
Soldado Atirador de Infantaria, n.º
13163070
Companhia de
Caçadores 3310
Batalhão de Caçadores 3834
«SEMPRE EXCELENTES E VALOROSOS»
Moçambique: 20Fev a
10Out1971 (data do falecimento)
MEMÓRIA E
HOMENAGEM
Evocação do Soldado Atirador Jorge
dos Santos
Companhia de Caçadores 3310 | Batalhão de Caçadores
3834
1. As Origens na
Beira Alta e a Partida para o Ultramar
Natural da histórica freguesia de
Santa Maria, situada no concelho de Trancoso, o
jovem Jorge dos Santos viu o seu destino cruzado com
o cumprimento das obrigações militares num dos
períodos mais
exigentes
da história contemporânea portuguesa.
Filho de José João e de Maria do
Livramento Santos, era solteiro quando respondeu à
chamada para servir no Ultramar.
A sua instrução inicial e
mobilização estiveram a cargo do Batalhão de
Caçadores n.º 10, na cidade de Chaves, onde recebeu
a preparação de infantaria
antes
de ser definitivamente integrado na orgânica da sua
subunidade operacional.
No dia 24 de janeiro de 1971, o
então Soldado Atirador de Infantaria, n.º 13163070,
encontrava-se no Cais de
Alcântara,
em Lisboa, pronto para a despedida do Continente.
Ali embarcou no Navio de Transporte de Tropas (NTT)
Niassa, integrado num dos valorosos grupos de
combate da Companhia de Caçadores 3310 do Batalhão
de Caçadores 3834. Sob a divisa «SEMPRE EXCELENTES E
VALOROSOS», o contingente iniciou a rota
transoceânica rumo a Moçambique, onde veio a
desembarcar a 20 de fevereiro de 1971, no porto
marítimo de Porto Amélia.
2. A Atividade
Operacional e a Exigência de Omar
Pouco
tempo após o desembarque em solo
moçambicano,
a CCaç 3310 — sob o comando do Capitão de Infantaria
Alcino Alves da Costa Pina — recebeu ordens de
projeção imediata para o isolado e hostil
aquartelamento de Omar, na província de Cabo
Delgado, rendendo a CCaç 2621/BCaç 2894.
Localizado
no Planalto dos Macondes, junto à fronteira com a
Tanzânia, este setor caracterizava-se por ser uma
zona de subversão muito ativa e de constante perigo,
impondo à unidade um esforço militar permanente. A
sua subunidade a partir de 19 de Abril de 1971,
esteve reforçada com dois pelotões da CCaç 2793,
sedeada em Mocímboa do Rovuma.
De março de 1971 até ao trágico
mês de outubro do mesmo ano, a rotina de Jorge dos
Santos e dos seus camaradas de armas desenrolou-se
num ambiente de altíssima agressividade.
O aquartelamento de Omar era alvo
frequente de violentas flagelações inimigas com
recurso a morteiros de 82 mm e canhões sem recuo
(Canh SR).

Aquartelamento de
Omar
A prioridade operacional da
companhia centrava-se na abertura e desminagem
manual do itinerário Omar – Mocímboa do Rovuma, uma
estrada vital constantemente fustigada pela
colocação de engenhos explosivos e minas que, ao
longo da comissão, causaram várias baixas nas Nossas
Tropas (NT).
Para além desta desgastante e
perigosa tarefa de deteção de engenhos, a companhia
— que entre 19 de abril e 11 de novembro de 1971
esteve reforçada com dois pelotões da C Caç 2793,
sedeada em Mocimboa do Rovuma — desenvolveu uma
forte atividade de patrulhamentos e ações de
nomadização nas densas zonas de infiltração do
Kilido e no vale do rio Nange. Foi neste cenário de
guerra aberta que a subunidade executou com
determinação operações de grande envergadura
militar, tais como as operações "Bombordo 8, 12 e
19", "Olho Vivo 14 e 25", "Bombordo 14" e "Badanal",
testando ao limite a resistência e a bravura dos
seus homens.
3. A Operação
“Lastro I” e o Sacrifício Supremo em Combate
O dia 10 de outubro de 1971
ficaria gravado a negro na história da Companhia de
Caçadores 3310. No decurso da operação designada por
“Lastro I” — que visava bater o terreno e garantir a
segurança das linhas de comunicação na periferia do
aquartelamento —, o perigo emboscado manifestou-se
de forma trágica no itinerário entre Omar e o Posto
de Água n.º 34. Foi durante esta missão que as
forças inimigas desencadearam uma forte ação de
combate contra o grupo de militares.
No calor da batalha, demonstrando
total espírito de missão e coragem na defesa do seu
grupo de combate, o Soldado Jorge dos Santos foi
severamente atingido pelo fogo inimigo. O embate foi
igualmente fatal para o seu camarada de armas, o 1.º
Cabo Laurentino Luís Ventura, tombado no mesmo
contexto operacional. Apesar do socorro prestado no
terreno e da evacuação prioritária, Jorge dos Santos
não resistiu à gravidade dos ferimentos, vindo a
falecer nesse mesmo dia na Enfermaria do Sector “B”,
em Mueda, com escassos oito meses de comissão
cumpridos.

Mueda

Com a devida vénia
publicamos a foto da autoria de
Manuel Correia de
Bastos, Furriel Mil.º da CArt 3503
4. A Homenagem
Perpétua e o Repouso em Trancoso
O sacrifício supremo do Soldado
Jorge dos Santos constitui um exemplo imperecível de
dever, lealdade e abnegação à Pátria. Ao tombar em
combate no norte de Moçambique, o jovem beirão
inscreveu o seu nome na galeria dos heróis que
honraram até ao último fôlego a farda do Batalhão de
Caçadores 3834 e o lema que os unia.
Após o fim das hostilidades e os
complexos processos de regresso, os seus restos
mortais puderam voltar à terra que o viu nascer. O
Soldado Jorge dos Santos repousa hoje em solo
sagrado no Cemitério de Montes, no concelho de
Trancoso. Ali, no coração da Beira Alta, a sua
memória é guardada com a maior solenidade e
respeito, prestando-se esta justa homenagem ao homem
e ao soldado que tudo sacrificou pelo seu país.
Paz à sua alma.
