Trabalhos,
textos sobre operações militares ou livros
Pedro
Cabrita
Leonel
Pedro Cabrita, Tenente Mil.º de
Infantaria, nascido no dia 7 de
Março de 1948, na freguesia da Guia,
concelho de Albufeira, distrito de
Faro;
Em 23 de Setembro de 1970,
aspirante-a-oficial miliciano
atirador de infantaria, em serviço
na Região Militar de Angola como
tirocinante na Companhia de
Cavalaria 2692
(CCav2692)
do Batalhão de Cavalaria 2909
(BCav2909) «SUS...A ELES», graduado
em alferes miliciano;
Em
23 de Outubro de 1971, entretanto
graduado em tenente milº QEO de
infantaria, tendo sido mobilizado
pelo Regimento de Infantaria 16
(RI16 - Évora) para servir Portugal
na Província Ultramarina de Angola,
embarca em Lisboa no NTT 'Vera
Cruz', a fim de comandar a Companhia
de Caçadores 3441 (CCac3441) do
Batalhão de Caçadores 3857
(BCac3857) «CONDUTA BRAVA EM TUDO
DISTINTA»;
Em 13 de Janeiro de 1974 regressa à
Metrópole, considerado tenente
miliciano na situação de
disponibilidade.
O livro:
"Capitães
do Vento"
título: "Capitães do Vento"
autor: Pedro C.
editor: Roma Editores. Lisboa 2003
dimensões: 24 x 17 cm
289 págs
ISBN: 972-8490-35-6974
CI: 000001284781
Relato de um ex-combatente arvorado
em Capitão Miliciano com 23 anos de
idade.
Excertos:
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que se seguem:
Arrancando as últimas raízes
da terra que nos viu nascer.
Diziam-me que era a Pátria que
me chamava…
Naquela última viagem
desfilaram memórias sem fim das
coisas que por ali aconteceram nos
milhares de dias percorridos, dos
amigos e outros que delas
participaram. Dos mantos brancos das
amendoeiras de Fevereiros em flor,
que ano após ano cobriam os montes e
as planícies, pronunciando o fim do
Inverno e o renascer sempre luminoso
de uma Primavera colorida pelos tons
verde-escuro das alfarrobeiras,
entrecortado por outros mais claros
das oliveiras e das figueiras.De
muitas outras cores de arbustos e
tufos de erva emergindo de um chão
revolto de castanho ruivo que o
arado rasgou, puxado por uma mula
empertigada de pelo acastanhado, ou
a enxada revolveu a golpes
cadenciados de meia manga arregaçada
pelo antebraço e suor deslizando
pelo cabo abaixo, fundindo-se por
fim na terra, numa união repisada
vezes sem conta por gerações
longínquas de gestos repetidos. Das
pedras duras de um cinzento agreste
que salpicavam os montes ainda
refúgio de animais bravios, que mais
tarde, na década de sessenta, os
cámónes haveriam de desbravar e
conquistar ao preço de um pataco
inglês, cambiado para um escudo
furado pela miséria da míngua da
fome, que por fim nos venceu, numa
conquista que mouros e castelhanos
nunca conseguiram em definitivo,
noutros tempos das mesmas gentes mas
de outras vontades.
Cortar, num até breve desejado, os
últimos laços duma união construída
nas noites de relento em tectos de
estrelas e a macieza de colchões de
esteiras de figo ou de areia da
praia.
Guardar breves memórias dos cheiros
de maresias de maré baixa, repetidos
e vincados nos meus sentidos vezes
sem conta, que me hão-de voltar
quando a aridez da savana me queimar
a pele, ou o silêncio das noites
longas de guerra me trouxerem os
sons da manhã na praia em fim de
faina no mar. E eu tão longe sem
poder dar uma mão à corda de arriba
acima pela ladeira de areia fina da
praia na esteira de cepos ensebados,
levando à popa um emaranhado confuso
e simples de rede e peixe, que na
lota ainda saltará vivinho freguês,
vivinho do mar…, quando o arrieiro o
arrematar por meia-dúzia de tostões,
que não vão pagar sequer a vontade
do pescador de voltar de novo aos
remos, logo pela tardinha quando o
sol beijar o mar e se esconder nos
seus braços, sossegando por fim a
sanha de mais um dia de calmaria.
Eu nasci no Algarve e ali me criei
até à idade dos vinte e dois anos,
altura em que duvidosos deveres para
com uma parte da Pátria desconhecida
me arrancavam às raízes duma terra
que vi cultivar de sol a sol o pão
negro da subsistência, onde por
vezes pingava uma sardinha assada,
temperada de areia e suor, trazida
por redes mal amanhadas nos longos
tempos de mais fé no céu do que na
terra.
Terra de sol quente de memórias
ainda presentes de lembranças de
África, dourando figos e amêndoas,
ou tingindo de negro a alfarroba que
o cigano rabiscava ao pôr-do-sol
para vender logo pela manhãzinha –
renegando tudo a pés juntos, pelo
amor dos filhinhos, ao GNR
mal-encarado que lhe encravava o
negócio. Das carroças de cor garrida
puxadas por mulas de pé ligeiro e
guizos ao pescoço levadas pelos sons
do corridinho, que atiçavam o sangue
nas veias aos moços e moças, quando
aos domingos se agarravam no
baile-mandado por um mandador
atrevido de chapéu preto, colete e
manga arregaçada, com volteios de
graçolas que faziam corar, e ao
mesmo tempo sorrir, as velhas de
pele enrugada e boca sumida, mas de
olhar vivo e irrequieto, sinal de
que ainda lhe bailam e rodopiam nos
sentidos, memórias de outros tempos
e de outros bailes.
Terra de mares calmos e velas
enfunadas de vento norte, que davam
folga a marinheiros de mãos
calejadas por remos ressequidos ao
sol e no sal, herdados na dura faina
do mar, que de Sagres partindo um
dia em busca do Oriente prometido,
ali haveriam de regressar tão pobres
quanto o eram na ida.
A viagem. Um madeiro velho e
carcomido prenhe de juventude
voluntariosa que não fazia
perguntas…
O Vera Cruz apronta a sua última
viagem no transporte de tropas para
o Ultramar. No cais as cenas
habituais com a coreografia do
costume.
Lenços, choros, abraços e
criancinhas ao colo com ar assustado
sem entenderem bem o significado de
todo aquele fervilhar de gente
emocionada de mãos no peito e olhos
nos céus.
O calor já é insuportável. A
humidade não refresca. Incomoda.
Encharca-nos. Mistura-se numa
amálgama pesada que nos enche os
pulmões e nos sai pelos poros,
escorrendo e ensopando tudo.
Dizem-me que na parte mais funda do
navio onde se acomodam os soldados
se vai sobrevivendo num mar de
miséria. Desço ao profundo dos
porões da galé onde se amontoam uma
espécie de condenados, deportados
para a guerra pelo crime de terem
nascido portugueses sem o pedirem.
O bafio da humidade entranhada na
madeira envelhecida tresanda numa
mistura com vómito azedo, que metade
dos ocupantes não teve tempo de
verter noutro lugar senão ali mesmo
ao lado.
Mais cinco passos e uma bolsa de
cheiro a suor concentrado e
irrespirável faz-me retroceder para
a porta por onde entrei, em busca de
um pouco de ar que me
restabelecesse.
O espaço é enorme e bastante escuro.
O ar circula com dificuldade e é
injectado através de uns tubos que
colocam da parte de fora do navio,
forçando a entrada do ar pela
deslocação do navio. Do que consigo
vislumbrar naquela escuridão fico
com a sensação de que aquilo a que
se chama gente vai ali armazenado em
prateleiras, como o fariam se de
carga se tratasse. No fundo, o que é
aquilo senão carga, senão um
instrumento de uso que servirá
enquanto fizer falta ao fim
específico da guerra a que se
destina?!
Rasgado o oceano é agora o
planalto que é riscado 15 dias
depois de Alcântara…
Ao anoitecer estamos em Silva Porto,
cerca de meio da viagem.
A deslocação do comboio à noite é
perigosa, pelo que ficamos largas
horas parados, habitando as
carruagens da composição que nos
transporta e que simultaneamente
guardamos …
A miudagem invade as redondezas do
comboio como formigas sobre um
cadáver de centopeia procurando
matar uma fome de 500 anos de ver
passar comboios de riquezas
delapidadas que se esvaem para lá da
fronteira. Comboios agora prenhes de
soldados deitados no chão das
carruagens, que lhes atiram latas de
sardinha e chouriço em forma de caca
de cão, que os putos escondem no
bolso fingindo continuar de mãos
vazias, coleccionando sonhos de
miséria que apenas enganam as
próximas horas.
Qual segundo porto da Madeira,
florescem meretrizes de prazer
fugidio e em série, que garantem a
saciedade animal de metade do
comboio ainda antes do alvorecer.
Carne de fome fácil, de fome negra
como negra é a noite e a pele que
brilha à luz de fogueiras de
improviso de uma noite de tropas de
passagem, que minguam também a sua
fome na fome dos que morrem
lentamente, até que a próxima
centopeia se quede inerte e
esfomeada pela noite fora, esperando
pela partida da madrugada.
De nada servem os avisos de perigos
de doenças que castram. Uma espécie
de castigos de Deus por pecados da
carne. De uma carne destinada à
guerra que, sem pecado, será
devorada pelo ferro e o fogo que
purificam a alma depois da morte.
Saciada a centopeia da carne fresca
da noite e as formigas, com olhos
que brilham no escuro como pérolas,
das migalhas enlatadas cujas letras
estampadas na tampa lembrarão que
são migalhas portuguesas evacuadas
pelo recto do colonizador como
prémio por quase 500 anos de
confiança em Deus a quem entregam as
preces e nos senhores do reino a
quem entregam a alma, voltamos à
linha e ao destino do Luso, cidade
traçada a régua e esquadro onde
todas as ruas se cruzam a 90º e o
calor se fica muitas vezes pela
metade, por vezes mesmo à sombra.
A guerra! Um quotidiano de
insensatez…
A água barrenta dá-me pelo peito,
mas o camuflado já está
completamente encharcado até ao
colarinho.
Levo a G3 e o saco à cabeça
procurando não ser arrastado pela
corrente que não é forte, enquanto
que com os pés vou tacteando o fundo
do rio pedregoso em busca de chão
direito que me mantenha o
equilíbrio. Um engraçadinho
sugere-me que tenha cuidado com os
jacarés, pisando noutro sítio se por
acaso o chão se mexer. Um outro dá
continuidade a uma boa disposição,
para a qual não descortino motivo, e
alvitra que é muito provável que
àquela hora os jacarés ainda estejam
a dormir, pelo que o perigo ficava
atenuado. Saio que nem rede de
pescador recolhida do mar,
escorrendo água por todos os lados.
Olho-me com dó e um desejo imenso de
rebobinar aquele filme e voltar a
ficar seco e cheiroso do sabão azul
do banho da madrugada. Saem-me
irreprimíveis golfadas de maldição
que não consigo abafar, mas que
guardo para mim num silêncio de
louco que recusa partilhar o seu
mundo com os outros de tão distantes
que se encontram.
Com as mãos aperto as calças pelas
pernas abaixo escorrendo a água e o
lodo pescado no fundo do rio que me
enchem de novo as botas de lona,
qual sapato de cinderela
transformado num ápice em sapo
nojento saído da lama.
Descalço-as e despejo aquela papa de
água, terra e lodo que se escorre em
pequenos fios de agulha formando
picos que se vão desmoronando e me
perfuram memórias das meninices de
praias de castelos de areia, à
sombra das ondas do mar, que na
próxima volta da maré-cheia me
desfazem os sonhos e os depositam no
fundo do rio por onde navego agora
perdido de raiva e ainda menino.
Agacho-me e contraio-me à frente
para me espremer todo como se fosse
um pano único encharcado e deixo-me
ficar até que a última gota se me
mija pelo fundo das calças.
Volto a calçar uma sopa de pão de
açorda em cada pé e ergo-me com uma
vontade enorme de testar o humor do
Chagas, espetando-lhe uma ou duas
farpas que me deixem um pouco mais
aliviado daquela carga de água que
me ensopava até aos ossos.
– O melhor agora é descermos o rio,
voltarmos a passar a ponte lá em
baixo e retornar para a outra
margem. Depois voltamos a atravessar
o rio. Se formos depressa até pode
ser que os jacarés ainda estejam a
dormir e nos facilitem a travessia.
Assim é que o inimigo ficava mesmo
baralhado… ó Chagas.
Não obtive resposta, salvo aquele
doloroso e repetidíssimo “… Tá no a
andar!”, que nos punha a caminho de
um outro abismo desconhecido e do
próximo “… Alto! Paramos aqui.
Montar segurança…”
Um tiro rogado em silêncio. Um
tiro que mata o sofrimento e
descansa a alma……
Já fugi do palco da minha derrota.
Há um tiro isolado que ecoa
longamente no vale. Um tiro a que,
de olhos no chão, ninguém responde
nem dá sinais de medo ou cuidado,
porque transporta uma mensagem de
dor ou o fim dela. Um tiro rogado em
silêncio pelo próprio derradeiro
sopro de vida a que se destina. Que
me estremece e trespassa a
consciência, qual trovão que
ensurdece os meus sentidos e me
queima qualquer razão. Que me sinto
atingir em cheio no peito e derrubar
o que me sobra de ânimo já de si
desfeito. Que me angustia e me deixa
por momentos à deriva e sem norte…
Nas Terras do Fim do Mundo…
E era assim o Rivungo.
Um local lindo, com vestígios de
antigas missões que outrora ali se
instalaram mas agora estavam vazias
e em ruínas.
Um kimbo de gente cansada da guerra
e da vida que celebrava a miséria e
a doença, como tantos em África,
vigiado por polícias que se
embriagavam por turnos, de boné e
farda cinzenta, iguais aos que,
àquela mesma hora, se passeavam no
Rossio, barrigudos e mãos atrás das
costas, catando os desvios aos
costumes, que soletravam com
dificuldade da cartilha de bem
cumprir os preceitos da autoridade.
Administrados por um Administrador
colonial que lhes administrava a
pobreza salpicando-lhes o chão com
esporádicos grãos de milho, que
catavam como galinhas esfaimadas, e
exigia de retorno a obediência e o
silêncio impostos pela chibata –
oculta por conveniência dos tempos –
mas viva na memória dos que com ela
conviveram nos tempos de outras
guerras e outros silêncios.
Velados por um PIDE que lhes mandava
escutar as conversas nos silêncios
da noite escura, arquitectando
esquemas de subversão alucinantes –
quase todos patéticos e com
frequência fruto de denúncias de má
vizinhança, que mais não visavam que
a apropriação dos bens do vizinho –
solucionados no dia seguinte com
estranhos desaparecimentos
atribuídos à deserção para as
fileiras do inimigo.
Vedados por um rio de fronteira
virtual, guardado por marinheiros de
pé descalço de outrora, e um
Sargento que se afogava em afluentes
de cerveja, que mijava de meia em
meia hora fedendo as águas já de si
turvas do Cuando, que numa volta de
raiva os haveria de atraiçoar
naquela noite de fogo cruzado que
quase os dizimou.
Guardados por fim por uma tropa de
maltrapilhos que se amontoava em
pilhas de fardas com gente dentro,
riscando os dias com o mijo de
sangue de doenças conquistadas nas
águas do rio, que alternavam com
blenorragias compradas no kimbo por
duas cervejas Nocal, e um calor
húmido e sufocante que estrangulava
o grito das noites escuras da guerra
de um “… Tirem-me daqui! Estou farto
deles… da chicalhada…”, por vezes
abafado em festins de álcool que
ajudavam a devassar o tempo e
acalentavam a hora do regresso que,
de tão distante, lhes desatinava a
razão e a esperança de um fim
glorioso festejado longe dali.
A rendição. Mudar todos os
vizinhos de uma só vez.
A chegada de tropa nova era a única
página que se virava no calendário
adormecido da vida das gentes da
N’riquinha.
Uma miscelânea de incertezas, uma
mão cheia de dúvidas e sempre uma
dolorosa ausência de fé.Era como se
de uma só vez metade dos vizinhos da
aldeia se mudassem e fossem trocados
por outros tantos novos.
Uma renovação continuada de sempre o
mesmo, com figurino e personagens
novas que retomam a mesma
representação, o mesmo acto, a mesma
cena.
Novas caras, novos hábitos, novas
vontades, novos contratos de roupa
lavada, de corpo vendido e ofendido,
novas promessas de fim de guerra, de
fome ausente, de dor presente, do
fim de tudo, do princípio de nada.
De uma solidão renovada, adivinhada
e prometida, negra como negra era a
cor da pele, escura como escura era
a noite das suas vidas.De um
sofrimento dorido e longo, cinzelado
num percurso de existência breve de
uma dúzia de dias de vida contados a
bagos de milho dourado debicados no
bolso de um administrador sovina e
inclemente, uma riqueza sem fim de
grãos de ouro que brotam da terra
molhada, uma felicidade única de
mastigar de manhã, à noite e no dia
seguinte um pirão amassado por
diabos de várias cores, ou de provar
o sabor azedo da fome que, com
guerra ou sem ela, será má companhia
todos os dias, e teimará em ficar,
seja qual for a cor da tropa que
chegar, seja qual for o tamanho do
coração do captão que vier.
O infinito mundo de bugigangas
militares…
Por fim a trouxa militar está
entregue.
As mais de mil e quinhentas
assinaturas estão rabiscadas noutros
tantos formulários e modelos
militares garantindo a passagem de
testemunho, consubstanciado em
milhares de peças com os mais
variados tamanhos e funções. Garfos,
quase conferidos dente a dente para
verificar da sua operacionalidade,
colheres, casas, pré-fabricados com
telhas de zinco que voam nas
tempestades mas param submissas a
cinquenta metros de distância e
aguardam que as tragam de volta
vezes sem conta como crianças que se
obstinam em fugir ao controlo dos
progenitores, máquinas de escrever,
que por vezes escreviam, mapas, que
falavam mas nada diziam e por vezes
mentiam, cadeiras, secretárias (de
madeira), chaves de fenda, de
cruzeta, de boca, sem boca, com
dentes, sem dentes, motores que
trabalham, outros que se reformaram,
e ainda os que morreram há muito e
já não respiram mas continuam
pertença e tesouro da República,
retretes que fediam, camas que
gemiam, colchões sem edredões,
passeios de tabuinhas cruzados por
milhões de viagens nos dois
sentidos, arame farpado com bicos
que ameaçavam rasgar a carne aos que
queriam entrar mas também dos que
queriam sair, holofotes com luz, sem
luz, antenas, bombas de água que nos
bombeavam a paciência, geradores que
muitas vezes trabalhavam, câmaras
frigoríficas a funcionar, avariadas,
inutilizadas, obsoletas, mas ainda
zelosamente à carga não fosse
perderem-se em favor do inimigo,
camiões, unimogs, jipes, uns a
andar, outros parados, vandalizados,
canibalizados, uma prisão com
telhado de capim, paredes de barro
(espesso!) e grades de vento, areia,
muita areia, pedrinhas pintadas de
branco que faziam de ruas que não
levavam a lado nenhum e davam uma
ilusão de ordem que apontava um
caminho que não existia, uma taberna
travestida com o eufemismo de
cantina, bidões de gasóleo, cunhetes
de munições contadas caixinha a
caixinha, cunhetes de cerveja
contadas na garganta duas a duas,
janelas com rede mosquiteira,
quartos com mosquitos, panelas de 50
litros e tachos de 30 que tresandam
a um aroma de gordura típico de
cozinha militar que se esvai três
dias depois da fome nos ter dizimado
as resistências do olfacto e o
último furo do cinto, um Chiado
(vazio) onde em época alta se pode
encontrar o último grito de sabão
azul cortado em fatia fina de
queijo, um clima variado (de 45º a –
3º), noites escuras, de solidão, de
desespero, de medo, blenorragias,
pagas em moeda corrente ou géneros
de primeira necessidade; (“… furrié
é bom p’ra mim; furrié dá sapato, dá
pano, dá dinhêro p’ra comprá cérvêja
lá nos cantina…”), paludismos
distribuídos gratuitamente a febres
de 41º repartidas por 15 dias de
férias em cama fresca de abundante
suor, vacinas contra a mosca do sono
(1cm3 por cada 10 kg inoculados por
agulhas de 8cm enterradas na alva
nádega sem dó nem piedade),
medicamentos, para as doenças e para
afugentar o medo das balas, um
milhar de bugigangas agrupadas em
pacotes de função, outro milhar
dividido em função de pacotes, ainda
um outro sem pacote nem função, e,
por fim,… um kimbo com gente dentro,
uma bandeira num mastro altaneiro
que se esfalfa todos os dias para
afirmar a nossa autoridade naquele
lugar e uma guerra; uma guerra que
começa à porta de armas e termina
nas margens de um rio Cuando
majestoso e indiferente que nos
separa da soberania do povo do lado
de lá, mas que os do kimbo não
entendem porque os apartam dos
familiares do outro lado de um rio
sem paredes nem muralhas, feito
apenas de água que corre límpida e
sem raivas em ambas as margens.
A despedida. Perder 160 amigos
todos os anos e de uma só vez …
A grande viagem vai começar.
N’riquinha-Luanda. Dois mil
quilómetros em linha recta.
Bastantes mais pelas picadas e
asfaltos que nos esperavam.
As despedidas estão feitas. Cerca de
160 militares distribuem-se por não
sei quantos camiões civis,
sentando-se sobre as caixas, malas e
múltiplas embalagens, que albergam
uma mistura de espólios de guerra
com esbulhos de uma civilidade havia
muito perdida e encaixotada, e que
agora cortejavam a esperança de
poderem voltar a florescer, depois
de vencido o bafio e a poeira do
tempo.
A primeira viatura faz-se preguiçosa
e indolente à porta de saída. Soam
os primeiros gritos de alegria de
despedida de um inferno que por fim
se extinguia.
Em pé os soldados, enfardados num
camuflado desbotado dos tombos da
guerra, erguem a G3 como se acabados
de conseguir a maior vitória das
suas vidas.
Os putos, menos doridos e molestados
pelos sentimentos de proximidade e
pieguice dos adultos, saltitavam em
bandos ao lado das primeiras
viaturas, alegremente contagiados
pela alegria que explodia em cada
uma delas.
Ao fundo, comedidamente à distância,
na beira do kimbo defronte da picada
por onde iríamos passar, aglomera-se
um magote de gente silenciosa e
mortalmente imóvel.
Mulheres com crianças às costas,
velhos que se vergam à frente
apoiados em paus longos, raparigas
adolescentes de braços cruzados que
mordem uma ponta do pano que lhes
envolve o corpo esguio, mulheres
idosas, que se ficam mais atrás
apoiando-se na última cubata, com a
mão sobranceira aos olhos
protegendo-se do sol. Um kimbo
inteiro.
Um kimbo inteiro veio despedir-se da
tropa matchiririca que chegou um dia
para fazer a guerra com armas que
matam e acabou por se consumir
noutras batalhas tão indesejáveis e
perversas quanto aquela. Uma luta
pela dignidade da vida dos que nada
tinham e uma autêntica guerra contra
o isolamento e as agruras duma fome
ignóbil de comunidade perdida nos
confins de África, uma autêntica
tribo de índios ainda perdida nos
confins duma Amazónia deserta,
também esta em vias de extinção por
via do progresso e de causas justas.
A coluna já se forma lá fora do
aquartelamento iniciando preguiçosa
uma caminhada de serpente, marcada
por nuvens de poeira que se vão
elevar nos céus assinalando a sua
passagem. A picada segue
inicialmente a linha da pista de
aviação em direcção a Mavinga,
correndo paralela ao quartel e ao
kimbo.
Agitam-se lenços, braços e gritos.
Uns quantos não resistem e correm
até junto da picada. Crianças,
adolescentes e mulheres, algumas com
crianças às costas. O movimento das
viaturas induz-lhes o acompanhamento
destas. Correm.
Num impulso contagiante, mais gente
vem descendo por entre tufos de
capim seco que saltam com destreza.
Já há uma pequena multidão que corre
paralela à coluna acenando e
gritando palavras que continuo sem
entender o significado mas que desta
vez dispenso tradução. Alguns correm
apenas e nada dizem, nada fazem.
Apenas querem correr e ficar mais um
pouco junto de nós. Uma derradeira
companhia, um último momento de uma
despedida que já levava dias. Apenas
o prolongar um pouco mais da agonia
do fim de uma amizade fraterna que a
proximidade confortava e induzia um
pouco mais de segurança, bem-estar e
protecção. Centenas de metros
percorridos e quase ninguém desiste.
Corações ao alto, corações
ofegantes, corações que persistem
numa corrida sem fim nem proveito.
Uma corrida quase suicida de ir até
ao fim, de ir até cair. Estou
sentado ao lado do condutor que
sorri meio estupefacto e me diz.
– Nunca vi nada disto. Mando
abrandar. Que raio de ideia.
Retemperam-se do esforço e
dispõem-se a ir muito mais longe.
Mando acelerar e deixo de olhar.
Fecho os olhos naufragados numa
comoção que transcende aquilo que se
espera de um comandante de guerra.
Esqueceram-se que um militar nasce
militar, não se fabrica por
conveniência. Sinto que aceleramos e
deixo passar mais uns metros seguros
de não ver mais aquela espécie de
loucura, de suicídio colectivo, um
mar de baleias que dão à costa e se
matam com um sorriso de prazer
inexplicável recusando voltar atrás,
que nos sobreleva o entendimento ou
nos desvirtua a propalada razão e
superioridade humana.
Por entre um marejar turvo de
imagens desfocadas consigo perceber
que há ainda um resistente que ao
nosso lado se mantém firme de olhos
em frente e um sufoco estampado no
rosto.
Traz vestida uma pequena tanga que
esvoaça e denuncia os restos de um
camuflado há muito esquartejado, que
disfarça agora a sua nudez e sufoca
o que resta de uma dignidade que
recusa perder. Fecho os olhos em
definitivo e recosto-me no banco.
Passo as costas da mão pela testa em
busca de um suor que não existe e
prolongo o gesto pelos cantos dos
olhos, onde estrangulo uma dor que
se me escorre de dentro sem que se
entenda bem onde nasce.
Preciso urgentemente de me explicar
quando percebo que o condutor me
olha de soslaio e desvia a atenção
da picada.
– … Esta poeirada…!
– …?!
Mantenho-me assim por dez minutos e
percorro em sentido inverso aqueles
dois, três quilómetros já
percorridos.
Tento entender e não consigo.
Ficamos sempre com uma imagem de um
determinado bem que se faz, de umas
migalhas que se oferecem e nos
deixam alguma paz de espírito que
nos conforta o sentimento de
bem-estar connosco próprios.
De acordo com as circunstâncias em
que ali fomos vivendo todo aquele
tempo, atribuímos um determinado
significado às coisas, sempre parco
quando o comparamos com os nossos
padrões de vida, os nossos hábitos e
anseios. Esquecemo-nos que o pouco
que por vezes se oferece tem um
significado tão intenso e duradouro
quanto miserável é o significado das
suas vidas e quão vulneráveis ficam
os seus corações a gestos de pouca
monta, mas tesouros de riqueza
desmedida que retribuem com as
únicas moedas que possuem: a
solidariedade e o reconhecimento.
O condutor não pára de olhar pelo
retrovisor.
– Parece que já ficaram para trás,
diz espreitando dos dois lados como
que receando que se tivessem passado
para o outro lado.
Não arrisco a abrir os olhos para
confirmar. No fundo, talvez eu
quisesse guardar aquela imagem lá
bem no meu íntimo. Uma prenda
simbólica que nos cinzela a memória
corroída por inutilidades. Uma fenda
esculpida a marteladas de vida que
nos deixa marcas que perduram pela
vida fora e nos humedece ainda os
olhos, trazendo à mente uma catadupa
de sons e imagens de significado
imenso e de tão grata recordação.
– Estava a ver que vinham atrás de
nós até Mavinga… – diz-me ainda o
condutor, mais preocupado com aquela
perseguição tenaz, que com o trilho
baço de poeira da viatura da frente.
Não!
Virão atrás de nós muito para lá de
Mavinga. Virão atrás de nós todo o
tempo que eu viver e for capaz de me
lembrar deles, da sua simplicidade,
dos seus corações abertos, dos seus
hábitos e tradições, da sua
inocência de fazer casa grande para
captão e mulher do Puto, de
acreditarem numa pátria que nunca
viram nem sentiram como sua, de
serem capazes de acreditar todos os
dias em qualquer coisa sem terem
nada em que acreditar.
Abro por fim os olhos. Agora sim
mergulhados num verdadeiro tormento
de poeira, uma extensão daquele
escuro de nuvem confusa que me faz
perder o norte e me baralha a mente
com pensamentos descoordenados que
me desalinham a recentíssima alegria
de partir.
Não me sinto. Não sei se venho. Não
sei que partes de mim vêm. Não sei o
que trago. Não sei o que deixo. Não
sei o que perco. Mas sei o que
ganho. E que me dói já a certeza de
jamais poder com eles usufruir do
que bebi dessas lições de vida
sentida e dorida, trituradas a
golpes magoados de pilão e
sublimadas a bálsamos de batucadas
ardentes vencidas pela noite dentro,
até que a dor morresse e um novo dia
de fé ausente nascesse. Já não ouço
vozes. Só corações soçobrando num
adeus derradeiro que se extingue num
último suspiro sem sinais de
revolta. Agitam-me os tombos da
picada. Agitam-me os meus
pensamentos desarrumados.
Agitam-se-me revoltas de sentimentos
de impotência e remorsos de me vir
embora quase feliz. De deixar para
trás um fosso com gente dentro que
chegou a acreditar que tinha chegado
a hora de fugir daquele gueto de
guerra e poder morar livre como o
vento no mato longínquo e seguro das
terras do Cuando-Cubango.
– Estava a ver que vinham atrás de
nós até Mavinga… (120 Km)
De soslaio vou dando miradas pelo
espelho retrovisor, não sei se na
esperança de ainda ver alguém, se de
não ver.
Mas se vir, garanto a mim próprio
que mando parar a coluna e o abraço
longamente até sentir que o seu
coração se acalma e se me ensurdecem
os gritos de despedida que ainda
ouço.
Convenço-me por fim que já não vêm.
Convenço o condutor a olhar apenas
em frente porque é por ali que passa
o futuro. Tenho pela frente quatro
dias de comer quilómetros de poeira
que embaciam um céu limpo sem
nuvens. Um circo em movimento que se
move em busca de outros públicos e
os mesmos aplausos dos que querem
continuar donos e senhores da terra
que, para muitos, os viu nascer.