Desta
feita chego ao fim das leituras resultantes
do encontro de escritores, da “Papiro
Editora”, a 25 de Abril de 2009, no Porto. O
livro é de
João Carlos
Sarabando e chama-se
As
Hienas Também Choram
(Papiro Editora, 451 páginas).
Neste livro o autor traz-nos à memória a
guerra colonial. Como diz o autor:
«Participaram, cada um à sua maneira, numa
aventura onde aprenderam que as palavras sem
emoções, as ideias e os preconceitos sem
experiência não tinham qualquer significado.
No princípio julgavam que iriam participar,
cada um por razões diferentes, numa guerra
contra alguém. Só mais tarde perceberam que
esse alguém eram eles mesmos. Não foi uma
guerra contra ninguém, foi a construção de
si próprios. Não foram heróis nem traidores,
soldados ou guerrilheiros, não participaram
na história de ninguém, apenas construíram
um bocado da sua. Os abraços que deram, as
feridas que lamberam, os amigos que
enterraram, ou os inimigos que abateram não
foram, por isso mesmo, aquilo que antes
julgavam que fosse. Nunca é».
Aqui fica um excerto: «À entrada do bloco
esperava-nos o terror... Soldados, ou o que
restava deles, e um bocado por todo o lado,
faziam bicha deitados em macas, naquele
exíguo espaço que não fora dimensionado para
semelhante afluência. Os enfermeiros de
serviço procuravam fazer a triagem da
situação, identificar sumariamente a
identidade e o estado das vítimas, ao mesmo
tempo que corriam connosco de lá para fora.
As portas do bloco operatório, sempre a
abrir e a fechar, mostravam de forma
intermitente a tragédia desta guerra... a
mais sanguinária que se possa imaginar:
Soldados a serem amputados de uma ou mesmo
das duas pernas, em condições de trabalho
impensáveis! Aqueles médicos só sendo
super-homens ou super-dráculas, poderiam
aguentar um turno daquela carnificina, não
havia meio-termo... Os cheiros a suor,
sangue, calor e outros mais pestilentos,
misturados com gritos lancinantes,
transformavam aqueles profissionais em
monstros/deuses com gestos sempre bruscos e
mecanizados. Nenhum sentimento ou emoção
parecia cobrir-lhes o suor a correr em bica
dos rostos; apenas o frenesim nas serras a
cortar a carne e os ossos para desgraçar a
vida, mas matar a morte...»
(José Amaral)
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