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Angola

ANGOLA - IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em sites próprios

 

 

Eduardo José dos Reis Lopes

 

ex- Alferes Mil.º de Infantaria de Operações Especiais 'Ranger'

 

Cruz de Guerra de 4.ª classe

 

Companhia de Caçadores 2600

 

Batalhão de Caçadores 2887

 

Angola - 1969 / 1971

 

 

 

Memórias de guerra

 

VI - Assalto à base «Checoslováquia» do MPLA

 

Ao princípio da tarde de 23Mai70 largámos de Balacende para sul, rumo às 7 Curvas e a Quicabo, onde nos juntámos ao PelRec/CCS e a um pelotão da CCac2599, que retornaria em escolta às nossas viaturas.
Após um 'briefing' com o comando do nosso BCac2887, saímos de rompão pela picada até Caxito, mas cerca de 20km antes da vila enfiámos pela picada da Roça Novo Mundo, situada a cerca de 80km leste de Quicabo. Por aquela rolámos, em péssimo estado pois há anos não era utilizada, entre capim e pela savana até início da mata, onde a picada desaparecia. Eis-nos no ponto da "largada", saltámos das viaturas e, regressadas aquelas a Quicabo, decorrido algum tempo internámo-nos na mata.
Andados cerca de 100mts, montámos o dispositivo de segurança e aguardámos que a noite caísse, aproveitando para descansar e abrir a 1ª ração-de-combate, enquanto o guia Eduardo procurava o trilho que, embora dissimulado, logo foi encontrado.

Já as estrelas cintilavam e a lua-cheia clareava as redondezas, iniciámos por um trilho largo e bem batido a nossa progressão em passo apressado, até que pouco antes do alvorecer abandonámos o trilho e mais adiante na mata montámos novo perímetro de segurança, passando todo esse dia em absoluto silêncio e proibidos de fumar (tremendo sacrifício para alguns), apesar de o guia Eduardo nos ter informado que os sentinelas do MPLA costumavam encontrar-se mais perto da base IN, pois há muitos anos que as NT não iam àquela região.
Mal começou a anoitecer reiniciámos a marcha com redobrados cuidados, até que o guia pelas 03:00 nos mandou parar e informou estarmos a cerca de 300mts da lavra que abastecia a base IN: atravessada aquela, depararíamos com o nosso objectivo. Saímos do trilho, aguardámos os primeiros raios de luz e, como o IN não se manifestara, convencemo-nos de não ter sido detectados.

Pelas 05:00 de 25Mai70, regressámos ao trilho progredindo com todo o cuidado e chegados à lavra, concluímos que a travessia em área completamente aberta era um risco que teríamos de correr, pois não tínhamos alternativa: na frente seguia o meu pelotão, com o guia no meio e eu, como era habitual, na 3ª posição.
Ao aproximarmo-nos da orla da mata, rebentou intenso fogachal IN que rapidamente nos fez retroceder: enquanto a meio da lavra o PelRec ficou colado ao chão e em terreno aberto, à entrada da mata a 1ª secção do meu GC abriu para a direita, a 2ª secção comandada pelo Furriel Louro foi para a esquerda e a 3ª secção comandada pelo Furriel Pereira ficou no meio; sentindo balas a zumbir e folhas de árvores a cair, rápido concluímos não poder manter aquelas posições, pelo que rodámos sobre os nossos corpos e rastejámos até sair do ângulo de tiro do IN, a cujo flanqueamento de imediato procedemos até deparar – a cerca de 20 mts –, com uns 15 atiradores entrincheirados em 3 valas com cerca de 1mt de fundo, que disparavam sobre as NT, sem preocupações em poupar munições.
Ripostámos com rajadas de G3 e MG-42, seguindo-se o lançamento de 2 granadas ofensivas que forçaram os guerrilheiros à debandada, levando no encalço o meu GC que assim penetrou na tal "Base Checoslováquia": lançadas as granadas ofensivas para dentro das cubatas e ultrapassando estas, montámos no extremo oposto o nosso dispositivo de segurança, enquanto o PelRec revistava as cubatas e toda aquela "base inexpugnável"...
Para encerrar o nosso golpe-de-mão, todas as cubatas foram incendiadas e todos os utensílios destruídos, tal como uma grelha de paus entrelaçados que funcionava como porta de um buraco-prisão. Confirmámos no local um IN morto e um rasto de sangue, que seguimos por alguns metros mas sem encontrar corpo algum.
Do nosso lado, apenas um tiro de raspão na orelha de um soldado da 3ª secção. Tendo o Furriel Pereira dito «tiveste sorte, um pouco mais à direita e tinhas quinado», retorquiu-lhe o ferido jocosamente: «tive foi azar, um centímetro mais à esquerda e não me tinha acertado»...
Acabada a "limpeza", retirámos rapidamente e iniciámos a marcha para o ponto de recolha: ao longo desse dia e meio, fomos sendo alvo de tiros esporádicos e inconsequentes, pois o IN limitou-se a flagelar-nos de longe até subirmos para as viaturas.

Chegados a Quicabo e relatados os acontecimentos, apesar de não termos apanhado "vivo ou morto o Monstro Imortal" nem capturado arma alguma, o comando do batalhão mostrou-se satisfeito com os resultados, pois tínhamos destruído ao IN mais um "santuário", que o MPLA proclamava como «zona inexpugnável da 1ª RPM»... !
Com dois dedos de conversa aos camaradas de Quicabo e saciada a sede com uma cerveja gelada, regressámos à picada.
Ultrapassadas as 7 Curvas, respirámos de alívio: finalmente, aquela Operação tinha terminado bem e em Balacende esperavam-nos as nossas camaratas.

Posteriormente um pelotão de engenharia, escoltado por um GC do nosso batalhão, procedeu à reabertura da picada para a Roça Novo Mundo, ficando a pretensa "Zona B do MPLA" ainda mais exposta aos ataques das NT.
Como primeira retaliação, o MPLA implantou naquela picada uma mina que veio a causar duas baixas no GC que escoltava a Engenharia.
 

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