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Mário Manuel Martins
de Barros, Furriel Mil.º de Cavalaria
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Nota de
óbito |
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Faleceu no dia 20
de Fevereiro de 2025 o veterano
 
Mário Manuel Martins de Barros
Furriel Mil.º de
Cavalaria
Equipa de Assistência n.º 18
Comando
Territorial Independente de Timor
«FORTE E FIEL»
1971 a 1973
Paz à sua
Alma
Apresentação
COMISSÃO EM TIMOR 1971-1973
Quem teve o
privilégio de prestar serviço militar em Timor, no
chamado CTIT, antes do abandono de 1975 pelas FA
portuguesas, que não quero comentar, tenho a certeza
nunca esquecerá determinados momentos, locais e
sentimentos que aquela província ultramarina
proporcionou.
Não sou contra a
independência daquele país mas sim da forma como tudo se
passou, pois eu, melhor que muitos políticos, sabia do
ódio imenso que existia entre Timorenses e Indonésios,
sendo portanto inevitável a invasão caso a autoridade de
Portugal desaparecesse, o que aconteceu. Mais de uma vez
testemunhei esse ódio, entre 1971 e 1973, especialmente
quando fui transferido de Dili para a fronteira que mais
penetrava no território indonésio, Fatomean, dependente
do Comando Sector de Bobonaro.
A Equipa de
Assistência n.º 18 (ver fotos) em Fato Mean, era
composta por um Furriel (eu) mais três Cabos (o Milhães,
o Silva e mais tarde o Fontes – onde estarão eles?) e
distava várias horas a cavalo (ver fotos) da unidade
regular mais próxima, o pelotão de Fohorem. O isolamento
era o nosso maior inimigo. A título de exemplo para
irmos buscar o correio tínhamos de andar cerca de seis a
oito horas a cavalo por picadas e montes.
Estávamos naquilo
que chamávamos “A última fronteira do império”.
Enquanto estive na
fronteira, na equipa de assistência 18 à Policia de
Fronteira, testemunhei situações de verdadeiro horror
derivadas das escaramuças (que oficialmente nunca
existiram) entre Timorenses e Indonésios, ao longo dos
trinta quilómetros de fronteira a que dava assistência,
com mortes de lado a lado.
Por curiosidade,
após um desses “incidentes”, em que as picadas estavam
ocasionalmente transitáveis, o que raramente acontecia,
o Governador Alves Aldeia foi com a comitiva toda lá ao
burgo para saber o que se passara mas,
“criteriosamente”, ele e restante comitiva passaram a menos
de cinquenta metros da E.A.-18, fingindo que não viram
lá os três militares (na altura éramos três)
metropolitanos, que dormitavam pachorrentamente ao sol.
Foram directamente ao Posto Administrativo onde, não me
recordo o nome dele, o Chefe de Posto lhes deu “um
baile”, afirmando (soube mais tarde) que não se havia
passado nada de especial quando, uma ou duas semanas
antes, vários indonésios tinham sido mortos do “nosso”
lado, à catanada, pelos moradores devido a um a
escaramuça tribal!!!
Nós, nas nossas
unidades (Equipas de Assistência) limitávamo-nos a
armazenar e fornecer a alimentação (ver fotos), visitar
os postos avançados da fronteira em ronda (ver fotos),
numa função meramente psicológica de apoio, saber dos
factos para relatar (o que nunca fazíamos…), vadiar
pelos campos e sucos, comer e … esperar que o tempo
passasse.
Conheci e viajei
muito pelo verdadeiro Timor da altura, contactei gentes
e lugares. Fui a “cormetas” (bailes de celebração de
eventos) convidado por chefes tradicionais importantes.
Assisti ao maravilhoso e inesquecível espectáculo da
dança dos lenços, pelas raparigas do Suai. Vi muito,
desde despojos de guerra abandonados pelos japoneses até
actos de verdadeira corrupção, desde as estradas
alcatroadas que só existiam no papel até aos negócios
que eram feitos para o transporte dos militares para
Portugal por via aérea. Tudo servia para alguns – apenas
alguns – ganharem muito dinheiro à custa do
subdesenvolvimento.
A titulo de
exemplo: Quando cheguei a Timor só havia oito
quilómetros de estrada alcatroada em toda a província.
No entanto, se lermos a publicação de 1970 da
Agência-Geral do Ultramar (Timor, Pequena Monografia),
lê-se lá que em Timor existiam 624 km de estradas
principais, sendo de 1ª classe (?) 183 km e 791 km de 2ª
classe. As pontes que lá falam já tinham abatido, etc.
Tudo uma grande e colossal mentira, destinada a
enriquecer alguns, que não os militares que tinham o
azar de ir parar com os ossos às montanhas!
Enquanto isso,
camaradas de armas da minha recruta e especialidade
combatiam, eram feridos e morriam lá longe, na Guiné,
Angola e Moçambique.
Só me apercebi
realmente da guerra colonial quando comecei a ler, nos
jornais que me mandavam da metrópole, os comunicados do
famoso S.I.P.F.A. com muitos nomes que comecei a lembrar
como sendo meus anteriores camaradas da recruta e
especialidade.
É assim que dedico
esta apresentação, se tal me for permitido, à memória do
meu grande e saudoso amigo, JOÃO FRANCISCO SYNARLE
SERPA SOARES (*), Alferes Miliciano de Cavalaria,
morto incidentalmente por uma arma de fogo no primeiro
dia da sua chegada à Guiné, mais precisamente em 28 de
Abril de 1971.
QUE DESCANSE EM PAZ
Mário Martins de
Barros
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(*) - João
Francisco Synarle Serpa Soares, natural da
freguesia e concelho de Portalegre, Alferes
Mil.º de Cavalaria, foi mobilizado pelo
Regimento de Cavalaria 3, para servir no Comando
Territorial Independente da Guiné, integrado na
Companhia de Cavalaria 3378.
Faleceu no dia 28 de Abril de 1971. Está
sepultado no cemitério da Conchada, em Coimbra
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