes por contar. Apesar de me saber sem veia para grandes floreados estilísticos, estava decidido a reescrever a narrativa.

 

Fiquei surpreendido quando, semanas depois, me comunicaram que o júri tinha classificado "Quem foi à Guerra" em primeiro lugar. O prémio de vinte contos, devo confessá-lo, fez-me esfregar as mãos de contente; às finanças familiares, então com ordenados em atraso, deu um jeitão.

 

Em agosto do mesmo ano, o jornal começou a publicar a narrativa em rodapé, ao jeito de folhetim, com uma chamada de atenção na primeira página. Fiquei então a saber a opinião do júri, constituído pelos escritores Augusto Abelaira, João Gaspar Simões, Maria Judite Navarro, pelo diretor do jornal, João Gomes, e pelo jornalista e crítico literário, Diogo Pires Aurélio.

 

O escritor Augusto Abelaira, na sua declaração de voto, fez questão de deixar expresso:

 

"Pessoalmente, choca-me que o autor, referindo-se aos patriotas moçambicanos, os acuse de cobardia por causa do tipo de luta que impunham às tropas portuguesas, mas compreendo que quem assiste à morte e ao sofrimento dos camaradas dificilmente seja capaz de uma visão serena e equilibrada. De qualquer modo, penso que merece o primeiro prémio."

 

Recebi algumas cartas de incentivo, bem como um cartão do José Vaz, companheiro de jornada, dizendo: "E... Vamos ao livro." De um emigrante em França veio a exceção. E que exceção! Fez saber na sua carta que combateu em Angola e por lá derramou sangue e suor. Para depois, sem mais delongas, afirmar: "... Só me lamento e me revolto por esse sangue e suor que lá derramei estar a ser sugado pelos soviéticos e cubanos. " Terminou apelidando-me "... traidor, cobarde, indigno... "

 

Deu-me que pensar a posição extremada desse senhor, a par da crítica do escritor Augusto Abelaira, não tanto pelas posições assumidas, mas sobretudo pela convicção que me ficou de quão controversa e polémica era a questão da guerra colonial. Decidi, por isso, deixar passar o tempo. O distanciamento traria a tal "visão serena e equilibrada" de que todos beneficiaríamos.

 

Mas não tardei em deitar de novo mãos à obra e reescrever a narrativa. No final, não lhe reconheci mérito para poder ambicionar vê-la publicada. Desde a década de oitenta que o ficheiro salta de computador para computador, sem que eu resolvesse dar-lhe a volta, burilar as suas arestas mais agrestes.

 

Finalmente, decidi pôr um ponto final nesta saga. Com uma única preocupação: não escamotear a verdade.

 

Nestas quatro décadas, muita coisa se tem dito e escrito sobre a guerra colonial, especialmente do ponto de vista político. Livros, vídeos, fotografias e depoimentos procuram fazer luz sobre um período negro e conturbado da nossa história coletiva. Esta narrativa pretende apenas ser mais uma pequena e humilde achega.

 

Da guerra não guardo ódio nem saudade. Todavia, passados mais de quarenta anos, ela continua viva na minha memória, não se desvanece. Vai morrer comigo, pressinto.

 

Não fui guerreiro. Muito menos herói. Fui um entre muitos milhares de portugueses que se limitaram a cumprir um dever que lhes foi imposto.

 

Este livro é também uma singela homenagem a todos aqueles que viveram a dolorosa experiência da guerra colonial, especialmente aos meus companheiros do Batalhão de Artilharia 2901.

 

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