Carnaxide - 27 de Abril de 2009 - Conferência
O problema da guerra do
Ultramar - O 25 de Abril
Os livros do Cor. Inf. Manuel
Amaro Bernardo
"Os meus Livros, o 25 de
Abril e a Revolução"
Antes de entrar no
tema que me propus apresentar, gostaria de fazer um
breve comentário sobre a sessão anterior.
Ficaram bem patentes
as posições antagónicas e cheias de equívocos dos dois
grupos; os oficiais do QP oriundos de cadete e os
oficiais do QP oriundos de milicianos. Não vou aqui
dizer o que concluí sobre o que pretendia saber em
relação ao comando coluna das Caldas. Sobre isso eu e
quem esteve presente julgo termos ficado elucidados.
Mas sobre o
fundamental e de interesse para a História, cujo debate
cheio de recalcamentos foi iniciado há cinco anos atrás,
em Oeiras, sob o patrocínio do nosso amigo Manuel Barão
da Cunha, hoje o moderador desta mesa, considero que
este assunto deve ser mais aprofundado e investigado. E
é tudo.
Entrando no tema,
faria inicialmente uma breve abordagem genérica sobre o
25 de Abril e a revolução que imediatamente se lhe
seguiu.
Muita gente,
incluindo meus familiares, está convencida que a
situação a que Portugal chegou actualmente foi o
resultado do 25 de Abril. Tal também é a versão
predominante em algumas áreas da direita portuguesa.
No entanto, na
minha opinião, tal não tem razão de ser, pois em
qualquer democracia e nomeadamente nas ocidentais -
europeias ou norte-americanas -, o poder está entregue à
sociedade civil e aos seus representantes. Foi isso que
veio a suceder após o 25 de Novembro de 1975. Assim, os
militares apenas fizeram a ruptura e o golpe de 25 de
Abril de 1974 para montar um regime democrático e tentar
resolver o problema da guerra em África.
Passados que são
35 anos sobre essa tentativa de instalação do regime
democrático e com a mudança e responsabilidade dos
partidos políticos na evolução política e económica de
Portugal, ao longo destas décadas, alguém ainda poderá
dizer que a culpa da situação actual é dos militares que
fizeram o 25 de Abril?
Julgo que tal
versão não tem a mínima credibilidade. Basta reparar o
miserável estado para que, na minha opinião, foi
remetida a Instituição Militar pelos dois Partidos que
têm alternado no governo português (PS e PSD). Desde há
muito que têm vindo a cortar nos orçamentos das Forças
Armadas, a retirar os direitos adquiridos ao longo dos
tempos e a quererem transformar os militares em
funcionários públicos!!!
Esquecem-se que em
qualquer regime democrático, a Instituição Militar tem
uma condição específica completamente diferente das
outras e é o baluarte último da defesa da Pátria e
garante do normal funcionamento das instituições
democráticas.
O problema da
guerra do Ultramar
Recorde-se que o
regime de Marcelo Caetano sempre se opôs a qualquer tipo
de negociação com os movimentos guerrilheiros e
independentistas, que nos combatiam em África. E uma
guerra daquele tipo subversivo, apenas se conseguia
solucionar através da negociação política e, se
preferível, em posição de força, como era o caso de
Angola. Quanto a Moçambique (no extremo Norte) e Guiné
(na quase totalidade) poder-se-á dizer que havia um
certo equilíbrio de potencial relativo no terreno.
Em relação ao
sucedido em África, Timor e Macau no pós-25 de Abril,
muitos mais sectores da sociedade portuguesa consideram
que a descolonização foi muito mal conduzida…
Não foi com
certeza como a esquerda referiu inicialmente de
exemplar; talvez seria melhor aplicar o rótulo
de desastrosa, com os militares lá
sedeados, de “malas aviadas” para regressarem a
Portugal, logo que souberam da alteração do poder em
Lisboa
Como é sabido
foram bastante apoiados nessas intenções por declarações
públicas de dirigentes do PCP e PS, como Mário Soares e
Almeida Santos. Estes ainda antes da posse do Presidente
da República, António de Spínola, em 15 de Maio de 1974,
já afirmavam publicamente que a guerra em África apenas
se resolvia com a independência dos territórios, que
seriam entregues aos ditos movimentos de libertação, que
nos combatiam no terreno.
Claro, que no seu
livro “Quase Memórias” , publicado há cerca de 3 anos, o
Dr. Almeida Santos não assume a sua parte de
responsabilidade e joga a culpa do sucedido para as
costas dos militares.
Ainda em relação à
descolonização, lembro o comentário bastante pessimista
de uma prestigiada figura (já falecida) oriunda da
oposição ao regime salazarista e marcelista, que é o pai
do actual director do semanário “Sol”: o Professor
António José Saraiva. É também irmão do historiador e
grande comunicador de TV que se chama Hermano José
Saraiva.
Aquele professor, num
artigo publicado no DN de 26-1-1979, com o título “O 25
de Abril e a História”, considera a descolonização
como sendo a maior vergonha desde Alcácer Quibir.
Quero recordar que
idêntica posição foi tomada pelo General Manuel Monge,
ex-assessor militar de Mário Soares, na presidência da
República, numa entrevista que me concedeu, em 1997 (In
“Manuel Bernardo/ Memórias da Revolução / 2004, pp 559):
A
descolonização é a página negra da História de Portugal
Contemporâneo. É a grande nódoa de Abril.
E acrescentava que “a
descolonização foi feita na defesa dos interesses
políticos e estratégicos da União Soviética, dos seus
aliados e dos seus movimentos no terreno.”.
“Foi contra
os portugueses residentes em territórios sob a nossa
administração e contra os interesses das suas
populações”.
Mas a questão que se
coloca ainda hoje é saber se podia ter sido feita de
outro modo, naquelas condições concretas.
Para mim, a última
oportunidade perdida ocorrera aquando da indigitação de
novo de Américo Tomás para a Presidência da República,
em 1972. E Marcello Caetano acabou por ficar refém da
linha mais ortodoxa do regime, e não permitir a
negociação da independência a prazo, que lhe fora
proposta por António de Spínola e Amílcar Cabral. Este
assunto já foi bem realçado na palestra da sessão
anterior, do Coronel Armando Ramos.
Recorde-se ainda o
sucedido em Moçambique, onde outro homem de grande
envergadura, o Eng.º Jorge Jardim, tinha gizado o
denominado Programa de Lusaca, em 1973. Tratava-se de
chegar à negociação política com os guerrilheiros, que
lá nos combatiam.
Este anterior homem
de confiança de Oliveira Salazar, julgo que já tinha o
apoio do Malawi e da Zâmbia e estava em vias de
conseguir o beneplácito da Tanzânia para negociar
directamente com a FRELIMO
Tal acabaria por ser
frustrado dado a anterior antagonismo do General Costa
Gomes em relação ao Eng.º Jardim, e a sua influência, na
altura, junto de Marcello Caetano. Este Presidente do
Governo não viria a aceitar tais negociações, tal
acontecera no ano anterior (1972, como referido) com
António de Spínola, na Guiné.
E seria Melo
Antunes, já ministro de Vasco Gonçalves, depois da
denominada “crise Palma Carlos”, a desenvolver as
diligências com vista à entrega do poder à FRELIMO, após
o grande esforço feito por esta organização guerrilheira
no terreno, a seguir ao 25 de Abril.
25 de Abril de
1974
Em relação ao 25 de
Abril, iria apenas comentar, de maneira breve, um artigo
do Coronel Aventino Teixeira, recentemente falecido,
cujo texto me entregara há cerca de cinco anos, quando
colaborou no livro sobre o 25 de Novembro, e agora
difundido na Internet pelo meu amigo Joaquim
Vasconcelos.
Enquanto para ele o
25 de Abril seria um golpe de Estado falhado, por o Povo
ter vindo para rua apoiar a acção, à revelia das
indicações dadas na Rádio, pelos dirigentes do golpe,
para mim, o golpe foi bem sucedido. Mas, nesse mesmo dia
foi iniciado de facto um processo revolucionário, para
que ninguém estava preparado.
E sobre as
afirmações, na sessão anterior, pelo Coronel Roberto
Durão, de que o PCP já estaria por dentro da conspiração
e logo a seguir conseguiu condicionar o poder para que
fosse feita uma descolonização de acordo com os
interesses da União Soviética, para mim, como já referi,
isso foi, de facto, o objectivo principal.
Mas, da investigação
que tenho feito, cheguei à conclusão que enquanto a
PIDE/DGS, apesar de acompanhar a conspiração, foi
completamente surpreendida pela data do golpe, o PCP
apenas terá sabido cerca de dois dias antes, como já foi
afirmado, em livro, pelo seu dirigente Jaime Serra.
Julgo que tal ocorreu quando os militares operacionais
receberam a ordem de operações e os jornalistas das
rádios, as senhas para lançarem no ar, na madrugada de
24 para 25 e referidas pelo Coronel Ferreira da Silva na
sessão anterior.
E ficaria por
aqui nos comentários sobre os acontecimentos.
Os meus livros
Vou agora fazer
referência aos trabalhos que tenho publicado depois do
25 de Abril.
Depois da
experiência de ter lançado um livro de combate político
em 1977, com o pseudónimo Manuel Branco, - “Os
Comandos no Eixo da Revolução; Crise Permanente do PREC;
Portugal 1975-1976”, e de ter frequentado, em regime pós-laboral, um Curso
Complementar de Informação, na Universidade Católica
Portuguesa (1990-93), acabei por me iniciar na
investigação da nossa História recente. Aquele livro
manter-se-ia durante um mês e meio no quadro dos mais
vendidos em Portugal, o que, me deu algum incentivo para
continuar.
Depois, a tese do fim
do citado curso seria um trabalho, que originou o livro
“Marcello e Spínola; a Ruptura; As Forças Armadas
e a Imprensa na Queda do Estado Novo; Portugal
1973-1974. Nele colaboraram com depoimentos
feitos em entrevistas realizadas vários oficiais do
Exército, desde o Marechal António de Spínola, passando
por Hugo dos Santos, Casanova Ferreira e Manuel Monge e
acabando no Virgílio Varela. Também entrevistei os
jornalistas (e directores de jornais) Raúl Rego e Pinto
Balsemão.
Este livro esgotou
numa fraca editora (Margem) de um jornalista, que também
era vigarista, pois recebeu o dinheiro para a edição e
depois de ela se esgotar não me liquidou as despesas
verificadas. Consegui então uma 2.ª edição, com o já
falecido Manso Pinheiro, da Editora Estampa. Encontra-se
numa colecção “História de Portugal”, juntamente com
autores como José Mattoso, Fernando Rosas, José Medeiros
Ferreira, Maria de Fátima Bonifácio, António Costa Pinto
e António José Saraiva.
Para completar este
período da Revolução Portuguesa, e depois de ter feito
entrevistas a cerca de quarenta militares intervenientes
nos acontecimentos quer em África, quer no continente
português, em 1999, publiquei um livro em dois volumes,
com o título “Equívocos e Realidades; Portugal
1974-1975”, na Editora Nova Arrancada.
Este trabalho
após esgotar, seria actualizado e deu origem ao livro “Memórias
da Revolução; Portugal 1974-1975”, na Editora Prefácio. E por esta editora me fiquei, até
hoje. Ali ao lado está uma banca dessa editora para quem
quiser adquirir algum exemplar que lhe interesse e onde
eu terei muito gosto em fazer a obrigatória dedicatória.
No entanto, o livro
que me deu mais prazer lançar, nesta editora, foi o
“Combater em Moçambique; Guerra e Descolonização;
1964-1975”. Resultou da investigação feita na
Torre do Tombo e na BN e também na recolha de
depoimentos de intervenientes nos acontecimentos.
É que, como muitos
sabem, fiz três das quatro comissões por escala no
Ultramar, exactamente em Moçambique. Assim, combinando
os resultados da investigação com a experiência vivida
neste território, julgo que, passe a imodéstia, foi um
trabalho razoavelmente conseguido.
Timor, 25 de
Novembro e Guiné
Entretanto
passaram a ocorrer influências de outras pessoas para as
iniciativas editoriais posteriores.
Foi o caso do livro
“Timor; Abandono e Tragédia”, quando, em
2000, entrei numa obra em co-autoria com o Coronel
Piloto Av. Morais da Silva, ex-CEMFA, durante o PREC,
através de um amigo comum o já referido Coronel Joaquim
Vasconcelos.
Na sequência da sua
publicação e através de uma comissão galvanizada pelo
meu amigo Coronel José Pais, já falecido, de que fiz
parte juntamente com Morais da Silva e Nuno Roque,
conseguimos trazer para Portugal o corpo do
Tenente-Coronel Maggiolo Gouveia. Quem o ler percebe que
foi elaborado com colaboração da família e nomeadamente
da sua viúva, D. Maria Natália; assim como, na
trasladação, houve o empenhamento do filho médico, que
se deslocou a Timor para identificar os seus restos
mortais.
Maggiolo Gouveia fora
fuzilado na antevéspera do Natal de 1975, nos arredores
de Aileu, por guerrilheiros da FRETILIN, por ordem seu
comité central, a que já pertencia Xanana Gusmão.
Quanto ao livro “25
de Novembro de 1975; Os ´Comandos`e o Combate pela
Liberdade”, foi elaborado a pedido do ainda hoje
Presidente da Direcção da Associação de Comandos, Dr.
Lobo do Amaral, para a ocasião da passagem do 30.º
aniversário do 25 de Novembro. Mas fui logo dizendo que
apenas o faria novamente em co-autoria, o que sucedeu.
Convidei então o
Professor Doutor Francisco Proença Garcia (então major)
e o Sargento-Mor “Comando” Rui Domingues da Fonseca,
para o efeito. Esse livro foi apresentado no IDN, pelo
ex-Presidente da Assembleia da República, Professor
Doutor Barbosa de Melo, e onde esteve presente o então
Coronel Jaime Neves, a quem publica e reconhecidamente
foi oferecido um exemplar.
Finalmente, o
livro “Guerra, Paz e os Fuzilamentos dos
Guerreiros; Guiné 1970-1980”,
seria lançado em 2007 e resultou do facto de ter
prometido ao meu amigo Coronel José Pais, antes de
falecer, que tudo faria por denunciar os fuzilamentos
dos militares guineenses, que com ele tinham combatido,
assim como os dos “comandos africanos”.
À semelhança dos
trabalhos anteriores, recolhi os depoimentos de 26
pessoas, a maioria combatentes, que fiz anexar depois do
texto produzido.
Para não demorar mais
tempo do que foi estabelecido, iria terminar estas
considerações, lembrando o sucedido neste 35 º do 25 de
Abril. A minha neta, Mariana Nunes (14 anos), nas
últimas semanas, fez um trabalho escolar sobre este tema
para a disciplina de História, que me mostrou para ver
se havia algo a rectificar. E à semelhança do sucedido
na sessão anterior, nesta biblioteca, o que estava menos
elucidativo era o sucedido no 16 de Março de 1974. Outra
recomendação, que lhe fiz, foi para no final do texto
não titular como “Conclusões”, mas como “Considerações
Finais”, dada a natureza menos exacta das ciências
sociais e históricas, com o que ela concordou.
De facto nós, os
estudiosos e investigadores destas áreas devemos ser
humildes e não pensarmos que chegámos à verdade dos
factos, quando terminamos um trabalho. Nós iremos sempre
actualizando as nossas concepções em relação aos
acontecimentos, e serão as gerações vindouras a fazer a
devida análise histórica.
Termino, agradecendo
mais uma vez à Dr. Gabriela Cruz, Directora desta
Biblioteca Municipal de Carnaxide, a disponibilidade e o
grande apoio dado à realização deste evento. Agradeço
também a todos os intervenientes nas palestras e nos
debates, assim como ao público que nos honrou com a sua
presença.
Muito Obrigado.
Cor. Manuel
Amaro Bernardo
Carnaxide
27 de Abril de 2009
As
imagens



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Sessão de
20-4-2009 Carnaxide
1. Cumprimentos e
agradecimentos (Directora da Biblioteca) intervenientes,
público e editoras.
2. Nota biográfica do
Cor. Armando Ramos.
Palestra: Os
antecedentes do 16 de Março e consequências.
3. Nota biográfica do
Cor. Manuel Ferreira da Silva
Palestra: Ao
antecedentes e o desenrolar do golpe de 25 de Abril.
4. Perguntas
Antes do período
de perguntas do público presente, dado existirem dúvidas
em alguns oficiais do QP sobre quem comandou a coluna
das Caldas da Rainha no 16 de Março, vou pedir alguns
depoimentos sintéticos sobre este assunto concreto.
Entretanto quero
pedir para todos sermos o mais cordiais possíveis,
apesar das versões poderem não coincidir ou serem mesmo
opostas.
Assim:
- Coronel Vítor
Carvalho, que seguia na coluna.
- Dr. Caetano Barros
(ex. Alferes Mil.º na coluna)
- Coronel das Caldas
(?)
- Coronel Virgílio
Varela, que ficou a comandar o Regimento, depois da
prisão do Comandante.
- Coronel Armando
Ramos
Nota: A conversa com
do Cap Ramos com o Cmdt da GNR de Vila Franca de Xira.