[...]
Como foi natural, estes
acontecimentos tiveram um impacto
muito grande em toda a cidade de
Luanda e muitas foram as pessoas
surpreendidas, o que levou a uma
reacção descomunal, principalmente
nos funerais que ocorreram no
cemitério novo, à estrada de Catete,
onde se cometeram autênticas
barbaridades, quando alguém se
lembrou de gritar a aproximação de
“turras”.
[...]
Antes, por causa da sublevação
verificada na Baixa de Cassange,
haviam chegado quatro Companhias de
Caçadores Especiais e uma Companhia
de Polícia Militar, em reforço à
guarnição normal.
Em princípios de 1961, a criação de
um dispositivo capaz de fazer face
aos acontecimentos estava em fase
embrionária, dispondo de um efectivo
de cerca de 6.500 homens, dos quais
apenas 1.500 eram europeus.
[...]
Recordo que nos primeiros tempos, em
que a Força Aérea não estava ainda
implantada em Angola, foram as
aeronaves do Aeroclube de Luanda que
fizeram reabastecimentos
improvisados e procederam à
evacuação dos primeiros feridos.
Como era brevetado tive a
oportunidade de fazer alguns voos
utilizando pistas feitas à pressa
pelas populações.
[...]
Quando, em Novembro de 1963,
regressei à Metrópole, Angola tinha
o seu dispositivo logístico de
intendência a funcionar em pleno,
com o apoio natural da retaguarda,
consubstanciado na Manutenção
Militar e nas Oficinas Gerais de
Fardamento
[...]
Não se compreendia que ao fim de
treze anos de guerra, com esta ganha
e com a população europeia, mais do
que nunca, com a consciência do
dever cumprido, se estivesse a
entregar ao abandono o território,
regressando à Metrópole
apressadamente, sem que houvesse uma
entrega planeada, que evitasse a
saída de cerca de quinhentas mil
pessoas.
[...]
As consequências foram desastrosas,
não só para os europeus que amavam
aquela terra e a consideravam sua,
pelas gerações que os antecederam,
como também para os naturais que, em
consequência, vieram a suportar uma
guerra civil de trinta anos que
tantos danos lhes causou.
[...]
Até ao 25 de Abril de 1974, os
reabastecimentos decorreram
normalmente, não faltando nada às
unidades que actuavam em todo o
território, sendo que os efectivos
da Marinha e da Força Aérea também
se socorriam do apoio do Exército,
naquilo que não conseguiam obter
pelos seus meios.
[...]
Resolvemos fretar o navio de carga
“Novo Redondo” com grande espanto da
Sede, que argumentava falta de
competência para tal, e do próprio
Comando da Região Militar que
acabou, depois, por reconhecer ter
sido a salvação para enviar muito do
material que, por falta de
transporte, teria ficado em Angola.
[...]
A carga ficou toda a bordo em 24 e,
em 25 de Outubro de 1975, um sábado,
regressámos a Lisboa, cansados,
muito cansados, mas felizes por
termos cumprido o nosso dever.
Estes factos pouco conhecidos, só do
conhecimento de quem os viveu,
marcou-nos de tal maneira, que, ao
longo destes 35 anos, nos temos
reunido, em confraternização, civis
e militares, todos os sábados mais
próximos de 25 de Outubro, para
recordarmos aqueles momentos que
passaram à história.