TRABALHOS, TEXTOS SOBRE OPERAÇÕES
MILITARES ou LIVROS
Elementos cedidos por um colaborador
do portal UTW
Reis
Ventura
Manuel
Joaquim dos Reis Barroso: nascido em 1910, em Ervedelo
(Chaves).
Tendo começado a sua vida pela Ordem de São
Francisco, onde professou com o nome de Vasco Reis e
recebeu ordens sacras, estudou Teologia em Espanha,
tendo seguido depois para Moçambique como missionário.
Ali abandonaria não só os franciscanos como as próprias
ordens sacerdotais, tendo regressado a Lisboa onde
estudou então na Escola Superior Colonial.
Em 1938
seguiu para Angola, onde trabalhou primeiro como
funcionário administrativo e, ultimamente, como
empregado da companhia de petróleos daquela então
colónia.
Regressou a Portugal em 1975, tendo-se fixado
em Lisboa. Faleceu em 1992.
(in "Dicionário
Cronológico de Autores Portugueses", Lisboa, 1997)
O livro:
"Sangue
no Capim"

título: "Sangue
no Capim"
autor: Reis Ventura
editor: Pax
8ªed. Braga, 1972 (1ªed. 1963)
321 págs
Recensão (04Nov2007):
No prefácio, o autor esclarece que a escolha do conto
como forma narrativa foi a opção por uma "porta lícita
da ficção à base do real", pela qual pretendeu
esquivar-se "às exigências da exactidão histórica,
quanto a pessoas, locais e circunstâncias". [...] Reis
Ventura recria os quadros com base em histórias ouvidas
e lidas em Luanda, de modo a que "com este singelo e
confessado artifício, conseguir criar, à volta de certos
lances mais expressivos, o ambiente emocional que os
caracteriza como actos humanos e feitos portugueses".
Como é natural, alguns dos episódios narrados são
passados no Quitexe. Transcrevemos, agora, aquele que
nos permite cotejar os factos, com o descrito nos textos
de Felícia Cabrita no "Expresso" ou mesmo com os relatos
feitos pelo próprio Vítor Poço ao programa da SIC
efectuado na mesma altura.
Manhãs das catanas sangrentas:
– «Naquela roça das proximidades do Quitexe, o patrão
tinha-se levantado antes do nascer do sol, para arrumar
umas contas na lojeca em que se abastecia o pessoal da
sua fazenda e das vizinhas. Pouco depois a mulher e um
filho de 14 anos levantaram-se também. As duas mocinhas
uma de dez e outra de doze anos, continuavam a dormir,
serenas e graciosas no seu quartito que era o melhor e o
mais enfeitado da casa. Por volta das seis e meia o
branco abriu a porta da loja e ficou atrás do balcão, à
espera dos habituais fregueses do copito matinal de
vinho ou do cálice da rija. Minutos decorridos, chegaram
cinco pretos grandalhões, no jeito de quem vai para a
tonga. "Patrão, um copo de vinho!", pediu um dos do
grupo. "Um copo grande… ". O branco escolheu na
prateleira um dos copos maiores, enxaguou-o na água da
celha e curvou-se para o barril do palhete. E neste acto
de se curvar, ofereceu aos bandidos a posição que eles
previam e esperavam. O golpe foi tão fundo e certeiro no
pescoço, que o breve e lancinante berro do assassinado
esbarrou contra a lâmina fria da catana… Para além da
porta de comunicação com a parte familiar da casa, a
mulher apavorada por aquele grito, tinha tirado da mesa
da cabeceira um velho revólver do marido e empunhava-o
com mão trémula, prestes a desmaiar. "Dê-me o revólver,
mãe!", disse-lhe o filho de catorze anos. "E, por amor
de Deus, não se deixe ir abaixo!
Tenha coragem e vá acordar as minhas irmãs!". Contagiada
pela decisão do filho, a pobre mulher obedeceu
instintivamente. O moço dobrou a culatra do revólver e
verificou que tinha as seis balas no tambor. Então abriu
sem ruído a porta e, com uma serenidade terrível, abateu
com cinco tiros seguidos, os cinco assassinos que, antes
de prosseguir a chacina, não tinham resistido à tentação
de uma garrafa de aguardente… "Venha, mãe", chamou o
moço para dentro, com os olhos rasos de água postos no
cadáver do pai. "Não gritem!", acrescentou, quando a mãe
e as irmãs acudiram e levaram as mãos à boca,
horrorizadas. "Não gritem, que pode ser perigoso!
Ajudem-me a transportar o pai para a carrinha!... ".
Mudamente, a viúva e os órfãos transportaram o corpo
para o carro e cobriram-no com um lençol. Depois, aquele
rapazinho de 14 anos, a quem o pai deixava às vezes
guiar a carrinha, sentou-se virilmente ao volante e,
meio cego pelas lágrimas que teimavam em inundar-lhe os
olhos, correu a avisar um tio que vivia noutra roça, a
dezoito quilómetros de distância ... ».