TRABALHOS, TEXTOS
SOBRE OPERAÇÕES MILITARES ou LIVROS

Abreu dos Santos
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"O
Ultramar Português, a Grande Guerra e algumas Consequências"
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Excertos do texto:
"O Ultramar Português, a Grande Guerra e algumas
Consequências"
«Esse acordo, aliás, explica a posterior
insistência do governo de Londres para que concentrássemos os nossos
recursos, na defesa de Moçambique ao norte e de Angola ao sul,
ameaçadas pelos alemães, os quais não tardaram a revelar nessas
áreas a sua agressividade antiportuguesa. Já em guerra com a
Alemanha, à Inglaterra nessa altura interessava que o seu inimigo
fosse contido no Continente Negro.»
«Os factos haviam de dar razão ao legislador, com as tentativas de
ocupação de zonas fronteiriças de Angola [sudoeste] e Moçambique
[nordeste]; e os incidentes que [...] forçaram o governo a enviar
forças expedicionárias para assegurar a defesa daquelas Províncias.
A nossa entrada na Guerra...»
«Além das forças acantonadas no Forte do Humbe, os nossos efectivos
[num total aproximado de 1 batalhão com 620 militares para toda a
fronteira sul de Angola] distribuíam-se da seguinte forma: 15ª
Companhia do Cuangar [sob comando do tenente Joaquim Ferreira
Durão], para as guarnições desde Cassinga ao Bunjei 4; 16ª nos
Gambos, guarnecendo Pocolo5, Gambos, Quipungo, Capelongo, Mulondo,
Quiteve e Dongoena; 14ª no Evale, para guarnecer Cafu e Cafima; e
17ª no Forte do Cuamato, responsável pelas guarnições de todo o
território ‘cuamato’ até Naulila. Os efectivos destas [4] Companhias
[de Caçadores Indígenas com enquadramento metropolitano], regulavam
por 12 soldados europeus e 140 indígenas cada.»
«Incendiaram o posto e as palhotas anexas e mataram o sargento,
chefe do posto. Desta forma manifestaram os alemães a sua
hostilidade a Portugal, que actuava ainda como neutral ao conflito.
[...] Confirmando as suas ameaças, a Alemanha atacava Moçambique e
[preparava-se para o fazer no sudoeste de] Angola, muito antes de
nos declarar guerra [em 09Mar1916]. Desta forma, Portugal
justificava a sua participação no conflito, em prol da legítima
defesa dos nossos territórios ultramarinos.»
«Norton de Matos faz publicar a port.958, que visa criar condições
para acudir à situação do sul de Angola: “Tendo-se dado no distrito
da Huíla acontecimentos reveladores de rebeldia dos povos indígenas
– que têm ido com forças armadas atacar as nossas escoltas e povos
dos distritos da Huíla e Benguela, exercendo actos de banditismo
sobre indígenas pacificados, e europeus nacionais e estrangeiros –,
hei por conveniente determinar que seja declarado o estado-de-sítio,
com suspensão total de garantias, no distrito da Huíla”.»
«Vão aparecer coisas graves em Angola: a incursão dos alemães pela
fronteira sul, em número de alguns milhares, e a necessidade de para
lá mandarmos mais tropa, torna impossível a ida do contingente para
França.»
«Aporta a Lourenço Marques o paquete inglês Durhan Castle, com o
Corpo Expedicionário português destinado ao norte de Moçambique que,
sob comando do tenente-coronel Massano de Amorim, começa a ser
transbordado para o vapor Moçambique, vindo de Moçâmedes.»
«.. Em 17 de Outubro, Roçadas recebeu a informação de que uma missão
alemã acampara junto do Cunene próximo de Dongoena, ou seja,
entraram em território português sem dar qualquer explicação prévia
à autoridade portuguesa.»
«Resposta ao telegrama de V.Exª, de 7 de Outubro, Foreign Office
informa que almirantado, embora julgue bastante medidas adoptadas
Governo Português para protecção expedição Moçambique, deu
instruções cruzadores ingleses vigiar sítio para onde se dirige
expedição e cobrir comboio ao longo costa África Oriental.»
««O posto foi atacado por 8 a 10 alemães, acompanhados da sua
polícia indígena e de numerosos gentios do ex-soba Ananga. Foram
mortos 2 oficiais (tenentes Ferreira Durão e Henrique de Sousa
Machado), 1 sargento, 5 praças e 13 indígenas, além do negociante
Nogueira Machado e seu filho. O resto da guarnição fugiu para o mato
até chegar ao posto de Caiundo, enquanto os alemães saqueavam e
queimavam o posto do Cuangar, e levavam com eles as mulheres que não
conseguiram fugir. Mas os alemães não pararam por ali. Seguiram ao
longo do Baixo Cubango, arrasando e incendiando os postos de Bunga,
Sambio, Dirico e Mucusso, em que as fraquíssimas guarnições,
desprevenidas, não lhes conseguiram fazer frente. O inimigo
demonstrava claramente os seus verdadeiros objectivos, que eram:
invadir o território português, atingir o planalto da Huíla e
alcançar Moçâmedes.»
«Na baía de Porto Amélia, desembarcam do vapor Moçambique as tropas
expedicionárias, sob comando do tenente-coronel Massano de Amorim,
que começam a instalar o quartel-general para as operações junto à
fronteira fluvial, a fim de estabelecer no planalto de Mueda postos
de etapes com tropas moçambicanas em Miteda e Chomba até Mocímboa do
Rovuma, dali irradiando para oriente, criando postos de vigilância
em Namitema, Nangade, Nhica, Pundanhar e Madai, até alcançar o
planalto do Namato fronteiriço ao Quionga; e para ocidente com
postos avançados em Negomano (foz do Lugenda), Nachinamoca, Unde e
Maziúa, até Macaloge no Alto Rovuma.»
«De Lisboa larga com destino a Moçâmedes mais um navio, com um
batalhão de infantaria da Marinha sob comando do capitão-tenente
Coriolano da Costa, para reforço do Corpo Expedicionário ao sul de
Angola após o ataque-surpresa que tropas alemãs da Damaralândia, há
cinco dias, fizeram contra o fortim do Cuangar e a quatro outros
postos fluviais fronteiriços.»
«A vigilância do rio passou a ser feita pelos [pelotões de cavalaria
dos] “Dragões” do capitão [i.e, tenente Francisco Xavier da Cunha]
Aragão. [...] Uma força alemã de 300 homens acampara junto ao sobado
Cuambi e recebia substanciais reforços. A coluna, sob comando do
major Franck, projectava seguir para o Humbe depois de ocupar
Naulila. Alves Roçadas dirigiu-se para o Cunene, com o fim de lhe
impedir a passagem do rio.»
«... junto à fronteira norte de Moçambique, «também os alemães se
mostravam activos procurando revoltar os indígenas nos territórios
da Companhia do Niassa, confinantes com o Rovuma. Mas a conspiração
descoberta a tempo tornou possível evitar a revolta»
«Figurou-se a hipótese dos alemães, recuando diante do general Botha,
entrarem na província de Angola, não para se acolher à nossa
protecção mas para eleger domicílio em nossa casa: segundo uns, os
alemães viriam ao Humbe, subiriam até ao planalto e ali se
instalariam na disposição de tomar Moçâmedes, servida por
caminho-de-ferro; segundo outros, eles seguiriam o curso do Lubango,
iriam até ao planalto de Benguela e ali se instalariam provavelmente
como hóspedes.»
«As maquinações destes célebres dirigentes da governança Guineana
são também contra nós, membros da direcção da Liga, e contra outros
filhos ilustres da Guiné que se não têm cansado de lhes combater uma
arbitrariedade que só poderá redundar na perturbação do sossego
desta infeliz província, não contando com as complicações que
adviriam de uma guerra em Bissau onde residem também súbditos
estrangeiros”. Ao longo dos 5 números (Janeiro a Maio daquele ano),
a Guiné ocupa lugar central: “Depois do bárbaro assassinato
dos“papéis” e “grumetes”, do encerramento das escolas, da dissolução
dos Centros e Ligas, segue-se a violência miserável das prisões, a
deportação em massa. Dir-se-ia que na Guiné está declarado o
estado-de-sítio e que os vencedores, triunfantes e gloriosos, hão
decretado o saque»
«Na baía de Porto Amélia, desembarcam do vapor Moçambique os
militares do 2º Corpo Expedicionário, sob comando do major Moura
Mendes, para render as tropas do tenente-coronel Massano de Amorim.»
«Em fins de Março organizou-se em Porto Amélia um pequeno
destacamento, sob comando do major Portugal da Silveira, com uma
companhia [do Batalhão] de Infantaria 21, uma bateria de artilharia
de montanha e um pelotão de cavalaria. Tinha como fim ocupar Quionga
e fazer um reconhecimento ofensivo na direcção de Mikindani [60km
norte do estuário do Rovuma] e Lindi, procurando-se fixar nestas
cidades inimigas. O major Silveira marchou de Palma para Quionga,
cerca de 12km, com as forças referidas e a 20ª Companhia Indígena.»
«Os alemães tinham-na abandonado. Depois tratou-se de efectivar a
ocupação do chamado “Triângulo de Quionga”, terreno este também
abandonado pelo inimigo. Assim, estabeleceu-se na margem direita do
Rovuma uma linha de postos auxiliares de Namaca, Namiranga, Namoto,
Nachinamota e Nhica, com uma frente de 50km até ao mar e que
serviram de base à ofensiva às cidades alemãs de Mikindani e Lindi,
no litoral alemão. Esta ofensiva foi prejudicada pelas doenças cada
vez mais frequentes, pois a povoação e o palmar de Quionga era de
tal modo insalubres, que 545 doentes [militares] foram julgados
incapazes e retirados três meses depois. O comando da 2ª Expedição,
ao dispersar daquela forma as suas forças pelos numerosos postos de
vigilância o longo da extensa linha fronteiriça, anulou à expedição
a oportunidade de uma acção ofensiva contra os alemães.»
«Em 26 de Junho, o governo britânico pediu ao Governo português o
recrutamento de forças indígenas de Lourenço Marques, para ficarem
sob as ordens do general Smuts. Era neste ponto que se destacava a
diferença: enquanto os ingleses e os alemães utilizavam quase
exclusivamente as forças indígenas, Portugal insistia em enviar
sucessivas expedições da Metrópole com uma fraca resistência ao
clima.»
«Sem abrigos capazes, assentaram num terreno recentemente revolvido,
sem qualquer instalação em terra, sem os víveres requisitados ao
governador e sem qualquer pesquisa de água feita. Sem qualquer
higiene e depois de uma viagem sem cuidados de qualquer espécie,
agravadas por uma alimentação irracional, num ápice a malária atacou
os homens. A 19 de Julho seguiram para Lourenço Marques 300 oficiais
e praças; e a 29 retiraram-se 545 homens. Desta forma a Expedição
ficou muito reduzida.»
«Na véspera, os alemães tinham evacuado aquela zona e retirado para
montante. [...] No local da travessia, feita por jangadas, foi
lançada uma boa ponte sobre o Rovuma. [...] A travessia do Rovuma
foi efectuada a 19 de Setembro. A cooperação da Marinha fez-se
sentir pela presença do “Adamastor” na foz do rio, ao proteger o
comboio de víveres marítimo e ao realizar um pequeno bombardeamento
na margem alemã.»
«No começo da noite de 20 de Outubro de 1916, abalávamos para o
difícil vau do Licuco no rio Rovuma, enquanto pela tarde era feita
uma demonstração em outro vau próximo, atraíndo os alemães que
deixaram morto no campo um sargento europeu. Reconhecido de noite o
vau, que a corrente do Rovuma tornava instável, [...] dormitámos até
de madrugada, em que a 17a [Companhia de Infantaria Indígena] como
guarda avançada passava o vau e o protegia, enquanto as
metralhadoras passavam o rio sobre jangadas improvisadas com as
portas de caniçado, que na véspera se tinham transportado do posto
militar. A marcha sobre Newala queria-se fazer de uma assentada, mas
a etapa era muito extensa. [...] Outra noite tivemos de passar ao
relento sem encontrar água.»
«Na fronteira norte de Moçambique o posto de Nangade, onde ontem
chegou cerca das 12:00 a coluna portuguesa retirada de Newala, é
atacado por tropas alemãs e, após renhido combate, as tropas
portuguesas são forçadas a abandonar aquele posto fronteiriço,
perseguidas pelas forças invasoras que se internam em território
português na direcção de Mocímboa de Praia»
«Em Lisboa o vapor Moçambique larga novamente com destino a Lourenço
Marques, transportando um contingente formado por 1 companhia de
Engenharia, 2 baterias de Artilharia, 2 baterias de Metralhadoras e
serviços de saúde e administração militar, que completam o 4º Corpo
Expedicionário ao norte de Moçambique.
Um dia depois o navio Niassa larga rumo a Mocímboa da Praia, levando
a bordo 3 aviões-caça monomotor Farman-F40 do Destacamento de
Aeronáutica Militar, sob comando do tenente do Exército
piloto-aviador João Luís Moura.»
«Um dia depois em Mocímboa da Praia, o alferes de cavalaria
piloto-aviador Jorge de Sousa Gorgulho realiza aos comandos de um
avião Farman-F40, o primeiro vôo português em África.
Na manhã de sábado, o alferes Gorgulho repete o vôo mas despenha-se
e morre no primeiro acidente aéreo em terras moçambicanas.»
«Ainda noite cerrada no sudeste do Tanganica, tropas alemãs
abandonam o fortim de Newala e dirigem-se à fronteira fluvial onde
iniciam a 20km norte de Mocímboa do Rovuma os preparativos para
travessia do rio, com intuito de fazer entrar em território
português um grande contingente militar reforçado por colunas askari.»
«Aos primeiros alvores de sábado, a artilharia alemã flagela na
Serra da Mecula as posições portuguesas, sucedendo-se vagas de
assalto que forçam a maioria dos landins moçambicanos a fugir,
enquanto o restante efectivo português – com as tropas britânicas a
3 dias de viagem –, se defende à baioneta contra o avanço dos
milhares de askari. Mas, ultrapassada a primeira resistência da
companhia indígena, e com a morte em combate dos oficiais de
infantaria capitão Sousa Guedes e tenente miliciano Viriato de
Lacerda»
«Entretanto chegam à baía de Porto Amélia navios de transporte
ingleses, de onde é iniciado o transbordo da coluna Aliada, que ali
vai ficar baseada sob comando do coronel Rose.»
«Dois dias depois atraca em Lisboa o paquete Lourenço Marques,
regressado do nordeste de Moçambique com o Batalhão Expedicionário
da Marinha.»
«Na fronteira noroeste de Moçambique, as últimas tropas invasoras
alemãs saem finalmente por Mitomani (Alto Rovuma) com 150 soldados
europeus, 1200 guerreiros askari e 3 mil carregadores africanos.»
«Nos últimos 4 anos e em 4 sucessivos contingentes (01Nov1914,
07Nov1915, 05Jul1916, 02Jul1917), estiveram no nordeste de
Moçambique mobilizados 44160 militares (19570 do recrutamento
metropolitano e outros 24590 recrutados localmente): a grande
maioria das baixas ocorreu por doença (7 oficiais, 1938 sargentos e
praças europeus e 209 praças moçambicanos), e a minoria por acidente
(2 oficiais, 6 praças europeus e 19 auxiliares moçambicanos), sendo
as restantes em combate (16 oficiais, 38 sargentos e praças
europeus, 88 moçambicanos e 1 auxiliar), e ainda 2487 carregadores
indígenas que morreram por motivos vários (combate, acidente e
doença). Total: 4811 mortos, 301 feridos e 1283 incapazes de
serviço.»
«Em Versalhes, o chefe da delegação portuguesa Afonso Costa assina o
Tratado de Paz (sujeito a ratificação), em cujo texto ficam
expressamente incluídas referências ao pagamento de indemnizações
relativas a prejuízos sofridos durante a Grande Guerra nos
territórios do Ultramar Português.»
«Num relatório oficial, Portugal exigia um total de 130,42 milhões
de libras (912940 contos) à Alemanha, mas tal pagamento parecia
difícil, como confirmam as palavras indignadas de Afonso Costa
[chefe da delegação negocial em Versalhes]: “Os alemães não nos
darão nem um vintém! Viémos para a guerra como filósofos. Armámos os
nossos filhos só para o sacrifício. Mandámos os nossos soldados para
o campo da batalha, para, ao lado dos aliados, defender a justiça. E
os aliados fazem-nos agora a injustiça de arruinar Portugal,
esquecendo a nossa dor e o nosso sacrifício”.»
«A participação portuguesa na Grande Guerra, custou perto de 36 mil
homens na França e na África: feridos e inutilizados por doença,
totalizaram cerca de 16 mil (pelo menos), os mortos e desaparecidos
excederam 20 mil; prisioneiros na França, tivemos perto de 6 mil.
Perdemos 96379 toneladas de navegação e carga. Além destes
sacrifícios, deverão ser contabilizados todos os outros serviços
prestados à Inglaterra, de vária ordem e não foram poucos. No
entanto, na Conferência de Paz obtivemos apenas a restituição do
Quionga, pequena parcela do território [nordestino] moçambicano que
já era portuguesa [séculos] antes do conflito... [...] “No fecho da
luta beneficiámos rigorosamente de coisa nenhuma”. Mais uma vez
ficou demonstrado, como em outros transes históricos, que Portugal
nada tinha a ganhar imiscuindo-se nas querelas europeias.»
«Quanto ao papel desempenhado pelo nosso Ultramar durante a guerra
[...], apesar de insuficiente foi muito mais positiva a acção da 1ª
República além-mar do que no Continente.»
«No norte da Guiné, indígenas sob comando de Abdul Indjai atacam
Mansabá e durante os combates morre o alferes Alonso Figueira,
comandante militar da área.»
«Em Outubro de 1919, utilizando angolanos de outras regiões e
soldados [landins] de Moçambique, os portugueses saem vencedores da
resistência nacional [?] na região dos Dembos. No momento em que
terminava a ocupação militar, as forças portuguesas entretiveram-se
a liquidar os chefes tradicionais e a destruir a estruturação
tribal. [...] Foram precisas 15 expedições para levar a termo a
pacificação da região [dos Dembos].»