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Angola

ANGOLA - Cruz de Guerra de 4.ª classe, a título póstumo

 

«...Com as lágrimas nos olhos, mas crentes do dever das horas más, os mesmos soldados que ele fora socorrer, e pelos quais dera a vida, com carinho familiar, despiram-no, lavaram-no, barbearam-no e envergaram-lhe a sua farda amarela, enquanto outros na carpintaria faziam o seu caixão; última homenagem que lhe podiam prestar. ...»

Major Gonçalves Dias, in Jornal do Exército

 

 

 

António Mendes Ribeiro

 

Furriel Mil.º de Infantaria

 

Companhia de Caçadores 167

 

(Batalhão de Caçadores 159)

 

Cruz de Guerra, de 4.ª classe

(Título póstumo)

 

António Mendes Ribeiro, Furriel Mil.º de Infantaria, natural da freguesia de Loivos do Monte, concelho de Baião, filho de Manuel Mendes Ribeiro e de Maria Otília Ribeiro.

 

Mobilizado pelo Regimento de Infantaria 4 para servir na Província Ultramarina de Angola integrado na Companhia de Caçadores 167 do Batalhão de Caçadores 159.

 

Tombou em combate no dia 26 de Setembro de 1961, junto à ponte do rio Loge (Colonato / Nova Caipemba).

 

Está sepultado no cemitério da freguesia da sua naturalidade.

 

 

 

Cruz de Guerra, de 4.ª classe

 

(Atribuída em 1963, publicada na OE19/IIIª/63, conforme pág. 174, do  tomo II, do 5.º volume da RHMCA/EME)

 

 

 

In Jornal do Exercito, ed. 61, de Janeiro de 1965

 

Tínhamos chegado há dias ao Colonato do Vale do Loge.


O vale tem uns oito quilómetros de largura e, dum e doutro lado, nos montes que o enquadram não há linha de água, por mais simples que seja, que não tenha a sua mata, que nalguns locais atinge a grandeza própria das regiões equatoriais.

 

O rio faz uma curva, recebe o Giagia, passa perto das oficinas sob a ponte pênsil onde tantos se fizeram retratar, aperta-se, encaixa-se, até ir passar pela ponte destruída pelos terroristas.


Das margens, árvores frondosas estendem os ramos que por vezes ultrapassam o meio do rio e a um e outro lado, o capim e mais arvoredo silvestre quase cobrem os cafezais abandonados.
Os Tocos tinham deixado o Colonato, apesar dos conselhos e avisos feitos, fugindo à nossa frente, sem que algum de nós fizesse um disparo ou os molestasse e escondiam-se no capim, onde capturámos alguns, entre eles o célebre Pedro Tumissungo Cardoso, secretário da UPA naquela região.


Daí em diante, as nossas patrulhas percorrem os arredores do Colonato infestados de bandoleiros que certo dia não hesitaram em vir atacar-nos de um monte sobranceiro e de grande comandamento.


Em 26 de Setembro de 1961, o 3.º Pelotão da CCac167 bate a margem esquerda do rio Loge, com a missão de atingir Sanda. Como guia levavam o Tumissungo.


Passada a ponte pênsil, o pessoal dissemina-se pelo capim e, margem abaixo, tenta um ângulo morto para depois subir a encosta.


O inimigo, conhecedor da região e que devia ter vigias nos pontos altos, vendo-nos com certeza sair, prepara a emboscada de acordo com as lições recebidas no estrangeiro.


Pelo fogo, foi batendo o terreno à nossa frente, como que cedendo mas, sobre a nossa direita, nem um tiro incidiu.


O fogo das armas automáticas e as sucessivas descargas de canhangulo indicam um bando numeroso.


Os rapazes, fogosos e pouco experimentados ainda, foram no engodo. Pareceu-lhes que progredindo pela direita, em zona mais arborizada, poderiam depois inflectir e cair sobre eles.


Andados uns duzentos metros, e quando ousadamente se lançavam à subida do morro, surgiu a emboscada. Do alto ou de cima das árvores e ainda da margem direita, o inimigo, bem instalado, bem armado e bem municiado, abriu repentinamente intenso e demorado fogo, fazendo tombar alguns homens.


Procuraram os nossos aproveitar o terreno e manobrar, mas o aperto do vale, a privilegiada colocação do inimigo e o seu bom armamento, não permitiram que os rapazes, com simples armas ligeiras, fizessem outra coisa que instalar-se, resistir e aguardar reforços.


Estes partiram rápidos, pois pela rádio os comandos viviam o que se estava passando. O próprio Comandante de Companhia, com um pelotão e duas esquadras de morteiro 60, conduz o ataque. O Inimigo, que devia esperar a nossa nova acção, tenta contrariá-la, batendo os que acorrem logo à salda da ponte e, dai para a frente, cada vez com mais intensidade.


A grande densidade dos fogos não vence a iniciativa dos nossos homens que, decididos, vão avançando.


Esta manobra consegue aliviar o fogo vindo da crista da margem esquerda, enquanto o fogo dos morteiros 60 alivia o da margem direita.


Entretanto impunha-se a parte mais difícil: - a recuperação de quatro feridos do 3.º Pelotão que tinham sido atingidos por arma de caça, como depois verificámos.


Com um sangue frio, entusiasmo e bravura inexcedíveis, não hesitando em se atirar para a frente, correndo e logo parando para cobrir com o seu fogo o avanço dos seus soldados à esquerda e direita, o furriel Ribeiro galvaniza os homens que o seguem, conseguindo-se assim a recuperação de dois feridos e do seu armamento.


Mas há ainda outros dois feridos mais à frente.

 

— Ribeiro, vamos buscá-los — diz-lhe o Comandante da Companhia.


Corre novamente o Ribeiro e tenta localizar os feridos.


Já os viu. Dá duas rajadas e lança-se para junto do seu subordinado. Chega a seu lado e prepara-se para o levantar.

 
O tiroteio Inimigo condensa-se ao seu redor e o furriel cai junto daquele que ia buscar, não mais se levantando.


A poucos passos de si cai outro soldado que o seguia.


Depois daquele exemplo, que se poderia esperar?


A retirada dos outros dois feridos fez-se debaixo de uma fuzilaria louca, mas fez-se. Custou mais dois feridos e a morte do furriel.


O projéctil embatera frontalmente no capacete e embebera-se no crânio, junto à orelha esquerda, penetrando de cima para baixo através do cérebro.


À sua chegada ao Colonato, ainda quente e palpitante, ministrou-lhe a extrema-unção o Padre Macedo, já que os cuidados médicos não eram necessários.


Com as lágrimas nos olhos, mas crentes do dever das horas más, os mesmos soldados que ele fora socorrer, e pelos quais dera a vida, com um carinho familiar, despiram-no, lavaram-no, barbearam-no e envergaram-lhe a sua farda amarela, enquanto outros na carpintaria faziam o seu caixão; última homenagem que lhe podiam prestar.


Lá ficou no morro por detrás do Comando, junto à Capela de N. S. da Aparecida onde aos domingos se dizia a santa missa.


No meu álbum, junta de outras, recordando os que caíram pela Pátria, lá está a foto de sua campa e ao lado, um recorte da Ordem de Serviço transcreve o primeiro louvor que dei em terras de Angola: — o do furriel António Mendes Ribeiro, o primeiro homem do B. C. 159 a ganhar a Cruz de Guerra.


MAJOR GONÇALVES DIAS
Ilustrações de Américo Afonso, aluno do I. T. M. P. E.

 

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