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Moçambique

MOÇAMBIQUE - IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em sites próprios

 

 

Ilídio Costa

 

Companhia de Caçadores

de

Mocimboa da Praia

 

1966/1968

 

Os Espantosos Dançarinos do Quissengue

 

Artigo da autoria de Guilherme de Melo e imagens de Carlos Alberto, publicado no "Notícias" de Lourenço Marques, cuja data desconhecemos, mas escrito durante o período da Guerra Colonial em Moçambique.

 

Transcrição do artigo:

 

 

AO NORTE - GUERRA E PAZ

(15)

Dos enviados especiais do "Notícias"

GUILHERME DE MELO (Texto)

CARLOS ALBERTO (Fotos)

 

 

OS ESPANTOSOS DANÇARINOS DO QUISSENGUE

 

A par da criação, como vimos já, da série de postos de intervenção e aquartelamentos – que funcionam como que um baluarte ao longo do Messalo, de modo não só a impedir a infiltração dos bandos terroristas para sul do grande rio que divide o distrito em duas faixas mas igualmente para que deles partam os ataques envolventes que, como tenaz de ferro, está apertando o inimigo cada vez mais – estruturou-se em Cabo Delgado um curioso e eficientíssimo sistema de aldeamentos de fronteira que está, na verdade, provando em absoluto.

Como que num colar autêntico, inicia-se a série de aldeamentos novos junto ao litoral, logo um pouco acima de Mocímboa, para, inflectindo da costa para o interior, ir subindo e acompanhando a fronteira de modo a formar como que um radar perfeito de detecção de novos bandos que pretendam passar-se para o interior dessa vasta zona ao Norte do Messalo a fim de se juntarem, em apoio, aos que ali se encontram flagelados pela acção da tropa e das milícias que do Messalo para cima os combatem.

Por sua vez, ao criarem-se tais aldeamentos, visou-se também a necessária protecção às populações que, aglomeradas agora e possuindo os seus meios de defesa próprios, se sentem seguras e livres da acção do inimigo que até antes as perseguia impiedosamente, na tentativa de angariar gente para as suas hostes, subsistência para os seus grupos. E claro está que, sem defesa própria e expostas à sua violência, nenhuma outra alternativa mais lhes restava do que cederem mesmo à sua vontade.

Criados que foram esses vários aldeamentos que vão do litoral ao interior até ao extremo Norte, à beira do Rovuma, foi a sua orientação e protecção entregue à Guarda Fiscal. Duas dezenas de guardas partiram para esse efeito de Lourenço Marques, numa comissão de um ano, finda a qual serão por outros substituídos. E, repartidos em grupos de três por aldeamento, ali se encontram enquadrando as milícias de protecção constituídas por elementos da própria população aldeada, e só raríssimos casos reforçados por alguma tropa.

Cada aldeamento funciona com o seu sistema de defesa e detecção eficientemente montado, as casas todas rectangulares, amplas e com várias divisões sobrepondo-se à clássica palhota redonda, de divisão única e promíscua, alinhadas ao longo de arruamentos largos e sempre impecavelmente limpos. Ao centro levanta-se o amplo barracão aberto dos lados, onde um pequeno bar funciona, onde há sempre um gravador com as respectivas fitas gravadas emitindo através de altifalantes música portuguesa entremeada por música do próprio folclore nativo, e onde a população normalmente se reúne em confraternização própria de centro social que efectivamente é. Cada aldeamento tem ainda a sua escola, com o professor rudimentar; os seus serviços de administração do aldeamento; formação e treino da autodefesa, com o sistema de valas de refúgio e abrigos preparados por toda a população, que deles se sabe rápida e eficientemente servir, sem pânicos nem atropelos, em caso de necessidade. Mais ainda, cada aldeamento basta-se a si mesmo, desbravado, para isso, o mato anexo, onde as machambas se estendem, apoiadas pela criação de galinhas, cabras e, dentro em breve, suínos.

E para que a vida ali se processe calma e ordenadamente, ainda que o inimigo tudo faça, como se torna compreensível, para o impedir – a vigilância é constante, dia e noite, com milícias instaladas em torres de observação postadas nos quatro pontos limites da aldeia e outras patrulhando o mato, de arma em punho, a toda a volta, formando-se, para esse efeito, turnos rigorosamente respeitados e em que todos colaboram.

Qualquer aproximação suspeita será, pois, prontamente assinalada em primeiro lugar pela chamada defesa distante e só se porventura o bando atacante conseguir furtar-se à vigilância dessa defesa é que terão de intervir os que se encontram nas posições fixas em pontos estratégicos do aldeamento, de qualquer maneira coarctada em absoluto a possibilidade ao inimigo de surgir de surpresa. E logo que os primeiros tiros repercutam, toda a população – novos, velhos, mulheres, crianças – calma e ordenadamente buscarão a sua vala respectiva de acesso ao abrigo a que perteçam.

Assim tem sido possível verificarem-se, como já muitas vezes aconteceu, desesperados ataques do inimigo, sempre repelidos sem uma única baixa nas populações.

É essa série de aldeamentos que me espera agora, à medida que avanço cada vez mais para o Norte, aqui em Cabo Delgado. O avião que me transporta é um dos pequeníssimos mas rijos «Auster» confiados à Formação Aérea de Voluntários, e o tenente Tito Xavier quem o conduz. Noutro igual àquele em que sigo viaja o meu camarada de jornada, com o piloto Fernando José ao comando.

E, da série de aldeamentos, o do Olumbe o que fica mais junto ao litoral, mesmo na costa, acima de Mocímboa da Praia, e muito embora fosse ali que desejássemos descer primeiramente, isso torna-se-nos impossível, alagada a pista de aterragem pelas violentas chuvadas dos últimos dias. Deixamos, pois, o litoral, flectindo o monomotor cada vez mais para o interior, o Quissengue a desenhar-se pouco a pouco recortado assim, em rectângulo amplo, naquele oceano impressionante de floresta densa que vamos sobrevoando.

Damos duas ou três voltas largas e quase rasantes por sobre o aldeamento, com a população em peso acorrendo das casas, precipitando-se num frenesi para a pista anexa, aberta a pá e a catana. Vejo homens correndo de arma na mão, dispondo-se a intervalos regulares a toda a volta da faixa de aterragem, enquanto outros, em grupos, se internam no mato próximo. E, minutos volvidos, sobe no mastro, lá em baixo, uma bandeira verde. A meu lado, o tenente Tito Xavier explica-me que aquele é o sinal de que tudo está O.K., preocupações tomadas, a defesa da pista feita, as milícias a postos e que podemos aterrar.

O aparelho corta a velocidade, faz-se à pista, baixa, toca o solo, rola, e quando se detém somos positivamente afogados por um mar impetuoso de gente que ri e aplaude, mulheres de longas capulanas cingindo-lhes o corpo, lenços soltos na cabeça em estilo de Madona, rapazes de calção de caqui e camisa aberta, velhos de cabaias brancas até aos pés e o típico cofió arrendado sobre os cabelos encanecidos, velhas de lábio superior furado e atravessado por uma rodela de pau-preto, multidão exuberante, buliçosa, que ri, linguareja, expressiva, aberta, colorida como uma girândola. Uma formação de milícias nativas, com a sua farda verde-azeitona, forma uma impecável guarda de honra, enquanto o velho régulo de cabelos quase brancos e um rosto que é um hino à simpatia, avança para nós de mão estendida, a dar-nos as voas-vindas. E em meio de todo aquele povoléu em festa, os três guardas ali destacados – o Ramos, o Barbosa, o António Baptista dos Santos – recebem-nos com um sorriso aberto e olhos brilhantes: e é como de repente os visse, como tantas vezes os via aí em Lourenço Marques, perguntando nos portões do cais, se «não há azar». E sinto, de uma forma aguda, intensa, que na verdade, com gente daquela - «nunca há azar».

Vamos da pista de aterragem até ao centro social ainda em acabamento, em pleno coração da aldeia, positivamente em jeito de arraial: miúdos de bochechas luzidias embrulham-se nas nossas pernas, mulheres correm ao nosso lado, à nossa frente, a mão sobre a boca num som estridente de sino novo chocalhando, e os homens falam uns com os outros, perguntam se vamos ficar muito tempo.

Damos uma volta larga por todo o aldeamento, entramos nas casas, descemos até às machambas – e sempre à nossa volta aquele jeito de festa, aquele bulício infantil e bom. Mas já do terreiro sobem, cavos, arrastados, os primeiros sons abafados dos tambores. E Juma Abdala, o régulo, convida-nos, num perfeito português, a assistir à festa que a sua gente quer fazer.

Estão as cadeiras dispostas sob a copa frondosa de duas ou três enormes mangueiras. Sentamo-nos w, a toda a volta, a multidão forma círculo. Ninguém falta – somente os que àquela hora formam emboscadas de vigilância para lá da periferia do aldeamento, os que patrulham o mato a toda a volta e os que, de arma em punho, guardam os dois aviões pousados na pista.

Está um grupo de homens no meio do terreiro, troncos nus, plumas na cabeça, saiotes garridos cingidos na cintura, até à coxa. E, sem que o pudesse até então suspeitar, vou assistir a um dos mais espantosos e fantásticos espectáculos de mímica que até hoje me fora dado a ver e que, na sua genuinidade, na sua força telúrica de arte pura – que assim os seus intérpretes no-la transmitem – arrebataria as plateias mais exigentes de uma ultracivilizada Europa.

É a história de uma qualquer aldeia gentílica a que vai, assim, através do gesto, da expressão, do salto, da contorsão, do bailado e da mímica, desfilando, como um filme, ante os meus olhos: o seu dia-a-dia, as gentes, os cães lutando entre si, o bode em cio buscando a cabra esquiva, que lhe foge; o homem que não caminha e a que é preciso tirar a matacanha de entre os dedos; o milícia vigiando, repelindo o grupo dos turras que detectou no mato, combatendo-o mais pela argúcia do que pela superioridade numérica, aniquilando-o; o retornar à paz, à tranquilidade; a partida da casquinha para o mar, na pescaria, o içar da vela, os remos ajudando, o leve ondular do mar em tempo bom; a pausa ao largo, o lançar da linha, a espera, o picar do peixe, a luta  com a presa; e de repente o levantar do vento, o erguer das primeiras ondas, o prender da vela, o regresso a terra, o temporal, a luta com o mar em fúria, o desesperado tirar da água de dentro da piroga, a queda de um dos tripulantes ao mar, a luta para o seu salvamento, a sua retirada das águas, inerte, tombado, a casquinha já varando terra; e o retorno lento e desolado, o companheiro sem dar acordo, a tentativa da libertação da água acumulada em seus pulmões, a ânsia à sua volta, o primeiro movimento, a vitória sobre o que parecia ser a morte; o passar do temporal, a alegria do sol que volta, da vida que ressurge – e de braços alevantados para o alto, o corpo num sacudir de instante a instante mais acelerado, os tambores ganhando um som de alucinação, os homens invocam a força que vem dos deuses e dançam e saltam e giram, numa aleluia, num hino à Vida, à Natureza. Tudo é agora um rodopio de vertigem, de loucura, o ar cheira a suor, a terra dir-se-ia que trepida sob os pés nus e vigorosos, os tambores ressoam numa galopada, é a floresta que canta, é a terra que ri, é o sol que se alevanta – e a um só movimento, num grito de alegria quase feroz, a dança finda de chofre.

Estou esmagado pela beleza espantosa que assim tive diante dos meus olhos, ali, no coração de Cabo Delgado, com o Rovuma a dois passos, aquela mensagem autêntica de Arte viva e genuína, sem escolas, sem pretensiosismos, sem especulações intelectuais ou pseudo-intelectuais – mas vinda de geração para geração, sabendo a terra, a rios, a selva, a vento largo.

E quase sinto vontade de chorar por esta África de espanto e de cobiça, esta África maravilhosa e pura, sensual e bela, esta África retalhada, incompreendida, joguete de mil interesses – e que é também a minha terra.

Almoçamos no Quissengue. A meio da tarde levantaremos voo rumo ao aldeamento mais ao Norte da série assim formada e que constitui o radar vivo da fronteira com o Tanganhica. Será aí, em Nhica do Rovuma, entre a população aldeada, os guardas fiscais, as mílicias e a unidade militar para lá destacada, sob os alpendres de matope endurecido como cimento e os abrigos em caso de ataque sob os nossos pés, que iremos passar a noite – o Rovuma diante de nós, com fogueiras ponteando a treva do lado de lá da margem, já em território tanzaniano.

Antes, porém, espera-nos o almoço no Quissengue – galinhas à cafreal, loiras e fumegantes, ali mesmo assadas diante de nós, genuínas, autênticas. E enquanto os meus companheiros de jornada as acompanham com uma cerveja gelada, num mútuo entendimento, sem palavras, o velho Juma Abdala acerca-se de mim e, com um sorriso largo, oferece-me a água leitosa e crepitante ainda de dois cocos acabados de colher de colher de um qualquer dos coqueiros que se alevantam a toda a volta do aldeamento.

E tem para mim o sabor requintado, que só os grandes restaurantes estilo «Tour d’argent» decerto imprimirão, aquele almoço maravilhoso de galinhas à cafreal, tostadas e picantes, regado assim a água de coco.

Mas não estou no «Tour d’argent» nem no «Aldorf»: com o eco dos tambores ressoando no batuque, homens de espingarda nas mãos, de calção ou capulana beirando o solo, a montarem guarda ao avião que me trouxe, almoço no Quissengue. E tenho, por anfitriões admiráveis, três guardas fiscais que viviam o seu dia-a-dia anónimo e obscuro aí pela porta 1 ou 3 da ponte-cais – e um homem bom e simples que, como tantos outros por este Norte imenso, dise «não!» ao inimigo. Chama-se Juma Abdala.

GUILHERME DE MELO

 

 

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