«Antigo
militar regressa à Guiné para fazer creche
Vila do Conde
Fernando Ramos em missão liderada pelo filho e pelo sobrinho
Fernando Ramos nunca deixou verdadeiramente a Guiné: trouxe-a agarrada à
alma e por lá ficaram gravados dois anos de vida em que foi militar a
força, dos 19 aos 21, numa aldeia perdida no mato de onde ninguém sabia
como sairia. Ou sequer se sairia.
Dulombi virou nome mágico pronunciado à família, terra inóspita com que
Gil, o filho, e Ricardo, o sobrinho, cresceram a sonhar, em Vila do
Conde: o pai e o tio encheu-lhes as vidas com histórias de um outro
mundo, a mais de cinco mil quilómetros, onde, entre 1970 e 1972,
construiu um quartel, um heliporto, uma escola, uma ponte, um forno, um
poço, um monumento de homenagem aos mortos.
Longe de imaginar que um dia, Gil e Ricardo partiriam em busca de tudo
isso e do nome que deixara gravado em Dulombi, naquilo que ergueu –
“Fernando Ramos – Vila do Conde”. E incapaz de supor que, dessa
aventura, nasceria uma missão humanitária (ver
caixa) que o levaria de volta à Guiné, aos 63 anos, para construir
uma creche.
Orientar a obra
“A ideia é ser o meu pai a orientar a obra. Principalmente, a estrutura,
porque ele já construiu naquele terreno e sabe como se deve fazer para
que os edifícios sejam duráveis”. Explica Gil Ramos, pai da Missão
Dulombi, a par do primo.
E
Fernando, que trabalha na construção civil desde os 11 anos, fará
questão de colocar a primeira pedra. Sabe que, ali, ficará uma parte de
si. Mais uma, numa aldeia tribal onde, em 40 anos, quase nada mudou.
“Eles ainda fazem o pão no forno que o meu pai construiu”, diz Gil. E
recorda, de seguida: “A foto do Daniel [Rodrigues, fotógrafo que venceu
uma categoria do prémio World Press Photo com uma imagem captada em
Dulombi, durante a missão de Março de 2012] foi tirada no campo de
futebol que eles [companhia militar de Fernando Ramos, a 2700] fizeram.
As balizas são as mesmas”.
O
chefe da aldeia de então também se mantém no posto, e foi ele quem cedeu
terreno para erguer a creche. “ O objetivo é que as crianças tenham um
espaço para se desenvolverem, em termos educativos, desde que nascem até
irem para a escola primária”, explica Vera Costa, da Missão Dulombi.
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RUMO
A DULOMBI
“Quando, em 2010, decidi ir lá com o Ricardo, era para conhecer a aldeia
onde o meu pai tinha estado e trazer imagens dos vestígios que lá
deixou. Ir a Dulombi foi isso: queríamos conhecer a aldeia de que o meu
pai sempre falou”, conta Gil Ramos. A missão humanitária nasceu após
visita ao hospital de Galomaro. “Foi um choque. Não tinham medicamentos,
estava tudo sujo, camas partidas … Inacreditável”, recorda Gil. No
regresso, o vila-condense de 35 anos e o primo, de 31, trouxeram a
vontade de ajudar e baptizaram-na de Missão Dulombi. A próxima expedição
(a quinta) é em novembro, para fazer a creche que se quer abrir em março
de 2014. “É um projecto enorme a nível local. Pode desenvolver muitas
coisas e pôr aquela gente a trabalhar em prol das crianças”, diz Gil
Ramos.»