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Angola

ANGOLA - IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em sites próprios

 

 

Eduardo José dos Reis Lopes

 

ex- Alferes Mil.º de Infantaria de Operações Especiais 'Ranger'

 

Cruz de Guerra de 4.ª classe

 

Companhia de Caçadores 2600

 

Batalhão de Caçadores 2887

 

Angola - 1969 / 1971

 

 

 

Memórias de guerra

 

II - Partida; e Primeiras Semanas no Mato

 

Em 06Nov69 saíamos do Grafanil com destino a Balacende, aquartelamento no mato dos Dembos e que nos 18 meses seguintes iria ser a nossa sede.
Formou-se uma coluna-auto com cerca de 16 camiões civis, com taipais, que arrancou pela Estrada de Catete ainda o dia não tinha nascido – atravessando Luanda adormecida mas já com azáfama própria daquela grande cidade –, e rumámos norte pelo Cacuaco e Fazenda Tentativa até ao Caxito.
Contrariamente a outros graduados que viajaram ao lado dos condutores, instalei-me com o meu Grupo de Combate (GC) nas traseiras entaipadas do camião e logo que deixámos Luanda para trás adormeci, pois já estava habituado a dormir em qualquer situação (em Lamego até a andar adormeci), tendo sido acordado quando a coluna parou no Caxito. Aproveitei para beber um café e dois dedos de conversa com o motorista civil, que informou: a partir do Caxito, começava a picada e a guerra.
No Caxito e lá mais para a frente, em Quicabo, os militares ali estacionados "em quadrícula" e já com largos meses de mato – os chamados "velhinhos" –, assustavam os "maçaricos" (tropa recém-chegada e inexperiente), com avisos do género «cuidado que no sítio tal há emboscadas todos os dias, cuidado com as 7 curvas onde já morreram muitos camaradas... ». A "maçaricada", ainda insegura e nervosa, mais assustada ficava; mas eu tentava desmitificar a situação, agindo com descontracção e à vontade.
Logo a seguir ao Caxito e pouco antes da encruzilhada para as Mabubas, ordenei "bala-na-câmara e patilha na posição de segurança".
Depois de paragem em Quicabo, onde ficaram as viaturas que transportavam o comando do batalhão, a CCS e a CCac2599, partimos para Balacende: era neste itinerário Quicabo-Balacende, que se situavam as míticas "7 curvas" das perigosas picadas-da-guerra, no noroeste de Angola.
O sol apertava e o pessoal com o camuflado e a cara cheios de pó: conforme tinha combinado com o condutor, este avisou-me antes de começar a descer as "7 Curvas” e
ordenei que passassem a patilha da G3 para a posição de fogo; de armas-em-riste, passámos sem qualquer problema.
Chegados a Balacende, a velhice da CCac2365 esperava-nos em amistosa recepção, cujo lema era "a vossa desgraça é a nossa felicidade": após ali aquartelados nos últimos 17 meses, iriam ser transferidos para Maquela do Zombo, junto à fronteira norte distrital do Uíge.

Com aqueles "velhinhos" mantivémo-nos cerca de 10 dias "em sobreposição", durante a qual recebemos as rotinas do aquartelamento (serviço aos torreões, idas à água e à lenha, limpeza de instalações, etc.), sendo tais rotinas efectuadas normalmente por um pelotão "velhinho" e um pelotão "maçarico".
Apesar de a CCac1678, anterior àqueles "velhinhos", ter sofrido em 23Set67 violenta emboscada – que ainda era comentada na RMA –, devido à rotina (mesma hora e local) de idas à água (no rio Lifune) e efectuada apenas por uma secção, constava que o IN havia dizimado uma secção [da qual morreram 4 militares], levando G3, cartucheiras, botas e outro equipamento, com incêndio do Unimog e da viatura com depósito da água –, os actuais "velhinhos" apenas mudaram o local da recolha de água para mais próximo do quartel, (um ribeiro que passava debaixo da ponte de Balacende a cerca de 1Km do aquartelamento), mantendo as anteriores rotinas.
Na 1ª vez que acompanhei duas secções do meu GC numa ida à água, conferenciei com os meus furrieis milicianos, Louro e Patuleia, no sentido de que logo após a partida da "velhice", iríamos terminar com tais "rotinas".

Durante uma patrulha de reconhecimento para os lados do Quifusse, com um pelotão da "velhice" e após termos percorrido um trilho durante cerca de 15km, o alferes "velhinho" mandou fazer alto. Julgando que a paragem era para descanso e comer umas latas da ração-de-combate, mandei estabelecer o perímetro de segurança: só então o alferes "velhinho" me informou – apontando para centenas de invólucros dispersos pelo trilho –, que a partir dali a guerra era a sério, aconselhando-me a não passar adiante.
Pensei logo, que com o meu comandante de companhia (capitão miliciano de infantaria Hermínio Feliciano da Cruz Batista), e com o Comando do meu batalhão (tenente-coronel de infantaria Manuel José Monteiro), um tal "conselho" não poderia ser acolhido: e assim foi; (logo na primeira operação, viríamos a ultrapassar aquele local e avançámos sobre o mítico Quifusse, onde o IN se acoitava).

Com as instalações daquele aquartelamento sobrelotadas, vimos com satisfação a "velhice" rumar ao norte: não apenas porque o evidente "à vontade e descontracção natural" de quase toda a CCac2365, naquelas picadas e no mato circundante, já havia transmitido alguns sinais de contágio, negativo, quanto a falhas nas regras de actividade da nossa contra-guerrilha, sobre alguns elementos da nossa CCac2600, mas principalmente porque ficávamos – finalmente –, únicos responsáveis pela zona de acção atribuída à nossa companhia.
Suspiramos: enfim, sós. Agora, era à nossa maneira.
Os locais para recolher água passaram a ser três, distanciados cerca de 300mts uns dos outros; e quanto a horas de ida à água, seria a qualquer uma, fosse dia ou noite (preferindo a noite, para caçar pacaças, gazelas, burros selvagens, etc, que iam beber àqueles sítios).

Decorridos seis meses de aquartelamento em Balacende, o nosso sistema aleatório de local e hora da recolha de água, transformou uma emboscada IN em flagelação sem consequências para as NT, pois o IN emboscou no local errado.

 

 

 

 

 


 

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