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Angola

«A minha guerra» in revista "Domingo", do Jornal "Correio da Manhã", de 19Mai2013

 

Informação de um colaborador do portal UTW

 

 

A minha guerra

 

"A Jacinta foi a minha heroína na guerra"

 

Eis o meu espanto quando, ao embarcar no ‘Niassa', estava lá a minha mulher, pronta para ir comigo para a guerra de Angola.

 

Por: João Francisco Paiva (depoimento recolhido por José Carlos Marques)

 

Já a guerra em Angola tinha começado quando fui mobilizado para uma companhia açoriana. Corria o ano de 1961, o primeiro da guerra, quando completei a instrução nos Açores. Tinha 21 anos e, não sei explicar porquê, convenci-me de que não ia ser mobilizado. Tanto que me casei por procuração com a minha namorada, de 19 anos, com quem planeava montar casa no Montijo, de onde ambos somos naturais.

 

Mas a mobilização acabou mesmo por chegar. Em novembro de 1962, recebemos ordens de embarque para África. Só tive tempo de enviar um telegrama à família, antes de nos metermos no barco que nos traria para o continente.

 

SURPRESA NO 'NIASSA'

 

 

Chegámos a Lisboa sete dias depois. Pensava que não teria tempo de ver a minha mulher, nem a família, mas eis a minha surpresa quando soube que a minha mulher estava no ‘Niassa', o navio que nos ia levar para Angola. A Jacinta foi ao Ministério da Guerra, bateu a todas as portas e - ainda hoje estou para saber como - conseguiu reservar um camarote para ir comigo. Foi uma surpresa vê-la ali, ainda tentei convencê-la a ficar, mas foi impossível. Na verdade, a viagem no ‘Niassa' acabou por ser a nossa lua de mel. Ficámos juntos no camarote e chegámos felizes a Angola. Estava muito preocupado com o destino da Jacinta em Angola, mas um colega sossegou-me: tinha família em Luanda e ficou combinado que ela ficaria com os pais dele.

 

A nossa companhia partiu para o norte, na zona do Negage, onde os combates eram duros. Certo dia, estava acampado durante uma missão na Serra do Canzundo quando chegaram militares a dizer que tinha aparecido no quartel uma senhora a perguntar pelo marido, que ninguém sabia onde estava. Suspeitei de quem seria a senhora, e convenci o meu comandante de que era necessário ir a Negage, pedir informações sobre um avião desconhecido que nos tinha sobrevoado. Ele achou boa ideia e lá fui eu ao quartel, com a certeza de que era a Jacinta quem ali estava a perguntar por mim. E de facto assim foi, ela entrou no quartel e não descansou enquanto não me viu. Deram-lhe um quarto e foi ali que passei boa parte da comissão. Sentia-me um privilegiado, só uns poucos oficiais tinham lá as esposas, e eu, um mero furriel miliciano, tinha a minha mulher. Pouco depois, a Jacinta descobriu que estava grávida, mas só aceitou ir para Luanda ao oitavo mês de gravidez. O João Paulo nasceu em Angola e esteve connosco na maior parte da comissão.

 

HEROÍNA DE GUERRA

 

Ter comigo a minha mulher e o meu filho durante a guerra foi uma grande força. Mas fiz sempre questão de nunca recusar uma missão. Era atirador de infantaria e passei por muitos combates, mas voltei sempre ileso para a Jacinta e o João. Ela era uma ‘mãe' para toda a companhia. Tinha sempre uma palavra de conforto. Tínhamos um amigo da Força Aérea, que tantas vezes a levou na sua avioneta a visitar-me nos locais mais remotos. Numa dessas aventuras, o avião foi atingido por tiros. A Jacinta foi a minha heroína na guerra e tenho a sorte de ainda partilhar os dias com ela.

 

A nossa missão acabou em 1964. Os últimos meses foram no sul de Angola, em Santo António do Zaire, onde ainda não havia tiros. Voltámos os três a Lisboa no final de 1964.

 

Comissão:

Angola, 1962-1964

 

Força:

Companhia de Caçadores 382

 

Atualidade:

João, de 72 anos, e Jacinta, de 69, vivem em Azeitão. Têm dois filhos, cinco netos e três bisnetos

 

 

 

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