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António
Lourenço de Sousa Lobato, Major Piloto-Aviador na
situação de reforma
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Nota de óbito |
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colaborador do portal
UTW |
Faleceu no dia 8 de Março de 2024 o veterano

António Lourenço de Sousa Lobato
Major Piloto-Aviador na situiação de reforma
Aeródromo Base n.º 2 - Bissalanca
Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné
«ESFORÇO E VALOR»
Homenagem:
...Mas o mais notável em tudo o que se passou, é que
o Sargento António Lobato, manteve-se firme na sua
qualidade de militar e combatente da FA Portuguesa...
Pelo Tenente-Coronel Piloto-Aviador João José Brandão
Ferreira na reserva
Enviado pelo veterano JC Abreu dos Santos:
–
«Um herói, pode sê-lo apenas por um acto que, numa hora
de bom e desprendido julgamento, coragem extrema, ou de
uma virtude excepcional, faça com que um ser humano
pratique um acto ou acção, que o distinga dos demais e
que não está ao alcance da capacidade da maioria.
Alguns casos existem assim na sociedade portuguesa e que
não foram ainda reconhecidos como tal.
Entre eles destaca-se, seguramente, o caso Major Piloto
Aviador António Lourenço de Sousa Lobato, nascido em
terras do Minho, mais precisamente na Aldeia de Sante,
freguesia de Paderne, concelho de Melgaço, a 11 de Março
de 1938.
É aqui que começa a fazer sentido o título do escrito: é
que António Lobato (AL) é Oficial Superior da Força
Aérea, na situação de reforma.
Que fez então este nosso concidadão de tão notável que,
não só merece uma homenagem nacional que nunca lhe foi
feita, mas também que a sua história deva ser contada
recorrentemente, em todas as escolas do país?
Resumidamente: AL alistou-se na FA em 1957 e fez parte
do Curso de Pilotagem P3/57. Recebeu as suas asas em
Junho de 1959 e tinha o posto de 2º Sargento.
Partiu em missão de soberania para a então Província da
Guiné, em Julho de 1961, ainda a guerrilha não havia
tido início.
Ajudou a FA a operar naquele território a partir do…
nada.
No dia 22 de Maio de 1963, após uma das muitas missões
em que já participara, no regresso à base, suspeitando
que podia ter sido atingido por fogo inimigo, pediu ao
seu asa – piloto recém-chegado e inexperiente – que
passasse por baixo do seu T-6 para ver se detectava algo
de errado. O “asa” cometeu um erro na manobra, tendo
chocado com o seu avião de que resultou AL ter de
efectuar uma aterragem forçada.
Após a aterragem foi preso por um grupo de populares
afectos ao PAIGC, que o entregou a uma força de
guerrilheiros chefiados por Nino Vieira (que viria, mais
tarde, a ser Presidente da Guiné-Bissau, qualidade em
que receberia AL em audiência).
AL sofreu maus tratos por parte dos indígenas, mas foi
bem tratado pela guerrilha – que viu nele um valioso
troféu de guerra e o levou para a ex-Guiné Francesa.
Ia começar para AL um longo e doloroso cativeiro, que
duraria sete anos e meio, tendo sido resgatado na
célebre operação Mar Verde, comandada pelo
extraordinário combatente que foi o Comandante Alpoim
Calvão, em 22/11/1970, juntamente com mais 25
portugueses, que jaziam numa masmorra em Conackry.
Um feito que Dom João de Castro não desdenharia…
No entretanto AL mudou três vezes de prisão, conheceu a
“solitária”, fugiu e foi recapturado, três vezes, e
passou por um processo mental de sobrevivência que bem
poderia ser estudado por um grupo seleccionado de
psicólogos.
Nesta luta teve um apoio precioso da família, sobretudo
da sua jovem mulher – que esteve à sua altura – (tinham
casado há poucos meses antes de ter sido feito
prisioneiro), que chegou a pedir uma audiência ao Papa,
visando a sua libertação.
No mesmo sentido, ainda está por fazer, a história do
que foi feito a nível do Estado Português – e foi
bastante – para o libertar.
Mas o mais notável em tudo o que se passou, é que o
Sargento António Lobato, manteve-se firme na sua
qualidade de militar e combatente da FA Portuguesa,
nunca traiu o seu juramento para com a Pátria, cumpriu
sempre o Dever Militar, e, tentado várias vezes a trocar
a prisão, pela “liberdade”, num país de leste, mais
tarde na Argélia (onde pontificava a chamada Frente
Patriótica de Libertação Nacional, de exilados
portugueses), sempre recusou.
Para a sua libertação tinha “apenas” que redigir uma
mensagem radiofónica em que declarava a sua oposição à
guerra – logo a justiça da luta do IN – e comprometer-se
a nunca mais pegar em armas contra a guerrilha.
Note-se que estas propostas chegaram a ser feitas pelo
líder do PAIGC Amílcar Cabral, que o visitou na prisão.
Um dia inquirido porque nunca quisera aceitar o que lhe
ofereciam, deu esta resposta extraordinária, por simples
e profunda e que diz tudo: “com que cara é que eu
chegava ao largo da minha aldeia?”.
Pois, caros leitores, é um homem desta têmpera, que se
manteve posteriormente sempre impoluto, de que no século
passado haverá, talvez, em todo o mundo, uma mão cheia
de exemplos que se lhe igualem, que a grande Família
Portuguesa desconhece e o Terreiro do Paço nunca
reconheceu e homenageou.
É certo que a FA e o Governo da altura, o reintegraram
nas fileiras, pagaram-lhe todos os retroactivos e
promoveram-no por distinção a Tenente. A seguir e
mediante legislação para o efeito criada, passaram-no ao
quadro permanente, na especialidade de piloto aviador.
Mas até hoje, nem no activo – onde nunca se tentou tirar
sequer partido em qualquer circunstância do valiosíssimo
exemplo, experiência e valor, do militar em questão –,
na reserva e reforma se colocou este Português dos
quatro costados e pessoa de carácter, no lugar a que por
direito próprio merece ocupar.
E nós, os outros, também devemos ter direito a
justamente nos orgulharmos dele.
Ora a FA nunca se lembrou que tinha AL entre um dos mais
notáveis dos seus. Nem sequer o convida para o
aniversário anual, onde AL devia ter lugar de honra…
É claro que no actual regime sem norte, nem valores
dignos desse nome, enfermo de corrupção, em que nos
habituámos (mal) a viver, AL tem contra si, o facto de
não ter sido desertor, traidor, tão pouco gozar da fama
de antifascista, senão certamente já teria sido cumulado
com várias “ordens da liberdade”, esgotado telejornais e
entrevistas.
Mas, parece que, não foi isso que ele aprendeu no largo
da sua aldeia… »¹
¹ (tcor pilav res João José Brandão Ferreira, in
"Homenagem ao Major PilAv António Lobato"; Lisboa,
02Ago2015)

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