Elementos cedidos por um colaborador do portal UTW
Daniel Gouveia

Daniel Alves Gouveia, nasceu a 28Set43 em
Lisboa.
Concluído o curso dos liceus, iniciou estudos
universitários na Faculdade de Letras de Lisboa, onde se
manteve até ao 3º ano de Românicas.
Em Abr67 incorporado no SMO, como soldado-cadete na
EPI-Mafra.
Em 25Set67 classificado em 2º lugar no respectivo COM e
promovido a aspirante-a-oficial miliciano, atirador
especial de infantaria.
Em
meados do último trimestre de 1967, mobilizado pelo
RI2-Abrantes para integrar o BCac2832, unidade destinada
à quadrícula do Exército no noroeste de Angola.
Em 04Jan68, alferes miliciano comandante de um pelotão
da CCac2308, embarcou em Lisboa no NTT 'Vera Cruz' rumo
a Luanda, onde desembarcou com o seu batalhão no dia
13Jan68.
Ficou sucessivamente aquartelado em Tomboco (28Jan68),
Quiximba (25Jun68) e Marimba (08Ago69).
Na vasta zona-de-acção atribuída ao subsector de
Marimba, além do seu pelotão comandou simultaneamente os
GE205 e GE209.
Em 04Mar70 iniciou em Luanda a torna-viagem rumo a
Lisboa, onde chegou com o seu batalhão a bordo do NTT 'Uige'
no dia 14Mar70.
A sua Companhia não sofreu quaisquer baixas mortais.
Recebeu um louvor por acções em campanha.
O livro:
"Cartas do Mato
- Correspondência pacífica de guerra"
título: "Cartas do Mato - Correspondência
pacífica de guerra"
autor: Daniel Gouveia
editor: Âncora
1ªed. Lisboa, 21Mar2015
170 págs (ilustrado)
23x16,5cm
pvp: 12,50€
dep.leg: PT-391191/15
ISBN: 972-780-493-1
Introdução
(excertos):
– «Selos daqueles havia-os aos montões, com
800 000 homens a terem passado pelo Ultramar durante os
14-15 anos da última guerra do nosso Império.
Enfatizo nosso, porque agora enviamos tropas para
defender o Império dos outros, com chorudos salários e o
primeiro-ministro a despedir-se pessoalmente de cada um
dos quarenta ou cinquenta homens – agora também mulheres
–, que embarcam num avião para a Bósnia, Kosovo ou
Afeganistão, onde chegarão umas horas mais tarde,
andando lá de colete anti-bala, óculos de visão
nocturna, GPS para não se perderem e cobertura de
movimentos por satélite.
As novas tecnologias serão positivas, contrastando com
as condições em que os 800 000 andaram em África nos
anos 60-70 do século passado, mas as actuais despedidas
sinto-as como um insulto a esses mesmos 800 000,
despachados num amontoado de corpos durante 9, 11 ou 20
dias no mar, consoante o navio e a província ultramarina
onde iriam combater, sem o primeiro-ministro ter ido
despedir-se deles ou, sequer, dirigir-lhes palavra. Mas
isso é outra questão.
[...]
À distância de mais de 40 anos, verifiquei serem
excessivas a rebeldia e intransigência de alguns
comentários à vida militar, próprios da idade e de estar
compelido a desempenhar temporariamente uma actividade
não escolhida como futuro.
[...]
Os milicianos, pelo menos os muitos que conheci, entre
oficiais, sargentos e praças, ainda que eventualmente
contestando o regime, estavam ali de livre vontade, para
cumprir o que sentiam ser um dever. Caso contrário,
teriam sido refractários ou desertores, como tantos,
hoje frequentemente exaltados (porque politicamente
correcto) como detentores da razão, da verdade, do
espírito de uma mudança cujo resultado está à vista.
Contrapõem-se os incomparavelmente mais abundantes casos
de soldados que trabalhavam em Espanha, França ou
Alemanha e deixaram os seus empregos para vir combater
pelos seus compatriotas em África. E os que, sendo
emigrados de segunda geração e vivendo desde a infância
no estrangeiro, possuindo dupla nacionalidade e podendo
invocar serem cidadãos brasileiros, franceses,
luxemburgueses ou alemães, preferiram assumir a sua
condição de filhos de portugueses e ir para a guerra.
Pessoalmente, tenho pelas Forças Armadas do meu País o
maior respeito, servi-as o melhor que pude, ainda que
com a frescura dos vinte anos. Sinto que a minha
passagem por elas foi positiva, como já nessa altura
reconheci e adiante se lerá. Para a visão dos meus
actuais 71 anos de idade, seguramente contribuiu a
sorte, que outros não tiveram, de regressar inteiro, de
corpo e de espírito; ou melhor, de espírito melhorado e
amadurecido.
Também contribuiu a evolução posterior dos
acontecimentos ser equívoca.
Fui voluntariamente para a guerra em África por sentir
um dever de solidariedade para com quem lá vivia e
trabalhava honestamente, e pela convicção de que, se não
houvesse intervenção armada, prosseguiria a chacina
desencadeada em Março de 1961. Nesse particular,
gostaria de fazer uma pergunta aos meus concidadãos
pacifistas que condenaram a nossa intervenção militar e
justificaram a insurreição como uma reacção a 400 anos
de exploração de recursos naturais e de pessoas
(passando a miopia desta visão):
Se, nesse Março de 61, tivessem vindo a Luanda tratar de
assuntos com uma das filhas e, regressando à sua
fazenda, ou serração, ou «comércio» em Nambuangongo,
Quitexe ou Mucaba, vissem os seus outros filhos, irmãos
e vizinhos esventrados, a mulher e filhas violadas e
serradas vivas onde se cortavam os troncos, bebés caídos
junto às paredes onde ainda se via massa encefálica por
terem sido arremessados contra elas, como reagiriam? Com
indignada firmeza e determinação, ou iriam procurar os
agentes da carnificina e dizer-lhes:
- "Aqui estou eu, pedindo desculpa por 400 anos de
colonização, e aqui está a minha última filha que vos
falta violar e esquartejar à catanada".
É fácil apregoar pacifismo quando não se foi vítima ou
testemunha de torpe e alucinada barbárie, ainda por
cima, orquestrada e apoiada do exterior.
Quem, como eu e mais 799 999 portugueses, lutou pela
manutenção da paz e das condições de vida de quem lá
estava, independentemente de cor, situação social ou
credo, sentiu depois a vergonha de uma descolonização
que os traiu e abandonou cobardemente. A ingenuidade dos
acordos de Lusaka e Alvor, para quem tivesse alguma
experiência de África, só não era inconcebível porque
foi tragicamente real.
Nunca me causou estranheza de maior (apreensão, sim) uma
independência dos territórios de administração
portuguesa, desde que de transição tranquila, planeada,
onde houvesse lugar para todos os que quisessem
respeitar-se entre si.
[...]
Só quem andasse muito distraído ou fosse muito sonhador
ignoraria que todas as independências negras [...]
descambaram em ditaduras ferozes, onde o tribalismo e o
partidarismo político levaram a guerras civis muito mais
cruéis e destrutivas do que a repressão colonial
europeia anterior. Ganância, avidez de poder e de
privilégios, em contraste com a pobreza da maioria da
população, eis o que desde logo ostentaram os novos
dirigentes africanos, ironicamente oriundos de partidos,
de início, dizendo-se marxistas.
[...]
No caso português, estarreceu-me, doeu-me e
envergonhou-me uma entrega de pessoas e bens apressada,
desistente, desleal e traiçoeira, que alguns, para se
eximir a pesadíssimas responsabilidades, rotularam de
exemplar.
A maioria dos governantes que na antiga metrópole se
lhes seguiu transformou a democracia numa mera palavra
de camuflagem para interesses partidários e pessoais.
Ao integrarmos uma comunidade europeia, tendo aprendido
na escola que ao perder a independência se perde a
liberdade, sofremos o paradoxo de, ao ganhar a
liberdade, perdermos a independência, com dívidas e
subserviências a governos estrangeiros, à banca
estrangeira, a interesses estrangeiros.
Mas isso são também outras questões.
(Daniel Gouveia, Março de 2015)

Dedicatória, Índice e Introdução:
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conteúdo clique no sublinhado que se segue:
Dedicatória, Índice e Introdução
Convite - Lançamento
do livro:
Dia 5 de Maio de 2015 (terça-feira),
pelas 15H00, na Livraria / Galeria Municipal Verney
Rua Cândido dos Reis, 90, Oeiras
