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Angola

ANGOLA - IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em sites próprios

 

 

Eduardo José dos Reis Lopes

 

ex- Alferes Mil.º de Infantaria de Operações Especiais 'Ranger'

 

Cruz de Guerra de 4.ª classe

 

Companhia de Caçadores 2600

 

Batalhão de Caçadores 2887

 

Angola - 1969 / 1971

 

 

 

Memórias de guerra

 

III - 1.ª Operação

 

No final de Novembro de 1969, estávamos há três semanas em Balacende, tivemos o baptismo-de-fogo durante a 1ª operação, que foi comandada pelo nosso Capitão Hermínio Batista, executada com o 3º pelotão (o meu) e o 4º pelotão (do Alferes milº Alves), tendo como propósito recuperar população subjugada pelo IN na região do Quifusse onde, juntamente com a do Canacassala, os grupos armados da FNLA predominavam: estas duas áreas situavam-se no âmago da floresta tropical dos Dembos, onde existem numerosas montanhas em terreno muito acidentado e entrecortado por vales profundos, inúmeros rios e linhas de água, tudo recoberto por densa vegetação quase sempre impenetrável, agravando dificuldades para que as NT alcançassem alguns "santuários" IN. (¹)

Com duração prevista para quatro dias – dois até alcançar o objectivo, seguindo-se o tempo necessário ao reconhecimento da área antes da destruição de cubatas e lavras, e outros dois dias para regresso –, por volta das 21:00 da data prevista e a fim de dificultar a detecção exterior do arranque da operação, foram apagadas no perímetro do aquartelamento todas as luzes junto do arame-farpado, saímos em fila-de-um e, atravessando a picada e a pista, rumámos ao Quifusse.
A intenção era ultrapassar já noite adiantada os morros que delimitavam a entrada no Quifusse, pois tínhamos informação de neles existirem vigias que, se nos detectassem, disparavam um tiro para avisar a população a refugiar-se em local pré-determinado.

Cerca das 04:00 do 2º dia de marcha, avistámos os referidos morros e em absoluto silêncio abandonámos o trilho, colando-nos à orla da mata que bordejava o morro da direita e entrámos no Quifusse, sempre na expectativa de ouvir um tiro que poderia frustrar o êxito da operação: mas à medida que avançávamos, mais nos convencíamos de ter entrado no Quifusse sem ser detectados; e assim foi.

No final daquela manhã caminhávamos em fila indiana, indo na frente o meu pelotão por um trilho bem batido com pegadas que nos pareciam recentes quando, ao iniciar a descida de um pequeno morro, o soldado da frente mandou parar, agachar e passou palavra para que eu - na 3ª ou 4ª posição - chegasse à frente: por outro trilho no morro fronteiro, despreocupadamente e com grande à-vontade, desciam dezenas de "pioneiros" – miudagem com cerca de 14-16 anos –, encontrando-se já alguns a beber água no riacho que separava os dois morros.
Ultrapassada a surpresa voltei atrás e, junto do Cap. Batista e Alf. milº Alves, sugeri que me deslocasse com uma equipa até ao riacho para apanhar alguns "à mão", enquanto o resto do pessoal desceria o morro para emboscar em outro trilho que, naquele vale, seguia paralelo ao pequeno riacho.
Perante a concordância do comandante da operação, prossegui com a equipa do 1ºCabo Moutinho, com todas as precauções e agachados (como tinha aprendido no CIOE), em fila-de-um até nos aproximarmos do alvo, onde passámos "à linha" e assim por mais alguns metros até ficarmos separados apenas pela linha-de-água, de frente para os "pioneiros" que, para nosso espanto, sem ter dado pela nossa presença continuavam tranquilamente a beber, até que – na minha ingenuidade de "maçarico" – gritei: «entreguem-se que não fazemos mal»...
Quer os que bebiam como os que lhes estavam atrás, levantaram as cabeças mas ali ficaram especados a olhar para nós. Nisto, decorreu um par de segundos que me pareceu uma eternidade e, perante este cenário que parecia a imagem parada de um filme, sentindo necessidade de fazer algo, comecei a dizer «vou contar.... », mas não acabei a frase: aquele bando de "pioneiros", quais gazelas em saltos enormes, desapareceu pelo meio do capim. Ali nada mais havia a fazer, senão regressar ao ponto de reunião.
No preciso momento em que nos dirigíamos ao encontro das NT, irrompeu intenso fogachal cujos projécteis sibilavam por cima da equipa, que de imediato se colou ao chão rastejando na direcção de onde tínhamos partido. Tal como abruptamente se havia iniciado, o tiroteio cessou.
Ao chegar ao ponto-de-encontro, já lá estava o Capitão com o restante pessoal, que pela mão trazia dois catraios com cerca de 12 anos: o Adão e o Lopes. Então, o nosso comandante informou-me que, quando as NT se deslocavam no trilho junto ao ribeiro, ao terem sido alvejados pelo IN ripostaram com rajadas de G3 e aquela catraiada – apesar dos disparos –, avançou com facas-de-mato, tendo sido alguns mortalmente atingidos.
Viemos a saber, depois, que aquele grupo de "pioneiros" transitava por ali acompanhado pelo "comandante de zona" e por um "comissário político" (ambos armados de pistola), pelo doutrinador protestante (desarmado), e por dois guerrilheiros (um com arma de repetição e outro com uma PPSH), tendo sido estes quem abriu fogo sobre as NT e acicatou os "pioneiros" a avançar contra "os colonialistas"...
O imprevisto resultado desta surtida, foi uma dúzia de "pioneiros" liquidados e outros dois resgatados à subjugação da FNLA.
Iniciado de imediato o regresso ao nosso aquartelamento em Balacende, ao longo de dia e meio fomos sendo flagelados pelo IN que, a intervalos e instalado nos morros, ia disparando mas sempre a alguma distância e sem constituir qualquer perigo para nós.

Chegados ao quartel e mal depararam com o movimento dos Unimog ("burros-do-mato" a gasóleo), os dois fedelhos largaram as mãos dos soldados que os conduziam e atiraram-se para o capim: nunca tinham visto uma viatura.
Enquanto permaneceram em Balacende, dormiram e comeram na messe dos sargentos, tendo todos os graduados contribuído para lhes comprar roupa e calçado. Mas também os preparámos para fazer a admissão ao exame da 4ª classe de instrução primária, pois do antecedente sabiam ler e escrever.

Ao fim de um ano e por ordem do comando do batalhão, aqueles dois ex-pioneiros da FNLA foram entregues no Caxito aos cuidados de uma instituição católica, onde, sempre que nos deslocávamos àquela vila, os íamos visitar.

Após a nossa CCac2600 ser transferida em Mai71 de Balacende para o aquartelamento na Fazenda Tentativa, continuámos a interessar-nos por aqueles dois rapazes que, no início de Nov71, aquando do nosso regresso à Metrópole, estavam para ir para o Seminário de Luanda a fim de ali prosseguir os seus estudos.
_____________________

(¹) Estas condicionantes vieram a ser parcialmente solucionadas através de operações helitransportadas, primeiro em Allouette-III (cada um transportava uma equipa de 5 homens, sendo cada "leva" composta por esquadrilha de 5 aparelhos com protecção adicional do "Lobo Mau" (AL-III com helicanhão de 20mm a bombordo), ou de uma DO-27 com rocket's sob as asas. Posteriormente, a partir de Mar71 fizémos algumas acções com helis SA-330 Puma, que transportavam 20 homens devidamente equipados: estas aeronaves tinham a vantagem de levar mais pessoal mas dificuldade em pousar nos locais de mato mais cerrado, pelo que normalmente pousavam em lavras; da primeira vez que fomos transportados em heli Puma, este era acompanhado por dois técnicos franceses da fábrica Sud-Aviation.

 

Lopes e Adão: Foto tirada logo que chegámos da operação.

Estavam assustados. Tinham sido tratados na enfermaria a pequenas feridas nas pernas

 

 


 

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