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Trabalhos

Enviado por Ilídio Costa

 

De: João Asseiceiro

 

 

De: ilidio costa [mailto:santoscosta68@yahoo.com.br]
Enviada: quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007 23:48
Para: Ultramar
Assunto: Saga de Antadora

"Saga de Antadora"

de: João Asseiceiro

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A propósito dos votos de Bom Natal que proliferam, diz-se que são lugares comuns. Pode ser. Mas trago aqui o testemunho dum acontecimento que está a marcar o Natal aqui e que devo compartilhar com os Antigos Combatentes que passaram por Mueda.

Lá vai: Existia em Mueda a Escola de Condução do Serra, e o Bar. Esse Bar ficou na m/memória, porquanto calcinado pela miséria que era Antadora, poder beber e comer quando me apetecesse nas múltiplas vezes que passava por Mueda, e parodiar com a Fátima Cão e a Teresa, macondes - que tb frequentavam o Bar, nas recordações ao longo destes trinta anos, fazem sempre parte destes Natais.

Porque às boas recordações estão sempre ligadas as más recordações do som dos helicópteros que traziam evacuados os mortos e os feridos de Cabo Delgado para a Enfermaria Regional do sector B/Av de Mueda, sentir as emoções de toda aquela gente - de todas as raças, que dum lado e doutro foram vítimas da guerra !

Por isso, as Boas Festas entre os combatentes, não são lugares comuns.

E como era doloroso, estar a beber uma Laurentina e a comer uma sandes de chouriço, enquanto as hélices dos helicópteros ficavam a matraquear horas nos ouvidos, ciente do que se passava ali fora !

O Serra, tinha ali o seu negócio. Pelo bar e pela Escola de Condução passaram milhares de combatentes... fui um deles, no meu caso apenas em trânsito - com a particularidade de estar tão infiltrado no meio, que conheci Mueda, palmo a palmo, embora out sider dos padrões militares tidos como normais... é que frequentava muito as palhotas, bebia muita cerveja e muito vinho em zonas do aldeamento quantas vezes fora de controle, mas a Fátima Cão sempre me trazia de regresso ao Esquadrão, pela alta madrugada. 

O filho do Serra, tinha doze anos e agora, já adulto detectou alguns dos escritos que produzo por aqui, e nesta véspera de Natal, pôs-me a conversar, com o pai, o Sr. Serra.

Como imaginam, foram momentos bem emotivos em que mais de trinta anos depois, duas pessoas que não privavam, mas trocaram e confirmaram memórias dum passado comum - carregado de emoções, e com um peso energético do qual fazem parte todos e todas que de diversas formas, viveram, morreram e sofreram - e também se divertiram (sempre a mistura explosiva que a guerra comporta) e que dão conteúdo à honra que todos sentimos por ter passado, pelos diversos locais de Cabo Delgado.

Bom Natal, Bom Ano Novo.

João Asseiceiro

2ª Companhia do BCAÇ 4213

Nota: texto com sublinhado nosso

 

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