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Guiné

GUINÉ - IMAGENS - Cedidas por ex-Combatentes ou em sites próprios

 

Henrique Paulino Serrão, ex- MAR FZE, n.º 763/65

Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 10

 

Guiné 1967/1969

 

Comando Naval da Guiné

 

Dos muitos episódios vividos por este Destacamento durante a sua comissão, destaco um ou dois casos:

 

Operação "ALPHERATZ" e Acidente no RIO CORUBAL

 

O Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 10 partiu para a Guiné a 05-05-1967, a bordo do Navio S. Gabriel, navio de logística da Marinha de Guerra Portuguesa.

 

Chegou à Guiné a 10-05-1967.

 

Permaneceu em Bissau cerca 2 semanas para adaptação ao clima e receber algumas instruções sobre a evolução da guerra. Passado este período, este Destacamento vai então para zona de intervenção juntamente com outro Destacamento já com alguma experiencia.

 

Escusado será dizer que foi duro o nosso baptismo, não só rico em contacto de fogo com o inimigo, como também o calor que se fazia sentir, a escassez de água potável etc. etc. para o qual ainda não estávamos devidamente preparados, mas, apesar de tudo e para baptismo não correu muito mal, regressámos a Bissau sem problemas de maior. A partir daqui o DFE10 ficou entregue a si próprio ou seja operar sozinho e para o efeito foi-lhe destinada a bacia hidrográfica do rio Cacheu, onde desenvolveu grande actividade em patrulhamentos, assaltos a acampamentos etc.etc. o contacto com o IN era uma constante.

 

Decorria o mês de Janeiro de 1968 e numa destas acções e embarcados a bordo da LFG “LIRA” foi-nos dado ordens para irmos  buscar e escoltar duas Companhias, uma de FARIM  e outra de  BINTA que tinham terminado a sua comissão, às quais o IN tinha ditado algumas ameaças de que, durante a sua viagem para Bissau, lhe iriam dificultar a vida.

 

Perante esta ameaça foi então dada a ordem superior para que fosse feita a sua viagem numa LDG via marítima e com a escolta da LFG "LIRA”, visto as LDG”s não estarem equipadas com armamento suficiente para uma viagem numa zona onde o IN estava a crescer fortemente. 

 

Tudo apostos, militares alegres, tinham terminado a sua comissão. Tudo estava a correr como o planeado, dá-se inicio à viagem: A LFG "LIRA”na frente a LDG que transportava as duas companhias, na sua retaguarda, passado algum tempo mais precisamente, depois de passarmos o quartel de BINTA, no local denominado “TANCROAL” o navio da frente LFG ”LIRA” sofre uma forte emboscada com armamento pesado que causou um morto mais cinco feridos, três em estado grave (O INIMIGO TINHA PROMETIDO E CUMPRIU).

 

 

A LDG com as Companhias é obrigada a retroceder, foi atracar no aquartelamento de BINTA a aguardar ordens para reiniciar a sua viagem, o que veio acontecer mais tarde e com o apoio da LGF “SAGITÁRIO” E DA AVIAÇÃO.

 

Dizia-se na altura (EU NÃO VI) que, um dos militares desta companhia trazia com ele uma granada de mão, naturalmente para recordação (diga-se que afinal não é propriamente artigo que se guarde como recordação), suponho apanhada ao IN durante alguma das intervenções da sua Companhia. Dada a sua curiosidade, pensou em manusear a dita granada enquanto a lancha estava atracada no cais de BINTA e o resultado foi a sua morte e alguns feridos.

 

Voltando à LFG "LIRA” esta segue para o aquartelamento do Cacheu onde os feridos são evacuados cerca da uma hora da manhã por Helis mais tarde uma DO evacuou os restantes. Para que se pudesse efectuar estas evacuações a pista foi iluminada com os faróis das viaturas do quartel e foi mantida a segurança em toda a sua à volta,  para que as aeronaves pudessem descer com o mínimo de segurança.

 

A LFG "LIRA” regressa a Bissau onde chega no dia seguinte, com o morto a bordo.

 

 

 

Operação "ALPHERATZ" 

 

Passados cerca de 15 dias foram dadas ordens ao DFE10 para efectuar uma operação, na mesma zona (TANCROAL), onde tínhamos sofrido o ataque,  para avaliar da força do IN naquela zona (A operação teve o nome de” ALPHERATZ”.

 

Nesta intervenção, o DFE10 foi confrontado com um grupo IN, o chamado grupo do “RENI” que segundo informações era constituído por 150 elementos, embora naquele  momento e em boa hora, o grupo não estava completo (nós quando se apercebemos do grupo conseguimos contar 40 elementos, depois deixamos de os contar deu-se o embate) se estivesse completo não sei como iríamos sair daquela situação, visto o DFE10 ser constituído apenas por 75 elementos).

 

Como se adivinha travou-se ali forte combate que durou algumas horas, ao ponto do DFE10 esgotar todo o seu material pesado ficando apenas com munições de arma ligeira. (É de salientar aqui, que houve algumas horas de grande preocupação e nervosismo devido à falta de material) fomos então reabastecidos pelos Helis  passado algumas horas e já ao cair da noite.

 

Deste confronto resultou alguns feridos da nossa parte que foram evacuados pelos helis que nos o trouxeram o material, tendo nós feito um prisioneiro e causando baixas significativas ao IN.

 

Devo dizer que o DFE10 ao longo da sua comissão, teve vários confrontos com dito grupo do “RENI” e segundo informações, este foi  bem castigado, o seu chefe  foi  gravemente ferido e o grupo acabou por ser desmantelado.

 

 

Acidente no RIO CORUBAL

 

Muito se tem falado no desastre do rio Corubal no local do (CHE-CHE) onde 46 soldados que fugiam da morte em Madina do Boé, acabaram por perder a vida inocentemente naquele local.

 

Porém, à uma outra face da história que suponho nunca foi revelada; dos militares ali falecidos, os seus  corpos ficaram por ali a boiar rio abaixo rio acima conforme o andamento das marés, era necessário recolher os cadáveres destes soldados. Essa missão foi entregue ao DFE10, (este já com a sua comissão terminada e à espera de embarque).

 

Foram então enviados para o local do acidente com todo o material julgado necessário entre 12 e 15 homens para a recolha dos corpos.

 

Tratou-se de uma missão muito difícil, não só por ser uma zona onde o inimigo era poderoso e estava à espreita de em qualquer momento desfechar um ataque, como também retirar da água os corpos de jovens, nossos camaradas de armas, já em decomposição e outros com algumas partes do corpo carcomidas pelos animais ali existentes (crocodilos e jacarés) e outros afins.

 

Como se depreende, toda esta acção afectou moralmente os indivíduos que nela participaram, já passaram mais de 40 anos e ainda hoje, quando nos encontramos relembramos o acontecimento com muita tristeza.

 

Dos 46 falecidos apenas foram resgatados 11 e foram sepultados na margem do rio CORUBAL com todas as honras militares.

 

A Liga dos Combatentes já tentou ir ao local para fazer a exumação dos corpos mas não conseguiu localizar o sítio onde eles estão sepultados.

 

Já passaram muitos anos as marés e as chuvadas apagaram todos os vestígios

 

 

Nota:

DFE10 - Destacamento nº 10 de Fuzileiros Especiais

IN - Inimigo

LFG "LIRA" - Lancha Grande de Fiscalização

LDG - Lancha de Desembarque Grande

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