Moçambique, de Abril a Setembro de 1974.
Neste espaço de tempo tão diminuto, o domínio português
estilhaçou-se completamente e a FRELIMO pôde subir ao
poder, decidida a estabelecer um regime comunista de
inspiração maoísta. Como e porque é que tudo isto
aconteceu? Tendo conseguido percorrer todo o território
moçambicano durante este período de transição, Giancarlo
Coccia testemunhou, acima de tudo nas províncias do
Norte, não só os acontecimentos que corroeram a
administração e os esforços de guerra portugueses, mas
também as razões políticas e económicas que presidiram a
todo o processo. Fruto deste conjunto de experiências e
de meses de posterior pesquisa, "A Cauda do Escorpião"
sabe iluminar momentos-chave até hoje pouco
compreendidos, casos do massacre de Wiriamu, da reunião
secreta do MFA com a FRELIMO, das diligências de Jorge
Jardim para lidar com o movimento independentista
moçambicano, das tentativas da elite financeira para
criar um governo negro não comunista ou das ordens
bizarras que, vindas de Lisboa, agrilhoavam a estratégia
militar portuguesa. Contributo imprescindível para o
estudo da Guerra do Ultramar e da descolonização, este
livro retrata, de forma vívida, os últimos dias do
Império Português.
A presente edição revela inúmeros factos
inéditos, referentes aos bastidores político-militares
da Guerra do Ultramar e da descolonização, podendo, por
isso mesmo, funcionar como uma fonte privilegiada de
informações não só para professores e estudantes de
História Contemporânea, mas também para todos os
leitores interessados nos últimos anos do Império
Ultramarino Português.
Dado que aborda um período
particularmente sensível e traumático do nosso passado
recente, período que marcou a vida de grande parte da
população nacional, "A Cauda do Escorpião" tem, à
partida, um universo muito amplo de leitores potenciais.
Este livro permite aos ex-combatentes da Guerra do
Ultramar e aos ex-residentes das antigas províncias
ultramarinas portuguesas, revisitar algumas das imagens
e dos momentos mais marcantes da sua história pessoal.
Ao assumir sem rodeios uma determinada
perspectiva dos acontecimentos, a presente obra não
esconde a sua natureza polémica e não teme, assim, criar
paixões de diferentes polaridades, desde a adesão
entusiástica à reprovação inflamada.
Extractos:
Capítulo 1 - Abril de 1974. Recebo uma
«dica» sobre o golpe em Portugal aprazado para 25 de
Abril - Saímos de Pretória com destino a Nampula -- Uma
operação militar contra a grande «Base Beira» da Frelimo,
perto de Nangade e da fronteira com a Tanzânia - O
objectivo é ter a possibilidade de verificar o efeito do
«golpe» de Estado nos veteranos militares presentes -
Jornalistas da África do Sul chegam ao Quartel-General -
Emílio e eu somos «expulsos» do Norte, imediatamente
depois do 25 de Abril, pelas novas autoridades - Nampula
- Frelimo ou pseudo Frelimo? O factor rodesiano -
Encontros «estranhos» em Lourenço Marques.
… … …
Quando tomei conhecimento do assunto eram
21h20 de quinta-feira, 18 de Abril de 1974. Subi ao meu
quarto no Hotel Moçambique, na Beira, e fiquei a
pensar... Que fazer agora? Estava confirmado. «Antes das
manifestações do 1.° de Maio, o Governo cai», tinha-me
dito o Costa Gomes. As forças policiais já estavam a
actuar. Era impossível parar a manifestação.
Levei mais do que uma hora para me
resolver a telefonar. Eu sabia que os telefones estavam
sob escuta. E então agora, depois os incidentes de
Janeiro em Manica, Vila Pery e Beira...
Finalmente decidi telefonar para um amigo
especial em Pretória.
Luiz Correia, 18.04.1974
… … …
À noite, Pretória é uma cidade pacata,
quase morta. Como quase todos os outros residentes de
Waterkloof, dormia há várias horas quando o terrível som
do telefone me acordou.
Mas, mesmo com a minha natural reacção de
acordar estremunhado, e depois de maldizer todas as
invenções humanas, sabia que não haveria paz até o
aparelho ser atendido. Finalmente, levantei o
auscultador.
O operador, uma mulher (a esta hora da
noite podia fazer outras coisas, pensei malignamente)
nem disse «boa noite», nem tentou pedir desculpa por me
ter acordado. A sua límpida, calma e controlada voz de
boeremesie, rapariga bóer, gaguejou qualquer coisa
acerca de uma chamada da Beira, Mozambiek, especificou,
acrescentando wag 'n bietjie, menhee aguarde um momento
por favor. E deixou-me «pendurado» a espera.
Beira? Quem me estaria a ligar da Beira?
Caramba já passava das onze da noite! Fiquei imenso
tempo feito estúpido a olhar para o telefone.
Pareceram-me horas.
Num frenético esforço, tentei coordenar
os meus pensamentos. Passei em revista a minha lista de
contactos em Moçambique. Como jornalista tinha estado
neste país muitas vezes e em cada ocasião tinha
adquirido amigos bem informados, quer no sector civil,
quer no militar. Mas Beira?
Procurando desesperadamente no meu
cérebro por um rosto que não me ocorreu, lembrei-me que
o meu visto para entrar em Moçambique estava ainda
válido. Recordei-me também que a minha sala de estar
estava atravancada de caixas cheias de cigarros,
medicamentos, escovas de dentes, lâminas de barba e
bolachas que tinha comprado (uma prenda pessoal de cerca
de 500 dólares americanos) para enviar para o Hospital
Militar de Nampula, no Norte do território.
Lentamente, muito lentamente, o meu
cérebro começava a focar a situação. Lembrei-me,
finalmente, que estava preocupado com estas encomendas
porque o CITMO (Centro de Informação e Turismo de
Moçambique) em Lourenço Marques ainda não tinha
respondido ao meu pedido escrito para que facilitasse a
entrega das mesmas aos destinatários: os soldados
feridos do hospital militar da «Capital do Norte».
Houve um sinal na linha telefónica e uma
voz masculina disse em português:
- Alô... É o Giancarlo?
- Sim, daqui é Giancarlo... Com quem
estou a falar?
- Luiz, Luiz Correia...
Fiquei surpreendido. Luiz Correia era um
bom amigo. Ele representava o CITMO em Nampula, era
delegado do CPEF (Conselho Provincial de Educação
Física) e Desportos e instrutor-chefe no Centro Hípico
de Nampula. Mas, mais importante, Luiz era o elemento de
ligação do Governo Civil com o Comando-Chefe das Forças
Armadas Portuguesas em Moçambique. Tinha-o conhecido
aquando das minhas anteriores deslocações às frentes de
combate da «província do ultramar», junto ao Oceano
Índico. Já durante estas visitas tinha constatado que
ele era um excelente contacto para obtenção de apoios e
facilidades por parte das autoridades militares na Zona
Operacional. Neste momento, não podia ainda imaginar
todas as aventuras que viveria com o Luiz!
- Ah, sim, Luiz... Mas o que é que tu
estás a fazer na Beira? Pensei que...
Estava a pensar nas justificações. Mas
antes de poder acabar o que ia dizer, ele cortou-me as
palavras. Na sua voz havia mais que uma ponta de
excitação!
- Escuta Giancarlo - quase gritou -,
estou no Hotel Moçambique, na Beira. Se não queres
perder o desenrolar de uma grande reportagem, vem para
cá o mais depressa possível. Deves saber interpretar o
que te estou a dizer... Tenta lembrar-te... Nós
discutimos isto em Nampula há menos de um mês...
Entendes?
Agora estávamos os dois excitados.
- Sim, compreendo perfeitamente, mas
quando vai acontecer?
- Irá passar-se no mesmo dia em que no
teu país se celebra a Libertação pelos Aliados, na
Segunda Guerra... Então, vamos ver-nos em Nampula...
Adeus Giancarlo!
Clic, fim da ligação!
Esta não era uma brincadeira qualquer! O
Luiz nunca se enganava nos seus julgamentos ou nas suas
profecias.
Mas isto era tão extraordinário quanto
incrível!
Naquele momento eu era o único jornalista
da África Austral, e provavelmente do resto do globo,
que sabia que os rumores estavam finalmente a tornar-se
realidade e que sim, na verdade, ia haver um golpe em
Portugal.
… … …
Alguns dias depois, em Nampula, Luiz
contou-me que tinha sido o general Costa Gomes que
algumas semanas antes lhe tinha dito: «O Governo, tal
como está, não chega ao próximo 1.° de Maio».
Luiz achou que a notícia era «muito
importante e extremamente preocupante». Lembrou-me da
conversa que tivemos em Nampula no mês de Março sobre o
que lhe tinham dito o capitão de Cavalaria Mário António
Tomé, «delegado oficial» do Movimento das Forças Armadas
(MFA), e outros oficiais dentro do Quartel-General (QG)
de Nampula. «Não havia qualquer dúvida que os ânimos
estavam crispados e que o diálogo já não levava a nada»,
disse-me o Luiz, para quem estava em jogo «a vida de
milhares de africanos». Quem iria segurar as rédeas
deste cavalo à solta? Seria possível detê-lo?
«Foi na Beira, no Hotel Moçambique»,
contar-me-ia mais tarde, «que fiz os meus cálculos... Se
era para ser antes do 1.° de Maio, com a nova
informação recebida e as palavras oferecidas por Costa
Gomes, estava na altura de te ligar. Como a tua ideia
era escrever um livro sobre o final da guerra portuguesa
em Moçambique, seria bom começar uns dias antes do fim
deste Governo. Já sabia como te ia dizer Giancarlo...
Tive necessidade... Usei a data da Libertação da
Itália... Assim vieste a tempo!», concluiu, satisfeito
consigo próprio, o meu amigo Luiz.
… … …
A situação era tão confusa quanto
incrível. Os fãs do general António Spínola tinham
razão. O seu livro Portugal e o Futuro tinha acendido o
rastilho do paiol revolucionário! Iria este prestigiado
militar liquidar o já vacilante Governo de Marcello
Caetano? Estava tudo preparado para o dia 25 de Abril?
Iria Spínola fazer a diferença, tentando subir
militarmente a parada em Angola, Moçambique e Guiné,
antes de iniciar acções políticas e diplomáticas para
acabar de maneira digna a guerra e a presença lusitana
em África?
Já estava completamente desperto. Só não
sabia exactamente o que fazer.
Sabia que, como jornalista, tinha uma só
responsabilidade: telefonar ao órgão da imprensa do qual
era correspondente e transmitir o scoop. Luiz sabia
disto embora esperasse que eu ficasse com a notícia só
para mim. Se
… … …
^(páginas 11-14)^
… … …
Na meia hora que esteve no meu quarto,
contou-me o que se passava na Capital do Norte. No dia
anterior estivera em Nampula, com o colega Bruce Loudon
do Daily Telegraph de Londres. «É um jornalista muito
especial», disse o Luiz. «Tinha uma ligação bem
conhecida com muitos políticos e militares antes de 25
de Abril». Perguntei-lhe qual seria, agora, o seu
relacionamento com o MFA.
- Tens de te lembrar, Giancarlo, que em
1973, quando o Jorge Jardim e os zambianos jogaram a
cartada de «Wiriamu», foi o Bruce Loudon e o fotógrafo
francês Patricke «qualquer coisa» que apoiou o plano
deles. Lixaram o coronel Videira e outros oficiais
superiores mas, mais importante, forçaram o Jaime Neves
a colaborar com os revoltosos por este ter sido ameaçado
com um Conselho de Guerra no futuro.
- Sim, compreendo. Mas agora o que está o
Jorge Jardim a fazer? - perguntei.
- Está no seu ocaso... mas espera um
pouco... Toma isto. Trouxe-te alguns papéis
«interessantes» para o teu livro.
Era a formação do Gabinete do MFA junto
do Comando-Chefe (CC) em Nampula. Dei uma olhadela às
cópias que Luiz me entregou. Estava escrito:
A. FUNCIONAMENTO
1. O Gabinete do MFA junto do CC
trabalha paralelamente com o CCP [Comissão Coordenadora
do Programa]-MFA em íntima coordenação com este e está
orientado essencialmente para assuntos de natureza
militar.
2. A constituição do Gabinete é a
seguinte: Cap. ten. Rui Pereira Cruz
Ten. cor. Nuno Alexandre Lousada Maj.
Mário Tomé Maj. Nuno Mira Vaz Cap. Aniceto Afonso
3.O Gabinete funciona em regime
permanente no Gab. Plan. CCM [...] Nota: o regime
permanente é assegurado pela presença de pelo menos um
elemento do Gab. [...]
4. Todos os militares podem e devem
apresentar sugestões [...]
Assim, na prática, o documento dizia que
quem mandava na «guerra» era o MFA.
… … …
Falando com alguns doentes,
maioritariamente soldados pretos, cheguei à conclusão
de que muitos apoiantes da Frelimo não tinham uma
opinião precisa sobre o 25 de Abril, muito menos tinham
conhecimento do «programa» do MFA ou sequer sabiam quem
eram os membros do movimento entre os militares
estacionados em Moçambique. Aqui não havia nem bons nem
maus. Os militares faziam todos parte da máquina do
adversário. O interessante era que enquanto os
portugueses iniciavam o «desmoronamento» das suas
defesas, Samora Machel incitava os seus homens a levarem
a guerra até à «derrota total do inimigo». Três dias
depois das fotografias serem publicadas no Notícias
(domingo, 23 de Junho), Samora Machel repetiu em
Dar-es-Salam que o seu objectivo era a independência
total de Moçambique; até esta ser conseguida dizia, «a
guerra não iria parar». Claro que a Frelimo nunca
aceitaria parar a guerra e ir a votos ou a referendo,
como se propunha em Portugal. Os seus dirigentes não
eram parvos e queriam receber de bandeja o futuro
Governo. Tudo fariam para correrem com os portugueses de
Moçambique. «Paz» e «cessar-fogo» foram palavras nunca
mencionadas pela liderança da Frelimo nos contactos
efectuados com o MFA. Luiz disse-me muitas vezes que
quanto menos portugueses ficassem em Moçambique, mais
fácil seria para a «escumalha» branca e os comunistas
tomarem conta do Governo...
Neste momento, a inteligência da Frelimo
afirmava o empenho em «acabar com a guerra colonial».
Mas o que é que isto queria dizer? Na prática,
significava levar a guerra até ao fim para os deixar com
o poder total e completo. O think-tank do movimento
nacionalista reconhecia que o referendo não lhes
interessava e estava determinado a forçar Lisboa a
entregar-lhes o país numa salva de prata. A sua atitude,
a falta de «trunfos» de Portugal e o apoio que os
comunistas portugueses davam à Frelimo, eram
mais-valias. A sua recusa de entrar em qualquer acordo
com os «spinolistas» deu-lhe bons dividendos. «E os Joe
Slovo's e seus camaradas sul-africanos estavam numa
boa», comentava-me o Luiz.
Três meses mais tarde, em Lusaka, o MFA e
os governantes de Lisboa desistiram de negociar o que
quer fosse e aceitaram todas a condições impostas pela
Frelimo que incluíam um acordo autónomo para Cahora
Bassa e um outro, de carácter militar, que exigia que a
defesa e segurança de Moçambique fossem asseguradas por
Portugal até ao dia marcado para a data da
Independência, a 25 de Junho 1975! O acordo principal,
assinado entre as duas partes na capital da Zâmbia, foi
tornado público mas os outros dois, considerados
«reservados», ficaram no segredo dos deuses. Na prática,
Machel disse aos portugueses: «Foram vocês que fizeram
aquele muro (Cahora Bassa). É vosso, fiquem com ele». O
acordo militar que criou a Comissão Militar Mista foi
apenas parcialmente divulgado. Nele, as Forças Armadas
Portugueses eram obrigadas a defender as fronteiras
terrestres e marítima moçambicanas de qualquer invasão
ou incursão por parte de forças «hostis» à Frelimo. Em
mente tinha-se as agressões vindas da África do Sul e da
Rodésia. Os acordos «reservados» ditavam que também a
segurança interna de Moçambique seria uma
responsabilidade de Lisboa.
Até hoje, ninguém foi capaz de
compreender como é que o orgulho lusitano se deixou
envolver nesta armadilha que, por ironia política,
obrigava os portugueses a proteger o antigo inimigo! Na
altura em que os Acordos de Lusaka foram firmados era
ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal o Dr.
Mário Soares. A sua sombra do MFA era o major Ernesto
Melo Antunes. Do team faziam também parte: Almeida
Santos, Victor Crespo, Almeida Costa e Casanova
Ferreira. De Moçambique vieram Antero Sobral,
representando o «Governo» e o coronel Nuno Alexandre
Lousada, delegado do MFA do QG de Nampula. Todos eles,
debaixo dos flashes da imprensa internacional, assinaram
por Portugal. Pela Frelimo, «bastou» a assinatura de
Samora Machel! Da parte dos portugueses, o primeiro a
pôr o seu nome no protocolo foi Ernesto Melo Antunes,
ministro sem pasta e o mesmo que estabelecera com Aquino
de Bragança, imediatamente a seguir ao golpe de Lisboa,
a ponte com uma das «Frelimos»... Aquino de Bragança,
natural de Goa, era membro de um movimento comunista
pró-independência da índia Portuguesa e, desde 1969,
principal conselheiro de Samora Machel. Na Argélia,
onde viveu, conheceu o general Humberto Delgado e todos
os outros anti-salazaristas que ali residiam com a
«etiqueta» de refugiados políticos. Foram estes
contactos que o levaram, e que por tabela levariam
também Samora Machel, directamente ao homem certo da
Revolução de Abril, o major Melo Antunes. Nada era
surpresa para os jornalistas internacionais como eu.
Soares e os seus amigos socialistas tinham feito a vida
negra ao Governo de Marcello Caetano. Foram estes, com a
ajuda do árabe da rent-a-crowd que organi zou as
manifestações de Julho 1973, que deram o golpe final ao
regime de Caetano. Logo a seguir, socialistas e
comunistas portugueses reuniram-se em França para
planear a queda do Governo.
… … …
Eu lá ia, «sobrevivendo» no hospital e
embora melhorasse de dia para dia não podia fazer o que
mais desejava: viver os últimos momentos da guerra junto
àqueles que tinham «dado o litro» para trazer a
Moçambique a verdadeira paz e harmonia racial.
… … …
Estávamos a 25 de Junho. Aos corredores
do hospital chegou a notícia da bronca que tinha havido
em Ressano Garcia, na fronteira de Moçambique com a
África do Sul, com uma chusma de mineiros e uma secção
de Comandos. Segundo as informações recebidas, um grupo
de combate de Comandos tinha sido enviado para a
fronteira de Ressano Garcia-Komatipoort, para acalmar os
mineiros que estavam em ebulição por razões «altamente
políticas». Segundo um alferes, milhares de mineiros
atravessavam regularmente a fronteira entre Moçambique e
a África do Sul e, normalmente, regressavam a casa logo
que terminassem os seus contratos. Os serviços que
apoiavam os trabalhadores moçambicanos, tanto em
Ressano Garcia como na RSA, funcionavam em Joanesburgo,
na Curadoria dos Negócios dos Trabalhadores, agora
Instituto do Trabalho. A sua actividade foi regulada
pela Convenção de 1929, que seria alterada em 1963 por
um protocolo «secreto», que fixava o valor do ouro
enviado para Moçambique pela Câmara de Minas da África
do Sul como pagamento de parte dos salários, sendo o seu
valor nominal de 42 dólares/onça. Que ouro é este?
Podemos perguntar... Pela Convenção, parte dos salários
dos mineiros era pago em escudos moçambicanos para, no
regresso a casa, poderem gastar algum nas suas terras
com as famílias. O dinheiro necessário era obtido pela
venda de ouro no mercado internacional; o lucro obtido
era para Lisboa. O Governo de Pretória vendia este ouro
no mercado mundial
… … …
^(páginas
149-152)^
Índice:

------------------------------------------------------
THE SCORPION
STING – MOÇAMBIQUE
(translated into
english by Fulvia d'Amico)
published 1976 by Livraria
Moderna in Johannesburg, 185 pages
Clique aqui para visualização do "pdf" referente à
publicação de 1976