Jornal do Exército
Edição 87, de
Março de 1967

ACORDEI,
aos puxões da sentinela — eram quatro horas da
madrugada; saltei da cama e fui chamar o condutor do
jipe; seguidamente vesti o meu camuflado, já
velhinho, todo remendado e cosido — tinha por ele
certa ternura —era o único que tinha, ficava-me
bastante largo, tanto as calças como o casaco, mas
eu tentava disfarçar o melhor que podia com a ajuda
do cinturão e dar-me a mim mesmo o ar mais marcial
de que era capaz. Chegados à Manutenção Militar de
Luanda tudo se pôs a ferver — os camionistas civis
puseram os motores a trabalhar e alinharam as suas
viaturas umas a seguir às outras. — Eram ao todo
trinta camiões, todos civis, que levavam a meia
dúzia de companhias instaladas nos Dembos, artigos
de primeira necessidade, entre eles as munições e a
Cuca e a Nocal tão apreciadas de toda a malta.
Partimos
de Luanda às cinco e meia; a nossa primeira paragem
foi no Caxito, onde aproveitámos para tomar o
pequeno almoço nos restaurantes já abertos. A
escolta também já estava à nossa espera — quase de
seguida arrancámos com destino a Quicabo. As
viaturas levantavam nuvens duma poeira muito leve,
que se depositava em toda a volta — eu já não
estranhava, nem tão-pouco os camionistas, habituados
há anos a baterem todos estes caminhos do Norte de
Angola. Vida bem dura, muitas vezes compensada com
uma emboscada numa curva. A paisagem monótona,
sempre a mesma, morros e mais morros, uns distantes,
outros juntinho a nós, acabava por nos cansar. Ao
avistarmos Quicabo foi uma alegria. Tratadas as
formalidades inerentes à escolta, arrancámos para
Balacende. Picada idêntica, paisagem igual, poeira
igual, mais duas horas de marcha e aportámos à
Companhia que defendia esta região. As nossas
viaturas estavam a portar-se muito bem. Com este
andamento, pensava eu (que na viagem anterior só
tinha tido arrelias com os carros), muito em breve
estar a tomar um grande banho em Nambuangongo — e
parece que não me enganava: — a estrada estava
óptima; o tempo da chuva já tinha passado e a
Engenharia trabalhava afanosamente na picada. Aquilo
foi sempre a andar; os camiões estavam à vista uns
dos outros; eu sentia-me feliz ao ver o terreno
ficar para trás. O ar agora era mais fino, mais
fresco, começava a entardecer; a paisagem ia-se
tornando grandiosa; esbatiam-se ao longe grandes
sombras de medonhos morros, que subiam, subiam a uma
altura enorme, ameaçadores. No horizonte,
relampejava, e as vozes parecia que traziam eco;
isto sim, já é terra de «turras», pensava eu;
noutros pontos a vegetação era tão densa que a
folhagem das árvores parecia que nos queria arrancar
dos camiões.
Aproximávamo-nos de Beira Baixa - uma bela roça onde
o café se criava à mistura com o dendém. Elegantes
palmeiras enchiam de sombra os cafeeiros, e tudo
dava a impressão duma calma, duma paz tão doce!
Ouvia-se a água correr murmurante. Senti desejos de
pernoitar aqui, mas mal íamos a entrar o portão,
quando ouvimos distintamente uma série seguida de
rajadas de metralhadora a não mais de 8 kms na
direcção de Nambu. Quase seguidamente, a toda á
velocidade, um grupo de combate da B. B. passou que
nem uma flecha por nós: iam em auxilio dos outros.
Estávamos cheios de curiosidade em saber o que tinha
sido, e a resposta não tardou: — «Turras» emboscados
tinham atacado uma coluna que se dirigia para Nambu,
com pessoal de Engenharia. Feita uma batida ao
local, concluiu-se que eles já lá deviam estar há
perto de quatro dias, pelos vestígios de camas de
vegetação e pela comida deixada precipitadamente na
fuga, depois da reacção das nossas tropas —
conclusão do Comandante da Beira Baixa. A emboscada
era para a coluna de reabastecimentos; houve da
parte do inimigo um engano devido à sua precipitação
(confundindo o pessoal de Engenharia que regressava
a Nambu, com a escolta da coluna logística) —
«Afinal, não sei para quê tanta pressa, nosso
Alferes» —diziam os camionistas rindo. Continuámos a
marcha, depois deste alvoroço todo. No sítio da
emboscada trabalhava-se arduamente para se tirar uma
«Mercedes» duma ribanceira em que se tinha
projectado — não tinha havido feridos a lamentar.
inalmente, metade do trajecto estava quase concluído
quando ao longe avistámos as luzes tremeluzindo na
noite. Era Nambuangongo. Mais uma hora, e à
meia-noite em ponto, os nossos camiões
imobilizavam-se num breve descanso, pois de
madrugada tornaríamos a arrancar para a etapa final.
Dessa etapa pouco há a relatar, a não ser o episódio
da ponte sobre um rio cujo nome não me ocorre (1), e
que estava completamente destruída. Teve que se
passar por umas pranchas que cruzavam o rio,
bastante estreito mas com um certo caudal. A ponte
tinha sido quatro vezes reparada e quatro vezes
destruída sistematicamente pelos «turras» do lugar,
que se riam dos sapadores do Quixico. Dispostos
estavam a estragar-lhes eternamente os planos, até
que à quinta vez a ponte voou em estilhaços,
limpando o sarampo, a meia dúzia de «inocentes»
sabotadores, que foram apanhados à má fila, por uma
armadilha soberbamente bem montada pelas tropas de
Quixico.
A nossa chegada a Micula foi um acontecimento na
vida das duas Companhias ali estacionadas. As grades
de cerveja foram descarregadas às centenas e
tornaram a ser carregadas pelo mesmo número, mas,
agora, com garrafas vazias. Todos exultavam à nossa
volta. Até nós nos sentíamos contentes. Dormimos um
sono reparador e na manhã seguinte iniciávamos a
viagem de regresso, que correu sem aborrecimentos,
até ao término — Luanda.
PEDRO MENDES
Alferes. Mil.°
(Fotos do B. Cav. 725, B. Art. 525 e C. Cav. 626)
in «Sentinela de Almada
(1) É o rio Cassamba. (N. da R.)
