título:
"Chão de Sangue - Contributos para a
História da 37ª Companhia de
Comandos"
autor: Albano Sousa
editor: (o Autor)
1ªed. Maia, 02Fev2016
256 págs
23x16 cm
dep.leg: PT-404784/16
pvp: 15 € (inclui portes)
* aquisição (contactos do autor):
– mailbox <albanosousa1@gmail.com>
– tlm 966 356 974
– Excerto:
- «Prova de fogo.
Uma bela manhã aconteceu ter chegado
a hora de nova prestação para provar
as nossas capacidades. Tratava-se da
realização da prova-rainha, a tão
temida prova de fogo. O ar
tornara-se irrespirável (o calor era
abrasador), pois portava no seu seio
uma adrenalina desconhecida que a
todos inquietava. Logo de
manhãzinha, foram-nos distribuídos
três modelos com as indicações que,
abaixo, relato com total fidelidade:
"Irão ser sujeitos a tiro real…
O perigo de acidente é grande na
medida em que o vosso comportamento
se afasta das normas que deve
orientar o combatente numa situação
real…
Se fizer fogo sobre um obstáculo a
velocidade da sua transposição é que
fornecerá a segurança necessária…"
(Mod.7042/AP)
De seguida, foi-nos distribuído o
seguinte modelo:
"A progressão para o objectivo deve
ser rápida, atenta e de acordo com
as instruções que vos foram dadas.
Alguns locais, sabe-se, estão
armadilhados…
Qualquer desvio do percurso pode ter
consequências imprevisíveis…"
(Mod.7043/AP)
E por fim, ainda outro documento,
onde se lia:
"Em caso de acidente, o primeiro
instruendo, que passar pelo local do
sinistro, deverá continuar o
percurso progredindo até ao último
controle o mais rapidamente, a fim
de prevenir a organização para
recolha e assistência necessária, no
fim do que continuará a prova. Em
caso algum deverão abandonar a
prova, ou o itinerário marcado, pois
isso representa em alguns locais um
perigo ainda maior." (Mod.7044/AP).
Tanta informação distribuída era,
muito provavelmente, o prenúncio de
uma boa salgalhada (à moda dos
comandos, em que a imprevisibilidade
e o desconcertante eram marca
registada da casa... ). Por certo, a
máxima dos comandos – "sangue, suor
e lágrimas", iria ter aplicação
prática no corpo e na mente de todos
nós.
Iria começar uma das etapas mais
duras da minha vida. Teria de ser
capaz de levar a cruz ao calvário.
Tinha confiança que o faria, pois o
sorriso, o agora meu sorriso, sereno
e confiante, estava ali comigo,
dando-me força para vencer tudo e
todos, e ser comando.
E parti. Rápido, concentrado e
alerta, já que o perigo espreitava
por todo o lado, e não podia
facilitar e cometer erros de
observação e de atuação. A prova era
terrível, era difícil, e composta
por variados e exigentes obstáculos
a vencer. Começava com uma subida à
corda, que nos elevava do solo. Lá
no alto, teríamos prolongado rapel
para vencer, começando as balas a
silvarem à minha volta, e granadas a
rebentarem no chão. De seguida,
tínhamos de vencer o percurso de uma
clareira, onde éramos brindados com
rajadas de metralhadora e de armas
automáticas G3, que feriam a terra à
nossa frente, de lado e por trás.
Para complicar mais as coisas,
viam-se e ouviam-se granadas a
rebentarem, por todo o lado. Era um
inferno que tinha descido à terra da
valentia. Nós íamos sempre em
corrida constante, pois não
poderíamos parar, para não sermos
feridos. Alguns instruendos foram-no
por não cumprirem as regras
ensinadas até à exaustão. Eu,
assustado mas determinado, corria,
corria e gritava de encontro ao
inimigo (que não se via, pois estava
disfarçado na vegetação e nos
abrigos, propositadamente elaborados
para o efeito…) em ritmo inalterável
e sem parar. Aquela clareira parecia
do tamanho da volta à terra, pois
nunca mais acabava… Depois, na saída
de uma curva, apareceu um grupo de
comandos tentando tirar-me a arma e
agredindo-me a soco e a pontapé.
Fugi dali como pude, distribuindo
coronhadas por todo o lado. Durante
o percurso, vi companheiros
desorientados, que choravam
copiosamente, ou feridos que não se
podiam mexer. Foi horrível de ser
vivida aquela prova de fogo. Mas não
tinha terminado, o pior momento
ainda estava para se deparar à minha
frente; depois de ter atirado para
diferentes alvos (fixos e móveis),
em diferentes posições (de pé,
deitado, tiro apoiado e tiro
instintivo), o pior estava para vir,
e veio lesto e impiedoso, já que, ao
sair em rápida corrida, duma curva,
surge ali a maldita da vala, o
pesadelo jamais pensado, tal era a
dificuldade de se fazer a sua
transição. Era, até então, o
obstáculo mais difícil de
ultrapassar, dado que elementos do
corpo de instrução nos obrigavam a
rastejar de costas, com arame
farpado por cima de nós, que nos
rasgava o camuflado e a carne, pois
estava armado perto da superfície
daquela mistura horrível e
malcheirosa. Conforme íamos
progredindo, rastejando de costas,
perguntavam-nos: queres ser comando?
Eu, prontamente, dizia que sim –
quero ser comando! Perante uma
resposta, positiva, ou negativa,
éramos contemplados com uma pazada
de lodo (uma mistura de água,
gasóleo, terra, carne putrefacta e
ossos variados – suponho que
humanos…), que nos entrava pela boca
e nos impedia de respirar (e pensei
que morreria, ali, asfixiado, tal
era a asfixia, por não conseguir
respirar); para complicar ainda
mais, tínhamos os olhos a arder
terrivelmente, devido ao gasóleo que
haviam misturado naquela mistela, e
que não nos permitia ver
absolutamente nada! Mas acabou,
aquele martírio, como tudo tem de
acabar, no fim. Estava vivo e
inteiro, embora tivesse partes do
corpo rasgadas pelo arame farpado. E
continuava aquela prova imaginada
para super-homens! Muitos, os mais
frágeis, ou lesionados, choravam,
errando por ali perdidos de si, por
terem perdido a batalha contra
aquela desumana dureza, que não
puderam, ou não souberam, vencer.
Tentando limpar os olhos com as
mangas do casaco camuflado, pois não
via nada e tinha novo obstáculo para
vencer, fui correndo, sem saber para
onde devia ir, apenas as vozes dos
instrutores, que me insultavam, me
forneciam pistas para onde devia
encaminhar-me; pouco depois,
deram-me um cantil com água para
esfregar os olhos, o que me aliviou
as dores e me possibilitou um pouco
de visibilidade do percurso que
faltava percorrer.
Foi, seguramente, para todos os
instruendos, o obstáculo mais
difícil de transpor. Foi terrível.
Então, pensei que morreria… Mas tudo
corria muito rápido, o tempo para
pensar parou, e fora de mim, corria
e gritava – quero ser comando! Não
era eu que ali estava, era um
gigante que se avolumava para poder,
de novo, mirar, com orgulho, o novo
olhar que, lá longe, me sorria e
dava força para correr. E como
corria, veloz, eu! Seguia as
instruções que eram dadas pelos
instrutores, e corria, corria sem
parar, pois queria sair dali
rapidamente. E fui voando,
ultrapassando companheiros que
tinham partido antes de mim.
Decerto, estava tomado de uma força
imensa (que sabia possuir…), que me
tornava imparável. Nada sabia, nem
sequer o meu nome, apenas gritava
que queria ser comando. Agora sei
que todas as minhas reações eram
puramente instintivas e de
sobrevivência… Mas não estava
completa, ainda, a prestação das
minhas capacidades físicas e
mentais, porque teria de atravessar,
ainda, uma vala cuja passagem era
feita em cima de um toro ensebado, e
que fora untado, para criar maiores
dificuldades ao instruendo. Era
escorregadia aquela improvisada
ponte de madeira, e muitos
escorregaram, e tinham de recomeçar
a sua passagem. Aqui deve ser
lembrado que o nosso equilíbrio não
era o normal, devido ao cansaço,
físico e mental, de que estávamos
tomados.
Mas ainda havia mais. Após ter
passado o endiabrado e ensebado toro
de madeira, sempre em passo de
corrida, logo surgia novo obstáculo,
nova dificuldade. À nossa espera, um
toro, com um peso aproximado de 20
quilos, que teríamos que
transportar, ao ombro, num percurso
de um quilómetro. Lembro-me ainda
como abanei (as pernas não
aguentavam mais, estavam esgotadas e
mortas), por todo o lado para
carregar aquele tronco que,
parecia-me, pesava mais de uma
tonelada. Mas lá fui carregando e
cambaleando, caindo e levantando-me
de imediato; não podia mais, estava
no meu limite físico! Mas, como não
há dor que sempre dure, chegou,
finalmente, o fim!
Atingido o final, fui (fomos todos
nós) sujeito aos maiores impropérios
(aqui indescritíveis…) por parte de
um Capitão que me chamou todos os
nomes feios, que conhecia (e eram
muitos, acreditem…); eu apenas
respondia – quero ser comando!
Então, sim, a batalha fora ganha, e
nada me demoveu do propósito de ser
um futuro comando. A vitória na
guerra final estava lá longe,
esperando por mim. Eu começava a
ficar pronto para assumir a coroa da
glória, e, ufano, passeá-la pela
baixa da cidade.
Entregaram-me dez litros de água,
para tomar banho, mas esta apenas
deu para retirar parte da lama, e
sangue, agarrada ao camuflado, e
beber, beber, até cair para o lado –
fiquei ali, não sei por quanto
tempo, deitado no capim, esgotado,
mas feliz… Depois, já não me lembro
como foi, acordei na enfermaria do
acampamento, limpo e tratado das
feridas que tinha sofrido durante a
prova; uma delas, na coxa direita,
teve de ser suturada. O pior tinha
passado, estávamos no final das duas
semanas, que, ali, tínhamos
permanecido.
Por ser a mais dura prova, a nível
físico e psicológico a que fora
submetido, feita através de um
percurso com cerca de cinco
quilómetros, onde todos os
instruendos tiveram de ultrapassar
os mais diversos obstáculos,
aplicando toda a sua força física e
mental, mas, acima de tudo, nunca
esquecendo todas as diferentes
técnicas que até aquela data lhes
haviam sido ministradas. Todos foram
submetidos a um vasto rol de
diferentes situações, em que tinham
de correr, saltar, rastejar (de
costas e de ventre), de progredir em
técnica de aproximação ao inimigo,
correndo em ziguezague, não
esquecendo as cambalhotas e a
transposição dos obstáculos com as
técnicas mais apropriadas que lhes
ensinaram.
Enquanto faziam o percurso, eram
surpreendidos com disparos vários,
assim como explosão de granadas, não
sabendo nunca quando e de onde os
mesmos eram efetuados, obrigando-os
a reagir sempre da forma mais
adequada, visto o corpo de instrução
estar no local para o observar e
avaliar todas as suas aptidões, e
formas de reação. O seu futuro
dependeria, no imediato, da
avaliação que lhe era feita.
Ali fui gigante. Quando as situações
me pareciam insuperáveis, logo o
olhar em que nadava me sorria em
amizade; dele brotava uma imensa e
desconhecida força que me agigantava
e me levava a ultrapassar todos os
obstáculos que me apareciam pela
frente. Não estava só ali, tinha
comigo a crença de ser comando, para
que a bonita rapariga se orgulhasse
de mim. Eu tinha uma razão acrescida
para lutar. E lutei como um leão. O
facto de ser descomandado e
irreverente, por isso muito
conhecido, levava os instrutores a
serem mais duros comigo. Fizeram-me
a vida negra, durante aqueles cinco
quilómetros de morte, de medos e de
superações. Mas venci todas as
dores, todos os cansaços, todas as
armadilhas espalhadas ao longo do
percurso. Em suma, venci e cheguei
vivo ao final. Eu sabia que não
podia esperar que um qualquer
Cireneu me ajudasse a levar a minha
cruz ao calvário da chegada. Estava
ali sozinho e teria que valer por
dois, e vali!
Era perigosa esta prova, pois foram
muitos os feridos (com maior ou
menor gravidade). Houve tiros nas
pernas, dilacerações variadas,
fraturas, deslocamento de membros,
ossos partidos, tudo isso aconteceu
no seu percurso de morte. Trazidos
pela memória viva do soldado comando
Paulo Ferreira, descreverei o nome
de dois instruendos (que eram seus
amigos e muito próximos) que, no
salto em profundidade (feito de
altura considerável), partiram as
pernas. Um chamava-se o Gaito, o
outro era o instruendo Runa. Morrera
ali o sonho daqueles valorosos
rapazes de serem comandos. E haviam
lutado tanto para o serem! Partiram
para longe, foram fazer outro
caminho – o seu! Foi pena, mas
aconteceu assim!
Frágil olhar, morto voar…
A insónia acordada não deixa
A noite ser perfeita.
É frágil o meu olhar acordado
Na escuridão.
Invento-te no meu desassossego,
Por fora da viagem que não faço.
Estou aqui deitado e não sonho!
O corpo triste e calejado pelos
Nãos da tua mão mantém intacto
O fogo que se ateia no escuro.
Vou partir…
Caminharei longe de mim,
Ferido pelos fragmentos dos vidros
Da noite clara, que me dilaceram a
Alma em desalinho.
E eu aqui tão só – tão ferido!
Ao longe escuto os pássaros que não
Chilreiam…
Choram silenciosos trinados
Trazidos pela partida do sol – está
Cindido o seu sentir, com a alma
Abraçada pelo frio do silêncio.
– Fenecem lentamente, pois não mais
voam.
Caem na terra apagada,
Que os cobre de vergonha e cala.
Não mais farão a viagem,
Jamais baterão as asas
Agora desnudadas cujas penas
Se partiram levadas pela fúria do
vento
Calado aqui.
Ferido, não te leio na noite,
O dia, esse, não acorda – tem
vergonha!
Eu durmo acordado pelo sonho da
manhã!
Regressámos ao CIC (o nosso poiso
diário). Aí chegados, aconteceu mais
uma vez o cerimonial temido por
todos nós: vários instruendos (cerca
de 20%) foram eliminados do curso de
comandos. Através de um ritual que a
todos horrorizava, pois o instruendo
eliminado ouvia a frase "não és
digno de ser comando…", as mais
temidas das palavras, que não
queríamos ouvir, eram aquelas. E lá
partiram para longe de nós, para
sempre destruído o sonho de serem
comandos. Foi assim que aconteceu, a
sorte, certamente por se ter
distraído, não protegeu todos
aqueles rapazes audazes.»