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Em memória daqueles que tombaram em defesa de

Portugal na Guerra do Ultramar

 

Alcácer do Sal

 

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Listagem dos mortos naturais do concelho de Alcácer do Sal

 

 

Santa Susana

 

 

António Paulino Faria Claro

 

Soldado Condutor Auto-Rodas, n.º 01350168

 

Companhia de Caçadores 2422

«ODERINT DUM METUANT»

 

Moçambique: 27Ago1968 a 06Ago1969 (data do falecimento)

 

MEMÓRIA E HOMENAGEM

Ao Soldado Condutor Auto-Rodas n.º 01350168

ANTÓNIO PAULINO FARIA CLARO

1. Identificação

António Paulino Faria Claro, Soldado Condutor Auto-Rodas n.º 01350168, solteiro, filho de António Feliciano Claro e de Mariana Rosa, natural da freguesia de Santa Susana, concelho de Alcácer do Sal.

Foi mobilizado pelo Batalhão Independente de Infantaria 17, de Angra do Heroísmo, para servir na Companhia de Caçadores N.º 2422.

Faleceu no dia 06 de Agosto de 1969, na região de Diaca, distrito de Mueda, em Moçambique, em consequência de ferimentos em combate, tendo o seu corpo sido sepultado no Cemitério de Santa Susana.

2. A Mobilização e a Partida

O Soldado António Claro foi mobilizado no continente pelo BII17 – Batalhão Independente de Infantaria 17, aquartelado em Angra do Heroísmo, Açores, cuja divisa é «ANTES MORRER LIVRES QUE EM PAZ SUJEITOS».

O seu distintivo, que junta as duas espingardas cruzadas do 17, o cão com capacete de infantaria sobre a muralha do Castelo de São João Baptista, e a bandeira açoriana, marcou toda a sua formação.

No dia 27 de Julho de 1968, na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, embarcou no Navio de Transporte de Tropas (NTT) ‘Índia’, integrado no grupo de combate da Companhia de Caçadores 2422, com destino ao porto da Beira, Moçambique, onde desembarcou a 27 de Agosto de 1968.

A CCac 2422 trazia como divisa, gravada no seu escudo negro com mangual de armas em prata, a divisa latina:

«ODERINT DUM METUANT – QUE ME DETESTEM, CONTANTO QUE ME TEMAM»

Comandaram sucessivamente a Companhia até ao fim da comissão:

  • Capitão de Infantaria Carlos Henrique Duarte Lacerda

  • Capitão de Infantaria Carlos Alberto Blasco Gonçalves

  • Capitão de Infantaria António Luciano Fontes Ramos

3. Síntese da Actividade Operacional da CCac 2422 até 06 de Agosto de 1969

A história operacional da Companhia, conforme a Ficha de Subunidade, é indissociável da geografia da guerra no Norte de Moçambique.

a) 1.ª Fase – Zâmbué – Subsector FFG – BCac 1906

Desembarcada na Beira, foi colocada em Zâmbué, onde rendeu a CCac 1654 / BCac 1906. Guarneceu com um pelotão Zumbo, Puato e Cassepa; este último recebido de reforço da CCac 2421 (sedeada em Muze), cuja irmã de armas tinha o mapa de Moçambique e a trompa de caçadores.

Sob comando do BCac 1906, aquartelado em Fingoé, a actividade consistiu em patrulhamentos, nomadizações e acção psicossocial nas regiões de Zâmbué, Inhacar, Mutopa, Cassepa, Metunda, Miruro, Caçola, Puato, Zumbo, Soca, Manzamboé, Fulama, Chalamba, Molara, Filione, Cahame, Capissane, Liva, Madzangua e Pangura, vales dos rios Muze, Luire, Messunge, Catendo, Tongoé, Metamboa, Arângua e Mese e montes Tchecu-ngoro, Inhamidedje, Catua, Malore, Fubué e Caué.

Participou nas operações “Saltibanco” (rios Mucumbuzi e Menene) e “Garden” – operação de grande envergadura com Exército e Força Aérea Portuguesa, desde a fronteira com a Zâmbia até aos rios Luatize, Munaneta, Capoche, Mucumbuzi e Muangadzi, com destruição de acampamentos, captura de material e documentos.

b) 2.ª Fase – Namapa e Antadora – Subsectores CNL e BPR – BCac 15 e BCac 2875

Rendida em Zâmbué pela CCac 2472 / BCac 2863 (cujo distintivo da águia com as 4 CCac 2470, 2471, 2472 e BCac 2863), foi transferida em 20 Janeiro 1969 para Namapa, onde rendeu a CCac 1711 / BCac 1916.

O BCac 1916 – «Fronteiros de Chaves» – com o capacete e a espingarda cruzada com a picareta, e a CCac 1711, integravam o dispositivo. Guarneceu Muhula e Lúrio com um pelotão e a ponte de Ócua com uma secção. Subordinada ao BCac 15, sedeado no Namialo (subsector CNL), cujo estandarte traz o lema «AD GLORIAM FAMA VOLAT», efectuou patrulhamentos e contacto com a população nas regiões de Namapa, Cabulo, Maiua, Nampuita, Mezele, Saíde, Comala, Nivale, Morrola, Alua, Mazua, Muhula, Lúrio, Uante, Meliva, Uncarara, Muita, Mugela, Muatuca, Namaquela, Namicolo, Chuca, Muala, Mazeze, Taibo, Mirrote, Udinepa, Mazulia, Mebile e margem direita do rio Lúrio.

Em 01 Maio 1969, reduzindo destacamentos, deslocou-se para Antadora. Integrada no BCac 2875 (Mueda da Praia – subsector BPR), operou na zona do rio Muera. Rendida pela CCac 2448, regressou a Namapa em 20 Junho 1969.

c) 3.ª Fase – Diaca – Subsector BMU – BCac 15 em Mueda

Permutando com a CArt 2370/BArt 2846, foi transferida em Julho de 1969 para Diaca, mantendo subordinação ao BCac 15, então em Mueda (subsector BMU). Foi o período de mais intensa actividade operacional.

Efectuou operações nas regiões de Diaca, Antadora, Panjele e dos rios Muera, Mutamba, Sinheu e Nungo, designadamente: “Roda III”, “Benvindos”, “Coragem”, “Insistir”, “Furacão 1, 3 e 4”, “Bigodes 1 e 4”, “Olho Vivo 1 a 4”, “Lobo Ataca 1”, “Adeus”, “Emboscada”, “Furão Olho Vivo 1 a 4”, “Furão Gemimi”, “Furão Macaco” e “Eco 1 e 2”, com destruição de acampamentos, baixas ao IN, captura de elementos, material de guerra, sanitário e documentos.

Paralelamente, devido à persistente implantação de engenhos explosivos no itinerário Mueda – Mocímboa da Praia, a Companhia assegurou a abertura de itinerário na Zona de Acção (ZA) curva da morte – largo do Oasse, onde detectou, desactivou ou destruiu dezenas de minas anti-carro e anti-pessoal – algumas accionadas inadvertidamente causaram baixas à Companhia.

4. O Combate de 06 de Agosto de 1969

Não obstante a constante perseguição ao IN na sua ZA, não foi possível evitar, no dia 06 de Agosto de 1969, a cerca de 07 Km de Diaca, uma emboscada a um pelotão da CCac 2422, que sofreu muitas baixas - 9 mortos e dezasseis feridos graves e ligeiros:

Emboscada na "curva da morte" a um pelotão da CCac2422/BII17

Foi nesse combate, cumprindo a sua missão de Condutor Auto-Rodas – função de primeira linha, sempre exposto, garantindo a mobilidade, o reabastecimento e a evacuação sob fogo – que o Soldado António Paulino Faria Claro foi gravemente ferido, vindo a falecer em consequência dos ferimentos em combate.

Morreu de arma na mão, no cumprimento do dever, fiel ao juramento prestado.

5. Condecoração

Pelo seu comportamento em combate, foi agraciado a título póstumo com a Medalha Militar da Cruz de Guerra de 3.ª Classe.

Teor integral da condecoração, conforme Ordem do Exército:

ORDEM DO EXÉRCITO – CRUZ DE GUERRA DE 3.ª CLASSE
Por despacho de Sua Excelência o General Comandante da Região Militar de Moçambique, e nos termos do Artigo 18.º do Regulamento da Medalha Militar:

Condecorado com a Medalha da Cruz de Guerra de 3.ª Classe, a título póstumo, o Soldado Condutor Auto-Rodas n.º 01350168, António Paulino Faria Claro, da CCac 2422 / BCac 15.

Porque, no dia 06 de Agosto de 1969, na região de Diaca, quando a sua viatura foi atingida por rebentamento de engenho explosivo e seguidamente alvo de intenso fogo de armas automáticas do IN, em flagrante emboscada, o referido militar, embora ferido, manteve excepcional sangue-frio, coragem e desprezo pelo perigo, procurando ainda manobrar a viatura e proteger os seus camaradas, até ser de novo atingido mortalmente.

Pela sua acção de bravura, contribuiu para o desanuviamento da acção e para a reorganização do seu pelotão, merecendo que o seu procedimento seja apontado como exemplo de elevado espírito de sacrifício, de disciplina e de abnegação em combate.

6. Homenagens do Município de Alcácer do Sal

O Município de Alcácer do Sal prestou dupla homenagem aos seus filhos tombados:

a) Toponímia em Santa Susana: Atribuição do nome Rua Soldado António Paulino Faria Claro na sua freguesia natal.

b) Monumento Concelhio aos Combatentes: A Câmara Municipal de Alcácer do Sal e o Núcleo Local da Liga dos Combatentes inauguraram no dia 10 de Agosto de 2013, na Avenida dos Aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, o memorial de homenagem aos militares do concelho tombados em combate.

O memorial, sonho antigo do Núcleo da Liga, foi desenvolvido e custeado pela Câmara com base nos desenhos de Diogo Silva, aluno da Escola Secundária de Alcácer do Sal vencedor de um passatempo em 2009.

Construído em mármore com aplicações em aço inoxidável escovado, apresenta esculpidos na pedra os nomes dos 26 militares do concelho de Alcácer do Sal que morreram ao serviço de Portugal na I Grande Guerra e na Guerra do Ultramar.

Entre esses 26 nomes está gravado, para sempre, o do Soldado António Paulino Faria Claro.

7. Oração Final

Soldado Claro,

Partiste de Santa Susana para defender uma Pátria que entendias maior que o teu próprio quintal. Cruzaste o Atlântico no NTT Índia, dormiste em Zâmbué à escuta dos rios Muze e Messunge, pisaste a poeira vermelha de Namapa e caíste em Diaca, na curva onde a morte espreitava cada rodado.

Condutor, não largaste o volante quando o fogo te cercou. Ficaste com os teus.

Que a tua Cruz de Guerra de 3.ª Classe brilhe agora no peito da tua terra. Que os que por essa rua passarem perguntem quem foste – e que lhes respondam que foste um de nós, que cumpriu até ao fim.

À tua memória, o nosso respeito eterno. À tua família, a nossa gratidão. À tua alma, o descanso dos Justos.

Honra e Glória!

Santa Susana, 06 de Agosto de 1969 – Sempre Lembrado.

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** NOTA SOBRE A DIVISA DA CCac2422 - ODERINT DUM METUANT**

No contexto de 1968/69, em Cabo Delgado, no subsector mais duro de Mueda e Diaca, a CCac 2422 não estava para ser simpática.

A divisa, com o mangual de armas medieval no escudo, queria dizer exatamente isto ao IN:

- Não viemos para sermos populares. A missão era de infantaria de combate puro, nomadização, destruição de acampamentos.

- Viemos para impor respeito pelo medo. Numa guerra sem frente, onde o inimigo minava as picadas e emboscava de noite, a única segurança da Companhia era a sua reputação de dureza.

- É o oposto do lema do BII17. O seu Batalhão mobilizador dizia «Antes Morrer Livres Que Em Paz Sujeitos» - um ideal de liberdade. A tua Companhia de campanha dizia «Que me detestem, contanto que me temam» - um ideal de força dissuasora. Um completa o outro: a liberdade defende-se com a força que impõe respeito.

É uma divisa que hoje choca, porque parece anti-psicossocial. Mas em Diaca, em 1969, na curva da morte onde o Claro caiu, era a mentalidade que mantinha os homens vivos: se o IN nos temer, não nos ataca. Se nos atacar, vai pagar caro.

Era, no fundo, a versão romana do moderno «Se queres a paz, prepara-te para a guerra».
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