HERÓIS DE ANGOLA
Angola, Julho e Agosto de 1961:
Os primeiros militares Portugueses
condecorados em teatro-de-operações,
após o termo da Grande Guerra.
26 de Julho a 11 de Agosto de 1961:
visita do Ministro do Exército a
Angola
«Quero condecorar esses bravos
na própria frente de combate»
Mário José Pereira da Silva,
Ministro do Exército

Estava uma manhã cinzenta e enevoada
naquele dia 28 de Julho, quando o
Brigadeiro Mário Silva visitou a
região do Caxito. Havíamos deixado
para trás as ruas martirizadas do
Úcua, lá ao longe, distinguia-se a
mole imensa da Pedra Verde — hoje
como a representar um monumento à
bravura, à coragem, ao destemor dos
nossos Soldados. Chegava-nos a
noticia de que na mata de Catuta, a
poucos quilómetros dali, uma
Companhia de Caçadores Especiais
estava há quatro horas em combate
com um grupo fortemente armado e o
Ministro quis colher informações
sobre o resultado da missão.
A fazenda devastada em que o
Batalhão do Tenente-Coronel
Henriques da Silva se encontrava
instalado tinha ambiente de combate.
Sem formalidades, como um Soldado
confundido entre os que ali
mantinham alerta, o Ministro
observou a carta da região, colheu
informações, aconselhou... A dois
passos, chegavam os bravos que
haviam suportado dura luta durante
cinco horas. Notava-se cansaço,
nervos arrasados, desespero no rosto
vincado daqueles homens com as
fardas manchadas de sangue. Três
mortos alinhavam-se no chão, tendo
as armas por mortalhas, e aqui e
além viam-se lágrimas de amargura
pela perda dos camaradas amigos.
Pois ali mesmo, em plena zona de
operações, o Ministro ia cumprir a
sua afirmação de
semanas antes —
«Quero condecorar esses bravos na
própria frente de combate!» Sem
formatura especial, envolvido por
aquele ambiente de primeira linha, o
Ministro mandou chamar três bravos
Soldados que se haviam distinguido
no combate: o
1.º Cabo António Saraiva Martins (Medalha de Mérito Militar, 3.ª
classe)
Soldado Abílio Pereira Cardoso
(Medalha de Mérito Militar, 3.ª
classe)
Soldado Afonso Pereira de Barros,
(Medalha de Mérito Militar, 3.ª
classe),
todos da 63.ª Companhia do Regimento
de Infantaria n.º 10, fazendo parte
da 4.ª Companhia de Caçadores
Especiais, adida ao Regimento de
Infantaria de Luanda. Um
«evidenciara-se com excepcionais
qualidades de decisão e valentia, ao
cumprir a missão que recebera de ir
recuperar uma arma abandonada em
terreno batido pelo inimigo,
tentativa essa que já nos custara
algumas perdas e que, não obstante
saber quanto perigosa era a missão,
não hesitou em a tentar, conseguindo
cumpri-la com sucesso embora tivesse
saído ferido do cumprimento dum
acto, que muitas vidas talvez veio a
salvar de seus camaradas, o que
denotou ser um militar de grande
mérito»; os outros haviam-se
evidenciado «com qualidades
excepcionais de valentia, decisão e
espírito de sacrifício, tendo feito
todos os esforços para neutralizar
urna posição fortemente defendida
pelo inimigo, embora sabendo que se
encontravam numa posição muito
inferior, facto esse que denotou uma
forte vontade de bem cumprir,
militares de muito mérito e exemplos
de verdadeiros Soldados portugueses
a apontar.»
A medalha de Mérito Militar,
colocada no peito daqueles três
bravos Soldados pelo Ministro do
Exército, ficava como um símbolo.
— Dá cá um abraço, meu rapaz!
—Tenho as mãos sujas de sangue, meu
Ministro... — observou o Soldado
Abílio Cardoso.
— É sangue generoso, derramado em
defesa da Pátria, meu herói!
Diálogo simples, humano, sincero, a
rematar a grandeza daquele acto sem
formalidades, na manhã cinzenta que
nos envolvia a todos.
Dias mais tarde, no Lucala, um
clarim tocou a sentido. Fez-se
silêncio no vasto terreiro batido
pelo sol e os olhitos de um grupo de
crianças negras, ali presentes,
interrogavam-se com curiosidade.
Estavam perfilados outros cinco
heróis desta luta em defesa do solo
sagrado da Pátria — os

1.º Cabo Manuel Pereira de Sousa,
(Medalha de Mérito Militar, 3.ª
classe)
1.º Cabo António Ramos Pires (Medalha de Mérito Militar, 3.ª
classe)
1.º Cabo António Antunes da Fonseca (Medalha de Mérito Militar, 3.ª
classe)
Soldado Manuel André Vicente (Medalha de Mérito Militar, 3.ª
classe)
Soldado António Lopes Torres
(Medalha de Mérito Militar, 3.ª
classe)
todos do Batalhão de Caçadores de
Quanza Norte.
Em 20 de Julho, a poucos quilómetros
de Camabatela, algumas dezenas de
terroristas haviam atacado com fúria
demoníaca a coluna de viaturas à
guarda daqueles cinco bravos. O
inimigo era muitas vezes superior em
número e vinha bem armado, mas a
coragem e a firme determinação de
resistir levaram aqueles heróis a
sustentar uma luta longa e
encarniçada, de que saíram
vencedores. São todos eles
residentes em Angola, trabalhando
entre Benguela e Lobito, e haviam
sido recentemente mobilizados. Isso
explica talvez a modéstia com que um
deles nos falou, depois de a todos o
Ministro ter condecorado com a
medalha de Mérito Militar:
— Fiz a minha obrigação... Cumpri o
meu dever... Lutei pela minha
permanência aqui!... Defendi
Portugal, como me ensinaram na
escola e no quartel! E continuarei a
defendê-lo...
O clarim voltou a tocar a sentido. O
sol fazia faiscar as baionetas e o
silêncio no vasto terreiro foi agora
interrompido por um coro
maravilhoso.
Eram as crianças negras, de olhitos
curiosos, cantando a «Portuguesa».
Nesse dia também nós sentimos os
olhos marejados de lágrimas...
Imponente, com a dignidade do acto
que a ditava, foi a cerimónia da
manhã de 7 de Agosto no
Quartel
General em Luanda. Ia ser citado em
Ordem de Serviço do Comando Militar
de Angola o Batalhão de Caçadores
N.º 3 e condecorados o
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Furriel Miliciano António Demoy
Gouveia Vieira, (Medalha de
Cobre de Valor Militar, com palma)
1.º Cabo José Ramos da Conceição
Duarte, (Medalha de Cobre de
Valor Militar, com palma)
1.º Cabo Artur Curado Pratas
(Medalha de Prata de Valor Militar,
com palma)
Soldado indígena Joaquim Nascimento
(Medalha de Cobre de Valor
Militar, com palma).
A
citação do Batalhão de Caçadores 3
constitui como que o exemplo da
acção extraordinária de todos os
batalhões que lutam em Angola e
reflecte bem o valor, a abnegação, o
sacrifício, a têmpera das forças que
impõem a ordem onde a desordem não
pode ser tolerada.
«O Batalhão de Caçadores N.º 3, com
sede em Carmona, constituído, no
inicio dos acontecimentos de Angola,
por 3 Companhias de Caçadores
Indígenas (Carmona, Maquela do Zombo
e Nóqui), 1 Companhia de Caçadores
Especiais (Toto) e 1 Destacamento
Indígena (S. Salvador), fez frente à
irrupção do terrorismo, na
vastíssima área representada pela
totalidade do Distrito do Uíge e
grande parte do Distrito do Zaire.
Logo no primeiro dia dos
acontecimentos, a sua 1.ª Companhia
(Carmona) se distinguiu ao levar,
entre perigos inenarráveis, o
auxílio de pequenos destacamentos a
Nova Caipemba, Zalala e Quitexe.
As tropas do Batalhão de Caçadores
n.º 3, quer suportando ataques, como
os de Carmona, Quitexe, Caipemba,
Mucaba, Songo, S. Salvador, Luvo e
Toto, quer patrulhando intensamente
o território à sua responsabilidade
e levando, por entre emboscadas que
lhes causaram baixas, a protecção de
pequenos destacamentos ao maior
número possível de núcleos de
europeus, foram os pilares em que se
alicerçou seguramente, durante mais
de dois meses, a defesa de toda a
zona sublevada do Congo.
Combatendo sem quartel os bandos de
terroristas, procurando incutir
ânimo em populações desmoralizadas,
protegendo por igual europeus e
nativos contra a sanha dos
terroristas, desimpedindo
itinerários, reconstruindo pontes e
pontões, salvando vidas nos centros
mais atingidos pela actividade
criminosa do inimigo, designadamente
em Madimba, Cuimba e Buela, aonde
patrulhas se deslocaram à custa de
grandes riscos, expondo aos olhos da
população exemplos magníficos de
coragem e abnegação, como no caso de
dois elementos militares — um
europeu e um nativo — que impediram
a queda de Mucaba, organizando a
defesa das populações civis, bem
mereceu da Pátria o Batalhão de
Caçadores N.º 3, cuja actividade, a
todos os títulos notável, abnegada e
valorosa, vem acrescentar mais
algumas páginas ilustres aos feitos
gloriosos do Exército Português.»
Promovido por distinção a 2.º
Sargento do Q.P. (2.º Sargento do
Quadro Permanente) e condecorado com
a medalha de cobre de Valor Militar,
o Furriel Gouveia Vieira, que é
natural de Angola, ouviu ler,
emocionado, a portaria que o
distinguiu:
«Manda o Governo da República
Portuguesa, pelo Ministro do
Exército, condecorar com a medalha
de cobre de Valor Militar, com
palma, nos termos do artigo 50.º do
Regulamento da Medalha Militar, de
28 de Maio de 1946, o Furriel
Miliciano António Demony [Demoy]
Gouveia Vieira, do Regimento de
Infantaria de Luanda por, na tarde
do dia 29 de Abril de 1961, durante
um reconhecimento efectuado na
estrada Mucaba / 31 de Janeiro,
acção em que tornaram parte duas
viaturas, que caíram numa emboscada,
preparada por centenas de
terroristas, ter-se comportado com
tal abnegação e coragem que a maior
parte dos componentes das viaturas
ficaram a dever-lhe a vida; de
regresso a Mucaba, cuidou
imediatamente de organizar a defesa,
que concentrou na capela da
povoação, tendo ali suportado dois
ataques de milhares de bandoleiros,
um na noite do mesmo dia e outro na
madrugada de 30, os quais repeliu,
auxiliado apenas por uma praça
indígena e alguns civis a quem
animou sempre com os seus exemplos
de militar de excepcionais
qualidades, acorrendo a todos os
lados e comandando o fogo, em razão
da escassez das munições,
demonstrando em todo o seu
procedimento rara abnegação,
valentia e coragem e expondo-se
constantemente a acções em que
colocou gravemente em risco a sua
vida.»
A praça indígena que auxiliou o
Furriel Gouveia Vieira estava ali, a
seu lado, ostentando também
a
medalha de cobre de Valor Militar.
Era o Soldado indígena Joaquim
Nascimento, do Batalhão de Caçadores
3 de Angola, agora promovido a 1.º
Cabo por distinção, cuja acção foi
assim distinguida: «... porque, na
tarde do dia 29 de Abril de 1961,
durante um reconhecimento efectuado
na estrada Mucaba / 31 de Janeiro,
tendo a viatura em que seguia caído
numa emboscada preparada por
terroristas que chegaram ao
corpo-a-corpo, lutou bravamente, até
ser arrancado da viatura pelos
bandoleiros, dos quais conseguiu
desembaraçar-se, vindo a atingir a
povoação de Mucaba, depois de uma
marcha de 3 quilómetros, a
corta-mato, chegando ali pouco antes
do primeiro ataque à povoação;
durante os ataques que se seguiram,
na noite do mesmo dia e na madrugada
de 30, manteve-se sempre em activo
combate, chegando num deles a subir
para o telhado da capela onde os
defensores da povoação se haviam
concentrado, lançando dali, a peito
descoberto, sobre os assaltantes, as
granadas que conseguira transportar,
acção que muito contribuiu para
repelir o assalto, dando, em todos
os actos, nobre exemplo de amor
pátrio, rara abnegação, valentia e
coragem, pondo constantemente em
risco a sua vida».
1.º Cabo Conceição Duarte, promovido
a Furriel e também distinguido com a
mesma condecoração, pertence ao
Regimento de Infantaria N.º 15 e
fazia parte do Batalhão de
Infantaria N.º 96, quando se
evidenciou em combate na região de
Úcua «Pedra Verde». Foi condecorado
por «ter mostrado ser possuidor de
alta e heroica compreensão da
grandeza do dever militar e ter
agido, apesar de bastante ferido e
com grave risco da sua vida com
excepcional abnegação, coragem e
valentia, conseguindo sozinho suster
e destroçar um grupo de terroristas
e proferido em combate, até receber
auxílio do pessoal da sua Unidade».
A medalha de prata de Valor Militar,
com que foi condecorado o 1.º Cabo
Artur Curado Pratas,
do Batalhão de
Engenharia de Luanda recebeu-a o seu
Comandante Tenente-Coronel Salvador
Pinheiro e o louvor que o distingue
descreve assim a sua acção:
«...porque, fazendo parte do
Destacamento de Engenharia de
reforço ao Batalhão de Caçadores 88,
como único operador do tractor em
serviço junto das colunas que
ocuparam Lucunga e Bembe, demonstrou
o maior entusiasmo em todas as
acções pelas mesmas levadas a
efeito, procedendo continuamente,
com um esforço exemplar, à
desobstrução das vias que conduzem
àquelas povoações sem qualquer
descanso, dando provas da maior
coragem, mesmo depois de ferido,
estado em que continuou serenamente
o seu trabalho, exposto a intenso
fogo dos terroristas, chamando para
si a admiração de todos os que
presenciaram o seu denodo e
importante labor. Estes serviços
devem ser considerados
extraordinários e importantes».
Os acordes do Hino Nacional, por
urna banda militar, foram o fecho
condigno duma consagração de heróis.
Hoje, volvidos muitos dias sobre
estas três cerimónias a que
assistimos, fica-nos uma sensação de
orgulho por aqueles bravos que
conhecemos. Algures, na terra imensa
de Angola, eles continuam certamente
a honrar as condecorações com que
foram distinguidos. É o destino dos
heróis, para os quais o cumprimento
do dever é a maior consagração...
BAPTISTA ROSA
Tenente dos S.C.E.