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Amadú Bailo Djaló

Agraciado com a Medalha da Cruz de Guerra e com a Medalha de Dedicação e Mérito

 

Faleceu, no dia 15 de Fevereiro de 2015, o 'Comando'

 

Amadú Bailo Djaló

 

10Nov1940 > 15Fev2015

 

Com a devida vénia, imagem extraída do blogue

"Luís Graça & Camaradas da Guiné"

 

Nascido em 10 de Novembro de 1940, em Bafatá, na Guiné. Ferido em combate por duas vezes com gravidade, foi agraciado com a Medalha da Cruz de Guerra e com a Medalha de Dedicação e Mérito.

Que a sua Alma descanse em Paz.

 

O livro

 

"Guineense, Comando, Português"

[...] [...] Toda a vida de um guineense, que se afirma tão português como muitos de nós, em quatro volumosos maços de folhas A4, escrita pela mão dele, em letra grande, num misto de palavras em português, crioulo e fula. Textos seguidos, sem vírgulas nem pontos, tudo de rajada, escritos por uma alma grande, com a sabedoria, o senso e a inteligência, que muitas vezes presenciámos naqueles nossos companheiros de armas. [...]

V. António Briote, ex-alferes mil.º CCav489/BCav490 e Comandos do CTIG (1965/66)

 

15Abr2010: Alocuções no decurso da cerimónia

 

Vídeos de "Nhabijoes"

Intervenção do Coronel 'Comando' Raul Folques

 

Enviado por V. Briote

 

Minhas Senhoras, Meus Senhores, Camaradas,

 

Conheço o autor deste livro “Guineense, Comando, Português”, o Alferes Amadú Bailo Djaló há longos anos, desde 1972.

A imagem mais viva que tenho dele pertence à sua actuação durante os combates de Cumbamori, quando com excepcional destemor e valentia repeliu dois contra-ataques inimigos, demonstrando o mais alto valor guerreiro.

Este nosso militar, ferido em combate por duas vezes com gravidade, foi agraciado com a Medalha da Cruz de Guerra e com a Medalha de Dedicação e Mérito.

 

Esta minha intervenção, por opção, será focalizada no carácter afectivo e emotivo que a minha vivência no Batalhão de Comandos da Guiné, indelevelmente imprimiu na minha vida. Houve momentos e pessoas, Camaradas meus que foram marcantes e, sem dúvida, o autor deste livro que nos reúne hoje aqui, bem como alguns outros que não quero deixar de referir, evocando-os, pois a grande maioria deles já não se encontra entre nós:

 

Tenente Abdulai Queta Jamanca, Cruz de Guerra, assassinado pelo PAIGC depois da Independência da Guiné. Comando com quem partilhei em Cumbamori uma pastilha de “Coramina”, que me tinha sido dada pelo Camarada Matos Gomes, e que, estou disso convencido, nos permitiu chegar a Guidage.

 

Tenente Zacarias Saiegh, assassinado pelo PAIGC depois da Independência da Guiné. Militar inteligente, com formação cultural e intelectual, Zacarias Saiegh estava a ser preparado para cargos de maior responsabilidade.

 

Alferes Aliú Sada Candé, Cruz de Guerra, duas vezes ferido com gravidade em combate, assassinado pelo PAIGC, depois da Independência da Guiné. Homem muito religioso e sábio, cuja opinião era ouvida por todos com consideração e respeito.

 

Tenente Tomás Camará, de etnia Nalú, assassinado pelo PAIGC também depois da Independência da Guiné. O Tomás Camará, devido a graves ferimentos em combate, estava internado no HMP em 25 de Abril de 1974, onde o visitei durante a convalescença. Na altura aconselhei-o a manter-se por cá até a situação na Guiné estabilizar. Respondeu-me que tinha recebido correspondência que lhe garantia que os militares que, como ele, tinham combatido no Exército Português iriam ser integrados no futuro Exército da Guiné, respeitando-se as patentes que já tinham obtido e, como acreditava na informação que recebera, tinha pressa em voltar.

 

Alferes Pedro Melna, Balanta, mortalmente ferido durante a operação “Ametista Real”, em Cumbamori, quando tentava recuperar o corpo do Camarada Alferes Mama Samba Baldé.

 

Alferes Djambará Baldé, duas Cruzes de Guerra, camarada de excepcional valentia, homem profundamente religioso, solidário e de grande humanidade, recentemente falecido no Hospital Militar de Belém.

 

E muitos outros.

 

Tenho uma lista de recordações longa e penosa, como vêem. Mas quero, por atributo à verdade, referir os três camaradas do QP que comigo combateram no BCmds da Guiné, camaradas que recordo com estima, consideração e respeito.

O meu Comandante, o então Major João de Almeida Bruno, conhecedor profundo da Guiné e das suas gentes, Comandante do mais alto valor militar, e ainda os capitães Carlos Matos Gomes e José Humberto Baptista da Silva, que foram valorosos companheiros.

 

Da leitura do livro do Amadú verifica-se, facilmente, a profunda influência que a acção dos Comandos Africanos teve no desenrolar da guerra na Guiné, primeiro integrados em Grupos de Combate, depois em Companhias e finalmente no Batalhão de Comandos, que tinha como núcleo três companhias de Comandos recrutados entre todas as etnias da Guiné, Fulas, Balantas, Mandingas, Manjacos, Felupes, Nalús, Bijagós, Papeis, etc, e que conviviam num ambiente sadio e camarada, defendendo os seus chãos, em prol de uma Guiné melhor.

 

As operações, sempre em locais decisivos, sucederam-se e pouco antes do 25 de Abril, no decorrer da op. “Neve Gelada”, na região de Canquelifá (21 a 30 de Março de 1974), o inimigo perdeu, além de um número avultado de combatentes, uma bateria de morteiros pesados, dado que capturámos três morteiros de 120 mm completos e ainda uma culatra de morteiro de 120, dois tripés, um prato-base e 367 granadas.

 

Há ainda no livro uma nota de rodapé que me impressionou e sensibilizou especialmente. É sobre o Alferes Vicente Pedro da Silva que se suicidou aqui, em Lisboa, em 2004, face às más condições em que vivia, sentindo-se injustiçado, incompreendido e desprezado.

Todos nós que lidámos de perto com este nosso pessoal temos conhecimento que estes homens não são assistidos nem apoiados, nem vêem o esforço, o suor e o sangue por eles vertido, reconhecido e admirado.

Há pouco tempo, depois de um esforço enorme da Associação de Comandos, foi descerrada, por quem de direito, no Monumento aos Mortos pela Pátria, uma lápide com o nome dos 53 Comandos assassinados pelo PAIGC depois da independência da Guiné, numa vingança cobarde e irracional. O “speaker” da cerimónia nunca referiu as condições em que os nossos militares foram mortos, deixando no ar apenas a ideia de que era uma placa evocativa a militares mortos na Guiné. Nem quando, nem como, nem porquê!

 

Para acabar, como último assunto, vou falar do Guião de Mérito do Exército atribuído ao Batalhão de Comandos da Guiné. Como se sabe, o Guião de Mérito é concedido a unidades de constituição provisória ou a sub-unidades que por natureza não possuem Bandeira Nacional, no caso das mesmas serem condecoradas colectivamente e nele será aposta a condecoração colectiva concedida.

Quero dizer, se o Batalhão de Comandos da Guiné tem o Guião de Mérito do Exército, nele devia ter a correspondente medalha colectiva que, no caso, seria a Medalha de Cruz de Guerra de 1ª Classe, o que, na realidade, não sucede.

A medalha deve ter ficado embrulhada na rede de um ou mais burocratas ou, pior ainda, foi travada por um qualquer responsável moral e com inveja.

 

Acabei. Acabei com a palavra inveja propositadamente, pois queria, ao terminar com a última palavra dos “Lusíadas”, evocar o nosso imortal Luís de Camões e ao evocá-lo prestar homenagem ao Batalhão de Comandos da Guiné e a todos aqueles que cumpriram com dignidade as suas obrigações, em anos já longínquos e em terras agora distantes.

 

“Olhai que ledos vão por várias vias,

Quais rompentes leões e bravos touros,

Dando o corpo a fome e vigias,

A ferro, a fogo, a setas e pelouros,

A quentes regiões, a plagas frias,

A golpes de idolatras e de Mouros,

A golpes incógnitos do Mundo,

A naufrágios, a peixes, ao Profundo!”

 

Lusíadas, Canto X, estrofe 147.

 

 

 

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