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ABarretoAntónio Garcia Barreto

 

António Rodrigo Garcia Barreto, nasceu a 15Dez48 na Amadora.


Em 1970, mobilizado como alferes miliciano para prestar serviço militar em Moçambique, de onde regressou em 1972.


Colaborou em jornais, designadamente no 'Notícias' de Lourenço Marques; e nos vespertinos lisboetas 'República' e 'Diário Popular'.


Em 1973 obteve o 1º Prémio de um concurso de contos promovido pelo 'Diário Popular', com o conto "Tio Jeropiga, Tio Manel Pedreiro, Eu, a Mula Bizarra e Companhia".


Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é membro da Associação Portuguesa de Escritores e representado pela Sociedade Portuguesa de Autores.

 

O livro:

 

"À Sombra das Acácias Vermelhas"

 

título: "À Sombra das Acácias Vermelhas"
autor: António Garcia Barreto *

editor: Roma Editora
1ªed. Mem Martins, Fev2006
141 págs
20cm
preço: 11€
dep.legal: PT-237239/06
ISBN: 972-8490-84-4

 

(texto de contracapa):


– «Quem habita situações como as que estão referidas neste livro, habitualmente tarda em publicitá-las, devido à carga emocional que a elas está ligada. Existem sentimentos de humilhação, coisas más que frenam a espontaneidade e necessitam de um tempo decorrido para o esbatimento desejável e libertador. Permite-se, assim, ao leitor a fruição de um testemunho mais distanciado e crítico, porventura mais coerente.»

– «Oficial miliciano que em 1970 foi destacado para Moçambique, [...] anos depois romanceou esse tempo, no livro "À Sombra das Acácias Vermelhas", [...] para que os portugueses não esqueçam a sua História recente, que entre 1961 e 1974 os fez andar a combater em solo africano.


Os barcos que da Rocha do Conde d'Óbidos, em Lisboa, rumavam a Bissau, Luanda ou Lourenço Marques, pejados de homens que por vezes nem sequer regressavam ou que vinham de lá mutilados; as cervejas inesgotáveis; os bares de engate; a força das trovoadas. De tudo isso nos fala Garcia Barreto, que desde 1973 tem vindo a ser distinguido pela sua arte narrativa [...].


Mesmo sem ser uma figura da vanguarda literária, ele descreve muito bem aquele ambiente dos "soldados à deriva de si próprios", rapazes de 21 a 23 anos que tinham de passar uma parte importante da sua vida metidos no mato ou a fazer filhos mestiços, em vez de singrarem nas suas carreiras profissionais ou aprenderem a conhecer melhor as províncias onde tinham nascido. Fala-nos das "crianças nuas de barrigas inchadas" e das "mamanas negras que vendiam fruta num improvisado mercado indígena".


Foi essa a escola, a experiência, de muitos milhares de portugueses que hoje andam pelos 57/60 anos e que têm dificuldade de se reconhecer nos novos tempos, repletos de informática e de notícias de mais guerras, no Iraque, no Afeganistão e noutras paragens de que na sua juventude quase nunca tinham ouvido falar.


Foi o drama daqueles que, ao regressarem, sãos ou estropiados, já não encontraram à sua espera a pessoa com quem tinham pensado fazer uma vida em comum, mas que entretanto se deixara ir nos braços de outro parceiro, mais palpável do que quem, durante 48 meses, se encontrava desterrado a milhares de quilómetros.


Por isso, para que persista a memória traumática dos anos de 1960 e 1970, é bom que existam pessoas como este António Rodrigo, natural da Amadora, licenciado em História por uma Faculdade lisboeta onde existe a estátua de D. Pedro V, que morreu aos 24 anos, sem descendência, como tantos dos jovens que um dia saíram da foz do Tejo, para aquartelamentos distantes.»


(Jorge Heitor, in "Dias de guerra colonial em Moçambique"; suplemento Mil Folhas do matutino Público, Lisboa 13Out2006)

 

(excertos do 1º Capítulo):


– «O tenente Coutinho parecia talhado para carranca de brigue. Ou por isso, ou pela fisionomia larga e algo bronca, o certo é que era mais conhecido por Cabeça de Tuba. Um Adamastor sem brilho e sem história que as vicissitudes da vida haviam transformado em oficial menor de um exército moribundo, na véspera de uma retirada definitiva. A bizarria do seu porte e a eficácia do seu gesto assumiam o valor de um arcabuz na guerra moderna. Contava-se que conseguira os galões após vinte anos de tarimba, almoçando feijão com massa em messes fedendo gorduras, remoendo desditas e decorando o código de disciplina militar, vírgula a vírgula, num esforço de meninges assolapadas. Teriam sido anos difíceis, os dessa ascensão lenta mas perseverante, marcando passo ao som de clarins roufenhos tocados por músicos de banda filarmónica desviados da função. Anos a receber ordens sobranceiras de superiores atacados por crises de bílis que sonhavam com campanhas napoleónicas no decurso de digestões difíceis. A seguir a tanto esforço castrense obteve a recompensa de ser subalterno. Isto numa idade em que outros ou eram generais ou já tinham mudado de vida. Era natural que se sentisse oficial de segunda linha, suportando a pedra no sapato, mas não. Pavoneava os galões com o orgulho tosco de quem chegou no fim da jornada e recebeu um prémio de consolação. Mas isso era o menos. O pior é que era um tremendo chato, um manipulador de ódios, fomentando complicações onde só existiam pequenas falhas humanas, destruindo prazeres em nome de um conceito muito próprio de "dever e serviço". Os negros fugiam dele como da encarnação de um espírito maligno, não se atrevendo a enfrentar aquele bulldozer de carne e músculos de andar desconcertado. Se preciso fosse, à mais leve contrariedade levantava a mão de pandeireta e estatelava-a na face amedrontada do tarefeiro negro com a ousadia própria de amo e senhor. Geravam-se, assim, cenas de mau estar e ódios reprimidos que nem o tempo sublimava. Com a tropa era mais brando, mas os soldados evitavam-no, procurando escapar aos seus destemperos cíclicos, autênticas borrascas tropicais. Um alferes médico da minha incorporação e que o conhecia bem, afirmava que a andropausa não fora simpática com o Cabeça de Tuba. Mas nisso eu discordava. O problema, quanto a mim, era de educação, de cultura, de modo de estar na vida. Era verdade que crescera numa época ruim, num país debruçado sobre o passado, cheirando a mofo e sofrendo de tiques e tabus. Mas isso não justificava tudo. O tenente cruzou comigo junto ao armazém sul do aquartelamento e com o ar reticente e desdenhoso de quem não simpatiza com milicianos, que na sua empedernida tábua de conceitos eram a quinta coluna da instituição militar, disse-me: – Ó nosso alferes, não se esqueça que logo à noite está de serviço no cais. Leve os seus homens, porque o barco atraca daqui a uma hora e fica pronto para a descarga.
Este "nosso alferes" trazia a marca de uma pretensiosa e mal disfarçada superioridade. Cabeça de Tuba não perdia o ensejo de a demonstrar a cada momento. Fiz um gesto largo de assentimento que levava a ironia de uma vénia burlesca e desandei no mesmo passo. Nesse momento, estava mais interessado numa crioula que me esperava no palmar da restinga, a sul da povoação, da qual eu guardava uma imagem de sereia tropical, discreta e suave.


[...]
E bebemos até a secura se instalar na boca. Mais tarde saímos do bar, alegres de sorriso plástico, e convidei-a a entrar no jipe, a meu lado. Ao mesmo tempo enxotei o condutor-auto que roncava atravessado pela cerveja. Beber, aprendi depressa, era a grande epopeia de qualquer soldado naquele território adverso. Conduzi o jipe até à praia para que a crioula escutasse o cântico profundo dos mares, encerrado na cornucópia dos grandes búzios, como lhe havia prometido entre dois uísques. Eis um pouco da felicidade possível a um soldado que combate por uma causa que não reconhece como sua, mas se acha incapaz de rebeldia. Soldado enviado para uma terra de poeiras vermelhas povoada por histórias de enigmas e feitiços e onde o silêncio, à noite, desafia a imaginação e amedronta. O tempo cumpre-se em intermináveis horas estranguladas num relógio de areia, com a guerra a comprazer-se nos insondáveis trilhos da mata, o uísque a ensopar a solidão e a saudade do que nos está longe e nos é querido a deixar um lastro no peito.


[...]
Por instantes esqueci a minha condição de militar em comissão de serviço numa colónia assolada pela guerra. Tinha de aproveitar o que de bom havia para viver, enquanto não fosse destacado para a frente, como tudo indicava que iria suceder. Dei um mergulho nas águas da baía, esperando que a mulata viesse ter comigo. Nadei uns cem metros, mas a crioula ficou na praia. Dei-me a usufruir o prazer daquela água tépida, mergulhando e nadando ao largo. Momentos depois, deixei de a ver. Procurei-a com o olhar por entre as palmeiras. Onde estava? Nadei para a praia. Talvez estivesse atrás dos restos de uma barcaça ou dissimulada por alguns tufos de mato. Cheguei ao areal e não foi difícil perceber que desaparecera. O que lhe dera? Aborrecera-se? Fora-se embora sem dizer nada? Um adeus sequer? Estranhei. Onde estava a minha roupa? Procurei-a com apreensão, a alegria de há pouco a transformar-se em raiva contida. Como é que eu ia sair dali, naquele estado de Adão sem parra perdido no paraíso? Amaldiçoei a minha ingenuidade e a minha boa-fé. Teria roubado a minha roupa, aliás com pouco uso, para dá-la a alguém das suas relações? A miséria por ali não era coisa que passasse despercebida. Bati o areal na esperança de encontrar a roupa que salvaria a minha aflição. Quem sabe se não a escondeu só para me irritar? Andei uma hora de um lado para outro transpirando ansiedade, até que descobri a roupa meio enterrada na areia atrás de uns arbustos. Como pudera fazer tudo aquilo em tão pouco tempo! E se a apreensão pela falta das roupas se esvaneceu, logo percebi o móbil da cena. Desaparecera a minha carteira com os documentos e o vencimento do mês acabado de receber nessa manhã.»

 

 

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