Elementos cedidos por um colaborador do portal UTW
Francisco Henriques da
Silva

Francisco Manuel Guimarães Henriques da Silva, nasceu a
17Dez1944 em Lisboa.
Concluído o curso dos liceus, iniciou os estudos
universitários na Faculdade de Letras de Lisboa.
Incorporado no SMO como soldado-cadete na EPI-Mafra, em
25Set67 classificado aspirante-a-oficial miliciano
atirador de infantaria.
Colocado no BC6-Castelo Branco, meses depois transferido
para o RI1-Amadora e integrado no BCac2851, unidade
destinada à quadrícula do Exército no centro-norte da
Guiné.
Em 24Jul68 graduado em alferes miliciano, embarcou em
Lisboa no NTT "Uíge" rumo a Bissau, onde desembarcou com
o seu batalhão no dia 29Jul68.
Comandante de um pelotão da CCac2402, ficou
sucessivamente aquartelado em Có (01Ago68), Mansabá
(19Mar69) e Olossato (06Mai69).
Em 04Mai70 iniciou em Bissau a torna-viagem.
Em 13Jan75, entretanto licenciado em História pela
Faculdade de Letras (Univ. Lisboa), ingressou na
carreira diplomática como adido de embaixada na
Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros.
Em 19Mai77 promovido a segundo-secretário de embaixada,
na secretaria de Estado do MNE.
Em 21Out97-02Abr99, sendo ministro plenipotenciário,
exerceu em Bissau o cargo de embaixador de Portugal
junto das autoridades da República da Guiné-Bissau.
Em 2008 proferiu na Assembleia da República uma
conferência, epigrafada "O conflito na Guiné-Bissau
(1998-1999): um teste para a diplomacia portuguesa",
(integrada na obra "O Serviço Diplomático Português do
25 de Abril à actualidade - Perspectivas de futuro").
Em 17Dez2009 cessou funções no corpo diplomático do MNE,
encontrando-se actualmente na situação de aposentado.
O livro:
"Guerra na
Bolanha - De Estudante, a Militar e Diplomata"

título: "Guerra na Bolanha - De
Estudante, a Militar e Diplomata"
autor: Francisco Henriques da Silva
editor: Âncora
1ªed. Lisboa, 09Mar2015
302 págs
ISBN: 978-97-2780-489-4
Recensão:
«"Recordo-me das lições do falecido professor
Marcello Caetano. O mestre subia à tribuna, ladeado por
dois assistentes, Diogo Freitas do Amaral e Miguel
Galvão Teles. Os 300 e tal alunos levantavam-se".
Estas são mais algumas linhas das memórias do embaixador
Francisco Henriques da Silva, que nos fala dos anos da
sua formação, da ida para a Guiné como alferes miliciano
e do ingresso na carreira diplomática, que o levaria aos
Estados Unidos, à França, ao Canadá, a Bissau, à Costa
do Marfim, à Índia, ao México e à Hungria. Manuel Barão
da Cunha, coordenador do Programa Fim do Império,
escreveu uma nota prévia ao livro de 302 páginas hoje
lançado e Mário Beja Santos redigiu o prefácio, no qual
chama a atenção para as dificuldades que se poderiam
sentir no regresso a casa, depois de dois anos de
comissão de serviço no Ultramar.
Numa linguagem excepcionalmente fluente, ao alcance de
qualquer um, Francisco Henriques da Silva conta-nos o
seu nascimento na Avenida Rovisco Paes, junto ao
Instituto Superior Técnico, a breve passagem pelo Bairro
Azul, a ida para o Restelo, as sessões de cinema no São
Jorge e outras salas, o nível da Companhia Rey
Colaço-Robles Monteiro, do Teatro Experimental de
Cascais e do Teatro Estúdio de Lisboa, de Luzia Maria
Martins e Helena Félix; e fala-nos de tantas, tantas
outras coisas, particularmente queridas a quem hoje anda
na casa dos 67/70 anos.
Vitorino Nemésio, António Lopes Ribeiro, João Villaret e
Pedro Homem de Mello, não poderiam deixar de ser
evocados quando se está a contar o como era Portugal na
década de 1960, quando ele passou por Mafra, Castelo
Branco, Tancos e Amadora, antes de ter viajado para
Bissau no navio "Uíge".
No Depósito de Adidos, em Brá, Francisco Henriques da
Silva teve a oportunidade de ouvir logo a seguir à
chegada o então governador e comandante-chefe das tropas
destacadas na Guiné, António de Spínola, "de monóculo,
pingalim e luvas, acompanhado pelo seu habitual
séquito".
Naquela altura, conta o autor do livro que tem 302
páginas, António Sebastião Ribeiro de Spínola
"encarnava, ou julgava encarnar, tudo: os Lusíadas, a
bandeira verde-rubra, Afonso e Mouzinho de Albuquerque
combinados, Aljubarrota e os conjurados de 1640...".
Era, realmente, um grande sonhador, esse oficial general
que durante meia dúzia de anos tudo fez para chegar à
chefia do Estado, lugar no qual só se aguentaria por
alguns meses. Pobre Napoleão tresloucado, que em 11 de
Março de 1975 ainda tentou reconquistar Belém.
De todas estas coisas e de muitas, muitas mais, nos fala
o embaixador Francisco Henriques da Silva, que inclusive
relata conversas com o sogro, António Rosa Casaco,
inspector da PIDE/DGS, que foi correio diplomático entre
Salazar e Franco, durante a Guerra Civil de Espanha e a
Segunda Guerra Mundial.»
(Jorge Heitor, jornalista; 17Mar2015)
– Excertos (com a devida
vénia):
"A Mina"
- «Um pouco mais adiante, no nosso percurso para Bissorã
é detectada uma nova mina e desta feita, coube-me a mim,
como especialista em explosivos, levantá-la. Armado
apenas com uma faca de mato lá fui desempenhar-me dessa
ingrata tarefa, pedindo a todos que se afastassem pelo
menos uns 50 metros e se refugiassem por detrás dos
troncos das árvores.
À boa maneira lusitana, existia sempre um ou outro
mirone, que, apesar dos avisos e das proibições, das
ordens berradas pelos furriéis, iam ver as minas e
manifestavam muita curiosidade em saber como se
desmontavam. A certa altura irritei-me, tive de parar o
que estava fazer e pedi ao meu "guarda-costas", que
estava para ali a olhar feito parvo, que se retirasse:
– "Mas eu estou aqui para protegê-lo, meu alferes" –
disse-me ele.
– "Oh, homem, não proteges nada! Vamos mas és os dois
para o galheiro em menos de dois tempos! Além disso
parece-me que esta mina está contra-armadilhada! Isto é
perigosíssimo!" – retruquei.
O que é que se passa pela nossa cabeça quando estamos a
desmontar uma mina com cerca de seis quilos e meio de
trotil? Sabemos que qualquer erro seria, como diziam os
nossos instrutores em Tancos, o primeiro, o único e o
fatal. Nesse momento tudo nos incomoda, as pessoas, o
arvoredo, a areia seca do arremedo de estrada em que nos
encontramos, os ruídos indefinidos da floresta, as
formigas que, indiferentes, passeavam num carreiro ali
ao lado; alguém que assobiou lá ao longe, sem qualquer
motivo; o fumo de um cigarro que o furriel deitou ali
bem perto de nós, há minutos. E depois o que nos passa
em flashes sucessivos pela cabeça: os eléctricos
amarelos de Lisboa, tão perto do nosso coração e tão
longe; a namorada que já não tínhamos, mas que podíamos
ter; a última música dos Beatles, que era bem gira; os
pais, os irmãos e a avó, com os seus límpidos olhos
azuis e o seu ar autoritário; os estudos inacabados; a
estupidez incomensurável da guerra naquele país ignorado
e que poucos sabiam localizar com exactidão no mapa.
Enfim, o que é que, em boa verdade, não nos passa pela
cabeça?
Mas, atenção: temos de nos concentrar, o importante é
desactivar a mina, tão depressa quanto possível, mas sem
grandes pressas. Temos medo? Creio que não. Estamos
apenas apreensivos. Como é que isto se define? Não sei.
A juventude e alguma inconsciência que a caracteriza
acaba com qualquer vislumbre de medo e a prudência não é
para aqui chamada. Vamos a isto? Vamos! Mãos à obra.
Com efeito, ao escavar a terra sob a parte inferior da
caixa de madeira da mina anticarro, deparei com algo de
estranho, que não sabia exactamente o que era.
Parecia-me um arame, junto com um objecto redondo
metálico em forma de pastilha. Não percebi muito bem o
que era, mas estava desconfiado. Não conseguia, porém,
escavar mais, até porque podia desequilibrar a mina e se
esta estivesse contra-armadilhada podia dar por
terminada a minha comissão na Guiné e começar de
imediato outra no Além. Acresce que, à torreira do Sol,
estava com as mãos suadas e sujas de terra. Não podia
continuar. Lembrei-me de um alferes sapador que, umas
semanas antes, lá para o Sul, ao tentar desactivar uma
mina, com as mãos suadas, deixou escapar o percutor e
ficou feito em carne picada, que, segundo me contaram,
mal cabia toda dentro de um quico. Para rematar, com
todos os acontecimentos do dia, estava enervado com
pequenas coisas e não com a mina propriamente dita ou
seria por causa dela? Parei para descansar, beber um
gole de água, puxar de um cigarro. Sosseguei. Mas não
tinha chegado ao fim das minhas tribulações.
Chamei a minha gente, para conferenciar com os furriéis
e um dos condutores.
– "Meus amigos, aquela mina deve estar
contra-armadilhada e eu receio que não consiga dar conta
do recado. Alguém tem sugestões? Podemos rebentá-la no
local. É o que se costuma fazer e é uma hipótese a
considerar. Mas vamos, antes, tentar retirá-la com o
guincho do Unimog. O que é que acham?"
À falta de melhor, com uma ou outra hesitação, acabaram
todos por concordar. Então expliquei-lhes o que
pretendia fazer:
– "Como esta coisa pode rebentar imediatamente ou a meio
caminho, quando estiver a ser puxada, nunca se sabe, o
pessoal vai-se afastar ainda mais. Portanto, recuam
todos para uma distância segura. Vamos esticar o cabo
até ao limite, depois vamos passá-lo pelo ramo daquela
árvore" – e apontei com o dedo para uma árvore próxima
–, "em seguida, vamos prender o gancho às pegas laterais
da mina que são de corda. Finalmente, com toda a calma,
içamo-la. Quando estiver no ar baixamo-la muito, mas
muito, lentamente." – e voltando-me para o condutor –
"Percebeste? Atenção! Tudo pode acontecer. Deixem-se de
brincadeiras! Isto é a sério! Não quero aqui ninguém de
ninguém!"
Todo o pessoal se abrigou a uma distância razoável do
local, internando-se na floresta e escondendo-se atrás
das árvores e dos morros de baga-baga. Com esta
dispersão, corria-se o risco de sermos emboscados ou de
alguém colocar o pé numa mina antipessoal. Porém, não
houve nada. Os guerrilheiros assentaram a mina e terão
ido à sua vida. Bom, procedemos com o maior cuidado. A
mina elevou-se no ar, aí um metro ou um pouco mais. Não
aconteceu o que quer que fosse. Depois baixámos o cabo
muito devagar até repousar novamente no solo, ao lado do
buraco, onde se encontrava previamente. Não estava
contra-armadilhada como se temia, mas o inimigo havia
deixado uma moeda de 25 tostões metropolitana presa a um
clipe grande de escritório (!). Da estupefacção passei
ao riso. Mas que ideia aquela! Desarmei, com segurança,
a mina e a companhia lá ficou a ganhar 2000 escudos, que
era o prémio por mina anticarro detectada e levantada
(em geral, 1000 escudos para quem a descobria e outros
1000 para quem a levantava). O dinheiro reverteu, como
habitualmente, para o fundo comum.
O resto da estrada foi cuidadosamente picada até ao
subsector de Bissorã, cuja tropa, quase toda originária
dos Açores, já estava preocupada com a nossa demora e
alguns dos graduados, num acto meio-tresloucado foram
ter connosco, ao limite da respectiva área, de
bicicletas motorizadas!»
(transcrição das págs. 159-161)
"E agora? O que é que vou fazer?"
- «Finalmente livre da monotonia verde azeitona das
fardas militares, olhei para o espelho e vi-me, tal como
era: vinte e poucos anos, sem curso, sem emprego, sem
namorada e, principalmente, sem saber como organizar a
minha vida no imediato. Tinha de encontrar saídas e dar
resposta à magna questão: que fazer? Tinha de encontrar
solução para todos estes problemas, uns pequenos, outros
grandes, mas que se inscreviam na pergunta soberana que
pairava sempre no ar e que prevalecia sobre tudo o mais:
que fazer?
Tinham-me roubado a minha juventude, preciosos anos de
vida quando estava na sua plenitude, o curso que queria
terminar, uma carreira profissional que queria encetar.
Sentia um vazio muito grande, mas não desesperei, não
havia lugar para choro, nem ranger de dentes. Não podia
verter lágrimas sobre o azeite derramado, nem à boa
maneira lusitana culpabilizar a situação, as
circunstâncias, o Outro ou os outros ou seja, lá quem
for e o que for. Sim, porque, nos parâmetros da
mentalidade tuga, no mau sentido da palavra, a culpa
nunca era nossa. Tinha, pois, de reagir. Tinha de
avançar. Tinha de ser eu a dar a resposta certa.
E assim o fiz, talvez com hesitações, desvios, opções
duvidosas, caminhos ínvios, reflexões sem rumo definido,
mas bem no íntimo sentia que podia seguir em frente e
que tudo dependia de mim. Tinha de fazer. Tinha de
assumir uma atitude pró-activa.
Em primeiro lugar, estava firmemente disposto a
completar a universidade. Com a célebre "reforma Veiga
Simão," assim chamada em nome do Ministro da Educação da
época (que em várias reencarnações acabou por servir
diversos regimes políticos), o meu curso havia sido
reestruturado e tinha ficado com cadeiras dispersas por
todos os anos e nenhum completo ou próximo disso. Podia,
agora, se quisesse, chegar a bacharel, ou seja, fazendo
cadeiras por atacado, como aluno-militar. O bacharelato,
na altura, constituía uma novidade, uma hipótese
simpática que abria as portas a uma carreira no ensino,
sobretudo para quem frequentasse cursos das faculdades
de Letras e de Ciências. Era uma questão de tempo, de
vontade e de algum sacrifício. Mas o meu grande
objectivo final consistia em ingressar na carreira
diplomática, um sonho que acalentava desde miúdo.
Todavia, tratava-se de um alvo de difícil alcance e
demoraria anos a lá chegar. Antes do mais, teria de
completar o curso e de me sujeitar a um concurso de
entrada no MNE, que não era propriamente "canja",
diziam. Mas retomando o fio à meada, que diabo, já
estava nos vinte e tais, não podia viver das magras
economias feitas, cujas limitações eram conhecidas, nem
das sopas paternas ou, melhor, maternas. Tinha de fazer
alguma coisa e, como atrás, referia aproveitar o
estatuto de aluno-militar que me permitia dar saltos de
canguru na faculdade.
Em segundo lugar, queria encontrar um emprego, em tempo
inteiro ou em "part time", para me poder sustentar, para
as minhas fantasias e, enfim, para poder juntar os
tostões com que se compram os melões. Esta era uma
segunda prioridade, mas que se situava quase ao nível da
primeira, pois não podia andar à boa vida.
Em terceiro lugar, depois dos namoros, pseudo-namoros,
ou meros "flirts" tinha de arranjar, de algum modo, uma
companhia feminina certa e não andar de candeia acesa à
procura da bela adormecida no bosque ou feito lobo
predador a emboscar a menina do capuchinho vermelho e
todas as demais, na perspectiva de que tudo o que vem à
rede é peixe, como alegadamente fazia ou, pelo menos,
alardeava a maioria dos jovens machos lusitanos. A
sexualidade tinha de ter os seus escapes, mas eu
procurava sobretudo a estabilidade - apesar dos
devaneios, sentia que era monógamo por natureza.
Em quarto lugar, tinha de descansar, viajar, passear,
recarregar baterias, reavivar velhas amizades,
satisfazer alguns sonhos do passado até aqui
incumpridos. Em suma, viver e sentir que estava vivo,
bem vivo e com vontade de pontapear. Havia uma certa
urgência nisto, na medida em que, apesar de jovem, o
tempo ia passando e, como rezava uma velha canção da
época, não voltava para trás, apesar de querermos à viva
força mudar-lhe o rumo.
Finalmente, via-me coagido a esquecer o passado próximo,
as memórias que o tempo afinal não apaga e ultrapassar,
se é que os tinha, alguns traumas de guerra. Porém as
imagens não me abandonavam, via claramente e numa base
diária, as tabancas, a mata, as bolanhas, as fardas, os
corpos semi-nús dos soldados, as armas; ouvia
distintamente os rebentamentos dos morteiros e dos
"rockets", o matraquear das costureirinhas, o guinchar
dos macacos, o grasnar de certas aves tropicais, as
falas de fulas, mandingas e balantas; sentia os cheiros
fétidos de algumas bolanhas, o odor das plantas
estranhas que a humidade fazia sobressair, a comida do
"rancho" – ou do que pomposamente se chamava messe -
pouco variada e insípida, o cheiro do capim e do mato
queimado na estação seca; na boca, sentia o uísque que
se bebia ao fim do dia, ou a cerveja morna; o gosto da
manga verde roída devagar atrás do poilão, a enjoativa
ração de combate e por aí fora. Enfim, imagens, sons,
aromas e paladares que não me abandonavam, mas, planando
por cima de tudo, aquela impressão durável, mas
indefinível, quando se pressentia que íamos entrar em
combate dentro de instantes: o nó na garganta, o gosto
esquisito na boca, os suores quentes e frios, as
borboletas no estômago. Como esquecer, então, se ainda
hoje me lembro como se fosse ontem?»
(transcrição das págs. 228-230)
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Convite: Apresentação
do livro:
A sessão terá lugar no próximo dia 5 de
Maio [2015], pelas 18H00, no Palácio da Independência.
Largo de São Domingos, n.º 11, Lisboa
