A Capela dos Bidões é a capela
da CART.2325.
Fica no Lunho o aquartelamento
mais isolado do Batalhão…
O seu ambiente é o mato e os
Montes que vigiam de perto e de longe… montes mais
pequenos como os Lijombos e grandes como o Chissindo.
Para os que estão do lado de
cá o Lunho fica lá no fim do Mundo… para os que estão
lá,
aqueles 17 km (que os separam da Companhia e da povoação
mais próximas - Nova Coimbra) são intermináveis… Aquela
picada cheira a trotil e a destruição… De quando em
quando há uma carcaça duma viatura minada que apodrece
ou os restos que ficaram… Cada quilómetro tem uma
história: foi uma emboscada, um rebentamento ou uma mina
levantada; foi uma viatura que se atascou e obrigou a
horas e horas de espera e trabalho angustiante… Tem
sangue e suor e esforço dos que vão
para
operações, dos que vão fazer protecção a uma coluna, dos
que vão compor o itinerário, dos que vão carregar às
costas os reabastecimentos que não chegam lá de avião
porque a pista durante as chuvas alaga-se e o nome do
Lunho mete respeito… Impressiona os que não estão lá,
porque os que estão, estão acostumados e jogam a
apreensão de cada dia com a naturalidade dos que todos
os dias saem de casa para o emprego…
A primeira missa no Lunho foi
em Maio de 68 e foi numa das casernas, que estava ainda
meio desocupada… Seria preciso uma capela?.. Havia
tantas obras a fazer! …e na guerra qualquer lugar serve…
Mas não! Convinha haver um sítio para a oração, para, um
encontro mais recolhido com Deus… Convinha haver um
local para a Nª Sª de Miandica que o Pelotão de lá tinha
trazido com amor e gratidão porque no dia do ataque
aquele nicho apanhou muitos estilhaços que não foram
levar a morte a ninguém enquanto ao lado um camarada
caía morto… Milagre? Que importa se eles têm a certeza
que foi a Mãe do céu que os protegeu?!... Era preciso um
trono para Ela. Um sítio donde Ela dominasse para fazer
descer bênçãos de Paz neste pedaço do seu Reino onde
impera a guerra.

Depois, eles não A quiseram
tão alta no cimo da torre, assim distante e fizeram mais
um nicho com dois bidões e colocaram-na mais acessível
para Lhe poderem acender luzes e homenagear com flores e
conversar mais de perto com Ela…
O risco nasceu nas costas dum
envelope velho.
Material especial e
dispendioso para uma capela, não havia…
Havia bidões, havia pranchas
que eram poucas para as obras que havia a fazer…
Havia restos e destroços como
em todo o lado e mais as sobras do que foi ficando por
aqueles arredores conhecidos por "Estado de Minas
Gerais"!...
Então, nasceu uma torre de
bidões e bidões a toda a volta a servir de base. Depois,
as pranchas moldaram a estrutura e deixaram na frontaria
a forma duma cruz.
Ao
fundo, a servir de clarabóia e a manter o ambiente de
religiosidade, um grande pneu rebentado ficou no centro
com uma cruz regular.
Duas grandes panelas de tubo
de escape com duas jantes destroçadas fazem de
castiçais, quase dignos de uma catedral. O altar é uma
porta furada por tiros que assenta em mais uma panela de
tubo de escape com uma jante em cima.
Não queríamos uma capela que
nos desenraizasse da vida, do ambiente.
Queríamos levar a guerra" toda
para a capela para a purificarmos para a restaurarmos…
Queríamos que aqueles sinais
de destruição e de morte, ali, sob a bênção e inspiração
de Deus
e do Evangelho se transformassem em sinais de vida e
fossem para nós um estímulo para semear a Paz.
A estante; que serve para as
leituras que dão a beber a Palavra de Deus é feita duma
grade velha e é sustentada por ferros iguais aos que
eles usam para picar a estrada e detectar as minas,
tornando-a segura.
Será a Palavra de Deus a
tornar seguros e certos os caminhos dos homens… destes
homens que têm de lutar mas que não podem lutar com ódio
a roer-lhes o coração, porque têm de lutar dolorosamente
para assegurar a Paz destes povos e dos seus que lá
longe anseiam por que voltem.
Semana
a semana, dia a dia ali sobem os seus cânticos e preces,
o oferecimento das suas horas de marcha e de trabalho,
os agradecimentos pelos perigos de que foram livres, as
lágrimas de dor por terem de usar armas que semeiam a
morte quando os seus braços e a força dos seus corpos
estavam habituados e anseiam por semear pão e progresso
que seriam a garantia para a Paz…
Nos domingos em que não há
Missa, eles juntam-se como todos os dias para o terço,
durante o qual lembram os que saíram em operações, os
doentes, os familiares, os chefes e camaradas todos e
completam a mais simples e bela liturgia que Jamais vi:
lêem a epístola e o Evangelho do Domingo e terminam coma
oração do soldado.

AQUELA CAPELA DOS BIDÕES É
ASSIM,
COM AQUELES MILITARES
CRISTÃOS,
A PRESENÇA DA IGREJA,
SACRAMENTO DE ESPERANÇA E
SALVAÇÃO
EM PLENO CORAÇÃO DA GUERRA!
O Capelão

CADA CAPELA NO SEU AMBIENTE
Lunho - 5 de Junho de 1968
BIDON'S CHAPEL - Lunho - Maio
- Junho de 1968
A comemorar a primeira MISSA e
a primeira estadia de um Capelão no Lunho, a 5 de Maio
de 1968.
(Notas do diário do Capelão do
Bart 2838)
A 31 de Maio, arranco para a
segunda visita ao Lunho.
Era preciso ir a pé.
A última camioneta rebentou
numa, já duas semanas antes. Uma depois de eu ter saído
do lá! Houve uns feridos, mas sem gravidade.
São 17 kms.
É necessário levar todo o
carregamento de frescos que chegou no avião a vai dar
para uma semana.
São duas secções de soldados o
um grupo de indígenas assalariados na companhia.
Cerca de 200Kg. Carne, fruta e
pouco mais.
Há mais a minha mala com o
necessário para celebrar Missa e... O graduado
encarregado do cinema no nosso Batalhão propõe-lhes que,
se querem cinema lá, têm de carregar mais uns 70 Kgs.
…máquina, amplificador e transformadores.
Claro que querem… Não há lá
mais nada. Não há lá mais vivalma ali à volta!
É o aquartelamento e todo o
horizonte é vegetação rasteira e plana na maior parte da
vista ao redor e para o outro lado umas grandes
montanhas e a subida para Miandica, donde alguns tinham
vindo há pouco, como últimos guardiães dum posto
avançado…
Nem flores à volta. É
desolação.
No dia seguinte queríamos
acabar de gastar um rolo de fotografias coloridas e não
encontrámos um fundo variado e vivo.
As chuvas acabaram há pouco e
o verde da vegetação é já baço e em breve será tudo
amarelo e seco…
A vida no aquartelamento é que
surpreendeu!
Para todos aqueles a provação
tinha sido dura.
Uns vieram de Miandica isolada
para o isolamento ao Lunho.
Já trabalharam, fizeram
abrigos e mantiveram o moral.
Os outros poderiam dizer que
tinham vindo do paraíso. Do Cobué, à beira Lago com
praias de sonho!...
Mas tinham trabalhado e
revolucionado as instalações e construíram… tudo…
Eu pensara da primeira vez ao
olhar o novo aquartelamento. Estes homens vão cruzar os
braços.
A parada parecia um campo
lavrado de terra negra.
As barreiras irregulares e mal
distribuídas.
As casernas de material
pré-fabricado, disseminadas mais ou menos
irregularmente, desordenadamente.
Material rebentado… Eh!... Era
aos montes.
À entrada quatro camionetas
Berliette e Mercedes.
Depois, mais à frente,
pequenas e grandes à mistura.
Depois máquinas, cilindros…
Que é isto?...
Uma máquina de engenharia
avariada!
E isto?...
Uma serra mecânica… Não
funciona…
E isto?...
Outra avariada…
O motor que tirava água, a
camioneta auto-tanque que a distribuía, o motor da luz -
é tudo da engenharia que tem cá só um guarda e vai levar
isto tudo…
Desanimados??? Nem nada.
A parada estava direita cheia
de saibro e areia. O cilindro estava a funcionar.
Foi uma festa quando o pusemos
a trabalhar. Estava para aqui abandonado há meses!
Quando deu os primeiros arranques todos cantaram e
dançaram…
É formidável, como se sente
necessidade de tudo e se aproveita tudo quando se está
longe e há dificuldades no reabastecimento…
Pelo meu lado, tinha deixado a
ideia de construir uma capela.
Eles disseram que sim. Até a
queriam ter feito antes de eu ir para me fazerem a
surpresa…
Ainda bem que a não fizeram.
Se havia dificuldades… se para
tudo, para as coisas mais urgentes eles recorriam a
tudo, restos e materiais que em circunstâncias normais
são inúteis, claro que e capela não podia ser excepção.
Fiz um risco… e… rasguei…
Celebrei nesse domingo outra vez à sombra dum telheiro.
Dei volta ao aquartelamento a
observar melhor os restos que por lá havia…
À
noite, ao refazer-me dum jogo de futebol, rabisquei uns
traços nas costas dum envelope velho.
Mostrei ao Comandante militar.
- lsso é melhor falar com o
encarregado do material…
Fomos ao encarregado.
- Claro que é possível.
Segunda-feira, mãos à obra.
Quando saí, estava quase a
meio.
Um
deles, que veio numa coluna disse-me que estava quase…
que tinham feito uma modificação…
Estragaram-na?!!!
Não. É só isto...
E, de facto não tinham
estragado.
Uma torre de bidões.
No cimo, uma jante duma roda
era o exterior do mais belo nicho que eu já vi.
Dentro, ferros torcidos em
forma de estrela abrigavam a imagem de Nossa Senhora que
veio de Miandica.
A CRUZ, são as traves que
fazem a porta e suportam a frente.
A
estante, são os restos duma grade de suporte dos
telhados…
Falta o altar e a aplicação do
resto do material com que eles lidam todos os dias e
correm riscos…
Será a capela mais bela do
NIASSA!
VAMOS VER.