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Angola

In revista "Domingo" do Jornal "Correio da Manhã" de 06Dez2015

 

Enviado por um colaborador do portal UTW

 

 

Albertino Domingues Góis

 

Aeródromo Base 3

 

Negage - Angola

 

1962 a 1964

 

 

06.12.2015  11:00

"Rezaram-se missas pela minha alma" O chefe do posto julgava que eu morrera.

 

Por Leonardo Ralha 
 

No fim de março de 1964 havia um ferido ou doente que tinha de ser retirado de Micula. Descolei do aeródromo base nº 3, em Negage, no norte de Angola, onde era cabo especialista mecânico de material aéreo há dois anos, e o piloto desviou a rota devido às nuvens. Ao percebermos que as árvores estavam muito próximas, já não conseguimos subir.

O furriel piloto José Alberto Simões deslocou a clavícula, e eu fiquei com a tíbia ferida. Ouvimos aviões por cima, mas o céu estava coberto por uma cacimbada tremenda. Arrancámos de manhã, eu com a carabina, ele com a pistola, levando a bússola e um mapa. Estávamos relativamente perto do aeródromo.

Três dias depois, chegámos a uma zona de capim. Chovia muito, e fizemos um abrigo, onde nos enfiámos. De manhã passou um avião Dornier e disparámos o very-light. Deu a volta, mas foi embora. Pouco depois, vimos duas negras, que fugiram. Subimos a um monte, a pensar que nos podiam levar até à tropa, e ficámos assustados com a malta do FNLA que nos cercou. Disseram para nos entregarmos, mandaram rajadas e uma granada. O furriel disse para dispararmos e guardarmos uma bala cada um. "Tem calma. Mortos é que não fazemos nada", respondi-lhe

Não houve outra solução que não fosse levantar os braços. Só nos deixaram as calças. Na sanzala fui recebido por uma mulher que me espetou duas galhetas. O chefe deles fechou-me um mês numa cubata. Levavam-me mandioca amassada e enrolada em folhas, um bocado de feijão e os ratos que apanhavam e assavam na fogueira. Bastou para me aguentar.

ENTREGUE NO CONGO

 

Disseram que íamos para o Congo, e a verdade é que o Simões voltou. Mas vinha com paludismo e morreu na noite de 28 de maio. Também fiquei doente, só que um deles fora enfermeiro no Exército e deu-me uma injeção. O chefe, chamado Domingos, arranjou uma galinha, mandou cozer, e fez-me um caldo com muito piripíri. Cheguei a ter 40,5 graus de febre, mas oito dias depois voltei a andar.

Em julho de 1964 entrámos no Congo. Fui recebido pela multidão, e posto em cima de uma mesa, em baixo de um embondeiro. "Vão aproveitar para me enforcar", pensei. Em vez disso, o líder deles levou-me para uma cubata, e falámos em português e francês. Comi feijão vermelho com carne de pacaça, a melhor refeição em três meses, e vinho de palmeira.

No dia seguinte, um jornalista, o chefe da polícia e o administrador de Singololo levaram-me para a cidade. Fiquei em casa do chefe da polícia, que me ofereceu brandy e latas de conserva. À noite veio um português, Alípio de Oliveira, que tinha uma oficina. Jantámos arroz de marisco em casa dele, e disse-me que eu iria embora. Fui de manhã, de automóvel, com o jornalista e o administrador. Passámos por Matadi e, já em Angola, parámos na PIDE em Nóqui. "Tens aqui o teu homem", disseram ao chefe do posto, que me recebeu com um abraço. Ficou estupefacto, pois julgava que eu morrera e o Simões estava vivo. Aterrei em Luanda nesse dia, e o irmão do furriel, que movera influências, não me visitou.

A comissão terminava em agosto e o comandante deu-me férias. Disse-lhe que preferia dá-la por terminada. Soube que, estando dado por morto, os meus familiares vestiram-se de luto e rezaram missas pela minha alma.

Albertino Domingues Góis

 

COMISSÃO: Angola, de 1962 a 1964

FORÇA: Aeródromo Base nº 3, em Negage 

ATUALIDADE: Aos 73 anos, regressou com a mulher há 14 anos dos EUA, onde ainda vivem três dos seus quatro filhos. Tem sete netos e uma bisneta

 

 


 

 

 

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