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Guilherme de Melo
Guilherme José de Melo, nasceu a 20 de
Janeiro de 1931 em Lourenço Marques.
Em 1952 ingressou no jornal 'Notícias'
(sediado em Lourenço Marques), ali iniciando
a sua carreira de jornalista.
Em Outubro de 1974, em consequência do
'Acordo de Lusaca' e dos graves tumultos
ocorridos na capital da Província
Ultramarina Portuguesa de Moçambique,
exilou-se em Lisboa e passou a colaborar no
'Diário de Notícias'.
Em 1985 publicou "Moçambique Dez Anos
Depois: Reportagem".
Faleceu em Lisboa no dia 29 de Junho de
2013.
O livro:
"Moçambique,
Norte - Guerra e Paz"
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título: "Moçambique, Norte - Guerra e Paz
(Reportagem)"
autor: Guilherme de Melo
editor: Minerva Central
1ªed. Lourenço Marques, Jan1969
272 págs (ilustrado)
22x16 cm
Neste livro, o autor dedicou um capítulo aos
feitos heróicos do
Comandante Francisco Daniel Roxo e
suas Milícias de Vila Cabral.
Excerto:
28. O TERROR DOS TURRAS (páginas 185 a
195)
Há
em todas as guerras, em todas as lutas e
campanhas, daquelas figuras que, irrompendo
da vulgaridade, de repente se agigantam e
transformam naquele misto de realidade e
fantasia com que depois se haverão de
perpetuar, de geração em geração, entre as
páginas da História e as brumas da Lenda.
Francisco Roxo é um desses homens, uma
dessas figuras que, sem sombra de dúvida,
ficará para os vindouros nesta nossa terra,
dentro da linha que dos grandes capitães de
outrora se continuou até Mouzinho, se
alongou a Neutel, herói da Macuana, e neste
mesmo momento se está prolongando aqui, em
pleno Niassa, na figura estranha e na saga
espantosa deste dez-reis de gente que me
olha de profundos olhos de um azul metálico,
de pupilas apertadas como duas cabeças de
alfinete.
A
fama dos seus feitos acompanhava-me já desde
que lá, em Lourenço Marques, entrara para o
avião que me traria ao Norte. «Ai você vai
lá acima escrever umas coisas sobre o
terrorismo? Então não deixe de ouvir o
Roxo...» Dele me continuaram falando, por
onde passei. Autoridades, civis, agentes. «O
Roxo fez... O Roxo disse...» E de repente, o
Roxo aqui está, na minha frente — um homem
magro e seco, todo nervo, todo vigor, mais
baixo que alto, o rosto de faces cavadas,
pómulos salientes pela magreza, a fronte
larga e riscada por dois ou três sulcos
fundos, o cabelo alourado cortado rente, uma
pêra mais ou menos aparada encobrindo-lhe o
queixo, os lábios finos revelando-me um
estranho poder de determinação. Tudo nele é
sóbrio, quase austero, sem um gesto a mais,
uma fanfarronice idiota, uma palavra
deslocada. Há mesmo no seu todo uma estranha
timidez, uma quase preocupação de se apagar.
E quem na verdade cruzar casualmente com ele
na rua, num passeio de cidade, não verá mais
que um fulano qualquer, anónimo e banal. E,
todavia, está ali o homem que simboliza, em
todo este Niassa imenso, o terror dos
terroristas.
Francisco Daniel Roxo tem 35 anos e é
natural de Mogadouro, distrito de Bragança.
É o tipo perfeito do transmontano rijo e
enxuto, curtido pelos ventos ásperos, os
frios agrestes que África substituiria por
sois inclementes. Porque aquele homem que
veio, aqui para o Niassa, em 1955, fez-se
caçador profissional e, com meia dúzia
de negros, seus ajudantes, aprendeu a
conhecer toda esta imensidão palmo a palmo,
a falar as línguas destas gentes, a
desvendar, com eles, o segredo de uma
pegada, o sussurro de cada folha, o odor de
qualquer erva.
Foi caçador profissional até 1962. Vinham já
então, tocados de longe, os primeiros
murmúrios do vendaval que se alevantava. E o
Governo da Província, que acabara de criar
os Serviços de Acção Psico-Social, ao
estendê-los até este Distrito, logo pensou
no nome do Roxo para seu colaborador, dado
que ninguém melhor do que ele conhecia estas
terras e estas gentes. E o Roxo, sempre
pronto a servir a sua Pátria e o seu
Governo, fez-se elemento da Psico-Social.
Em
princípios de 1964 as coisas começaram a
agravar-se, a Frelimo apresentava-se pronta
a passar das palavras aos actos,
espantavam-se as Psicos, com todo o seu
custoso e espampanante arsenal atirado para
a sucata por absolutamente inútil e
ineficaz, e Francisco Daniel Roxo passava,
por interesse das autoridades, para os
Serviços de Centralização e Coordenação de
Informações, criado para fazer face à
infiltração subversiva, e metia-se de novo
pelo mato tão seu conhecido, não já na pista
dos elefantes mas na dos agentes
de subversão. E, então, os primeiros ataques
eclodiram: o Niassa, imenso e praticamente
desguarnecido, era campo aberto aos bandos
de terroristas.
—
Preciso que me forneçam uns tantos homens,
para formar o meu grupo de contra-guerrilhas!
— disse apenas aquele homem.
Deram-lhe a verba necessária — milagre dos
milagres! — e o Roxo recrutou-os à sua
inteira vontade: antigos caçadores e
pisteiros que com ele haviam lidado outrora,
alguns soldados nativos passados à reserva e
com prática de manejo de armas... Dezassete,
ao todo, que para mais não chegou o
dinheiro. Assim nasceu o primeiro grupo de
intervenção armada do Niassa que se lançou
ao encontro do perigo, atacando aqui,
organizando emboscadas acolá, detectando
acampamentos mais além, raptando
informadores adiante, causando, de pronto,
as primeiras grandes perturbações em todo o
plano admiravelmente urdido e posto em
prática.
Quatro anos volvidos sobre a eclosão aberta
do terrorismo em Moçambique, o grupo do Roxo
totaliza trinta homens e constitui como que
o «grupo de comandos autónomos», dentro de
todo o quadro de milícias já organizado.
Com esses trinta homens — que nunca foram
feridos, sequer — Francisco Daniel Roxo tem
percorrido todo o Niassa de lés-a-lés,
do Lago ao Catur, do extremo Norte aos
limites opostos. Conhece, como nenhum outro,
as suas serras, os seus vales, as suas matas
e os seus rios. Nenhuma pista constitui
segredo para ele, nenhuma gruta ou caverna
refúgio ignorado. Como uma sombra, surge com
os seus homens em pleno acampamento de
terroristas, em ataques de surpresa que os
desbaratam em fuga desordenada. E como um
avejão sinistro, despenha-se do alto das
árvores, em emboscadas que os lançam por
terra, em pura estupefacção. Em operações
relâmpago, tem apreendido montes de
armamento, de munições, de explosivos. E não
há mina, por mais disfarçada que esteja, que
o seu olho de lince não assinale ou os seus
dedos não tateiem a tempo.
E
é levando-o, a ele e aos seus homens em si
enquadrados, que muitas das grandes
operações militares desenroladas pelo Niassa
em fora se têm efectuado com absoluto êxito,
e é em coordenação com os seus movimentos em
terra que grandes raides da aviação se
têm verificado, na destruição de
acampamentos e concentrações inimigas. E é
ainda sob o simples terror da sua presença,
que populações inteiras, de apoio aos
terroristas, os têm denunciado em seus
abrigos, seguindo-o depois, em massa, pelos
caminhos do mato, a entregarem-se às
autoridades para constituírem novos
aldeamentos controlados pelo governo.
Num pasmo, num espanto, num assombro que se
repercute de povoação em povoação, a legenda
da sua invencibilidade varre de lés-a-lés as
terras do planalto, faz com que avisos
surjam nas curvas de qualquer trilho, postos
pelos terroristas aos próprios companheiros
de armas: «Cuidado. É preciso fugirem
depressa que vem aí o Roxo».
Leio cartas que me mostram, depositadas em
pleno mato, e que lhe são endereçadas. Umas
insultando-o, chamando-o de «diabo branco»,
pedindo para ele a maldição dos deuses,
ameaçando-o de que, se não se afastar do
Massa, morrerá porque já foram feitos
todos os feitiços conhecidos contra ele;
outras de gente raptada pelos terroristas,
mantida sob coacção em acampamentos para
execução de serviços de apoio, arranjo da
machamba, das palhotas, de tudo, em suma,
sobre que tem de assentar a sobrevivência do
guerrilheiro, e a pedirem-lhe que os vá
libertar, fornecendo-lhe indicações sobre a
localização do acampamento, numa prova
espantosa da confiança ilimitada que têm na
sua intervenção. E é assim que centenas e
centenas de homens e, sobretudo, de mulheres
e crianças, têm sido libertos, recuperados e
conduzidos aos aldeamentos protegidos pelas
milícias.
Há
três anos e meio que esta saga assombrosa de
um homem com um punhado de auxiliares está
sendo vivida pelas florestas e ravinas do
Niassa, palmo a palmo, infatigavelmente.
—
Ando sempre a pé com os meus rapazes —
explica-me, com o mesmo ar natural e simples
como que me comunicaria que bebe sempre
cerveja em vez de uísque, porque gosta mais
de cerveja que de uísque — Sou contra as
deslocações em viaturas: perde-se
muito tempo, sabe?
Quando em campanha, enverga a sua farda
camuflada. Os seus rapazes — como os trata —
vestem uns macacões de ganga. E só de serem
avistados à distância, ele à frente, os
trinta homens de «Mauser» em punho, é o
«salve-se quem puder».
Há
ordens taxativas da Frelimo para o apanharem
vivo. Foi o próprio Mondlane quem o
determinou. Sabem-no chefes,
sabem-no informadores e guerrilheiros,
sabem-no populações. «Que mo tragam vivo!»—
foi a sua ordem. Mas quem, com a coragem
necessária para lhe tocar com um só dedo
sequer?!
Na
tarde em que o conheço e com ele ando, uma
tarde de domingo, chuvoso e cor de cinza, de
Março de 1967, o Roxo está em descanso em
Vila Cabral, com os seus homens. Haviam
chegado, ainda na véspera, de uma operação
de uns poucos de dias para os lados da
Serra Mecula. Daí a dois ou três dias
partirá para outro lado. «Tenho sempre
encomendas à espera, logo que chego aqui!»—
comenta.
Fuma pouco e quase não bebe. Nem álcool nem
sequer café. «É preciso ter-se um perfeito
domínio de nervos, nesta vida em que
ando, não é?» — diz-me, como quem me pede
desculpa.
Olho-o. E de repente penso que, ao fim e ao
cabo, é um modesto funcionário dos Serviços
de Centralização e Coordenação de
Informações, como me explicou. Igual a
tantos outros que pacatamente estarão,
naquele mesmo momento, matraqueando as suas
queridíssimas máquinas-de-partir-ofícios,
sem nunca terem visto um «turra», sem jamais
terem pegado numa arma, sem...
—
Ó Roxo, afinal quanto ganha você?
— pergunto de chofre.
Olha-me com aqueles olhos de um azul
cinzento, metálicos, quietos. E a sua voz é
a mesma voz com que me esteve falando do
mato, dos acampamentos, das tropelias do
Mandevo, o grande chefe terrorista que ele
fez desaparecer do palco da guerra.
—
Três contos e duzentos...
Mas será realmente que haverá preço capaz de
pagar tudo isto que este homem espantoso
está fazendo pelos seus compatriotas, pela
sua Pátria?
—
Você já alguma vez foi louvado desde que
anda nesta luta aberta?... condecorado?
Olha-me como se eu estivesse mangando com
ele:
—
Eu...?! — e, pela primeira vez, oiço-o rir.
Estamos dentro do seu carro, à saída de Vila
Cabral, à entrada da encruzilhada donde
irrompem as estradas em direcção ao
interior do distrito. À nossa frente, os
planaltos alongam-se, num suceder de mesas
que se perdem na distância, e que a
vegetação cerrada quase enegrece, de tão
densa. Nuvens escuras, carregadas de água,
avançam lentamente em direcção à cidade, e
já relâmpagos riscam a lonjura do horizonte,
o ribombo do trovão a perder-se, em ecos
cavos e soturnos, de ravina em ravina.
De
repente, o Roxo liga o motor e fita-me,
absolutamente calmo e natural:
—
Enquanto andei lá por fora, os tipos vieram
até estes lados e houve um ataque a uma
cantina perto de um dos nossos
aldeamentos. Ainda lá não fui desde que
cheguei. Você importa-se?
Troco um brevíssimo, quase imperceptível
olhar com o meu colega de jornada, agarrado
à máquina fotográfica no banco detrás. Que
seja o que Deus quiser, pronto!
Vamos. A cidade, defendida, e patrulhada,
desaparece já na distância, e a estrada por
onde avançamos, cada vez mais para o
interior, é um chavascal de lama onde o
carro se atasca a todo o momento, derrapa e
rabeja.
—
Ninguém passa por aqui, da cidade ou para a
cidade, sem ser em coluna — esclarece-nos o
Roxo — Mas hoje é domingo e a esta hora eles
devem estar a descansar...
Olho o relógio, instintivamente: um quarto
para as quatro — uma hora em que me parece
já muito pouco provável que alguém que se
preze esteja ainda a dormir a sesta.
Do
relógio, os olhos passeiam-me subrepticiamente pelo
carro:
—
Você traz alguma arma? — pergunto, com o ar
mais displicente deste mundo.
—
Oh! Para quê? — e encolhe os ombros — Nem
estou em serviço, bem vê...
Bom: lá ver, vejo; e «eles» também estarão a
ver? — é o que de mim para mim penso. E
sinto, nas minhas costas, as fungadelas
frenéticas do Carlos Alberto, tão minhas
conhecidas de quinze anos de convívio diário
e características de quando atinge o auge do
nervosismo.
Avançamos por uns bem puxados três quartos
de hora em que perco à vontade três quartos
da minha vida. Nós; um carro
ziguezagueando sobre pastas de lama; um céu
prestes a desfazer-se em água; desolação e
silêncio até onde os olhos e os ouvidos nos
chegam e, para lá do capinzal e dos
emaranhados de árvores e bananeiras que
bordejam a picada, terroristas perto ou
longe, tal como Deus Nosso Senhor o entenda.
E três homens de mãos nuas — as de um
segurando um volante ; as de outro uma
máquina fotográfica, e as do terceiro um
bloco de apontamentos. — Enquanto andei lá
por fora, os tipos vieram até estes lados
e houve um ataque a uma cantina perto de um
dos nossos aldeamentos. Ainda lá não fui
desde que cheguei. Você importa-se?

Troco um brevíssimo, quase imperceptível
olhar com o meu colega de jornada, agarrado
à máquina fotográfica no banco detrás. Que
seja o que Deus quiser, pronto!
Vamos. A cidade, defendida, e patrulhada,
desaparece já na distância, e a estrada por
onde avançamos, cada vez mais para o
interior, é um chavascal de lama onde o
carro se atasca a todo o momento, derrapa e
rabeja.
—
Ninguém passa por aqui, da cidade ou para a
cidade, sem ser em coluna — esclarece-nos o
Roxo — Mas hoje é domingo e a esta hora eles
devem estar a descansar...
Chegamos enfim. O aldeamento — mais de duas
centenas de palhotas, um largo trato de
terreno plantado de milho e mandioca
— estende-se junto à picada, à nossa
esquerda; à direita fica a cantina atacada
há uma semana apenas. Olhamos, na porta, os
furos deixados pelas rajadas de
metralhadora. Mas as paredes estão já
reparadas com um reboco apressado, caiadas
todas de novo. A cobertura de zinco foi
substituída, em parte — mas as chapas que
resistiram e ainda lá estão, mostram-nos o
dorso negro, do lume da bazucada que,
sobre o teto, de longe os terroristas
lançaram. Foi de noite e o casal dormia: ele
morreu logo, sob os escombros da parte do
telhado que ruiu; ela, atingida por alguns
dos tiros disparados de fora, através da
porta, está no hospital de Vila Cabral,
entre a vida e a morte.
O
aldeamento tem agora um grupo de milícias a
guardá-lo. Dez rapazes, nativos, sob o
comando de um guarda da Polícia de Segurança
Pública, instalado na cantina que reparou
como pôde.
Chegou há apenas quatro dias, vindo de
Olivença, lá mais para cima. Ali está, com
os dez homens das milícias, montando guarda.
—
Da aldeia vieram-nos dizer ontem que eles
tinham mandado recado para que esta gente
toda se fosse embora porque iam atacar outra
vez e com muitos homens, para matarem os da
milícia e darem cabo de mim... — conta-nos —
A noite passada não dormi, a montar guarda
sempre com um dos rapazes comigo...
Vejo-lhe a metralhadora sobre a cama, bem ao
alcance da mão. E sobre o telhado da casa,
ergueu uma espécie de torre de vigia,
para onde se sobe por uma escada feita de
troncos toscos.
Ficamos ali um bocado conversando com ele,
Francisco Roxo dando-lhe uma série de
conselhos, assentando em determinada tática
defensiva. O guarda é um moço alto e
simpático, um bigode ligeiro no rosto
moreno. E noto-lhe, no anelar esquerdo, uma
aliança de ouro.
—
Bem, vamo-nos chegando...—decide Francisco Roxo.
Despedimo-nos daquele rapaz perdido ali com
dez homens, na imensidão do mato, protegendo
aquelas duzentas e tantas pessoas reunidas
no aldeamento — e uma vontade doida de o
estreitar de encontro ao meu peito, de lhe
gritar aquilo tudo que me turbilhona na
alma, no coração, me rasga de repente por
dentro. Mas aperto-lhe unicamente a mão.
Serenamente, com a naturalidade com que aí,
em Lourenço Marques, me despeço de alguém
que sei que vou ver já no dia seguinte. E
um palavrão que não chego a soltar
sobe-me aos lábios como uma golfada de fel.
—
Como é que você se chama? — pergunto-lhe.
—
Adriano. Adriano Gonçalves Fino...
—
Quer alguma coisa para Lourenço Marques? Tem
lá família?
—
Tenho: o meu tio. Chama-se António Simões e
é guarda da Polícia do porto. Diga-lhe...
diga-lhe que eu estou bem e lhe mando um
abraço!
E
sorri-me, de olhos estranhamente brilhantes.
—
Sim, digo, esteja descansado!
—
Obrigado, sim?
Faço meia volta, entro no carro, aceno-lhe
ainda, num adeus sem palavras — e o Roxo
arranca.
É
este o meu primeiro contacto com esse homem
extraordinário que se chama Francisco Daniel
Roxo e que um ano mais tarde, quando da
minha segunda jornada pela frente de combate
voltaria a encontrar para que, a partir de
então, uma sólida e estreita amizade
entre nós se gerasse.
Entretanto, e quando as cerimónias do
10 de Junho de 1968 se aproximavam, Lourenço
Marques era agitada pela notícia de que
o famoso comandante das milícias do Niassa
ia ser condecorado e, porque teria,
evidentemente, de deslocar-se à capital —
que não visitava há perto de quinze anos — a
curiosidade popular da gente
lourençomarquina iria ser enfim satisfeita.
Mas, tão célere quanto a primeira, logo
depois outra circulava: já não viria, pois
encontrava-se hospitalizado em Vila Cabral,
ferido numa perna.
E,
ao mesmo tempo que, aí por Lourenço Marques,
a coisa era conhecida e falada, em
Dar-es-Salaam a notícia era transformada em
estandarte de festa, com ela especulando os
dirigentes da Frelimo para, como aliás em
tudo é seu hábito, à sua volta tecerem
prontamente uma espantosa teia de mentiras.
E, maior que todas, naturalmente, a de
transformarem um naturalíssimo ferimento
próprio de quem anda em campanha numa morte.
«O
Roxo morreu»— anunciava a sede do partido
que se propôs «libertar» Moçambique, em
Dar-es-Salaam. — «Ferido pelos valorosos
militares da Frelimo numa operação, os
verdadeiros responsáveis pela morte do Roxo
foram os colonialistas de Moçambique que nem
souberam salvá-lo pois, pedido auxílio à
tropa portuguesa, esse auxílio não foi
prestado, acabando o Roxo por morrer à falta
de socorros, abandonado à sua sorte».
Estes os termos em que a notícia foi dada,
transmitida em todas as emissoras
clandestinas e não clandestinas — o Roxo
odiado e temido transformado habilmente em
mártir aos olhos dos que ele próprio
combatia, numa insidiosa campanha que outro
objectivo não tinha senão o de dar a
entender que não havia coesão na defesa
portuguesa, que tropa e milícias se não
entendiam e que se aquilo acontecia a um
homem como o Roxo, o que não seria com
qualquer anónimo milícia ferido ou soldado
atingido...
Entretanto Francisco Daniel Roxo era
transportado pelos seus homens para a
povoação mais próxima, pedia-se a sua
evacuação pela tropa, eram-lhe prestados os
necessários socorros, conduzido para Vila
Cabral, hospitalizado, tratado — e, rijo
como um pêro, risonho e sempre activo, aqui
o venho encontrar com o seu fiel
Estêvão mais os seus homens, batendo como
sempre os caminhos do mato que conhece como
a palma da sua mão desde os velhos tempos
de caçador profissional, detectando
acampamentos, atacando outros, capturando
armas e colaborando com o Exército sempre
que nisso se reconhece vantagem, como ainda
ultimamente, aquando do famoso ataque à base
de Mepoche que redundaria na maior captura
de material bélico até hoje verificada ao
longo da luta que há quatro anos se trava no
Norte.
Encontro-me com ele quando nos dirigimos à
Cantina Dias, na região do Unango. Vamos em
coluna militar, por terra, e o
Roxo, acompanhado pelos seus homens, adere à
escolta que nos acompanha.
Cantina Dias colhe o nome incrível e
curiosíssimo, creio que único em todo o
Moçambique, de um bom velhote, hoje vivendo
calmamente na sua terra, na Metrópole, e que
há longos anos se fixou a umas dezenas de
quilómetros para o interior de Vila Cabral.
Era o Dias e a sua cantina o único marco
vivo na área. E o local passou a
designar-se por isso mesmo: a Cantina Dias.
Os
anos rolaram, o Dias da cantina envelheceu,
encheu-se de achaques, com o dinheiro ganho
no negócio fez um bom prédio de rendimento
no coração de Vila Cabral e hoje vive na
Metrópole, com o prédio na capital do
distrito alugado, no rés-do-chão funcionando
o maior café da cidade, o famoso «Planalto»,
ponto de reunião de todos os tropas a partir
do anoitecer até ao encerrar das suas
portas.
Hoje, Cantina Dias é, pela sua posição
admirável, um dos aldeamentos novos de maior
interesse e projecção de todo o distrito do
Niassa. Montes à volta, um vale amplo e
ubérrimo onde tudo se dá e multiplica, ali
se têm concentrado centenas e centenas de
nativos que o terrorismo levara para longe,
afugentara para o mato, empurrara para além
fronteira, existindo hoje já no aldeamento
para cima de sete mil almas e estando
previsto o seu desdobramento em mais outros
dois aldeamentos relativamente próximos.
Junto fica a Missão de Santo António do
Unango, que, fundada em 1931, tem levado a
efeito ao longo dos anos uma notável obra de
evangelização e educação dos nativos, obra
que, não obstante os tempos difíceis que se
atravessam, tem sabido manter inalterável.
Porque a terra é fértil e servida por uma
série de montes que por si sós constituem
apetecíveis redutos defensivos e de refúgio,
desde a eclosão do terrorismo no Niassa que
toda aquela zona da Cantina Dias e Unango
tem sido das mais procuradas pêlos bandos
que se infiltraram aquém-fronteira.
Percorro o enorme aldeamento, visito a
Missão, demoro-me depois pelo aquartelamento
militar ali fixado e troco impressões com o
Comandante da Companhia e outros oficiais
precisamente na pequena construção
restaurada e aproveitada pela tropa e que um
dia foi a autêntica cantina do velho Dias.
Almoço no posto administrativo, junto ao
aldeamento nativo que de longe, do cimo dos
cabeços que barram o horizonte, os
últimos turras por lá refugiados vigiam dia
e noite, numa cobiça impotente, olhos postos
na vida tranquila que pelo vale se processa,
as «machambas» reverdescendo, o gado
pastando, as crianças passando para a
escola, os homens cuidando dos seus
afazeres, as mulheres pilando o milho e,
quando a noite desce, escutando o sons dos
seus batuques alegres e que assim sobem, do
vale, num espiralar de tentação, para as
alturas onde vivem acossados.
É
aí, na Cantina Dias, que o Roxo me conta do
seu ferimento, numa operação na Jeci, quando
procurava atacar a base terrorista do
Cassero. Foi numa coxa e, não fora a perda
de sangue e o natural receio de ter sido
atingida a femural, e não teria consentido
que os seus homens o evacuassem.
E
comenta, rindo, o frenesim de Dar-es-Salaam,
o estendal de mentiras logo habilmente
engendradas e postas a circular, a sensação
curiosa que sentiu quando ele próprio, já
absolutamente refeito da perda de sangue,
ainda que com a perna naturalmente
imobilizada, escutou pela rádio, transmitida
de Dar-es-Salaam, a notícia da sua morte
devido «ao desleixo da tropa e à indiferença
dos colonialistas portugueses que não
estiveram para lhe prestar os socorros
pedidos».
Índice
- 24 de Agosto de 1964
- A verdade sobre 'um movimento' e o seu 'líder'
- O vento não tem fronteiras
- A contra-ofensiva zambeziana
- Os embaixadores da traição
- Quando o racismo se divide em sub-racismos
- Muabanama, a aldeia padrão
- Os Bravos da Zambézia
- A religião e o respeito ancestral, as grandes armas
com que se jogou em Cabo Delgado
- Eu estive dentro da Fortaleza do Ibo
- A jura sinistra
- Entrega-se às autoridades o secretário provincial do
efectivo militar da Frelimo
- Em pleno mato a dramática entrega de oito terroristas
- O baluarte de Messalo
- No coração do Planalto Maconde
- Os espantosos dançarinos do Quissengue
- A noite à beira do Rovuma
- A ocupação da terra em Balama pelo colono-soldado
- O espectacular falhanço da infiltração inimiga em
Montepuez
- As primeiras infiltrações em Tete
- Junto à fronteira da Zâmbia
- A grande luta dos partidos
- A capital do Planalto
- Teve a colaboração do chefe distrital da Frelimo, a
maior operação de captura de material bélico efectuada
no Niassa
- A deserção em massa do estado maior do Unango
- Sob a lona de uma tenda à luz do 'petromax'
- Quarenta anos de trabalho florescem no meio do mato
- O terror dos 'turras': Francisco Daniel Roxo
- Uma mentira a papel químico
- Os Comandos atacam ao amanhecer (4ª Companhia 'Os
Gatos')
- É em Olivença que os heróis se forjam
- Na grande zona de intervenção do Lugenda
- A base à beira do Lago
- Dois dias no mato com os Fuzileiros Especiais
- O inferno de Chala
- Na fase final a linha férrea para Vila Cabral
- "Irmão: até carne de corvo já comi..."
- Destroços à deriva
- O Norte fica em frente
- Por quem as cruzes alvejam...
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