Trabalhos, textos sobre a Guerra do
Ultramar ou livros
Elementos cedidos pelo próprio autor


Fernando Alberto
Cardoso Ferreira da Silva
Furriel Mil.º de
Infantaria
Companhia de Caçadores
795
«UBI GLORIA OMNE
PERICULUM DULCE»
Angola: 07Mai1965 a 28Mai1967
Fernando
Alberto Cardoso Ferreira da Silva
nasceu em Lisboa no dia 17 de Setembro de 1942.
Depois de
concluir a instrução primária e ter suspendido os
estudos, iniciou a sua primeira actividade profissional
numa empresa de produtos farmacêuticos ainda com a idade
de 16 (dezasseis anos), onde permaneceu até aos vinte e
um.
Frequentou o
Ensino Liceal, que não concluiu, em virtude de em
Janeiro de 1964 ter de prestar o serviço militar
obrigatório. Entrou na Escola Prática de Infantaria
(EPI) em Mafra para lhe ser ministrada a primeira parte
do Curso de Sargentos Milicianos (CSM) onde permaneceu
cerca de 4 meses e em seguida foi deslocado para o
Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de
Infantaria (CISMI) em Tavira, onde terminou o referido
Curso.

Percorreu
vários quartéis onde prestou serviços e partiu do
Quartel de Portalegre para a Estação da Rocha do Conde
de Óbidos onde embarcou.
Mobilizado
para a Guerra Colonial, partiu de Lisboa no Paquete
"Vera Cruz" e com
destino a Angola em 28 de Abril de 1965.
Regressado à
Metrópole em 06 de Junho de 1967, empregou-se nos
escritórios de uma firma comercial e depois nos Serviços
Farmacêuticos de um Hospital, como administrativo, até
aos 58 anos de idade, altura em que se reformou e se
dedicou a escrever.
O livro:
"Coisas d'África"

... E houve
um Império Português,
(Onde o Sol
nunca se punha)
e que se
desfez.
Dedicado à Geração dos últimos
Combatentes do Império Português
Excertos do livro
"Coisas d'África"

.... Comecei a
escrever estas “Coisas d’África” no dia 05 de
Junho de 2005, isto é, 40 anos depois dos
acontecimentos. Atrevi-me a escrever estas “Coisas”
esperançado em que a minha memória não me falhasse muito
e também para dar algum testemunho daquilo porque passei
e sofri nesta fase da minha vida, quando fui recrutado
(do latim tardio angariáre = «forçar», e
do italiano angariáre = «atormentar, oprimir»)
para servir o Exército Português. Como posso confirmar,
foi muito para além daquilo que eu poderia esperar ao
fim de 40 anos e penso que o meu subconsciente tem bem
armazenado todo o historial sobre a minha vida
como militar, não só em quartéis por onde prestei
serviço na Metrópole, mas principalmente em terras de
Angola. As minhas memórias não falharam e as situações
mencionadas estão aqui relatadas tal como aconteceram e
com toda a verdade. Honestamente, e mesmo mencionando os
nomes dos intervenientes que ainda poderão estar vivos,
como também algumas situações delicadas, considero que
só assim poderei contribuir para ajudar a fazer a
história do que todos os ex-Combatentes passaram e
sofreram nas três frentes de guerra nas ex-Colónias
Portuguesas.

Sobre todo o
sofrimento, (tanto físico como psíquico) as desilusões,
as carências gritantes, as incompreensões e tudo o que
possa contribuir para o quase aniquilamento do ser
humano, muito mais haveria para dizer, mas foram 770
dias que não é possível descrever minuciosamente dia a
dia nestas “Coisas d’África”.
De algumas
palavras obscenas se pede aqui desculpa mas foi assim
tal e qual foram ditas e ouvidas; não há que temermos ou
escandalizarmo-nos com o Português etimologicamente
“incorrecto”, que aqui é a verdade.
A todos os
meus ex-camaradas de todas as guerras, em especial os da
Guerra Colonial Portuguesa nas três frentes de combate,
deixo aqui o meu abraço fraterno. Para aqueles meus
ex-camaradas que já não pertencem a este mundo, o meu
mais elevado sentir fica aqui expresso...

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...Chega
a hora, a triste hora das despedidas. Por todo o Cais
ouvem-se choros, abraços fortes e desmaios; gritos de
mães, de irmãos, de mulheres casadas e de noivas. Os
homens choram em silêncio. É muito doloroso!
...
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...O tempo foi
passando e, durante a noite do dia 06 de Maio de 1965,
nove dias depois do embarque em Lisboa, pela meia-noite
mais ou menos, sentimos o afrouxar dos potentes motores
do Paquete Vera Cruz. Da amurada víamos, com as luzes do
barco, a diminuição da velocidade deste ao olharmos para
as águas escuras. De manhã cedo, o Paquete estava
parado, balouçando levemente...
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...Vamos de
comboio que vai cheio de tropa, pois outros militares de
outras Companhias ou Batalhões têm o mesmo destino,
visto ser aqui no Campo Militar do Grafanil que todos os
militares que embarcam ou desembarcam, venham donde
vierem, têm de permanecer um certo tempo. É um Campo
enorme e cheio de militares da Força Aérea, Marinha e
Exército que se encontram em trânsito. Por todo o lado
há casas de serviços administrativos e de material de
guerra, bares e balneários, tendas de campanha,
viaturas, pessoas; são milhares de militares que
regressam a casa com o tempo cumprido ou que seguem para
as suas missões em várias partes de Angola para onde
foram destacados. Justa alegria, justa tristeza!
...
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...Dois dias
depois, isto é, pelas 07 horas do dia 14 de Maio de
1965, uma sexta-feira, com a tristeza na alma, inquietos
pelo que nos poderia acontecer, deixámos o Campo Militar
do Grafanil onde havia segurança, e rumámos em direcção
ao Norte, para a zona do Uíge, instalados em camionetas
civis cujas marcas não esqueci nunca; Volvo e
Scania. Devo frisar que nunca encontrei camionetas
tão potentes e tão grandes como estas, na parte civil.
Eram boas as
estradas nacionais que nos levaram até ao Norte,
passando por Cacuaco, Caxito, Úcua, Quibaxe, Vista
Alegre, Aldeia Viçosa, Quitexe, Carmona e finalmente
Negage, numa distância de perto de 400 km...
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...Calhou-nos
o Morro1 desolado e triste numa pequena clareira,
sem nada mais a não ser uma trincheira a céu aberto,
quatro paus cravados no chão e duas chapas de zinco por
cima e mal seguras, como cozinha. Foi um choque para a
minha Secção, mas era aqui que íamos ficar durante 8
dias até sermos rendidos por outra Secção...
Arrumámos as
nossas coisas dentro do buraco e estávamos a preparar o
almoço, pouco tempo
depois de termos chegado, quando de
repente e não soubemos de onde, várias rajadas de
espingarda automática se ouviram e bateram nas chapas de
zinco por cima de nós a poucos centímetros das nossas
cabeças. Foi um susto dos demónios e largámos a correr
para o buraco da trincheira onde estavam as armas e as
granadas; seria só para nos assustar? Saberia o inimigo
que éramos novos nestas paragens e estava a
experimentar-nos? Ficámos de atalaia durante bastante
tempo mas nada mais se passou. A panela do nosso almoço,
na correria, tinha caído e tudo jazia por terra; creio
que este era composto de batatas cozidas e cenouras (que
seriam cozidas!) com atum em lata. Adeus, almoço! Nesse
dia só comemos pão e bebemos água...

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...
O primeiro
Natal passado em Angola foi bastante triste para todos
nós: as saudades da família e de tudo o resto eram então
muito grandes, embora sempre assim fosse, mas pelas
Festas eram mais acentuadas, pois o subconsciente não
dorme e pica-nos as lembranças...
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... A minha
Secção é a 3ª do 2º Pelotão da Companhia de Caçadores
795 (“Os Centuriões”); é uma Companhia
Independente comandada por um Capitão.
Um pelotão,
normalmente tem cerca de 30 homens que são comandados
por um Oficial Subalterno. Compõe-se de 3 Secções com
mais ou menos 9 homens cada, que em separado são
comandadas por um 2º Sargento ou Furriel; a minha foi
uma Secção bastante sacrificada também, mas tive a sorte
de ter uns bons camaradas que foram sempre impecáveis
comigo e de quem eu gostava muito: éramos como irmãos e
sempre prontos para tudo, que remédio...

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... Da parte de
cima do aquartelamento, para oriente, havia uma segunda
“picada” para Negage através de densa floresta de
uma beleza extraordinária. Pouco antes de entrar em
Negage, avistava-se a casita da prostituta Helena que eu
conheci e que era de raça branca...
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...Na noite de
26 de Março de 1966, soubemos que um avião com 1
oficial, 2 sargentos e um civil tinha desaparecido, o
que nos fez pensar que tinham ido numa nova viagem, isto
é, mudar de ares; não tivemos mais notícias e
tudo parece ter sido abafado a nível das Chefias. Penso
também que, durante o tempo que durou a Guerra Colonial,
a algumas viaturas e homens teria acontecido o mesmo e
que alguns foram de livre vontade...

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...No Cais de
embarque do Porto de Luanda, deambulam milhares de
homens que estão vivos, que sentem chegada a sua vez de
embarcar para as suas terras e as suas famílias; nos
porões, vão os que já não respiram, os que foram
obrigados a perder a vida, os mortos desta guerra para a
qual o fim ainda está longe.
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...Comecei um
dia destes a sentir novamente a cabeça e o corpo em
estado febril; mau! vou ter paludismo outra vez,
pensei; a má disposição que esta doença provoca
deixa-nos em baixo de forma física e a mente também
sofre o efeito pernicioso do paludismo. Dirigi-me
ao Enfermeiro e disse-lhe o que estava a sentir ao que
ele me respondeu – pois é isso mesmo, o paludismo
outra vez!...
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...É chegado,
finalmente, o dia do desembarque na Estação da Rocha do
Conde de Óbidos, em Lisboa; chegamos de noite ao largo
de Cascais e o Paquete Vera Cruz abranda ao mínimo o
trabalhar dos potentes motores de maneira a seguir
viagem molemente, até alcançar o Porto de Lisboa; pela
madrugada passámos sob a Ponte sobre o Tejo que em Abril
de 1965 tínhamos deixado inacabada. Olho Lisboa ainda
com as luzes acesas e vista do rio, é muito bonita; já
tinha saudades de a contemplar...
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...Sou dos
primeiros militares a desembarcar assim que o Paquete
Vera Cruz atraca completamente (porque tenho toda a
bagagem da Companhia de Caçadores 795 a descarregar

e a entregar
na Parada do Quartel do Regimento de Infantaria nº 1, na
Amadora) e sigo em direcção à entrada principal da
Estação da Rocha do Conde de Óbidos, subo a larga
escadaria, mal olho a pintura mural de Almada Negreiros
e abraço a minha família que se encontra sobre a
plataforma da Estação que dá para o Rio Tejo; tenho toda
a minha família à minha espera, tirando o meu irmão Nel
que ficou ainda a cumprir a missão imposta pelo Governo
Português, em Angola, e por isso é uma meia-alegria este
nosso reencontro; não tenho uma namorada à minha espera
porque não calhou...
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...São
milhares de pessoas que vieram de muito longe; do Minho,
de Trás-os-Montes, do Alentejo, do Algarve, de todo o
Continente e até das longínquas Ilhas dos Açores e da
Madeira, para abraçar os seus filhos queridos. Há aqui
mães, pais, avós, mulheres, irmãos,
noivas, filhos e amigos destes milhares de homens que
vieram duma Guerra Colonial imposta e a alegria
expande-se por todo o Cais, onde a figura marcante do
Paquete Vera Cruz baloiça levemente, como que
testemunhando e saudando a alegria de trazer de volta
vivos estes milhares de combatentes que estiveram
espalhados por dois anos e tal pelas terras quentes de
Angola...
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...E chegou o
dia 28 de Maio de 1967, dia de embarcar no Paquete Vera
Cruz com destino à Metrópole, ao Cais da Rocha do Conde
de Óbidos, que tínhamos deixado havia 25 meses; é uma
sensação um bocado estranha este abandonar, deixar para
trás vinte e cinco meses de sofrimento, de tudo o que
conhecemos e passámos. Não é possível descrever esta
situação que no todo parece ambígua, agora que temos a
viagem assegurada. Lembramo-nos de
tudo
o que se passou porque a mais subtil das situações se
nos gravou indelevelmente no nosso subconsciente; temos
uma mistura de alegria e tristeza: alegria, por
finalmente ter passado o tempo que tanto nos custou, e
estarmos vivos e praticamente em casa; de tristeza,
porque o mais certo é não voltarmos nunca a ver os
locais por onde passámos, sofremos e deixámos uma grande
parte da nossa breve juventude; também pelos nossos
camaradas que ficaram a trabalhar em Angola e que
possivelmente não mais veremos, e tristeza ainda pelos
nossos outros camaradas que se encontram nos caixões, lá
em baixo, nos porões do Paquete Vera Cruz. Para trás
fica tudo; não levamos connosco senão algumas pequenas
recordações e as memórias que hão-de ficar profunda e
sentidamente gravadas nas nossas almas, até que um dia
se apaguem, no último suspiro das nossas vidas.
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...Este é o
sexto dia, do sexto mês do ano de 1967; são 09 horas e
tal da manhã e o dia está lindo. Cheguei à Metrópole!
cheguei a casa!...
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