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Madrinhas de Guerra

  Madrinhas de Guerra

 

 

Madrinhas de Guerra

 

 

enviado por um por colaborador do portal UTW

 

 

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in: "O Mirante"

Semanário Regional - Edição de 15-11-2007

 

SECÇÃO: O Mirante dos Leitores

Os Anjos na Guerra

Tenho trinta anos de vida e habito numa pequena aldeia ribatejana, aqui o tempo passa devagar e as notícias correm ligeiras de boca em boca. É nos cafés que são divulgadas as novidades do dia, muitas são banalidades quotidianas. Mas gosto de escutar as pessoas da minha terra e particularmente de ouvir os testemunhos da vivência de gerações anteriores à minha. Foi numa destas conversas de café que tomei conhecimento de algo que me intrigou, a estima e o brilho nos olhos que os ex-combatentes da Guerra Colonial deixaram transparecer ao falar das suas Madrinhas de Guerra. 

Depois de alguma pesquisa e de ouvir os curiosos testemunhos dos meus conterrâneos, descobri que as Madrinhas de Guerra faziam parte de uma das áreas de intervenção do Movimento Nacional Feminino (M.N.F.), mais propriamente da área de Apoio Social. Este Movimento foi criado por um grupo de mulheres da alta sociedade portuguesa na década de 60, eram guiadas e regidas por valores católicos e tinham o apoio do Estado Novo, chegaram a reunir 82 000 mulheres de vários estratos sociais nas suas áreas de intervenção. Um dos seus objectivos era prestar auxílio aos desalojados e repatriados das ex-colónias, outro objectivo era prestar apoio aos soldados no Ultramar e às suas famílias durante os anos da guerra, sendo extinguido após o 25 de Abril de 1974.

Durante estes anos a secção das Madrinhas era muito requisitada pelos soldados que combatiam nas ex-colónias. O M.N.F., para tornar mais eficaz o seu apoio, analisava os pedidos destes e seleccionava a madrinha para trocar correspondência, tendo em conta que deveria ser da mesma proveniência (região ou povoação vizinha) do soldado requerente. As madrinhas correspondiam-se com os seus "afilhados" através dos aerogramas, também conhecido entre os soldados como "bate estradas". O aerograma, um inteiro postal isento de franquia, foi mais uma iniciativa do M.N.F.

"Nacionalidade portuguesa, maiores de 21 anos, moral idónea, coragem, capacidade de sacrifício, confiança na vitória e capacidade de transmissão dessa ideia", estes eram os requisitos para se ser Madrinha de Guerra. Por vezes estes requisitos só eram mantidos durante a primeira troca de correspondência, dando lugar a compaixão e até a verdadeiras paixões, muitas das quais duraram até depois da guerra. 

Imagino que sucedessem trocas de correspondência mais intensas, trocavam fotos, juras de amor e esperavam ansiosamente por notícias que deveriam parecer levar anos para chegar. Mulheres e homens de tenra idade, que certamente choravam as amarguras da guerra e a distância que os separava. Uma boa parte destas mulheres tinham pouca escolaridade e certamente mal saberiam escrever, mas as letras bem desenhadas e as palavras ternurentas e verdadeiramente sentidas inundavam de fé e de amor o coração toldado pelos males da guerra dos jovens soldados.

Este é o meu tributo a todas as mulheres daquele tempo, Madrinhas de Guerra, namoradas, esposas, mães, irmãs e amigas. Todas foram e são essenciais para o equilíbrio psicológico dos soldados daquele tempo, foram verdadeiros anjos na guerra.

José Duarte R. dos Santos

Biscaínho-Coruche

http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=313&id=38951&idSeccao=4524&Action=noticia

 

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Enviado por Henrique Manuel Durão

Madrinha de Guerra

-----Mensagem original-----
De: hdurao
Enviada: sexta-feira, 19 de Outubro de 2007 21:10
Para: UTW
Assunto: Notícias http://ultramar.terraweb.biz (Madrinhas de Guerra)

         Para falar de Madrinhas de Guerra, será necessário recuar às minhas recordações dos anos 70 em que tomei contacto assumido com a realidade do mundo português, típico do Estado Novo, e apoiado pelo então MNF (Movimento Nacional Feminino).

         Hoje ocorreu-me falar deste assunto com o distanciamento necessário de quem já lembra o passado com vontade de deixar algumas das suas memórias às gerações seguintes.

         Experiência do tempo em que cumpri o meu serviço militar, parte na metrópole, parte na então província ultramarina de Angola, e, embora não tivesse tido efectivamente o que se poderia chamar na época de madrinha de guerra, convivi bem de perto com essa realidade de ajuda psicológica aos nossos jovens que lutavam em África.

         Tive durante a comissão no ultramar um enorme apoio familiar e sobretudo uma grande cumplicidade com uma namorada, que me aguardava serenamente em Lisboa, trocando comigo muitas palavras de encorajamento e confiança num regresso libertador onde tudo acabaria em paz e amor.

         Embora, como acabo de afirmar, não tenha tido uma madrinha de guerra na acepção do termo (tal como era entendido na altura), posso dizer com toda a propriedade que sei bem do que falo, pois fui inúmeras vezes o leitor de variados aerogramas e cartas para os soldados da minha Compª transmitindo-lhes, toda a emoção contida nessa escrita de apoio ao militar.

         Fruto da grande carência, em termos de habilitações escolares, por parte dos nossos soldados, bastantes missivas eram assim lidas pelos graduados, onde me enquadrava, sendo confidentes e responsáveis pelas respostas apaixonadas às garotas da terra que porventura iriam ser as suas futuras namoradas e muitas vezes e em muitos casos as futuras esposas.

         Umas quantas linhas devoradas rapidamente, assim que era distribuído o correio, tinham efeito “ecstasy” e serviam de muleta para ultrapassar a saudade proporcional à distância.

         Madrinhas de Guerra, raparigas apoiantes do regime, ou simplesmente moças de sonhos cor-de-rosa? Tinham a consciência de que se movimentavam no país onde as estatísticas afirmavam haver 7,5 mulheres para cada homem?

         Madrinhas de Guerra, instrumento da máquina de propaganda numa missão de retaguarda, ou mulheres construtoras de ilusões?

         Madrinhas de Guerra, nacionalidade portuguesa, maiores de 21 anos, moral idónea, espírito patriótico, coragem, capacidade de sacrifício, confiança na vitória e capacidade de transmissão dessa ideia.

         O que ficou para a história?

         Quem viveu essa época e esteve de um dos lados onde se fazia da saudade dos entes queridos uma ajuda para passar o tempo, que decorria invariavelmente sem mudanças, deu valor ao contributo das Madrinhas de Guerra.

         Hoje elas são lembradas em tom de pieguice saudosista por uns, e como recordação gratificante da juventude por outros, onde o amor despontava em cada letra caprichada nos célebres “bate-estradas”.

         Evidentemente que para a difusão do estatuto de Madrinhas de Guerra, no meu conceito, é necessário primeiro que tudo haver uma guerra a decorrer, e agora o nosso país não está em guerra declarada. Contudo, Madrinhas (de acompanhamento psicológico) têm sempre lugar se quisermos acompanhar e ajudar a todos aqueles que estão longe da pátria e com o coração em Portugal.

         Madrinha de Guerra: uma figura de destaque em qualquer lugar e em qualquer época, pois realça a condição humana da mulher enquanto companheira do homem e como complemento do seu equilíbrio de vida.

         Politicamente discutível ou não, o meu bem-haja a quem foi MADRINHA de GUERRA durante o conflito do Ultramar.

 Henrique Durão

Setembro 2007

 

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