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Angola

ANGOLA - IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em sites próprios

in revista "Domingo" do jornal

"Correio da Manhã", de 15Abr2012

Elementos cedidos por um colaborador do Portal UTW

 

Firmino Adão Canhoto

 

Companhia de Caçadores 794

 

Mobilizada pelo Regimento de Infantaria 1

(Serra da Carregueira, Lisboa)

 

Angola, 1965/1967

 

 

A minha guerra

“Adão, serás o guardião daquela capelinha”

Em Muxaluando, perto do Zála, existia uma capela feita de velhas chapas de zinco, com um altar ao centro e a imagem da Srª de Fátima

Por: Firmino Adão Canhoto, Angola (1965-1967)

O meu pai era um homem alegre, destemido e trabalhador incansável para que nada faltasse aos 14 filhos. Dizia sempre: "Homem que é homem nunca chora". Naquele dia 27 de Junho de 1965, na hora da despedida, eu com uniforme de guerra e saco de campanha às costas, na cabeceira da sua cama, disse ao meu velhinho: "Não chore meu pai, que eu hei-de voltar" – ao que ele respondeu: "Se voltares meu filho, visita-me sim, mas na sepultura".

Ao partir, minha mãe entregou-me um velho crucifixo que teria sido, segunda ela, de um franciscano. Durante os dois anos que estive em Angola, nunca em momento algum se separou de mim.

Em Muxaluando, perto do Zála, ali no coração daquela terrível guerra, existia como aliás em todos os acampamentos uma humilde capelinha feita de algumas já velhas chapas de zinco. Ao centro, duas tábuas formavam o altar e em cima dele, uma imagem da Srª de Fátima.

Quando a minha companhia de caçadores número 794 chegou a Muxaluando, o nosso comandante, pessoa que também tinha muita fé, disse-me "Cabo Adão, tu serás, enquanto aqui estivermos, o guardião daquela capelinha". Foi o melhor prémio que recebi.

CARTAS A ISABEL

Na minha companhia havia um colega casado e que não sabia ler, nem escrever. Os aerogramas (cartas) eram naquele tempo o único meio de comunicação entre Angola e Portugal. Mas como poderia aquele triste soldado ribatejano escrever para a sua jovem esposa a dar notícias, se não sabia escrever?

Um dia depois de chegarmos a Muxaluando, um soldado abeirou-se de mim e, com voz trémula e meio envergonhado, disse-me "Nosso cabo, casei quinze dias antes de embarcar, deixei lá a minha mulher e prometi-lhe que apesar de não saber ler, nem escrever eu lhe mandaria notícias durante os dois anos que estiver aqui na guerra. Eu lembrei-me de vir falar consigo para lhe pedir se me pode escrever e ler as cartas da minha mulher". Arrepiei-me naquele momento e ainda tenho calafrios quando penso naquele pedido feito para dois anos.

Respondi: "Se tu achas que eu sou digno de semelhante tarefa, podes contar comigo, não como soldado mas como cristão".

Não foi nada fácil, tive que suportar os desgostos e tristezas das notícias dos meus aerogramas, mas também tudo o que tive de ler e escrever nos aerogramas daquele bom colega.

Ele às vezes partia para o mato e por lá andava oito a dez dias, em missão de combate onde poderia morrer. Antes de partir vinha ter comigo e pedia-me "Escreva dia sim, dia não para a minha Isabel e diga-lhe o costume, que eu estou bem, mas cheio de saudades". E quantas vezes eu peguei na caneta para satisfazer o seu pedido, "estou bem", sem eu próprio saber se ele estava vivo ou morto.

Enquanto jovem, e antes da vida militar, fiz parte de alguns grupos de teatro amador. O comandante incumbiu-me, por isso, de formar o Grupo Cénico da C. C. 794. Respondi "mas aqui no meio da guerra? Onde nada mais há a não ser mata e capim?" A verdade é que através do valioso e nobre movimento nacional feminino, nada faltou para que se tenham levado à cena vários espectáculos, não só de teatro, mas também de variedades, os quais contribuíram para nos esquecermos que a guerra existia.

Regressei a 3 de Julho de 1967 e, depois de abraçar a minha mãe e outros familiares, fui de imediato à sepultura do meu pai. Recordei o seu rosto lavado em lágrimas e as suas últimas palavras, "se voltares meu filho, visita-me sim, mas na sepultura".

PERFIL

Nome: Firmino Adão Canhoto

PERFIL

Nome: Firmino Adão Canhoto

Comissão: Angola (1965-1967)

Força: Companhia de Caçadores n.º 794

Actualidade: 69 anos, vive em Livramento (Mafra) e trabalha com mobiliário artístico

 

«Quando a Companhia de Caçadores 794 chegou a Angola foi de imediato para

uma zona de guerra, em Muxaluando. Dezassete meses depois, passou para

uma zona de paz, nesta vila de Caconda (na foto), onde aguardou embarque»

 

 

«Embarquei no navio "Vera Cruz", um dos que transportava as tropas para Angola. A viagem demorou nove dias»

 

«Estou a posar para a fotografia, com a arma

que usava sempre à cintura. Nessa altura tinha 22 anos»

 

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