Albino
Ferreira P. da Silva
Albino Ferreira P. da Silva, Soldado
Maqueiro, n.º 01100467;
Mobilizado
pelo Batalhão de Caçadores 10 (BC10 – Chaves) «SEMPRE
EXCELENTES E VALOROSOS» para servir Portugal na
Província Ultramarina da Guiné;
No
dia 1 de Maio de 1968, na Gare Marítima da Rocha do
Conde de Óbidos, em Lisboa, embarcou no NTT 'Niassa',
integrado na Companhia de Comando e Serviços (CCS)
«ARMADOS PARA A PAZ»do Batalhão de
Caçadores
2845 (BCac2845) «SEMPRE EXCELENTES E VALOROSOS», rumo ao
estuário do Geba (Bissau), onde desembarcou no dia 6 de
Maio de 1968;
No dia 7 de Maio de 1968, a sua
subunidade de infantaria foi colocada em Teixeira Pinto.
Em 3 de Abril d 1970, embarcou no NTT
'Niassa' de regresso à Metrópole, onde desembarcou no
dia 9 de Abril de 1970.
Autor do Livro:
"História da Unidade do
Batalhão de Caçadores 2845"
título:
"História da Unidade do
Batalhão de Caçadores 2845"
autor: Albino Silva
dimensões do livro: 20,05 X 14,50
Este livro é
todo ele escrito em Verso e relata toda a História
do Batalhão de Caçadores 2845 e sua passagem pela
Guiné de 1968/70 desde Teixeira Pinto, Olossato,
Cacheu, Pelundo, Bachile, Jolmete, Bissorã , e ainda
inclui todos os Nomes, Números e Postos de todos que
compuseram o Batalhão.
Fala ainda
da Guiné de África de Tabancas e Regiões.
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in revista
"Domingo" do jornal "Correio da Manhã"
de 8 de Setembro de 2019
da autoria da jornalista Vanessa Fidalgo
Albino
Silva: “Sentia que estava em falta para com o meu país”
Um carro parou à frente da enfermaria
com sete feridos. Estavam todos muito mal e foram
morrendo um a um.
Com apenas 11 anos fui ter com o meu pai a Angola.
Ficámos a viver em Camabatela, uma linda vila que deixei
no norte de Angola e que até hoje jamais esqueci. Foi
ali que cresci e comecei a trabalhar a um balcão. Depois
dos massacres de civis logo no início da guerra, em
1961, fiquei muito chocado e fui para França trabalhar.
Um dia, depois de ter passado no consulado e de me terem
dito que se não cumprisse o serviço militar obrigatório
não podia voltar a Portugal, disse que preferia ir para
a tropa em vez de nunca mais poder pisar a minha terra.
Além disso, também sentia que estava em falta para com o
meu País e para com os meus compatriotas que lá estavam
a lutar.
Pensei sempre que ia para a minha outra terra, Angola,
mas afinal o destino trocou-me as voltas e acabei por
ser mobilizado a 1 de maio de 1968, quando estava no
BCAÇ 10, em Chaves, para me juntar ao Batalhão de
Caçadores 2845 para a Guiné.
Foi a bordo do ‘Niassa’ que cheguei, dias depois, à
Guiné e foi também este navio que, ao fim de 23 meses,
nos trouxe de volta a Portugal.
Em Teixeira Pinto era maqueiro e passava muito tempo na
enfermaria ou em missões junto das populações locais,
prestando auxílio aos doentes. Também ajudei como
auxiliar do doutor Fernando Maymone Martins, o médico do
batalhão. E isto porque eu era dos poucos que conseguia
perceber a letra dele, o que facilitava o trabalho na
hora de a enfermaria dispensar os medicamentos que ele
receitava!
Na enfermaria
Aprendi a fazer alguns trabalhos de enfermagem e com
isso ajudava muitos colegas em dificuldades. Fazia
pensos, suturava e era eu que administrava o tratamento
para o paludismo. Mas por uma enfermaria em tempo de
guerra passam também situações muito complicadas. Uma
vez, de repente, pararam duas viaturas à frente da
enfermaria com sete feridos muito graves. Tinham sofrido
um acidente no aquartelamento vizinho, quando uma
granada rebentou acidentalmente. Estavam todos muito mal
e, sendo de noite, não havia visibilidade para fazer uma
evacuação. Estavam em tal estado que tive de os carregar
sozinho, pois os outros militares, assim que viam os
membros decepados, não conseguiam levá-los para as
macas. Foram morrendo um a um ao longo da noite, apesar
dos nossos esforços e, sobretudo, do empenho do médico,
que ali não tinha meios…
Só se salvou um, que resistiu até ao sol nascer e foi
levado para Bissau. Não foi , infelizmente, situação
inédita. Na Guiné morreu muita gente em combate, porque
era uma das zonas de guerra mais difíceis, mas também
morreu muita gente por via de acidentes de carro,
disparos e explosões acidentais, etc.
Outra situação complicada aconteceu com um camarada do
nosso batalhão que saiu para fazer uma escolta e acabou
por passar por cima de uma mina. Ficou com o corpo cheio
de estilhaços, que fomos tirando logo ali na enfermaria.
Felizmente, teve sorte. Nesse dia passou o bombardeiro
que distribuía o correio e então conseguimos levá-lo.
No mato e quando íamos às localidades visitar as
tabancas também era preciso ter cuidado, porque embora
fôssemos prestar apoio às populações, eles também
aproveitavam para saber informações que depois usavam
para nos fazer emboscadas. Queriam saber onde íamos de
noite, por onde passávamos. Todo o cuidado era pouco.
Tanto que sofri várias emboscadas no mato, felizmente
sem quaisquer consequências.
Estive para voltar à Guiné no ano passado, na companhia
de um antigo companheiro de batalhão que organiza
missões de ajuda humanitária. Acabei por não seguir
viagem com ele, mas um dia... volto lá.

