HONRA E GLÓRIA: Alberto Santiago de
Carvalho, Tenente de Infantaria, do PelMort/CCac11 (EIP)
"Pouco se fala hoje
em dia nestas coisas mas é bom que para
preservação do nosso orgulho como Portugueses,
elas não se esqueçam"
Barata da Silva, Vice-Comodoro
HONRA
E GLÓRIA
HERÓI NACIONAL
Fontes:
Jornal "CHAMA", ed. 6,
de 20 de Dezembro de
1961
Jornal "CHAMA", ed. 7,
de 6 de Janeiro de 1962
Ordem do Exército, n.º 4
- 2.ª série, de 1963
Ordem do Exército, n.º 5
- 2.ª série, de 1963
Ordem do Exército, n.º 6
- 2.ª série, de 1963
Diário de Lisboa, ed.
14474, pág.16, de 1 de
Abril de 1963
Jornal do Exército, ed.
41, pág. 32, de Maio de
1963
Jornal do Exército, ed.
52, pág.16 e 17, de
Abril de 1964
Casa Comum
Elementos cedidos por um
colaborador do portal
UTW
Alberto Santiago de Carvalho
Tenente de Infantaria
Comandante
do
Pelotão de Morteiros da
Companhia de Caçadores 11
Estado da
Índia Portuguesa
Tombou em combate no dia 18 de
Dezembro de 1961, em Damão, no
Estado da Índia Portuguesa
A sua Alma
repousa em Paz
Medalha de Ouro de Valor Militar,
com palma
(título póstumo)
Promoção a Capitão de Infantaria
(título póstumo)
Oficialato
da Ordem
Militar da Torre e Espada, do Valor,
Lealdade e Mérito
(título póstumo)
As suas cartas escritas aos seus
familiares antes de falecer
1.ª carta - escrita ao seu irmão
José Carvalho Santiago:
«Penaliza-me
bastante, custa-me mesmo muito não
poder escrever-te como antes,
dizendo que tudo vai bem, que nada
há de novo. Esse era e seria o meu
maior prazer, sabendo de antemão
que, com essas notícias, levava a
tranquilidade, o bem-estar, mesmo a
felicidade, até junto de vós. Mas a
realidade é diferente e, perante
ela, não pode haver evasivas,
desejos. É a realidade, é a vida.
Pois bem, eu quero informar-te com
inteira verdade, com toda a
sinceridade. Assim, estou certo, tu
conseguirás como homem e como Padre
adaptá-la às sucessivas situações.
Isso, ainda que muito duramente, vá
ferir o teu coração, tão amigo, de
irmão dedicadíssimo e extremoso,
impõe-se.
Dum momento para
outro, aguarda-se a invasão dos
nossos territórios da Índia
Portuguesa. Tratando-se duma luta
tão desigual, não é difícil prever o
resultado, tendo como certo que, a
menos que por negociações do Governo
isso nos fosse imposto — hipótese
que não admitimos —lutaremos até ao
fim. Portanto há que admitir todas
as hipóteses, sendo a mais provável
a que mais custará ao vosso coração.
Quero, pois preparar-te desde já
para depois poderes preparar quem,
não porque o sinta mais que tu, mais
dificilmente suportará o que, eu
sei, constituirá tão duro golpe.
Quero também levar-vos a certeza de
que não mancharei pela incoerência
da cobardia o nome da família e que
podereis recordar-me e falar de mim
de cabeça erguida e, a Deus praza,
com orgulho.
Mais vos quero afirmar — e nunca
falei com tanta sinceridade — que
estareis bem presentes no meu
coração até ao último palpitar. Será
a vossa lembrança, a vossa presença
tão querida no meu coração que,
acompanhando-me sempre, me insuflará
a força suficiente para morrer no
campo da honra, com honra e pelas
honrosas tradições duma Pátria muito
querida — o nosso Portugal. Não
somos os primeiros a fazê-lo. Outros
seguirão o nosso exemplo e assim
Portugal será eterno.
Dizer-vos as imensas saudades que
sinto de todos vós — a nossa tão
querida mãe, tu, querido Padre Zé, a
querida «Ção», enfim todos os
irmãos, cunhados, sobrinhos e todas
as pessoas amigas — do desejo imenso
de, num último e sentido abraço, a
todos estreitar no meu coração será
difícil, desnecessário, muito
penoso. Fique-vos a certeza de que
esse amplexo será dado em espírito,
pelo coração. E se o meu coração
deixar de bater, continuará em mim a
certeza de que o vosso nunca me
esquecerá. A Deus praza e a Deus
peço, possais recordar-me sempre com
saudade e com orgulho.
Espero confessar-me. Se o não fizer,
pedi a Deus para que não me
desampare e que, a esse desejo, dê
todo o valor.
Termino, feliz e confiante,
expressando a certeza de que «se a
lei da morte não me libertar» no
pensamento da Pátria, que defenderei
até ao último suspiro, ter-me-ei
libertado dessa lei no pensamento e
no coração de todos vós.
Muitos e afectuosos beijos, cheios
de amor, e de gratidão e de saudades
para a nossa querida Mãe, «Ção» e
restantes irmãos, com os votos
ardentes e as preces mais fervorosas
pela vossa felicidade. De ti, muito
querido e inesquecível Padre Zé,
despeço-me com um muito afectuoso e
extremoso abraço e o desejo de que
não me esqueças nas tuas orações.
Com o amor de irmão e a humildade de
cristão, peço a tua bênção.
ALBERTO»
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2.ª carta - escrita à sua mãe e aos
irmãos:
«Ao lerdes esta
minha carta, não pertencerei já ao
número dos vivos. De resto, no
momento em que vos escrevo, pequena
se me afigura, na realidade, a
distância entre a vida e a morte.
Portanto, se esta é a minha última
carta e se o momento é tão crítico,
e se sempre fui sincero, não vos
custará crer na grande comoção que
sinto ao despedir-me de entes tão
queridos.
Tudo o que fui, foi obra vossa. Até
a morte, que espero seja digna e, se
possível, vos orgulhe, vo-la
ofereço, como última dádiva, suprema
dádiva, embora tão pouco condigna e
tão pouco compensadora do que, em
vida, por mim fizeste. Aqui fica,
como reconhecimento e como desejo, o
meu último «bem-hajam todos»!
Pelo que fizerdes por mim na morte,
antecipadamente vo-lo agradeço, com
todo o meu coração que foi vosso e
será até ao último palpitar. As
vossas orações, e a vossa lembrança
que, como todo o mortal, desejaria
eterna, vo-las agradeço também, para
que Deus me possa receber na
companhia de outros entes queridos,
que me precederam, a fim de que, ao
menos na morte, após a vida, não
mais nos separemos.
Bens materiais, tão poucos são, que
ridículo é falar neles! Faço-o,
apenas, para que, onde os usardes,
saibais, de antemão, que eu
apreciarei e aprovarei sempre o seu
uso e, para que, principalmente,
possa lembrar-vos que fui sócio num
cofre do Exército, cuja cota me era
descontada no vencimento. Os vossos
sacrifícios materiais, que fizerdes
em meu sufrágio, vo-los agradeço
muito, já que muito os necessitarei.
E, pronto, é tudo. Bem se poderá
dizer que «aqui falai o morto»,
morto em cumprimento do sagrado
Dever que a Pátria nunca deixou nem
deixará de merecer: morto
fisicamente, mas que, estou certo,
continua e continuará vivo nos
vossos corações tão amigos e tão
duramente, por isso, feridos.
Que Deus a todos vos ajude e sempre
vos ampare!
Que a lembrança deste ente querido,
que de todos vós se despede, com
lágrimas nos olhos, com o coração
despedaçado de dor — mas que, de
fronte erguida, com fé em Deus e na
Pátria querida, cairá, com honra e
dignidade —por longo tempo
prevaleça, vos acompanhe sempre
como, garanto-vos, me acompanhareis
até ao último suspiro.
Um muito afectuoso beijo cheio de
amor e gratidão para a nossa querida
Mãe.
Um muito afectuoso abraço, com todo
o amor e gratidão que sempre vos
dedicou o irmão muito querido que se
despede.