.

 

Início O Autor História A Viagem Moçambique Livros Notícias Procura Encontros Imagens Mailing List Ligações Mapa do Site

Share |

Brasões, Guiões e Crachás

Siga-nos

Fórum UTW

Pesquisar no portal UTM

Heróis de Angola

HERÓIS DE ANGOLA

 

HONRA E GLÓRIA

Fontes:

Jornal do Exército, ed. 20, págs. 5 a 10, de Ago1961

Jornal do Exército, ed. 21, págs. 8 a 10, de Set1961

Apoio de um colaborador do portal UTW

 

HERÓIS DE ANGOLA

 

Angola, Julho e Agosto de 1961:

Os primeiros militares Portugueses condecorados em teatro-de-operações, após o termo da Grande Guerra.

26 de Julho a 11 de Agosto de 1961: visita do Ministro do Exército a Angola

 

«Quero condecorar esses bravos na própria frente de combate»
Mário José Pereira da Silva, Ministro do Exército
 

 

 

Estava uma manhã cinzenta e enevoada naquele dia 28 de Julho, quando o Brigadeiro Mário Silva visitou a região do Caxito. Havíamos deixado para trás as ruas martirizadas do Úcua, lá ao longe, distinguia-se a mole imensa da Pedra Verde — hoje como a representar um monumento à bravura, à coragem, ao destemor dos nossos Soldados. Chegava-nos a noticia de que na mata de Catuta, a poucos quilómetros dali, uma Companhia de Caçadores Especiais estava há quatro horas em combate com um grupo fortemente armado e o Ministro quis colher informações sobre o resultado da missão.


A fazenda devastada em que o Batalhão do Tenente-Coronel Henriques da Silva se encontrava instalado tinha ambiente de combate. Sem formalidades, como um Soldado confundido entre os que ali mantinham alerta, o Ministro observou a carta da região, colheu informações, aconselhou... A dois passos, chegavam os bravos que haviam suportado dura luta durante cinco horas. Notava-se cansaço, nervos arrasados, desespero no rosto vincado daqueles homens com as fardas manchadas de sangue. Três mortos alinhavam-se no chão, tendo as armas por mortalhas, e aqui e além viam-se lágrimas de amargura pela perda dos camaradas amigos.


Pois ali mesmo, em plena zona de operações, o Ministro ia cumprir a sua afirmação de semanas antes — «Quero condecorar esses bravos na própria frente de combate!» Sem formatura especial, envolvido por aquele ambiente de primeira linha, o Ministro mandou chamar três bravos Soldados que se haviam distinguido no combate: o


1.º Cabo António Saraiva Martins (Medalha de Mérito Militar, 3.ª classe)
 

Soldado Abílio Pereira Cardoso (Medalha de Mérito Militar, 3.ª classe)
 

Soldado Afonso Pereira de Barros, (Medalha de Mérito Militar, 3.ª classe),


todos da 63.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 10, fazendo parte da 4.ª Companhia de Caçadores Especiais, adida ao Regimento de Infantaria de Luanda. Um «evidenciara-se com excepcionais qualidades de decisão e valentia, ao cumprir a missão que recebera de ir recuperar uma arma abandonada em terreno batido pelo inimigo, tentativa essa que já nos custara algumas perdas e que, não obstante saber quanto perigosa era a missão, não hesitou em a tentar, conseguindo cumpri-la com sucesso embora tivesse saído ferido do cumprimento dum acto, que muitas vidas talvez veio a salvar de seus camaradas, o que denotou ser um militar de grande mérito»; os outros haviam-se evidenciado «com qualidades excepcionais de valentia, decisão e espírito de sacrifício, tendo feito todos os esforços para neutralizar urna posição fortemente defendida pelo inimigo, embora sabendo que se encontravam numa posição muito inferior, facto esse que denotou uma forte vontade de bem cumprir, militares de muito mérito e exemplos de verdadeiros Soldados portugueses a apontar.»


A medalha de Mérito Militar, colocada no peito daqueles três bravos Soldados pelo Ministro do Exército, ficava como um símbolo.


— Dá cá um abraço, meu rapaz!


—Tenho as mãos sujas de sangue, meu Ministro... — observou o Soldado Abílio Cardoso.


— É sangue generoso, derramado em defesa da Pátria, meu herói!


Diálogo simples, humano, sincero, a rematar a grandeza daquele acto sem formalidades, na manhã cinzenta que nos envolvia a todos.


Dias mais tarde, no Lucala, um clarim tocou a sentido. Fez-se silêncio no vasto terreiro batido pelo sol e os olhitos de um grupo de crianças negras, ali presentes, interrogavam-se com curiosidade. Estavam perfilados outros cinco heróis desta luta em defesa do solo sagrado da Pátria — os


1.º Cabo Manuel Pereira de Sousa, (Medalha de Mérito Militar, 3.ª classe)
 

1.º Cabo António Ramos Pires (Medalha de Mérito Militar, 3.ª classe)
 

1.º Cabo António Antunes da Fonseca (Medalha de Mérito Militar, 3.ª classe)
 

Soldado Manuel André Vicente (Medalha de Mérito Militar, 3.ª classe)
 

Soldado António Lopes Torres (Medalha de Mérito Militar, 3.ª classe)


todos do Batalhão de Caçadores de Quanza Norte.


Em 20 de Julho, a poucos quilómetros de Camabatela, algumas dezenas de terroristas haviam atacado com fúria demoníaca a coluna de viaturas à guarda daqueles cinco bravos. O inimigo era muitas vezes superior em número e vinha bem armado, mas a coragem e a firme determinação de resistir levaram aqueles heróis a sustentar uma luta longa e encarniçada, de que saíram vencedores. São todos eles residentes em Angola, trabalhando entre Benguela e Lobito, e haviam sido recentemente mobilizados. Isso explica talvez a modéstia com que um deles nos falou, depois de a todos o Ministro ter condecorado com a medalha de Mérito Militar:


— Fiz a minha obrigação... Cumpri o meu dever... Lutei pela minha permanência aqui!... Defendi Portugal, como me ensinaram na escola e no quartel! E continuarei a defendê-lo...


O clarim voltou a tocar a sentido. O sol fazia faiscar as baionetas e o silêncio no vasto terreiro foi agora interrompido por um coro maravilhoso.


Eram as crianças negras, de olhitos curiosos, cantando a «Portuguesa». Nesse dia também nós sentimos os olhos marejados de lágrimas...


Imponente, com a dignidade do acto que a ditava, foi a cerimónia da manhã de 7 de Agosto no Quartel General em Luanda. Ia ser citado em Ordem de Serviço do Comando Militar de Angola o Batalhão de Caçadores N.º 3 e condecorados o

 

Clique em cada um dos sublinhados que se seguem para visualização dos conteúdos


Furriel Miliciano António Demoy Gouveia Vieira, (Medalha de Cobre de Valor Militar, com palma)
 

1.º Cabo José Ramos da Conceição Duarte, (Medalha de Cobre de Valor Militar, com palma)
 

1.º Cabo Artur Curado Pratas (Medalha de Prata de Valor Militar, com palma)
 

Soldado indígena Joaquim Nascimento (Medalha de Cobre de Valor Militar, com palma).


A citação do Batalhão de Caçadores 3 constitui como que o exemplo da acção extraordinária de todos os batalhões que lutam em Angola e reflecte bem o valor, a abnegação, o sacrifício, a têmpera das forças que impõem a ordem onde a desordem não pode ser tolerada.


«O Batalhão de Caçadores N.º 3, com sede em Carmona, constituído, no inicio dos acontecimentos de Angola, por 3 Companhias de Caçadores Indígenas (Carmona, Maquela do Zombo e Nóqui), 1 Companhia de Caçadores Especiais (Toto) e 1 Destacamento Indígena (S. Salvador), fez frente à irrupção do terrorismo, na vastíssima área representada pela totalidade do Distrito do Uíge e grande parte do Distrito do Zaire. Logo no primeiro dia dos acontecimentos, a sua 1.ª Companhia (Carmona) se distinguiu ao levar, entre perigos inenarráveis, o auxílio de pequenos destacamentos a Nova Caipemba, Zalala e Quitexe.


As tropas do Batalhão de Caçadores n.º 3, quer suportando ataques, como os de Carmona, Quitexe, Caipemba, Mucaba, Songo, S. Salvador, Luvo e Toto, quer patrulhando intensamente o território à sua responsabilidade e levando, por entre emboscadas que lhes causaram baixas, a protecção de pequenos destacamentos ao maior número possível de núcleos de europeus, foram os pilares em que se alicerçou seguramente, durante mais de dois meses, a defesa de toda a zona sublevada do Congo.


Combatendo sem quartel os bandos de terroristas, procurando incutir ânimo em populações desmoralizadas, protegendo por igual europeus e nativos contra a sanha dos terroristas, desimpedindo itinerários, reconstruindo pontes e pontões, salvando vidas nos centros mais atingidos pela actividade criminosa do inimigo, designadamente em Madimba, Cuimba e Buela, aonde patrulhas se deslocaram à custa de grandes riscos, expondo aos olhos da população exemplos magníficos de coragem e abnegação, como no caso de dois elementos militares — um europeu e um nativo — que impediram a queda de Mucaba, organizando a defesa das populações civis, bem mereceu da Pátria o Batalhão de Caçadores N.º 3, cuja actividade, a todos os títulos notável, abnegada e valorosa, vem acrescentar mais algumas páginas ilustres aos feitos gloriosos do Exército Português.»


Promovido por distinção a 2.º Sargento do Q.P. (2.º Sargento do Quadro Permanente) e condecorado com a medalha de cobre de Valor Militar, o Furriel Gouveia Vieira, que é natural de Angola, ouviu ler, emocionado, a portaria que o distinguiu:


«Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a medalha de cobre de Valor Militar, com palma, nos termos do artigo 50.º do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, o Furriel Miliciano António Demony [Demoy] Gouveia Vieira, do Regimento de Infantaria de Luanda por, na tarde do dia 29 de Abril de 1961, durante um reconhecimento efectuado na estrada Mucaba / 31 de Janeiro, acção em que tornaram parte duas viaturas, que caíram numa emboscada, preparada por centenas de terroristas, ter-se comportado com tal abnegação e coragem que a maior parte dos componentes das viaturas ficaram a dever-lhe a vida; de regresso a Mucaba, cuidou imediatamente de organizar a defesa, que concentrou na capela da povoação, tendo ali suportado dois ataques de milhares de bandoleiros, um na noite do mesmo dia e outro na madrugada de 30, os quais repeliu, auxiliado apenas por uma praça indígena e alguns civis a quem animou sempre com os seus exemplos de militar de excepcionais qualidades, acorrendo a todos os lados e comandando o fogo, em razão da escassez das munições, demonstrando em todo o seu procedimento rara abnegação, valentia e coragem e expondo-se constantemente a acções em que colocou gravemente em risco a sua vida.»


A praça indígena que auxiliou o Furriel Gouveia Vieira estava ali, a seu lado, ostentando também a medalha de cobre de Valor Militar. Era o Soldado indígena Joaquim Nascimento, do Batalhão de Caçadores 3 de Angola, agora promovido a 1.º Cabo por distinção, cuja acção foi assim distinguida: «... porque, na tarde do dia 29 de Abril de 1961, durante um reconhecimento efectuado na estrada Mucaba / 31 de Janeiro, tendo a viatura em que seguia caído numa emboscada preparada por terroristas que chegaram ao corpo-a-corpo, lutou bravamente, até ser arrancado da viatura pelos bandoleiros, dos quais conseguiu desembaraçar-se, vindo a atingir a povoação de Mucaba, depois de uma marcha de 3 quilómetros, a corta-mato, chegando ali pouco antes do primeiro ataque à povoação; durante os ataques que se seguiram, na noite do mesmo dia e na madrugada de 30, manteve-se sempre em activo combate, chegando num deles a subir para o telhado da capela onde os defensores da povoação se haviam concentrado, lançando dali, a peito descoberto, sobre os assaltantes, as granadas que conseguira transportar, acção que muito contribuiu para repelir o assalto, dando, em todos os actos, nobre exemplo de amor pátrio, rara abnegação, valentia e coragem, pondo constantemente em risco a sua vida».


1.º Cabo Conceição Duarte, promovido a Furriel e também distinguido com a mesma condecoração, pertence ao Regimento de Infantaria N.º 15 e fazia parte do Batalhão de Infantaria N.º 96, quando se evidenciou em combate na região de Úcua «Pedra Verde». Foi condecorado por «ter mostrado ser possuidor de alta e heroica compreensão da grandeza do dever militar e ter agido, apesar de bastante ferido e com grave risco da sua vida com excepcional abnegação, coragem e valentia, conseguindo sozinho suster e destroçar um grupo de terroristas e proferido em combate, até receber auxílio do pessoal da sua Unidade».


A medalha de prata de Valor Militar, com que foi condecorado o 1.º Cabo Artur Curado Pratas, do Batalhão de Engenharia de Luanda recebeu-a o seu Comandante Tenente-Coronel Salvador Pinheiro e o louvor que o distingue descreve assim a sua acção: «...porque, fazendo parte do Destacamento de Engenharia de reforço ao Batalhão de Caçadores 88, como único operador do tractor em serviço junto das colunas que ocuparam Lucunga e Bembe, demonstrou o maior entusiasmo em todas as acções pelas mesmas levadas a efeito, procedendo continuamente, com um esforço exemplar, à desobstrução das vias que conduzem àquelas povoações sem qualquer descanso, dando provas da maior coragem, mesmo depois de ferido, estado em que continuou serenamente o seu trabalho, exposto a intenso fogo dos terroristas, chamando para si a admiração de todos os que presenciaram o seu denodo e importante labor. Estes serviços devem ser considerados extraordinários e importantes».


Os acordes do Hino Nacional, por urna banda militar, foram o fecho condigno duma consagração de heróis.


Hoje, volvidos muitos dias sobre estas três cerimónias a que assistimos, fica-nos uma sensação de orgulho por aqueles bravos que conhecemos. Algures, na terra imensa de Angola, eles continuam certamente a honrar as condecorações com que foram distinguidos. É o destino dos heróis, para os quais o cumprimento do dever é a maior consagração...


BAPTISTA ROSA
Tenente dos S.C.E.

 

© UTW online desde 30Mar2006

Traffic Rank

Portal do UTW: Criado e mantido por um grupo de Antigos Combatentes da Guerra do Ultramar

Voltar ao Topo