Nascido em 10 de
Novembro de 1940, em Bafatá, na Guiné. Ferido em combate
por duas vezes com gravidade, foi agraciado com a
Medalha da Cruz de Guerra e com a Medalha de Dedicação e
Mérito.
Que a sua Alma descanse em Paz.
O livro
"Guineense,
Comando, Português"
[...]
[...] Toda a vida
de um guineense, que se afirma tão português como muitos
de nós, em quatro volumosos maços de folhas A4, escrita
pela mão dele, em letra grande, num misto de palavras em
português, crioulo e fula. Textos seguidos, sem vírgulas
nem pontos, tudo de rajada, escritos por uma alma
grande, com a sabedoria, o senso e a inteligência, que
muitas vezes presenciámos naqueles nossos companheiros
de armas.[...]
V. António
Briote, ex-alferes mil.º CCav489/BCav490 e Comandos do
CTIG (1965/66)
Conheço o autor
deste livro “Guineense, Comando, Português”, o
Alferes Amadú Bailo Djaló há longos anos, desde
1972.
A imagem mais
viva que tenho dele pertence à sua actuação durante
os combates de Cumbamori, quando com excepcional
destemor e valentia repeliu dois contra-ataques
inimigos, demonstrando o mais alto valor guerreiro.
Este nosso
militar, ferido em combate por duas vezes com
gravidade, foi agraciado com a Medalha da Cruz de
Guerra e com a Medalha de Dedicação e Mérito.
Esta minha
intervenção, por opção, será focalizada no carácter
afectivo e emotivo que a minha vivência no Batalhão
de Comandos da Guiné, indelevelmente imprimiu
na minha vida. Houve momentos e pessoas, Camaradas
meus que foram marcantes e, sem dúvida, o autor
deste livro que nos reúne hoje aqui, bem como alguns
outros que não quero deixar de referir, evocando-os,
pois a grande maioria deles já não se encontra entre
nós:
Tenente Abdulai
Queta Jamanca, Cruz de Guerra, assassinado pelo
PAIGC depois da Independência da Guiné. Comando
com quem partilhei em Cumbamori uma pastilha de “Coramina”,
que me tinha sido dada pelo Camarada Matos Gomes, e
que, estou disso convencido, nos permitiu chegar a
Guidage.
Tenente Zacarias
Saiegh, assassinado pelo PAIGC depois da
Independência da Guiné. Militar inteligente, com
formação cultural e intelectual, Zacarias Saiegh
estava a ser preparado para cargos de maior
responsabilidade.
Alferes Aliú Sada
Candé, Cruz de Guerra, duas vezes ferido com
gravidade em combate, assassinado pelo PAIGC, depois
da Independência da Guiné. Homem muito religioso e
sábio, cuja opinião era ouvida por todos com
consideração e respeito.
Tenente Tomás
Camará, de etnia Nalú, assassinado pelo PAIGC também
depois da Independência da Guiné. O Tomás Camará,
devido a graves ferimentos em combate, estava
internado no HMP em 25 de Abril de 1974, onde o
visitei durante a convalescença. Na altura
aconselhei-o a manter-se por cá até a situação na
Guiné estabilizar. Respondeu-me que tinha recebido
correspondência que lhe garantia que os militares
que, como ele, tinham combatido no Exército
Português iriam ser integrados no futuro Exército da
Guiné, respeitando-se as patentes que já tinham
obtido e, como acreditava na informação que
recebera, tinha pressa em voltar.
Alferes Pedro
Melna, Balanta, mortalmente ferido durante a
operação “Ametista Real”, em Cumbamori, quando
tentava recuperar o corpo do Camarada Alferes Mama
Samba Baldé.
Alferes Djambará
Baldé, duas Cruzes de Guerra, camarada de
excepcional valentia, homem profundamente religioso,
solidário e de grande humanidade, recentemente
falecido no Hospital Militar de Belém.
E muitos outros.
Tenho uma lista
de recordações longa e penosa, como vêem. Mas quero,
por atributo à verdade, referir os três camaradas do
QP que comigo combateram no BCmds da Guiné,
camaradas que recordo com estima, consideração e
respeito.
O meu Comandante,
o então Major João de Almeida Bruno, conhecedor
profundo da Guiné e das suas gentes, Comandante do
mais alto valor militar, e ainda os capitães Carlos
Matos Gomes e José Humberto Baptista da Silva, que
foram valorosos companheiros.
Da leitura do
livro do Amadú verifica-se, facilmente, a profunda
influência que a acção dos Comandos Africanos
teve no desenrolar da guerra na Guiné, primeiro
integrados em Grupos de Combate, depois em
Companhias e finalmente no Batalhão de Comandos, que
tinha como núcleo três companhias de Comandos
recrutados entre todas as etnias da Guiné, Fulas,
Balantas, Mandingas, Manjacos, Felupes, Nalús,
Bijagós, Papeis, etc, e que conviviam num ambiente
sadio e camarada, defendendo os seus chãos, em prol
de uma Guiné melhor.
As operações,
sempre em locais decisivos, sucederam-se e pouco
antes do 25 de Abril, no decorrer da op. “Neve
Gelada”, na região de Canquelifá (21 a 30 de Março
de 1974), o inimigo perdeu, além de um número
avultado de combatentes, uma bateria de morteiros
pesados, dado que capturámos três morteiros de 120
mm completos e ainda uma culatra de morteiro de 120,
dois tripés, um prato-base e 367 granadas.
Há ainda no livro
uma nota de rodapé que me impressionou e
sensibilizou especialmente. É sobre o Alferes
Vicente Pedro da Silva que se suicidou aqui, em
Lisboa, em 2004, face às más condições em que vivia,
sentindo-se injustiçado, incompreendido e
desprezado.
Todos nós que
lidámos de perto com este nosso pessoal temos
conhecimento que estes homens não são assistidos nem
apoiados, nem vêem o esforço, o suor e o sangue por
eles vertido, reconhecido e admirado.
Há pouco tempo,
depois de um esforço enorme da Associação de
Comandos, foi descerrada, por quem de direito, no
Monumento aos Mortos pela Pátria, uma lápide com o
nome dos 53 Comandos assassinados pelo PAIGC depois
da independência da Guiné, numa vingança cobarde e
irracional. O “speaker” da cerimónia nunca referiu
as condições em que os nossos militares foram
mortos, deixando no ar apenas a ideia de que era uma
placa evocativa a militares mortos na Guiné. Nem
quando, nem como, nem porquê!
Para acabar, como
último assunto, vou falar do Guião de Mérito do
Exército atribuído ao Batalhão de Comandos da Guiné.
Como se sabe, o Guião de Mérito é concedido a
unidades de constituição provisória ou a
sub-unidades que por natureza não possuem Bandeira
Nacional, no caso das mesmas serem condecoradas
colectivamente e nele será aposta a condecoração
colectiva concedida.
Quero dizer, se o
Batalhão de Comandos da Guiné tem o Guião de Mérito
do Exército, nele devia ter a correspondente medalha
colectiva que, no caso, seria a Medalha de Cruz de
Guerra de 1ª Classe, o que, na realidade, não
sucede.
A medalha deve
ter ficado embrulhada na rede de um ou mais
burocratas ou, pior ainda, foi travada por um
qualquer responsável moral e com inveja.
Acabei. Acabei
com a palavra inveja propositadamente, pois queria,
ao terminar com a última palavra dos “Lusíadas”,
evocar o nosso imortal Luís de Camões e ao evocá-lo
prestar homenagem ao Batalhão de Comandos da Guiné e
a todos aqueles que cumpriram com dignidade as suas
obrigações, em anos já longínquos e em terras agora
distantes.