"Pouco se fala hoje
em dia nestas coisas mas é bom que para
preservação do nosso orgulho como Portugueses,
elas não se esqueçam"
Barata da Silva, Vice-Comodoro


Rui Manuel Lopes Morgado Alves
Alferes Mil.º de
Infantaria
Comandante de pelotão da
Companhia de Artilharia 1626
«HONRA, GLÓRIA PÁTRIA»
Moçambique:
29Nov1966 a
14Mar1967 (ferido em combate)
Medalha de Prata de Valor Militar
com palma
Rui Manuel Lopes Morgado Alves,
Alferes Mil.º de Artilharia;
Mobilizado pelo Regimento de
Artilharia de Costa (RAC - Oeiras)
«MOSTRANDO A RUDA FORÇA QUE SE
ESTIMA» para servir Portugal
na
Província Ultramarina de Moçambique;
No
dia 09 de Novembro de 1966, na Gare
Marítima da Rocha do Conde de
Óbidos, em Lisboa, embarcou no NTT
‘Império’, como comandante de
pelotão da Companhia de Artilharia
1626 (CArt1626) «HONRA, GLÓRIA
PÁTRIA», rumo ao porto de Nacala,
onde desembarcou no dia 29 de
Novembro de 1966;
A
sua subunidade de artilharia,
comandada pelo Capitão Mil.º Eduardo
de Almeida Nogueira Coelho, após o
desembarque, foi colocada no Muôco,
sob o comando operacional do
Batalhão de Artilharia 1893
(BArt1893) «BRAVOS E SEMPRE LEAIS»,
que
sedeado em Marrupa (subsector ERU),
fora rendido pelo Batalhão de
Caçadores 1906 (BCac1906) «NON
NOBIS», em Março de 1967, e
transferido para Maúa, a fim de
assumir a responsabilidade do novo
subsector (EUA), criado à custa da
divisão
do
primeiro; em virtude do Muôco ficar
integrado no novo subsector de Maúa,
manteve a subordinação operacional
ao Batalhão de Artilharia 1893
(BArt1893) «BRAVOS E SEMPRE LEAIS»;
efectuou patrulhamentos e
nomadizações na região de Namarica;
Em 14 de Março de 1967, durante a
operação "Vendaval", na região do
Muôco, foi ferido em combate (atingido
na medula espinal) e evacuado
para o hospital;
Agraciado com a Medalha de Prata de
Valor Militar, com palma, por feitos
em combate no teatro de operações de
Moçambique, pela Portaria de 20 de
Setembro de 1968, publicada na Ordem
do Exército n.º 19 – 2.ª série,
páginas 2273 e 2274, de 01 de
Outubro de 1968, e no Jornal do
Exército n.º 108, página 42, de
Dezembro de 1968:
Alferes
Miliciano de Artilharia
RUI MANUEL LOPES MORGADO ALVES
CArt1626 - RAC
MOÇAMBIQUE
Grau: Prata, com palma
Transcrição da Portaria publicada
na Ordem do Exército n.º 19 – 2.ª
série, páginas 2273 e 2274, de 01 de
Outubro de 1968:
Por Portaria de 20 de Setembro de
1968:
Condecorado com a Medalha de Prata
de Valor Militar, com palma, nos
termos do artigo 7.º, com referência
ao § 1.º do artigo 51.º, do
Regulamento da Medalha Militar, de
28 de Maio de 1946, o Alferes
Miliciano de Artilharia, Rui Manuel
Lopes Morgado Alves, da Companhia de
Artilharia n.º 1620, Regimento de
Artilharia de Costa, pela
extraordinária abnegação, valentia e
coragem que demonstrou durante a
operação "Vendaval", que teve lugar
na região de Muôco em 14 de Março de
1967, em que conduziu com decisão,
serenidade e extraordinária valentia
os seus homens ao assalto,
exortando-os, pelo exemplo e por
meio de ordens oportunas, a
lançarem-se, debaixo de intenso fogo
inimigo, sobre o objectivo, que
conquistou, desalojando o inimigo
depois de movimentado combate, em
que a sua vida correu grave risco,
tendo capturado muito material de
guerra e colaborado na destruição da
base inimiga de Namarica.
Este oficial, quando, após o golpe
de mão, regressava com a sua
Companhia ao aquartelamento,
seguindo com o seu Pelotão na
retaguarda do dispositivo, foi
flagelado por alguns elementos
inimigos. Ferido gravemente,
continuou, porém, a comandar o
Pelotão, conseguindo que este
reagisse pronta e eficazmente ao
fogo do inimigo, pondo este em
debandada.
Mais tarde teve que ser transportado
pelos seus homens durante algumas
dezenas de quilómetros e, quando já
no hospital, o seu primeiro cuidado
foi afirmar ao seu Comandante o
desejo de regressar brevemente para
junto da sua Companhia, com o que
demonstrou possuir elevado sentido
das responsabilidades, verdadeiro
conceito de camaradagem e
excepcional coragem moral e física.
Com a sua valiosa acção contribuiu
grandemente para o êxito alcançado
pela sua Companhia, que, com aquela
operação, infligiu um golpe severo
ao inimigo numa zona crítica para a
contenção da subversão violenta,
desmoralizando-o a ponto deste ter
perdido o controle das populações
raptadas, que se apresentaram
posteriormente às autoridades mais
próximas, em grande número, e de
alguns dos seus elementos terem
abandonado o próprio armamento e
fugido da região.
O Alferes Morgado Alves, que já
anteriormente evidenciara o seu
valor militar, devido às
excepcionais qualidades de lealdade,
dedicação, honestidade profissional
e espírito de sacrifício, nunca se
poupando a esforços para o bom
desempenho da sua missão, em
campanha, demonstrou nesta acção
alta e heroica compreensão da
grandeza do dever militar e da
disciplina, honrando sobremaneira as
gloriosas tradições das instituições
militares portuguesas.
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Publicado na
revista “Domingo” do jornal “Correio
da Manhã”, de 11Jan2009, no sítio
https://www.cmjornal.pt/domingo/detalhe/vi-as-balas-passarem-a-centimetros
"Vi as balas passarem a centímetros"
As operações Vendaval e Xeque-mate
foram das mais importantes em que
estive envolvido. Na retirada da
primeira ficaram feridos dois
camaradas.
Quando pensava que havia escapado à
Guerra do Ultramar, foi--me
comunicado, 4 de Março de 1966, que
tinha sido destacado para
Moçambique, em substituição de um
camarada que, devido a uma acção
disciplinar, fora despromovido e
mobilizado para a Guiné como
soldado. Chegámos a Lourenço Marques
a 26 de Novembro e depois seguimos
para Nacala (no navio ‘Império’),
Nova Freixo (de comboio) e para
Muhôco (em carros piores que
velhos).
A missão da minha companhia era
entrar logo de início em intensa
actividade operacional na limpeza da
área. Mal tínhamos aquecido as
cubatas, cheias de ratazanas que
passeavam pelos nossos corpos,
quando fomos atacados por fogo
inimigo. Um mês depois, a poucos
quilómetros da base, caímos numa
emboscada. As cinco viaturas em que
seguíamos ficaram muito danificadas.
Ao primeiro tiro do inimigo,
saltámos. ‘Enterramo-nos’ no chão e
lembro-me de ver as balas passar a
poucos centímetros de mim. Senti no
momento que a minha vida acabava
ali, mas nenhum de nós foi ferido.
Das operações que se seguiram,
realço duas: Vendaval e a
Xeque-mate. A primeira decorreu de
14 a 16 de Março de 1967. Saímos da
base em viaturas, que nos deixaram
passados 18 km. Dali seguimos a pé
quase 20 km, sempre por mata densa e
atravessando rios, até a 800 metros
da base inimiga. Como estava mau
tempo, os aviões não puderam actuar,
a operação foi adiada e nós
dormirmos ao relento. Na manhã
seguinte, os bombardeiros apareceram
cedo e atacaram as forças inimigas.
Depois de muito tempo de combate,
efectuamos o assalto final ao
terreno do inimigo. A sua base era
bem estruturada com salas e quadros
onde estavam escritas as tácticas de
guerrilha.
Nesta operação, dois militares foram
feridos na altura da retirada:
Rui Manuel Lopes Morgado Alves,
atingido na espinal-medula
e Eduardo Teixeira Maiato, atingido
por uma bala inimiga numa nádega,
onde ficou alojada, paralisando-lhe
os movimentos da perna. Foram
evacuados para a Metrópole e não
voltaram à guerra. Quando
regressámos com os dois ao ponto
onde as viaturas nos tinham deixado,
o militar de transmissões tentou
comunicar o sucedido, via rádio,
para a nossa base, mas o aparelho
não funcionou. O meu pelotão, já
exausto, teve de andar a pé mais de
18 km. Muitos a partir dos 2 ou 3 km
começaram a desfalecer e a ficar
para trás à espera das viaturas. Da
forma que estavam, nada lhes
importava que fossem apanhados pelo
inimigo! Apenas eu, o alferes Pires
e o furriel Rego conseguimos
resistência para chegar ao
acampamento e dar a notícia.
A operação Xeque-mate decorreu entre
31 de Março a 2 de Abril de 1967.
Tratou-se de um ataque-surpresa. No
assalto à base inimiga, ao
deparar-me com um terrorista que me
apontou uma arma ao peito,
envolvemo-nos numa luta de
corpo-a-corpo que só não terminou
com a minha morte porque deitei-lhe
a mão à arma e desarmei-o. A maior
alegria foi ver, entre vários
corpos, uma criança com três anos a
chorar. Agarrei nela e levei-a para
a nossa base, onde viveu muito feliz
connosco, até final da comissão.
Foi a partir desta operação que o
inimigo não mais teve a
possibilidade de se reorganizar na
região, isto como consequência dos
êxitos obtidos pela companhia, não
só nestas operações, mas noutras de
menor envergadura, mas não menos
importantes, nunca se poupando a
qualquer esforço para o neutralizar.
Nesta altura, a população do lado
inimigo já se ia sentindo protegida
pelas nossas tropas, cuja presença
lhes inspirava maior confiança.
Viam-se constantemente grupos, em
autêntica romaria, a caminhar para a
sede da companhia, onde lhes eram
distribuídas sobras do rancho geral
e prestada assistência sanitária.
Foi um ano de um esforço enorme. As
horas que deveriam ser de repouso
eram dedicadas à construção do
aquartelamento e dos itinerários e à
assistência à população.
Em tempo geral, a companhia de
Artilharia 1626 (CART 1626) esteve
19 meses consecutivos em operações,
a maior parte em Muhoco-Revia,
sempre em operações de combate por
Napuruma, Nipep, Moluco, Muapula,
Catur, Massangulo, Majune e Muembe.
Apreendemos centenas de armas,
destruímos numerosos refúgios e
bases inimigas e depois recebemos
muitas menções honrosas pelo nosso
trabalho.
No fim deste esforço difícil de
imaginar por quem não o tenha feito,
a minha companhia foi transferida
para a região Centro de Moçambique,
onde se envolveu numa tarefa bem
mais suave: assegurar a
tranquilidade e a ordem da sua área,
esforçando-se por auxiliar e
valorizar as populações locais.
Quero aqui prestar a minha homenagem
a Pereira Leite, que foi o primeiro
da companhia a tombar em pleno mato.
Os heróis não morrem. Nunca
esquecerei que foste voluntário na
operação Hiena.
EXERCI FUNÇÕES COMO
AS DOS GOVERNADORES CIVIS
José de Almeida Marques nasceu em
Pinheiro, Castro Daire, mas reside
em Lamego. Depois de regressar do
Ultramar casou, em 1970, com uma
auxiliar de acção educativa, com
quem teve três filhos – um rapaz e
duas raparigas. No final de 1970
regressou a Moçambique e foi revisor
de provas no jornal de Lourenço
Marques. De seguida, entrou na
Função Pública e foi governador na
região. 'Nos últimos tempos em que
combati em Moçambique estabeleci
bons contactos e boas relações com
pessoas importantes, que depois me
convidaram a regressar para
trabalhar. Exerci funções
semelhantes às dos nossos
governadores civis, refere José
Marques, salientando que guarda
'boas recordações de África'. Em
1975 regressou à Metrópole e
ingressou na Câmara de Lamego, como
tesoureiro. Está aposentado.
COMISSÃO
A 9 de Novembro de 1966 parti, como
furriel miliciano, para Moçambique,
a bordo do navio ‘Império’. No mesmo
embarcaram também as companhias de
Artilharia 1625 e 1627, um batalhão
e outros militares em rendição
individual. Regressei à metrópole a
bordo do ‘Niassa’, em 18 de Dezembro
de 1968. Um dos momentos mais
gratificantes entre muitos difíceis
foi encontrar uma criança viva no
meio de cadáveres, que levei para a
base.
