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Falecimento

José Maria de Braula Reis, Tenente-Coronel Graduado

 

Nota de óbito

Elementos cedidos por um

colaborador do portal UTW

 

Faleceu, no dia 24 de Março de 2021, em Ança (Coimbra), o veterano

 

 

José Maria de Braula Reis

 

Tenente-Coronel Graduado

'Padre Capelão'

 

Angola:

Comando de Agrupamento 1

1961 a 1963

 

Moçambique:

Região Militar de Moçambique

1969 > antes de 1974

 

 

 

 

José Maria de Braula Reis, Tenente-Coronel Graduado, nasceu no dia 19 de Novembro de 1922 em Leiria.


Em 1 de Novembro de 1945 ordenado sacerdote em Lisboa, pelo cardeal patriarca Dom Manuel Gonçalves Cerejeira.


Após 1950 desempenhou funções junto da Capelania Militar, tendo sido capelão e professor de moral e religião no Colégio Militar;


Em 13 de Maio de 1961, padre capelão graduado em capitão, licenciado, do Distrito de Recrutamento e Mobilização 11 (DRM11-Setúbal), tendo sido nomeado para servir Portugal na Província Ultramarina de Angola, embarca em Lisboa rumo a Luanda e destinado ao Comando de Agrupamento 1 (CmdAgr1), mobilizado pelo Regimento de Infantaria 6 (RI6 – Porto), a fim de prestar serviço de assistência religiosa às forças militares do 'Agrupamento Alfa' (Comando Territorial do Norte de Angola);


Em 26 de Maio de 1963 regressa à Metrópole e ao Distrito de Recrutamento e Mobilização 11 (DRM11-Setúbal);


Em 25 de Maio de 1969, major capelão, graduado, titular do Serviço de Assistência Religiosa do Exército, do Quartel-General do Governo Militar de Lisboa, nomeado para servir Portugal na Província Ultramarina de Moçambique;


Antes de 1974 regressa definitivamente à Metrópole, tenente-coronel graduado, nomeado chefe do Serviço de Assistência Religiosa do Estado Maior do Exército;


Em 31 de Janeiro de 1975, nomeado pelo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) para o cargo de adjunto do capelão-mor;


Em 1976 nomeado pelo Patriarcado como adjunto da administração-geral da Diocese de Lisboa;


Desde 1987 até 2011, pároco da Igreja de São Domingos em Lisboa.


Faleceu no dia 24 de Março de 2021 em Ançã (Coimbra).


A sua Alma repousa em Paz.

 

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«Um dia com Padre Capelão Jose Maria Braula Reis»
 

in Revista Zacatraz,

ed. 209, de 25Mar2018

 

Excertos:

 

- «Quando chegou a Angola, em 1961, o Padre José Maria ia cheio de ideais e resolveu fazer uma fundação, a que pôs o nome de um Antigo Aluno do Colégio [Militar] que faleceu nessa altura em Angola, no posto de Tenente de Cavalaria, Jorge Manuel Cabeleira Filipe (98/1945).

 

Gastou as suas economias tentando fundar uma obra útil. Quisera valorizar as gentes, facultando a aprendizagem de ofícios e de letras. Montou um sistema para ensinar pretinhos a coser à máquina. A dada altura, um deles dirigiu-se-lhe exibindo uns calções na mão:

 

- Sr. capelão! Olha os calções que eu fiz.

- Estão muito bonitos, parabéns. O que é que queres mais?

- Patrão! Vê bem os calções.

- Já vi e já te felicitei.

E virou-lhe as costas, continuando a conversa com outro militar.

- Sr. capelão, olha os calções.

- Já vi, já vi! – Disse o Padre José Maria, um pouco impaciente com a insistência do garoto.

- Patrão, agora tem de pagar os calções.

- Pagar os calções, eu? De quem é a máquina onde fizeste os calções?

- É a máquina do patrão.

- E de quem era o pano?

- Era do Sr. Capelão.

- E as agulhas e as linhas?

- Do patrão.

- E quem te ensinou a fazer os calções?

- Foi um empregado do patrão.

- E para quem são os calções?

- Para mim – arreganhava a beiçola, descobrindo duas fileiras de dentes muito brancos.

- Então se os calções são para ti e tu os fizeste na minha máquina, com o material que eu paguei e ensinado por quem eu paguei, porque é que eu tenho de te pagar os calções? Ora vai mas é lamber sabão!

E, dito isto, o capelão, meio indignado, meio desiludido, tornou a virar-lhe as costas já um pouco incomodado. Mas o pretito insistiu, baixinho:

- Patrão…

- O que é, desta vez?

O pretinho, com os calções contra o peito, o branco do olho a contrastar com a escuridão da íris e da face, remata baixinho, de mão estendida:

- Patrão, dinheiro para o sabão…


[...]


Nesse ano de 1961, em Angola, o Padre José Maria, quase acabado de chegar, apanhou rapidamente a situação que sintetizou de uma forma ainda hoje recordada por quem o ouviu contar há mais de meio século.

Dizia ele, então, que Angola era uma moça preta bonita, mas ninguém reparava nela. Apareceu um branco, um português, e gostou dela, enfeitou-a com prendas. A preta trabalhava para ele, via-se que era bonita e que tinha préstimo. Começou a dar nas vistas, a ser cobiçada por outros, principalmente quando se enfeitava com um colar de diamantes. E um americano e um russo diziam ao português para lhe dar liberdade. "Larga a preta, deixa-a em paz."

O português achava que sim que ela merecia ser livre, mas…

- O que eles querem é: "tira-te tu de cima da preta para eu me pôr nela…".


[...]


- Agora deixem-me, também, contar uma história do Padre José Maria.

- Conta lá, Pedro Lagido.

- Uma vez, em Angola…

- Mas tu não estiveste na guerra, pois não?

- Não, mas ouvi-a do próprio Padre José Maria. Ele, também, comungou com os soldados o pó das picadas, o medo do desconhecido, a ração enlatada de uma "geração entalada". Certa noite, integrado numa coluna de viaturas de reabastecimento, enterra ali, atasca acolá, um dos camiões resvalou. O barranco era alto, só na manhã seguinte se avaliou quanto. A viatura permanecia em desequilíbrio arrimada a uma árvore. A carga heterogénea, incluindo trotil, oscilou, oscilou, mas nada de grave aconteceu. Apenas umas grades de cervejas se espalharam em torno da viatura. O Padre José Maria deu o exemplo, ajudando a apanhar objectos da carga, de cócoras, de gatas, apalpando o terreno, tacteando as garrafas, não fosse granada ou explosivo. Ele e mais uns quantos soldados, enquanto um grupinho, integrando um sargento, estava a observar e a fumar, gozando o espectáculo ou, talvez, só o tabaco. Depois de achar que já fizera a sua parte, o Padre dirigiu-se, calmamente, aos "pirilampos":

- Agora, se não se importam, vão apanhar o resto da carga e eu venho para aqui observar.


[...]


- Também teve o seu "baptismo de fogo". Nessas ocasiões, difíceis de imaginar a quem não as viveu, interessa dizer ou fazer alguma coisa. Algo que ajude o homem a vencer-se, a combater o instinto de sobrevivência que o pode incitar a fugir ou a enterrar a cabeça no chão. Normalmente, o soldado tem um escape que o pode ajudar, mas estava ali o Senhor Prior, ainda se conseguiram lembrar alguns. O Padre José Maria apercebeu-se rapidamente da situação e confidenciou ao soldado mais próximo: "Sabes que o Papa disse que não era pecado dizer asneiras em combate?".»¹


¹ Manuel Júlio Matias Barão da Cunha

 

 

 

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