– «Portugal, combatendo a Guerra de África, durante
vários anos em 3 Teatros de Operações, com inegáveis
resultados operacionais, constituíu-se como um raro e
notável paradigma de querer colectivo e exemplo digno de
memória na História universal.
É este papel na História a razão, talvez, para terem
escolhido para vos falar hoje um humilde historiador que
teve a subida honra de cumprir o Serviço Militar
Obrigatório e que há vinte e nove anos, aqui, em Belém,
ante o Monumento aos Combatentes, do lado de lá, onde
agora estais, vos vem saudar, homenagear e partilhar
convosco este chão sagrado.
Aqui estou, uma vez mais, no vosso dia para vos saudar e
homenagear a todos, aos vivos e aos que já partiram, mas
que estarão sempre connosco, presentes, naquela dimensão
espiritual que constituí o “devir” da História de
Portugal, anterior a cada um de nós e que perdurará para
além deste nosso lado da vida terrena. Saudação de
profundo silêncio para a qual seremos convocados pelos
tremendos e arrepiantes toques de Silêncio, Homenagem e
Alvorada, onde, de novo, todos nos congregaremos.
A Guerra de África que, sem favor, merece páginas de
ouro na história pátria e os seus militares, Vós, o
epíteto de Heróis. Não todos, seguramente, pelos grandes
feitos que a História regista, mas todos pela superação
de cada uma das limitações humanas, respondendo com
disponibilidade, responsabilidade e coragem ao
chamamento da Pátria que vos convocava a combater.
Mas o acontecimento político que determinou o fim da
Guerra de África, trouxe o assalto às universidades de
uma cultura que, substituindo o orgulho que todos os
portugueses dignos desse nome deveriam ter pela mesma,
paulatinamente impôs – captando mesmo militares para tal
tarefa – a lenda negra do que propagandisticamente
chamaram “Guerra Colonial”, afrontosa para povos
supostamente oprimidos, e isto mesmo quando não existiam
colónias desde 1951. Uma designação vesga, de má fé, com
manifesto intuitos políticos.
Foi o início de uma cultura de ajustamentamento de
contas com o passado, reescrevendo-o e quando,
inconveniente, apagando-o. É a moderna ditadura de
cancelamento do “woke” e a imposição de uma ditadura de
pensamento único.
Para tais indivíduos acabou-se com a guerra porque
estava contra os ventos da história (que não sopram
igual para todos...), acabaram com o serviço militar
obrigatório, porque estava contra os ventos da Europa.
Mesmo para uma Nação de marinheiros convenhamos que são
ventos demasiados contra o mundo militar...
Lentamente foram construíndo uma narrativa em que se
demonizaram os que serviram a Pátria em combate – sempre
que necessário e útil à sua narrativa – não raras vezes
criticados e maltratados, quando tudo deram de si,
alçando ao estatuto de heróis os traidores e desertores
que fugiram – e todos sabemos a razão, embora
inconveniente, e sempre ocultada: a cobardia!
Como se Portugal fosse um país de cobardes e fossem
essas ervas daninhas os exemplos a seguir. Todos nós
rapazes, de então, sabíamos o que nos esperava e todos
aceitavamos o nosso dever para com a Pátria.
É um Portugal ao contrário, que não segue os exemplos
generalizados de culto aos heróis que serviram a Pátria
por todo o mundo, ao invés atacando quem tudo deu na sua
juventude, preocupando-se em rebuscar os nossos
eventuais crimes de guerra, ao mesmo tempo que apagam,
desculpam – ou, eufemisticamente, contextualizam - e
mesmo ocultam quantos cometidos contra nós.
Uma narrativa história masoquista que, demonizando os
nossos, busca heroicidade, por vezes manifestamente
rebuscada, em quantos nos combateram.
E desta narrativa contra a Guerra de África,
progressivamente avançou-se para um mais completo – e
complexo – ataque à instituição militar e aos seus
valores, facto que quebrou – intencional e
criminosamente – a profunda e tradicional ligação da
sociedade civil às suas Forças Armadas, tudo sempre em
nome de uma maior suposta modernidade e dos “novos
direitos humanos”, que não sabemos, nem percebemos,
exactamente o que são e muito menos quem os mandatou
para os eleger.
Nesta ofensiva inseriu-se a criminosa extinção do
Serviço Militar Obrigatório – que a maioria de nós com
orgulho cumpriu, afastou-se o povo das suas Forças
Armadas, erradicou-se do território nacional o seu
dispositivo militar, apagou-se a memória, a ligação
tradicional, tornando as Forças Armadas algo de distante
e quase estanque da sociedade civil. As Forças Armadas
nunca foram prioridade de nenhum governo desde então e,
seguramente, ainda não são.
Tal daria lugar, segundo algumas mentes iluminadas, a um
exército baseado num voluntariado que levaria a uma
profissionalização, expectavelmente, de excelência.
Poucos anos passados sobre tão trágica decisão os
resultados estão à vista e, lamento dizê-lo, as nossas
Forças Armadas – em diversos padrões de análise –
encontram-se num nível manifestamente risível e o
afamado voluntariado falhou em toda a extensão. Não há
efectivos e faltam também muitas outras coisas.
Já não se vai à tropa por imposição legal. Já não se vai
à tropa, ponto. Os que vão – salvo honrosas e pontuais
excepções, sobretudo nas forças especiais –, não o fazem
por vocação. Decretou-se o fim das Forças Armadas
nacionais e criou-se o emprego militar e este,
evidentemente, sempre subordinado aos euros do
orçamento, necessariamente escassos e orientados para
outras preocupações e bandeiras...
Quando até entre ilustres militares, de modo livre,
aparentemente, surgem assertivas declarações contra o
Serviço Militar Obrigatório, e se advoga a eventual
aceitação de candidatos de nacionalidade estrangeira –
ou seja, mercenários – para servir nas nossas Forças
Armadas, está claro o temor em violentar os meninos das
juventudes partidárias e quem manda, realmente, na
“coisa” militar em Portugal... Haja vergonha e como
avisava Hamlet, “algo vai mal”...
E tudo isto quando o realismo – e os recentes
acontecimentos – aconselham o regresso do mesmo, como já
se vai fazendo em diversos países europeus.
Os nossos muitos modernos, mas algo quixotescos
decisores, gostam de teimar no erro e recentemente a
nossa Ministra da Defesa afirmou mesmo que, e cito,
"esse tipo de sistema de serviço militar não responde às
necessidades estratégicas”. Parece que a tutela convive
mal com três expressões: “serviço”, “militar” e
“obrigatório”, coisas, seguramente, pouco modernas e
arejadas...
Ou seja, o sistema que progressivamente vai sendo
recriado na Europa, que permitiu a nossa participação na
Guerra Mundial e que nos permitiu travar a Guerra de
África, num total de 14 anos, não serve. Mas a
profissionalização muito menos... Esperemos que não se
lembrem de decretar o fim das Forças Armadas...
A ideia do Serviço Militar Obrigatório – e é lamentável
que tal não seja cristalinamente entendido – não visa
apenas as necessidades estratégicas, nem sequer a
satisfação da necessidade de efectivos, mas algo
superior, muito superior, os conceitos de Segurança e
Defesa da Pátria e uma outra dimensão que todos
pretendem ocultar, uma verdadeira formação cívica da
juventude.
Sem estes vectores colocaremos em causa a coesão
nacional... Esperemos não ser esse um objectivo oculto!
O resultando é evidente, temos hoje uma classe castrense
que o poder político pretende subjugar, adormecer e, em
muitos casos, desvirilizar (mas esse, será, porventura,
um objectivo a perseguir).
Somando a tudo isto a recente ofensiva a tradições
enraizadas nas Forças Armadas como as boinas, as
diferentes marchas ou cânticos, tudo em nome de uma
suposta harmonização e espírito de corpo, são sinais
contrários e muito preocupantes. A não terem sido
sustentados por militares – será que o foram de livre
vontade? – diria que eram decisões de quem não percebe
nada da tropa...
Combatentes!
Como afirmei, todos os anos aqui venho ao encontro do
coração de Portugal.
Aqui estão os que combatem e combateram, voluntária ou
involuntariamente em nome de todos. Estão aqui os que
servem e serviram acima de tudo e de todos, tornando-se
unos com a nossa Pátria! Para esta homenagem viria,
ainda que sozinho, mas esperemos que este chão sagrado
floresça no futuro, agregando todos quantos se
identificam com os nossos valores! Ganhar este desafio é
a nossa tarefa fundamental para o futuro!
Aqui estou e estarei convosco para juntos travarmos a
guerra contra a mentira, contra o ódio e o cancelamento
da nossa História;
- para convosco defendermos a memória da Guerra de
África e dos seus heróis e combatermos a lenda negra do
que eles chamam “Guerra Colonial”;
- para em conjunto defendermos a existência e a
dignidade das Forças Armadas de Portugal e a sua ligação
ao todo da Nação.
Honra aos nossos Heróis!
Viva Portugal!»¹
¹ (Discurso do 10 de Junho de 2022; Humberto Nuno de
Oliveira, no Monumento 'Aos Combatentes do Ultramar')